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Detective Comics

Multiverso é a maior ode aos quadrinhos de super-heróis já escrita

Talvez esse texto não dê conta de tudo o que essa história representa, mas mesmo assim eu o escrevo. Grant Morrison é um autor brilhante. Ele não expõe ou explica, ele sente. Suas histórias são movidas por sentimentos, não pela lógica. Talvez por isso ele escreva brilhantemente os personagens da DC. Por causa do sentimento. Por causa da ideia de provar para os leitores que quadrinhos não são apenas quadrinhos. Tudo isso fica extremamente claro em Multiverso, uma “continuação” de Crise Final. Uma história anunciada em 2009, reescrita diversas vezes e finalmente publicada em 2014. Valeu a pena a espera, pois o escocês trouxe até nós uma obra repleta de vida. Preparem-se, embarquem na Thule para conhecer esta brilhante história.

A trama

A premissa de Multiverso é extremamente metalinguística e metafórica. Nix Uotan, o último monitor, ao lado do Senhor Cotoco, um macaco pirata, investigam sobre um quadrinho chamado Ultra Comics. Isso os leva até a Terra-7, até a Aristocracia, a qual captura Nix. Heróis de diferentes terras-paralelas são convocados ao Lar dos Heróis para se unirem e combater o mal que ameaça toda a existência. Uma trama simples repleta de camadas. A primeira delas é o fator metafórico do quadrinho. Com exceção do primeiro e do último, cada capítulo é focado em uma terra diferente.

Visitando mundos

Todos os capítulos se relacionam de alguma forma com cada era da indústria de quadrinhos. Sociedade dos Super-Heróis aborda a era pulp, para esse capítulo, temos os desenhos de Chris Sprouse de Tom Strong. O roteirista fala sobre a ascensão e a queda desse gênero. Em seguida, temos os Justos. Um universo onde os heróis estão entediados por não ter mais pelo que lutar. Talvez uma metáfora aos leitores cansados de tramas genéricas, ou ao excesso de futuros alternativos nos quadrinhos. A arte de Ben Oliver retrata perfeitamente o ego e o estilo dessa terra. Além disso, Morrison indica um romance entre Batman e Superman. Um certo desejo de muitas pessoas, inclusive do autor deste texto.

Logo depois, a Pax Americana. Uma paródia de Watchmen com personagens da Charlton Comics – personagens os quais Alan Moore usou como inspiração para sua obra. Pax retrata perfeitamente a última metade dos anos 80. Heróis desconstruídos e moralidades ambíguas. Um detalhe interessante sobre esse capítulo é a ausência de linearidade. É possível lê-la de trás para frente. Além disso, Frank Quitely faz um trabalho incrível com 12 ou até mais quadros por página. É incrível como consegue aprimorar a narrativa de 9 quadros e espelhada de Watchmen. Deixamos os tempos sombrios e vamos para As Aventuras no Mundo Trovão. Uma história do Capitão Marvel contra o Doutor Silvana. Uma trama absurda acompanhada dos traços cartunescos de Cameron Stewart. Uma excelente homenagem aos personagens da Fawcett e a inocência e descompromisso da Era de Prata.

Por último, o capítulo menos impressionante, mas ainda assim incrível: Superiores. Nesta terra os ícones da DC são nazistas. Morrison fez algo ainda mais ousado em relação a Mark Millar com o Superman. Torná-lo socialista é simples, torná-lo nazista é mais complicado. Basicamente uma inversão de certa parte da história da indústria. Inúmeros super-heróis foram criados para incentivar o combate ao nazismo. Então, por que não, uma terra onde aconteça o inverso? Além de criar splashpages sensacionais, Jim Lee imprime bem o caos, a violência e o poder. Não existe Superman mais imponente do que o de Lee. Essa figura imponente ele já demonstrava em Pelo Amanhã e agora acabou de ficar ainda mais imponente carregando o símbolo do nazismo.

Ultra Comics

Leia Multiverso, escravo.
Ultra Comics

A trama de Multiverso gira em torno de um quadrinho amaldiçoado chamado Ultra Comics. E é aqui onde começa a metalinguagem na obra. Ao decorrer das edições, temos sempre pelo menos um personagem lendo a obra. Alertando sobre como ela é perigosa. Morrison fez muito bem em plantar menções ao longo da trama, deixando todos os leitores com expectativas altíssimas para lê-lo. Pois é, um quadrinho criando expectativa sobre outro que está dentro desse. Brilhante.

Felizmente, quando chegado o momento, Ultra Comics consegue superar todas as expectativas e se torna inesquecível. A trama consiste na criação de um super-herói chamado Ultra. Ele tem um uniforme colorido, um sorriso radiante e uma personalidade completamente relacionável. Como um super-herói mesmo. A edição começa com o herói o alertando para não ler esta revista até o fim. Isso obviamente deixa o leitor ainda mais curioso, o que se se segue nas próximas páginas é maravilhoso. Acompanhamos todo o processo de criação do herói, mas o maravilhamento acaba por aí. Ele precisa enfrentar o pior desafio para um personagem fictício: O mundo real. Entre esse contraste de realidade e ficção, você se torna o Ultra. Acompanha os pensamentos dele como se fossem os seus. É uma metalinguagem fantástica. Além disso, me arrisco a dizer que Ultra Comics é a perfeita compilação da jornada dos heróis dos quadrinhos.

