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Vamos Salvar o Simbolismo do Superman! E isso é um trabalho para Calvin Ellis!!

Super-força? Visão de raio X? Sopro-congelante? Super-velocidade? Qual o melhor poder do Superman? Você pode enumerar poderes do maior super-herói de todos os tempos, ou melhor, o super-herói definitivo. O Superman é o personagem que sempre será visado, em visões diferentes, versões diferentes e de formas diferentes. Mas as melhores versões do Superman (e acredite tem muitas versões) são aquelas que o maior poder do personagem é melhor executado e utilizado: o simbolismo.

O Superman é um símbolo. E quando qualquer escritor usa esse poder especial que poucos heróis tem, possivelmente o Steve Rogers/Capitão América chega próximo, são as melhores fases e histórias do personagem. Quando pegamos o quadrinho Entre a Foice e o Martelo, que Mark Millar apresenta o Superman soviético, resolve se transformar em um símbolo e mudar toda trajetória daquele país. O simbolismo em que Grant Morrison apresenta em Grandes Astros, como é importante ser o Superman no mundo. Até mesmo o Superman do Frank Miller, em Cavaleiro das Trevas, é um símbolo. Mesmo que seja um símbolo da derrocada dos heróis, o maior e mais forte homem do mundo virou um fantoche do governo. São alguns dos exemplos.


Então entendemos que o Superman é um símbolo. E só isso responde a pergunta que está encravada no título desse artigo. Mas como isso pode funcionar nos cinemas? É só fazer o simples e convicto no estilo Pantera Negra. Com representatividade, com respeito, amor e sendo um símbolo para as pessoas. Não que o Pantera Negra não tenha sido, ou melhor, não seja. Mas estamos falando do maior super-herói de todos os tempos.

Criando uma comparação meio forçada até, é como colocar o Martin Luther King com todos esses poderes. É o símbolo que até então na grande mídia e até mesmo nos quadrinhos, nunca conversou com a raça negra. Apesar de existir o Superman da Terra-23, ele nunca teve tanta importância no Universo DC, aparecendo em sagas entre as Terras ou algo similar. Ninguém na DC Comics nunca usou Calvin Ellis para ser protagonista de algo grande e único. Calvin Ellis precisa deixar de ser esse personagem que simplesmente somente representa uma contraparte de outra Terra e ser utilizado no como o símbolo que o Superman sempre teve.

Em um mundo em que as diferenças sociais estão cada vez mais ativas, em que casos como George Floyd, ou então em casos de pessoas famosas cometendo falas ou atos racistas em programas de realitys shows, e mesmo assim essas pessoas ainda ficando em evidência e ganhando milhares de seguidores, ou as infindáveis injustiças sociais que ocorrem no dia a dia e que se tornaram “rotina”. Um personagem do peso e da importância do Superman ser negro é extremamente importante. É um símbolo que pode e deve ter um efeito fantástico sobre a sociedade. Para os dois lados, tanto para inspirar para o bem, para inspirar, como para os milhares de imbecis vomitarem seus preconceitos em seus teclados covardes e seus relinchos que nada passa de uma “lacração”.

O Superman sempre foi a figura do imigrante. Aquela pessoa que tenta se incluir em um mundo que não é seu, que não pediu para ficar, mas escolheu ficar lá e proteger aquele povo que ele adotou. E o super-herói que vive de escolhas, que com sua audição escuta milhares de quilômetros e todos os problemas em volta, e precisa estar em vários lugares e salvamentos em locais diferentes. O Superman precisa decidir, usando um exemplo “idiota”, se vai se dar o luxo de jantar ou salvar um trem caindo de uma ponte.

Algo como a população negra hoje em dia. Como a população nordestina. Como a população indígena. Como a comunidade LGBTQ+. Como muitas mulheres. Pessoas que precisam escolher entre andarem sozinhas, entrar em lojas sem serem desconfiadas, de ter o um aparelho telefônico mais moderno ou ficar em casa para não correr o risco de acontecer nenhum preconceito/agressão contra.

Em uma época em que desconstruir as características benevolentes e inspiradoras do Superman virou moda em diversas mídias, e simplesmente sucatear o personagem como um super-herói violento é sinônimo de vendas, poder colocar o personagem com o simbolismo como sua maior virtude, seria muito bem-vindo. Provavelmente a última vez que o simbolismo do personagem foi melhor utilizado foi na, excelente, Superman: Smashes the Klan de 2020.