Ultra experiencia a Era de Ouro, completamente inocente, até a Era Moderna, mais ambígua. A arte de Doug Mahnke é simplesmente perfeita. O personagem já se torna icônico nos traços dele. O desenrolar da trama é excepcional, toda a atmosfera começa a se tornar mais sombria aos poucos. Lentamente, a luz do herói vai se apagando. Em certo ponto da história, o roteirista aborda até mesmo o esquecimento dos personagens na cultura pop. Isso choca o leitor de imediato. Ultra Comics é o ápice de Multiverso.

A Justiça Encarnada

Chegou a Liga que vale
Os protetores do Multiverso

A trama principal apresenta um pouco da ideia do título original: Multiversity. Uma mistura de Multiverso com diversidade. Isso não falta na história. Liderados pelo Superman da Terra-23, Morrison torna os personagens-chave da trama principal extremamente carismáticos. Destaque para o Velocista da Terra-36, um herói fã de quadrinhos, conquistando o leitor de imediato. E também para o Capitão Cenoura, um herói com a física dos desenhos animados. Fica claro a intenção do roteirista ao priorizar certos personagens dentre muitos. Se houver uma sequência, tramas e conceitos não sustentarão a próxima história. Então, é possível se familiarizar com esses personagens estranhos, desconhecidos, mas absolutamente memoráveis.

Além disso, Ivan Reis faz um trabalho excelente com o Lar dos Heróis. É um trabalho tão grandioso quanto o de Pérez em Crise nas Infinitas Terras. Ele consegue trazer cenas épicas e splashpages sob ângulos memoráveis. Além disso, a arte constantemente luta contra a diagramação aqui. Achatar e alargar os quadros é uma ótima forma de tornar a experiência da leitura ainda mais vívida. Afinal, quadrinhos não são apenas quadrinhos em Multiverso. Morrison ao mesmo tempo que faz uma crítica às mega sagas e eventos intermináveis, trata sua história desta forma, mas vai além. Muito além.

A Edição Definitiva e o veredito

Leia Multiverso, escravo
Edição definitiva de Multiverso pela Panini

A editora Panini fez um excelente trabalho em Multiverso. O encadernado foi publicado em capa dura com 481 páginas. A edição contém a história em papel couche, diversos extras, como capas variantes e esboços e um mapa do Multiverso tornando a leitura ainda mais imersiva. O formato que a história definitivamente merece. Quadrinho obrigatório na estante de qualquer DCnauta ou fã de heróis. Quadrinhos são uma arma poderosa, adentram as nossas mentes e Multiverso prova isso. Apenas Grant Morrison poderia fazer isso. É a maior ode aos quadrinhos de super-heróis já escrita.

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Detective Comics

Sala Imaculada: Concepção Imaculada é aterrorizante e engraçado.

Você gosta de cultos satânicos com atores hollywoodianos e uma boa pitada de horror e humor negro? Sala Imaculada é o quadrinho perfeito para você, seu pervertido. Na trama, acompanhamos a jornalista Chloe Pierce tentando descobrir o motivo do suicídio de seu marido. Coincidentemente, ele estava segurando um livro de auto-ajuda. Tendo ciência disso, ela vai atrás da escritora do livro, Astrid Mueller, para descobrir o que há de tão perturbador por trás da obra e levá-la a justiça.

O roteiro é de Gail Simone, uma escritora muito conhecida no mundo dos quadrinhos pela criação do movimento feminista Mulheres na Geladeira. O primeiro ponto a se destacar no seu modo de escrita, são as personagens. Ela escreve personagens femininas como ninguém. A protagonista, Chloe, é o dobro da Lois Lane, com palavrões, é uma personagem extremamente forte, determinada e humana. Todas as suas limitações são perfeitamente bem apresentadas ao leitor, inclusive a questão da perda. Astrid Mueller, a antagonista, é também outra grande personagem aqui. Ela é fria, calculista e os seus traumas também são bem apresentados, mas ainda existe um ar de mistério em torno da personagem, que deve ser explorado nos próximos volumes.

Sala Imaculada: Astrid Mueller (Esquerda) e Chloe Pierce (Direita)

O segundo ponto a se destacar é a atmosfera e a liberdade da construção do tom aqui. Essa é uma obra aterrorizante, claustrofóbica, sobrenatural e com um senso de humor muito particular aparecendo nas últimas duas edições. É uma mistura extremamente eficiente para tirar o leitor da sua zona de conforto, mas não traumatizá-lo. Esse é outro ponto alto. Talvez o único ponto negativo que o roteiro apresenta neste primeiro volume seja a conclusão do primeiro arco um pouco apressada, acredito que se o primeiro arco tivesse uma edição a mais, algumas ideias apresentadas e encerradas neste volumes, funcionaram melhor.

Essa é a arte menos assustadora de Hunt em Sala Imaculada.
A arte de Jon Davis-Hunt em Sala Imaculada. Não queria chocar vocês, peguei uma bem leve.

A arte é do Jon Davis-Hunt. Ele contribuí muito para essa atmosfera horripilante. Seus traços são extremamente simples e chocam justamente por isso. Existem tantas cenas grotescas dignas de Preacher do Garth Ennis, que você simplesmente não acredita que elas tenham sido representadas de forma tão simples, pois não apresenta podridão, é uma verdadeira quebra de expectativa muito bem-vinda. Além disso, os designs escolhidos para os demônios são extremamente interessantes e funcionam. É possível perceber inspirações em Alien: O Oitavo Passageiro e Lovecraft principalmente.

Recentemente, a editora Panini publicou o primeiro volume de Sala Imaculada em capa-cartão e papel LWC. Um formato bastante acessível ao leitor. Sala Imaculada: Concepção Imaculada é um ótimo início para uma promissora história sobrenatural e bizarra. Listamos outros grandes títulos da Vertigo moderna aqui.

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Você não precisa ter um QI alto para assistir à Rick and Morty

Quando a  primeira temporada foi lançada em 2013, Rick and Morty não atraiu tanto a atenção do público quanto o esperado, aparentando ser mais um desenho escrachado para adultos do Adult Swim. Porém, com a vinda do seu segundo e terceiro anos em 2015 e, respectivamente, em 2016, a animação ganhou um destaque mais exorbitante no ramo televisivo, graças aos seus episódios que tratavam de vários temas do cotidiano, com um humor ácido recheado de palavões censurados e de personagens cativantes.

De início, não me simpatizei com o seriado graças a sua fanbase chata e irritante, mas, ao ver vários comentários  de amigos e conhecidos falando bem do seriado, decidi dar uma chance. Infelizmente ou felizmente, agora  faço parte dessa comunidade de fãs que eu tanto criticava.

Rick Sanchez é um dos seres mais inteligentes do universo, que sempre se divertiu viajando por infinitas realidades e por todo o cosmo. Junto ao seu neto Morty, o cientista e o garoto não muito inteligente, embarcam em novas aventuras com o objetivo de se divertir e, se sobrar tempo, aprender alguma coisa com as viagem intergalácticas.

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Os criadores Justin RoilandDan Harmon criaram o desenho com o objetivo de conceber uma critica ao mundo moderno, exorbitando-se de temas como: política, niilismo (não existência), abusos de poder e até mesmo sexuais, depressão (que ainda será citada nessa coluna ou crítica, como preferir) e fraternidade. Querendo ou não, o telespectador acaba se identificando com os pontos citados, afinal, Rick and Morty pode ser o mais fantasioso possível, mas ainda é realista em seus atos e dizeres.

A existência conjugal dos protagonistas é o ponto alto do seriado, que mesmo com seus dramas individualistas, os personagens acabam compartilhando um pouco de seus sentimentos com o resto dos indivíduos que o cercam. Por exemplo, o casal Beth e Jerry Smith, que vivem um relacionamento conflituoso que reflete nas personalidades dos seus filhos: Morty Summer. De um lado, temos um garoto com deficit de atenção e com poucos amigos (sem contar o seu avô) e do outro, uma garota mimada e carente que só pensa em fazer compras e ficar o dia inteiro em suas redes sociais. Não é estranho uma briga de pais ser mencionada de maneira recorrente na animação, afinal, nós somos frutos da geração divórcio, tornando-se uma atitude regular dos nossos progenitores se divorciarem ou separarem com frequência.

A perda, fracasso, decepção e carência são problemas comuns em nossas vidas, no fim das contas, ninguém é feliz 100%, pois para haver a felicidade, tem que ter a infelicidade e para o sucesso existir, o fracasso do outro tem como obrigação, coexistir. As pertubações, em alguns casos, são transformadas em depressões, assunto que é relatado quase toda hora em Rick and Morty, seja de maneira escondida e bem humorada ou evidente. Rick Sanchez teve uma filha muito novo, se separando no auge de sua juventude. Isso conseguiu mexer muito com o seu psicológico, em que sua mente o incentivava toda hora a cometer suicídio que, por bem, sempre se ressumia no fracasso do ato. Por coincidência ou não,  quase todo dia, é noticiado que mais uma pessoa foi ”vítima” da depressão, ou seja, ela está sim presente em nossas vidas, de maneira direta ou indireta.

Como os universos DC e Marvel, Rick and Morty tem estrutura e capacidade para sustentar um macrocosmo inteiro que, a cada episódio, os capítulos dão vida à diversos sujeitos de várias raças, com poderes, personalidades e competências diferentes, podendo abrir várias oportunidades para futuros spin-offs.

A simpatia da série é sustentada com as suas loucuras, tramas da ”pá-virada” , personagens com traços cativantes e atitudes inesperadas. No fim, é isso que faz o espectador querer mais e mais, acompanhando a história e a jornada até a sua famigerada conclusão, abrindo a porta para varias teorias boas e ruins.

Somando 21 episódios (entre a primeira e segunda temporada), quase nenhum cria uma sensação de desconforto e chatice, pelo contrário, a maioria cativa e abre um sorriso no rosto de seu seguidor a cada piada e desfecho das conjunturas. Porém, alguns posicionamentos sem resposta (mesmo sendo propositais) podem incomodar quem não está acostumado com esse tipo de material. Pode-se dizer o mesmo sobre as suas saídas fáceis, que sempre ficam na cara o que vai acontecer, em que tudo dará certo em seu epílogo, mesmo tendo um raro plot twist em todo o seriado.