Possivelmente, eu, Ricardo Ramos, não seja a melhor pessoa para escrever esse texto. E tenho minha consciência isso e nem é minha intenção tentar me colocar no lugar de ninguém, eu não tenho esse direito. Eu não sofro como as pessoas que citei sofrem no dia a dia, como uma rotina maldita que não escolheram. Mas eu tenho certeza de que o Superman negro, e seu simbolismo, seria de suma importância para o mundo de hoje. Espero que realmente a Warner saiba fazer isso acontecer.

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A poesia e a apatia em Vozes e Vultos

Produções cinematográficas e televisivas que abordam uma casa mal-assombrada não é um assunto recente para quem consome esse tipo de conteúdo, pois é só olhar para trás e perceber que já tínhamos The Amityville Horror (1979), O Iluminado (1980) e Poltergeist (1982), entre muitos outros. Esse tema está tão recorrente atualmente, que ficamos completamente indiferentes quando um novo filme é lançado e o culpado disso tudo é a forma como o roteiro não sai de sua zona de conforto, e como consequência, nada nos prende. Alguns longas até conseguiram sair dessa estatística amarga, mas o saldo ainda pende em sua maioria para o lado mais preguiçoso. E sim, Vozes e Vultos se encaixa neste saldo negativo.

A recente produção da Netflix acompanha uma artista de Manhattan (Amanda Seyfried) que se muda com sua família para o Vale do Hudson. Conforme ela começa sua nova vida num vilarejo histórico, ela passa a suspeitar que seu casamento e sua casa está cercado por algo obscuro.

James Norton (George Clare) e Amanda Seyfried (Catherine Clare) interpretam o típico casal feliz e empolgado pela mudança, porém tudo começa a desandar conforme a presença inicia as suas manifestações para Catherine. O roteiro abre uma discussão sobre o poder feminino quando deixa claro que a personagem se tornou o centro das aparições sobrenaturais. Isso não foi um mero acaso, pois uma explicação é dada para tal. Não vou entrar em mais detalhes para não estragar a experiência de quem ainda não assistiu, porém foi uma das poucas coisas que gostei do filme.

Enquanto isso, o filme afasta um pouco (até certo momento) George dessas manifestações e entra num contraponto com a discussão mencionada acima. Aqui o vemos assumindo um lado adúltero com a jovem Willis (Natalia Dyer) e conforme a trama avança, as aparências de bom moço continuam rachando até o seu ponto de ruptura. Assim como sua parceira, ele também possui um motivo específico que é revelado posteriormente. Não é um plot twist digno de revirar na cadeira sedento por mais, uma vez que fica completamente óbvio a direção que o roteiro pretende seguir para seu ato final.

A poesia sobrenatural foi bem trabalhada através da obra de Emanuel Swedenborg (1688-1772). Ele foi um filósofo e espiritualista sueco que era visto como iluminado e louco por causa de sua visão sobre o mundo espiritual. Segundo ele, os mortos não precisam causar medo, isso o que faz é a vida. O eterno debate sobre as consequências de nossos atos em vida foi pauta entre os personagens principais e quem guardou esses diálogos, claramente percebeu a referência na cena final.

Vozes e Vultos acerta em trazer essa atmosfera poética para o campo sobrenatural, mas peca pela apatia em não trazer mais nada de novo para o gênero. Então, acaba se tornando uma adaptação cinematográfica (baseado no romance All Things Cease to Appear de Elizabeth Brundage) esquecível um pouco depois que você termina de assistir antes de pular para a próxima diversão do dia. Aliás, já assistiram À Espreita do Mal?

Nota: Prata. 

Vozes e Vultos está disponível atualmente na Netflix.

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Requiem: a morte (e vida) do Surfista Prateado

De todas as histórias do Surfista Prateado, Requiem foi a que mais me emocionou. Talvez eu seja ligeiramente suspeita para falar, já que Norrin Radd é, e sempre foi, meu personagem favorito da Marvel. Mas o que torna essa graphic novel tão especial? A resposta é simples: aqui, não temos mais a inviolabilidade do até então “indestrutível” corpo do Sentinela das Estrelas; tendo seus dias de vida contados, adentramos completamente em sua alma, sentindo seus medos, tristezas, alegrias e emoções. Sendo publicada pela primeira vez em 2007, essa obra prima em forma de quadrinhos é escrita por Michael Straczynski e desenhada por Esad Ribic, contando com apenas 4 edições.