Ok, mesmo dando várias e várias voltas em apenas um único texto, você deve estar se perguntando: ”mas o que a crítica tem haver com o seu título?” Ora meu caro leitor, embora Rick and Morty abre as margens para diversas interpretações, é possível você sentar em seu sofá, colocar um episódio e assistir sem preocupação nenhuma em elucidar as suas metáforas e piadas cheias de besteiras. No final, a animação é feita para o público em geral, sendo você um entendedor de ciências ou não, apenas ignore toda a filosofia feita nessa coluna e divirta-se!

Espero que tenha gostado, até a próxima e Wubba Lubba Dub Dub!

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Detective Comics

Entre a Foice e o Martelo é uma história extremamente humana

Superman é um dos personagens mais complexos das histórias em quadrinhos. O herói já foi interpretado de diferentes formas por diversos roteiristas e artistas, entretanto ninguém jamais ousou mudar o local da queda do foguete vindo de Krypton. Em todas as origens, ele cai em solo americano, o tornando consequentemente um símbolo americano. Em Entre a Foice e o Martelo, o foguete cai na Ucrânia e anos depois o Superman se torna o herói da União Soviética mudando o rumo da Guerra Fria, enquanto os Estados Unidos, representados por Lex Luthor, tentam destruí-lo. É um universo alternativo interessantíssimo, mas vai além disso se consagrando como uma das melhores histórias do Homem de Aço.

Super protetor. Seria o termo mais adequado para definir o Superman em Entre a Foice e o Martelo. Habilmente escrito por Mark Millar, o seu Homem do Amanhã é extremamente preocupado com tudo o que está ao seu redor, conversas políticas são facilmente interrompidas, pois ele sente a necessidade de ajudar as pessoas. Ele não liga para essas questões assim como o Superman o qual conhecemos. Entretanto, Millar acrescenta algo a mais nesse desejo extremamente purista, algo mais perigoso: Uma utopia. A necessidade se torna uma obsessão.

 

É uma construção para desconstrução. Não apenas Millar consegue demonstrar isso em seus roteiros, como a arte de Dave Johnson também. De repente, o Superman com traços nostálgicos remetendo a animação dos irmãos Fleischer dá lugar a um ditador. Ingenuidade, talvez seja outra palavra para defini-lo neste quadrinho, ele sempre acredita estar fazendo o certo e em alguns momentos leva o leitor a acreditar que o melhor caminho é a sua utopia – pelo menos até o final – e acredita que não precisará recorrer a violência para alcançar seus objetivos. Ainda bem que Lex Luthor existe.

Superman tinha boas intenções, Luthor também. “Não estaríamos trocando um demagogo por outro?” questiona uma personagem durante a narrativa. Ele e o herói se completam. Ambos querem salvar o mundo, mas Lex é mais realista, afinal, o mundo jamais será perfeito e ele sabe disso. Existe um porém, Luthor não gosta de pessoas, gosta dele mesmo, considera o trabalho mais importante do que a sua esposa. Ao mesmo tempo em que ele é humano, ele é desumano, assim como o Homem de Aço se invertermos os adjetivos. Um completa o outro. Mais uma excelente construção de personagem executada por Millar aqui.

Com a ajuda de Alex Ross, os desenhos de Dave Johnson, Andrew Robinson, Killian Plunket, Walden Wong beiram ao nostálgico e ao revolucionário, as locações e os designs para cada herói beiram a perfeição de tão criativas. Destaque para o Batman e sua Bat-caverna no fundo do mar. Eles também entregam ótimas cenas de ação. Apesar da mudança na arte a cada capítulo, eles nunca destoam uma da outra, apenas se complementam. As cores de Paul Monts são claras e agradáveis aos olhos do leitor.

É incrível como o protagonista impacta a todos ao seu redor em Entre a Foice e o Martelo. Lois Luthor vê nele, uma figura confiável, o homem que a salvaria caso ela caísse de um prédio. Na verdade, o roteirista respeita bastante as regras do Multiverso onde o que é real em uma terra, é ficção em outra e brinca bastante com o relacionamento entre os dois em um monólogo onde Superman diz que um famoso poeta escreveria uma história onde ele e ela se tornariam amantes e que seria o livro mais vendido de todos os tempos. Pyotr, o filho de Stalin, se sente descartável com a presença do Superman, tratando tudo como uma competição, com ódio, pois enquanto ele voa pelos céus, nós estamos vivendo na sarjeta. Batman aqui é um homem sem moral, é a anarquia de preto, o símbolo de uma revolução que não aceita um governante alienígena. O confronto entre ele e o Kryptoniano é um dos melhores das histórias em quadrinhos rivalizando com a luta em O Cavaleiro das Trevas. Na verdade estes três personagens representam três sensações humanas: Amor, tristeza e coragem.

Recentemente, a editora Panini publicou a história em um encadernado capa dura com papel couche. A edição conta com alguns extras como artes conceituais de Dave Johnson e um depoimento de Tony DeSanto para a história. Entre a Foice e o Martelo fala bastante sobre humanidade, não só como uma sensação retirada de todos nós por um alienígena, mas como um todo. Provando que nem mesmo Superman ou Lex Luthor poderiam salvar este mundo, com ambos, estaremos fadados ao fim se procurarmos por perfeição. Devemos aceitar a sarjeta em que vivemos e suas falhas, contemplá-las e aprender a conviver com elas. Mark Millar trouxe até nós uma das melhores histórias já escritas sobre o personagem e ele nem precisou ser americano para isso.

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Hang the DJ é a prova que o amor verdadeiro existe

Quem nunca teve uma ilusão amorosa ou se apaixonou pela pessoa errada, ignorando tudo que estava a sua volta? Inclusive, deixando de lado o seu verdadeiro amor? Hang the DJ é o episódio mais fofo e otimista da quarta temporada de Black Mirror, que mistura elementos de  Natal (segunda temporada) e San Junipero (terceira temporada), ao mesmo tempo que mantém uma narrativa única e  cativante, mostrando que o amor verdadeiro existe sim e nunca é tarde para encontrá-lo. Mas isso não quer dizer que você não passará por momentos chatos e traumatizantes antes.

Na história, acompanhamos dois personagens, Frank e Amy, que se conhecem em um aplicativo de relacionamento, que mostra a data de até quando o casal ficará junto. Isso desencadeia um questionamento de suas existências pelos dois protagonistas, passando por vários momentos bons e alguns ruins antes do seu desfecho.

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Como é de costume da série, Enforcando o DJ (em tradução livre) é mais um episódio que a tecnologia se sobrepõem na vida do ser humano, só que , dessa vez, o diretor Tim Van Patten  e o roteirista Charlie Brooker, fazem um excelente trabalho em satirizar certas atitudes dos seres humanos, de uma maneira mais leve e descontraída. Dessa forma, se tem a impressão, que o capítulo faz parte de outro seriado e não te Black Mirror. Isso por causa, do seu excesso de otimismo.

As atuações dos atores Joe ColeGeorgina Campbell conseguem convencer o telespectador, que os seus amores ”artificiais” são verdadeiros, onde se tem uma dura torcida para a largada final, que seria os dois ficando juntos pela eternidade. O casal usa e abusa de relações comuns do cotidiano, não se diferenciando muito dos namorados e namoradas do mundo real; tendo assim, dois conjugues com atitudes presas nas mesmices, mesmo não sendo algo que incomoda de verdade.

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Além de uma crítica de como as pessoas se relacionam hoje em dia, o criador Charlie Brooker utiliza da ingenuidade da trama para ponderar outras atitudes do mundo moderno, como por exemplo, a alienação e  o olhar de preconceito junto com ingratidão que as pessoas tem uma com as outras, quando certo indivíduo não cumpre ordens ou quer quebrar um paradigma de uma sociedade privada.

Seu título é uma clara referência ao refrão da música Panic, da banda The Smiths, onde a sua letra descreve perfeitamente o episódio, além de também fazer uma crítica ao mundo moderno.

Mesmo com uma prosa mais rápida e dinâmica em comparação aos seus outros ”companheiros” de temporada, Hang the DJ não cansa e emociona, dando de presente ao espectador, uma linda história de amor com um pouco de comédia e drama, no qual poderia muito bem ter uma continuação, mesmo tendo uma trama redonda com possíveis pontas soltas que são deixadas no ar.

Espero que tenha gostado e lembre-se, não fique preocupado (a) em procurar o amor de sua vida, pois ele existe e com certeza te fará feliz pelo resto da eternidade. Sendo assim, apenas curta a sua vida enquanto pode, seja ao lado das pessoas que você ama ou sozinho (a). Até a próxima e incendeiem a discoteca, enforquem o DJ, pois a música que eles tocam, constantemente, não quer dizer nada sobre as nossas vidas.

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Os Mais Perigosos do Mundo: A Liga da Justiça de Amanda Waller

Após os eventos de Trono de Atlântida, Amanda Waller, como uma boa estrategista, viu neste momento uma oportunidade de derrubar a Liga da Justiça criando uma nova equipe: A Liga da Justiça da América. Não pensem que esse é um Esquadrão Suicida 2.0. A equipe é formada por Caçador de Marte, Katana, Stargirl, Vibro, Gavião Negro, Lanterna Verde (Simon Baz) e Mulher-Gato. Eles são liderados por Steve Trevor. No arco Os Mais Perigosos do Mundo, temos a união da equipe e a sua primeira missão: Enfrentar a Sociedade Secreta.

O roteiro de Geoff Johns segue uma narrativa simples e cheia de ação, assim como seus trabalhos anteriores, ele se complica desnecessariamente em alguns momentos. O maior exemplo dessa complicação é com o Arqueiro Verde, um personagem importante para trama e que até a movimenta de certa forma, mas é um personagem extremamente desnecessário para o grupo. Personagens subdesenvolvidos são o que não faltam aqui, alguns são bem mais apresentados do que outros, como Vibro, Gavião Negro e Stargirl. Caçador de Marte, Mulher-Gato, Steve Trevor e Amanda Waller são os melhores personagens do quadrinho. O ponto mais positivo do roteiro de Johns está em como ele escreve Waller e Trevor. Uma figura manipuladora como de costume e extremamente estrategista e um homem obrigado a se corromper. Os heróis são convocados e não existe possibilidade deles dizerem não, ela pode usá-los contra eles mesmos.