Diagnóstico

A história começa com Surfista refletindo sobre a existência – a própria e a do universo. A morte, constata, faz parte de um ciclo, e é justamente ela a responsável para que a vida possa existir.

Com o intuito de investigar uma condição ainda desconhecida, Norrin vai à Terra para se encontrar com Reed Richards, seu amigo de longa data, e a quem sabe que pode confiar até mesmo seus temores. Depois de dolorosos testes, temos o resultado: o Surfista Prateado está morrendo; o material que recobre e protege seu corpo das mais perigosas adversidades está se desgastando, e resta à Norrin cerca de um mês de vida.

Em uma lembrança de tempos muito distantes, vemos a origem do Sentinela das Estrelas; vemos a chegada do temido Galactus a Zenn-La, e a decisão que mudou para sempre a vida do personagem. Em troca da preservação de seu planeta, Norrin se oferece para ser arauto do Devorador de Mundos, procurando planetas para que seu mestre pudesse devorar e saciar sua fome. É nesse momento que Norrin vira o Surfista; nesse momento, Norrin perde suas memórias e sua consciência, sofrendo a metamorfose que seria a responsável pela destruição de incontáveis vidas em nome de seu mandante.

Porém, é na sua primeira vinda à Terra que a chama esquecida do antigo Norrin Radd se acende. Vendo a relutância e a voracidade com que os humanos lutam pela sua sobrevivência, o Surfista percebe o mal que irá fazer se permitir que Galactus devore o planeta. Unindo forças com o Quarteto Fantástico, consegue expulsar seu mestre da Terra, deixando finalmente de ser seu servo.

Tais lembranças, além da função de ambientar o leitor no cânone do personagem, servem principalmente para nos mostrar toda a angústia e arrependimento que cercam o Surfista. Requiem não é apenas uma história sobre a morte; é uma história de redenção, um conto reflexivo sobre erros e acertos, sobre guerra e paz, sobre encontrar a plenitude que por anos foi incansavelmente buscada. Depois dessa retrospectiva, vem a pergunta: o que Surfista irá fazer nesse tempo de vida que lhe resta?

Bom… ele irá viver.

Encontro com o Homem-Aranha

Na segunda edição da história, temos esse épico encontro entre os dois heróis da Marvel. Enquanto Peter está tendo dificuldades em acabar com um vilão na cidade, surge o Surfista para lhe dar um auxílio. Após o embate, temos o início de uma conversa entre os personagens, que culminaria em uma experiência única para toda a humanidade.

No topo de um prédio, Surfista explica a Peter que não lhe resta mais muito tempo para ficar na Terra, e que gostaria de fazer uma última ação ao planeta que o acolheu por tanto tempo. Nesta cena, temos um dos diálogos mais incríveis que já tive o prazer de ler em uma história em quadrinhos, com o Aranha dando diversas sugestões ao Sentinela, cada uma com alguma ideia de como Norrin poderia agraciar as pessoas com seus poderosos dons. Neste momento, vemos o quanto o Surfista se importa com os humanos, o quanto gostaria que nós pudéssemos ter a capacidade de enxergar a vida com a mesma importância que ele enxerga; o quanto os humanos, mesmo com os mais diversos defeitos, ainda merecem a bondade e a paz.

Durante a conversa, o Surfista fala para Peter como é maravilhosa a sensação de liberdade que tem ao percorrer o cosmos com sua prancha e pergunta se o mesmo gostaria de experimentar. A escolha, contudo, acaba sendo de dar a oportunidade a outra pessoa: Mary Jane.