A arte de David Finch é realista, sombria e violenta. Representa bem o espírito da equipe, o tom mais militarizado. Ele trabalha bem em quadros menores e principalmente em splashpages, garantindo ótimas cenas de ação. Entretanto, tudo muda quando a partir da quarta edição, Brett Booth assume a arte interna. Booth tem uma arte extremamente noventista com expressões faciais extremamente ovais e corpos sem a mínima noção de anatomia, a arte dele combinaria com o título se a história fosse mais cômica. As cores de Andrew Dalhouse prejudicam os desenhos de Booth e a narrativa.

O primeiro volume também conta com mini histórias do Caçador de Marte escritas por Matt Kindt e ilustradas por Andres Guinaldo. Kindt tem sucesso ao apresentar uma nova origem para o personagem e tornar ele ainda mais relacionável e arte de Guinaldo não é memorável, mas cumpre sua função em mover a narrativa.

Recentemente a Panini publicou o primeiro volume de Liga da Justiça da América em um encadernado capa dura com 164 páginas em papel couche. O formato é o mais adequado para obra e realça a arte de Finch. O ponto negativo fica a cargo da ausência de extras. Os Mais Perigosos do Mundo tem ideias interessantes e poderia se aprofundar mais na questão política, mas prioriza o massaveio. Garante divertimento com certeza, mas desperdiça um pouco do seu potencial para se firmar como uma ótima e simples história causando uma primeira má impressão sobre o título, mas não tão má assim. 

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Cinema Tela Quente

O canibalismo falho de Raw

Canibalismo é algo que sempre me surpreendeu; chamando a minha atenção nos seres humanos mais ”selvagens” e escrupulosos; afinal, sempre tive o interesse de saber o que leva uma pessoa a chegar em um extremo tão grande a ponto de devorar um outro ser de sua mesma espécie. Como motivo de atiçar a minha curiosidade e aprender um pouco mais sobre esse ”universo obscuro”, um amigo me recomendou o filme francês Grave, que ficou conhecido como Raw no resto do mundo. Para ele, foi uma experiência chocante e angustiante, mas infelizmente, não posso dizer o mesmo.

Na história, a jovem vegetariana Justine acaba de ingressar na faculdade de Veterinária. Ao chegar no local, a garota é recebida pela irmã e veterana Alexia e pelo calouro Adrien, que acaba formando um forte laço de amizade com a moça. Em uma sequência de trotes não muito agradáveis, a protagonista da película acaba sendo forçada a comer um rim de coelho, que desencadeia uma fome insaciável por carne, e mais tarde, por carne de seres humanos.

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O filme é o primeiro trabalho reconhecido da diretora Julia Ducournau, que consegue entregar um drama razoavelmente bom para quem está assistindo. Mas o mesmo não pode-se dizer sobre as suas cenas ”chocantes”, que apesar de perceptível o esforço que a francesa tem em transmitir sequências desconfortáveis, Ducournau não consegue fazer com que o seu espectador sinta qualquer ”dor no estômago”. Bem, isso pode variar de pessoa para pessoa, mas das dez cenas ”surpreendentes”, apenas duas conseguem fazer um trabalho áspero.

O elemento principal demora para aparecer, causando cansaço e desânimo, dando vontade de parar o filme em seus primeiros trinta minutos. Porém, quando o canibalismo dá as caras, a antropofagia empurra a sensação de incômodo ao seu público, mesmo não sendo algo tão alarmante, apesar de uma sequência simples e bem conduzida. No entanto, o longa acaba deixando de lado a brutalidade para se focar em fatalidades mais pessoais, causando a ausência da selvageria que era para ser algo central.

Sua trilha sonora bruta e com altos acordes descreve bem as poucas situações empolgantes que Justine acaba passando ao decorrer das suas primeiras semanas acadêmicas, que cria uma linda sinfonia de tédio, desespero, medo e romance na vida da protagonista.

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Em diversas situações, Grave parece que é um trabalho feito em conjunto, ou seja, a sensação que se tem é que diversas pessoas dirigiram várias cenas e depois juntaram tudo para formar um único meio de entretenimento. A prova disso seria: perspectivas sem significado e com enigmas sem sentido, comédia leve e sem graça em cenas sérias e a bipolaridade de certos personagens, afinal, é tão simples assim uma pessoa que não come nada derivado de animais e após ser forçada a comer carne, apenas vomitar, alguns segundos depois esquecer da situação e não criar trauma algum?

Em compensação, sua ótima fotografia sem filtro e com baixa luminosidade consegue compensar alguns erros que são vistos no decorrer de sua história.

Deixando de lado a bipolaridade de alguns indivíduos, os atores entregam uma boa e memorável atuação, dando a impressão que certas ocasiões aconteceram de verdade e que aquelas pessoas realmente tinham um laço de afetividade entre si. O drama de cada personagem também deve ser mencionado e destacado, conseguindo mexer com as emoções do seu telespectador, fazendo um trabalho bem feito e nos mínimos detalhes.

Mesmo sendo bem ”elaborado”, seu encerramento é uma saída fácil para explicar os defeitos das irmãs Justine e Alexia, algo que poderia muito bem ser tratado com mais naturalidade e leveza, mesmo sendo um plot twist considerável. Várias pontas são deixadas para uma eventual continuação, mas é improvável que a sua sequência seja feita, já que Raw é uma produção redonda e contida.

Como citado anteriormente, minha experiência com Grave não foi tão agradável como esperado, principalmente com o objetivo de me chocar e sentir desconforto em meu corpo. Outra coisa que eu gostaria de citar, é que mesmo tendo um certo tipo de ”fissura” por esse universo de canibais, nunca comi carne humana e não pretendo. Espero que tenha gostado, até a próxima e procure sempre checar o fornecedor de seus alimentos. 😉

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Dark e a excelência alemã pela Netflix

A primeira produção alemã original da Netflix veio para ficar. Dark foi mais um tiro no escuro da produtora que acertou em cheio no seu alvo, os telespectadores. Para quem está acostumado apenas com propostas americanas, não sentirá muita diferença de como sua narrativa é contada pelos criadores e produtores, Baran bo Odar e Jantje Friese, que apesar de ter uma linguagem própria, percebe-se que existem grandes  influências do mercado americano.

A trama se intercala entre quatro famílias de uma pequena cidade na Alemanha, que após o desaparecimento de duas crianças e o surgimento de um corpo, vários segredos da pacata metrópole começam vir a tona, incluindo o surgimento de novos personagens misteriosos e sombrios.

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Nessa primeira e excelente temporada, o drama é  predominante em todos os episódios, que vai desde os mais ”leves” até os mais ”pesados”. O gênero está presente em todos os seus aspectos, incluindo na sua fotografia suja e sombria, que contribui ainda mais para que o público se envolva emocionalmente com a linguagem triste e deprimente dessas famílias que estão na beira do abismo. 

Até o seu terceiro episódio, muitos mistérios sem soluções vão surgindo, tornando a mente de quem está assistindo um pouco assustada e eufórica. Isso poderia até ser considerado um problema, mas pelo contrário, o excesso de perguntas sem respostas são essenciais para que o seriado siga em frente, pois é uma maneira muito inteligente de prender o seu espectador até o final. Mas fique tranquilo, dos dez enigmas que vão surgindo ao decorrer da história, sete são explicados e os outros três são deixados de lado para uma eventual segunda temporada.

Logo no primeiro episódio, Dark deixa bem claro que o seu objetivo é contar uma história com um ritmo mais lento e até então maçante, já que não teria graça nenhuma colocar ação, aventura e comédia na sua excelente trama. É exatamente isso que cativa quem está assistindo, a ausência dos gêneros citados, já que o drama, suspense e o terror psicológico andam de mãos dadas.

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Em nenhum momento no seriado, existe saídas fáceis para os problemas que são criados, a não ser do seu final um pouco quanto decepcionante. O encerramento é um gancho direto para sua segunda temporada já agendada para 2019, mas, o que desaponta, é o fato de que se tem a sensação que foi algo corrido e sem nenhum capricho. Claro que isso não estraga a maestria de Dark, mas é um pouco quanto desapontador ver o rumo de sua conclusão. Agora, basta esperar a sua tão famigerada continuação, na qual acredito que será tão boa quanto a sua antecessora.

Além de seu desfecho, outro fator importante que pode incomodar, é o excesso de personagens, que pode acabar confundindo um pouco a cabeça de quem está acompanhando. Mas felizmente, o defeito é solucionado ao longo dos episódios, colocando todos os personagens e a sua mente de volta aos trilhos.

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Não se deixe enganar que Dark é um Strager Things estrangeiro, pelo contrário, é muito mais do que isso e merece sim a sua atenção. Uma dica valiosa, procure assistir a série sem saber absolutamente nada sobre ela, que eu te garanto que você terá belas surpresas e irá ficar pensando na produção por semanas. Espero que tenha gostado, até a próxima e procure nunca mexer em seu passado ou futuro.  🙂

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Impossível! Eles desconstruíram meu personagem! E agora?

Star Wars deixou de ser uma série de filmes há muito tempo. A saga se tornou uma paixão e as pessoas a tratam como um conhecido que elas viram crescer, principalmente os fãs mais antigos dela. Quando George Lucas tentou trazer novos aspectos visuais e narrativos com a trilogia prequel, os fãs rejeitaram. E o ciclo parece estar se repetindo com Star Wars: Os Últimos Jedi, o filme mostra aquilo que o fã não quer ver, mas sim, o que ele precisa ver.

Rian Johnson fez um filme ousado tanto em termos narrativos como conceituais e aproveitou para desconstruir o maior herói da saga: Luke Skywalker. Quando ele fez isso, ele tocou na ferida dos fãs, trouxe um personagem cansado e suscetível ao erro, muito diferente do jovem fazendeiro altruísta da trilogia anterior. Muitos estão dizendo por aí que Johnson arruinou a infância deles escrevendo o personagem desta forma. 

Essa situação me lembra bastante Batman vs Superman. Me arrisco a dizer que Os Últimos Jedi é o BvS de 2017. Zack Snyder já tinha mexido na ferida em 2013 fazendo com que o Superman quebrasse o pescoço do general Zod em O Homem de Aço. A revolta foi imediata também. Três anos depois, ele tocou ainda mais na ferida quando fez Kal-El se questionar se ele deveria continuar a proteger as pessoas ou se manter neutro em relação a isso. Além disso, ele apresentou um Batman cansado e sem paciência para criminosos. O resultado: As pessoas reclamaram ainda mais e agora temos um Universo DC sem ousadia, sem um toque diferente em relação aos outros filmes de super-heróis.