Após retornar de sua viagem transcendental, faltam palavras para M.J. relatar o que sentiu: a vivência, mesmo que por pouco tempo, do poder de Norrin, já foi suficiente para que a jovem se sentisse completamente livre, extasiada, e deslumbrada com o poder cósmico emanado pelo Sentinela, e que à ela foi concedido. Enquanto o Surfista se despede, Peter lhe diz que tem uma resposta para a pergunta que lhe fez mais cedo:

“Eu lhe disse que as pessoas não podem mudar o que são enquanto e a não ser que entendam o que podem ser. A não ser que elas saibam e sintam em seus corações. Se ele pôde estender o poder cósmico à M.J. e deixá-la sentir o que ele sente, deixá-la experimentar o tipo de liberdade que ele experimenta, deixá-la ver o mundo como ele vê… toda beleza, com o prospecto de paz sempre no centro disso… então não seria possível, por um mero momento, deixar o mundo todo sentir como isso é?”

E assim Norrin o faz. Em um esforço homérico, cede, por 5 minutos, seus poderes à todos os habitantes do planeta Terra, permitindo que toda a humanidade sinta o que ele é capaz de sentir, e que desfrute de toda a liberdade e entendimento que o Surfista Prateado possui. Em todos os cantos, por mais remotos que fossem, as pessoas foram agraciadas com o seu poder; em prisões, em lugares tristes e sem esperanças, em zonas de guerra e campos de tortura, a força do Sentinela das Estrelas conseguiu alcançar todas as almas humanas; nesses meros 5 minutos, a humanidade finalmente soube  – e Norrin também – o que é a paz e a esperança.

Stephen Strange e a batalha espacial

Logo antes de sair da Terra, Norrin é surpreendido com a presença de Stephen Strange, que diz estar ciente de sua condição graças a Reed. Nesse momento, soubemos através do Mago que as maiores mentes do universo Marvel estavam trabalhando para encontrar uma cura para o Surfista, embora não tenham obtido sucesso. Mesmo sem encontrar uma solução para o terminal problema, Stephen entrega ao amigo uma chama com todo o conhecimento da humanidade, dividida em duas partes: uma referente à vida na Terra antes da vinda do Surfista, e outra que foi criada após a sua chegada. Dessa maneira, além de uma forma de agradecimento por tudo que o Norrin havia feito em prol de seu lar adotivo e de seus habitantes, o Surfista teria noção de tudo de bom que conseguiu realizar com sua presença no nosso planeta.

Agora viajando pelo espaço e com destino à seu planeta natal, Zenn-La, Surfista se depara com um chamado vindo de uma grande nave. Ao adentrar o local, se depara com dois líderes, ambos de raças diferentes, que conversavam avidamente a respeito da guerra que ocorria há mais de 50 gerações entre seus povos. Os líderes, que tinham o conhecimento de que Norrin havia sido um arauto de Galactus, esperavam que o Surfista dissesse qual das raças estava mais evoluída, tendo em vista que se desenvolveram de forma paralela.

O grande ponto desta edição é o motivo pelo qual as duas raças estão brigando: intolerância. Por serem mundos que orbitavam a mesma estrela e que por eras não foram capazes de viajar de um planeta para outro, esperavam que o outro lado tivesse as mesmas crenças e dogmas. Contudo, quando conseguiram finalmente visitar seus conterrâneos, descobriram que eram completamente diferentes; tinham outros deuses, outros templos e outras ideologias. Dessa forma, ambas as raças decidiram investir anos e anos em armas de guerra, usando todos os recursos disponíveis e exigindo um enorme sacrifício das suas populações, no intuito de que um dia pudessem se enfrentar e impor o seu entendimento sobre o outro.

Durante gerações, a guerra se perpetuou, sendo mantida independente das mortes ou perdas. Os templos religiosos eram cada vez mais pomposos e engrandecidos, enquanto a população padecia. Ao saber desses fatos, Norrin questiona os líderes que o convocaram, perguntando qual o sentido de sacrificar o povo em nome de um conflito sem fim, e, porque, mesmo com toda a guerra que ocorria, os dois representantes estavam ali, sentados, conversando como se suas populações não estivessem sendo dizimadas em nome das desavenças.

Seguindo seu ímpeto de justiça e caráter, Norrin decide ele mesmo por um fim na interminável guerra. Destruindo as frotas armadas e, consequentemente impedindo os dois povos de se atacarem, partiu em direção aos planetas, um de cada vez. Com a intenção de mostrar que nenhuma das raças era superior à outra, destruiu seus templos até então invioláveis, fazendo com que as populações entendessem que haviam sido exploradas em prol de um conflito sem razão. Nesse dia, os povos finalmente se rebelaram contra seus líderes, e a “guerra sagrada” deu lugar à “paz sagrada”.