Outro dia passeando pela Internet encontrei um comentário muito interessante sobre Batman vs Superman que dizia o seguinte: “Neste filme, vemos a humanização de ícones. E rapidamente rejeitamos. Porque não conseguimos aceitar heróis que tem vontade-própria.” As pessoas enxergam Luke Skywalker, Batman e Superman, como seres perfeitos, sendo que se eles fossem realmente perfeitos, eles não seriam interessantes. Eles são tão humanos quanto nós.

Eles também são suscetíveis ao erro, à falha, ao fracasso, como todos nós. Abordar a realidade no cinema é errado, mas a verossimilhança é algo essencial na ficção. É o que realmente nos conecta com os personagens. Isso incomoda muitos, pois lidamos com tantos problemas, que quando vamos aos cinema, queremos relaxar e esquecer da realidade, não é errado querer escapismo leve e inocente, mas é errado querer uma personagem hoje com a personalidade de 40 anos atrás. Personagens de uma faceta não vivem para sempre, mas as de múltiplas, a elas pertencem seu lugar à eternidade no imaginário da cultura pop.

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Bright: A falsa mensagem de David Ayer

Ao se deparar com a premissa de Bright, novo filme do diretor David Ayer em parceria com o astro Will Smith, é quase impossível não compará-la com a de Distrito 9 (2009), dirigido por Neill Blomkamp. É visível o objetivo de Neill em discutir questionamentos sociais e, principalmente, humanitários, quando se coloca aliens e humanos juntos na Terra, onde os extraterrestres são completamente oprimidos e segregados da humanidade em uma metáfora que retoma o Apartheid e outras divisões existentes atualmente. Usando essa mesma estrutura, Ayer utiliza sua fantasia misturada com ficção, tentando trazer debates semelhantes entre orcs, elfos e humanos, porém, diferente de suas inspirações, o filme joga fora várias oportunidades em construir um discurso inteligente e sério, se perdendo na ação excessiva e na maldita necessidade de colocar seu astro hollywodiano em cada frame.

Will Smith sempre foi uma peça importante para seus filmes. Sua presença de tela incrível aliada a suas próprias habilidades de atuação e conseguir extrair diversas emoções dos personagens foram alguns dos motivos que o fizeram a ser o grande ator que é. Infelizmente, as vantagens do ator acabam caindo na péssima prática publicitária de diretores e produtores em colocarem seu rosto em cada momento do filme, em pôsteres e publicidades, apagando outros personagens e até atrapalhando o ritmo da própria história. E, enquanto seu personagem, Scott Ward, consegue transmitir a mensagem necessária ao público, do policial negro que está em constante luta diante da exclusão de seus companheiros, a falsa necessidade atrapalha o desenvolvimento de Joel Edgerton, que deveria ser mais reconhecido.

Não só por seu excelente trabalho em caracterização como orc, mas a atuação timída e ao mesmo tempo cômica traz bastante receptividade entre Nick Jakoby e o espectador. A dinâmica entre a dupla Smith e Edgerton funciona e impressiona pela proximidade, mas, como dito excessivamente no parágrafo anterior, Jacoby poderia ter tido um desenvolvimento mais inteligente de certa forma. Se o filme está se vendendo o tempo inteiro como a exclusão de orcs dentro da sociedade e, do protagonista, dentro da polícia, faltou grande tempo de tela e demonstrações por parte do roteiro.

Como mistura de gênero: sci-fi, fantasia, ação e até comédia, Bright está frágil nessa relação. No sci-fi, David Ayer flerta bastante e em quase todos seus discursos fala sobre as questões que estão na trama, mas se elas só são refletidas numa introdução que deixaria Zack Snyder orgulhoso, além da trilha sonora, sem mais nenhuma exemplificação nítida, estas se tornam fracas, rasas e desinteressantes. Na fantasia, orcs e elfos têm uma maquiagem exuberante e detalhista, só que a representação por meio das atuações é pífia e chega até ao ridículo de elfos fazerem piruetas excessivas. Há outro flerte que é o dragão, sem nenhuma menção anterior, em um rápido plano geral desnecessário e que falha na tentativa de ambientação.

O diretor, entretanto, não chega a decepcionar em todos os gêneros. Como ação e comédia, Bright é extremamente agradável. Não é repleto de piadas isentas de graça e sem timing, há várias passagens que despertam facilmente o riso, principalmente pela dupla protagonista que tem os melhores diálogos. Em um feito muito parecido com Esquadrão Suicida (2016), a ação bem feita e produzida por Ayer é frenética e de difícil acompanhamento pela edição defeituosa, mas traz um efeito violento eficiente – remete aos filmes de gângster.

Bright é muito mais o flerte de seu diretor do que filme de “ficção com ação”. Apesar de ter uma excelente dupla como protagonista, suas decisões desperdiçam oportunidades complexas e promissoras, deixando as mensagens apenas nos discursos promocionais de sua equipe. Ao final, há um pequeno gancho para uma possível continuação, e que isso aconteça! Porém, com outros caminhos a serem percorridos, já que esse universo parece muito rico e, se for explorado corretamente, poderá se tornar uma das melhores produções da Netflix.