Como sua última mensagem, Norrin transmite seu suspiro de esperança e liberdade àqueles que antes estavam presos às amarras da dor e do sofrimento, mostrando que a violência da guerra jamais emergiria novamente.

“Se lugares sagrados são poupados das devastações da guerra, então façam de todos os lugares sagrados. E se o povo santo é mantido ileso da guerra, então façam de todos os povos santos”.

Zenn-La

De todos os destinos possíveis e existentes, dentre todos os mundos habitados pelas mais diversas raças e banhados pelas mais brilhantes estrelas, Zenn-La é aquele que outrora foi o berço da vida – e agora o leito da morte – do solitário Surfista Prateado. Desejando encontrar com sua amada e com seu povo, Norrin chega à sua terra natal, depois de viajar pelos confins do espaço. Seu estado terminal já é notável, e seus dias se tornam ainda mais curtos; mesmo empreendendo esforços para descobrir uma possível cura, os habitantes do planeta não encontram nada que sua ciência seja capaz de desenvolver.

Contudo, Norrin não foi à sua casa apenas para morrer: ele está em Zenn-La para viver seus últimos instantes. Já tendo aceitado e entendido seu destino, o Surfista quer aproveitar o tempo que ainda lhe resta ao lado daqueles que ama; quer garantir que, independentemente da sua morte, sua amada, Shalla-Bal, ainda será feliz.

Com o passar dos dias, a notícia do retorno de Norrin – e de sua morte iminente – se espelham pelo planeta. Os habitantes, como forma de agradecimento à tudo que o Sentinela fez em defesa do seu povo, prestam suas últimas homenagens, indo ao encontro do agora frágil Surfista. Em meio às despedidas, o planeta é novamente surpreendido, mas agora com a chegada do temido Galactus. Este, contudo, não tem a intenção de infligir nenhum mal àquelas pessoas: sua intenção é, assim como a de todos, poder se despedir do seu antigo arauto.

Ao conversar com Norrin, é lhe oferecida por Galactus uma tentativa de cura, afirmando, porém, que não sabe esta irá ou não funcionar. Mesmo com a oferta, o Surfista, que já fez de sua morte parte da sua jornada, nega; em contrapartida, pede ao seu antigo mestre que jamais tente destruir ou consumir o planeta, deixando que Zenn-La e seu povo vivam em paz.

E é com a promessa de Galactus que Norrin, finalmente, descansa. Entregando seu padecido corpo ao incontestável destino, o Surfista Prateado falece, deixando que sua alma siga para o plano do desconhecido. Pelos próximos três dias, Galactus permaneceu no planeta, velando o corpo de seu velho arauto juntamente com o povo que jurou proteger. Como uma última forma de honrar seu amado, Shalla-Bal pede ao Devorador de Mundos que, quando este partir e alcançar uma boa distância de Zenn-La, transforme o corpo de Norrin em uma estrela. E assim é feito.

Agora imortalizado como um astro brilhante, Norrin Radd virou a lembrança – e a esperança – de que tempos melhores sempre virão. Ao olharem para o céu noturno, os habitantes de Zenn-La se recordarão daquele que fez de sua jornada a própria busca pela paz, imortalizando a perseverança e a luta pelo que é certo.

“Quando ele morrer, leve-o e o corte em pequenas estrelas… e ele deve fazer a face do céu tão bela, que todo o mundo se apaixonará por esta noite, e não irão fazer adoração para o sol extravagante”. – Shalla-Bal


Mais do que uma indicação para fãs do personagem, Requiem é uma obra de arte que deveria ser lida e relida por todos. Sem a necessidade de conhecimentos prévios do Surfista Prateado ou mesmo do cânone da Marvel, essa graphic novel consegue entregar com uma maestria excepcional a mensagem que deseja passar. Como é de costume em histórias do Sentinela das Estrelas, a filosofia existencial e momentos profundamente reflexivos tomam conta das páginas, nos fazendo sentir, a cada palavra, um pouco do poder cósmico que os humanos experimentaram na história. Apenas leia… e sinta, por você mesmo, toda a lufada de esperança e liberdade que Norrin Radd sentiu em seus anos de vida.

Nota: Diamante.

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Love, Death & Robots Vol.2, a incompreensão da arte em sua pior forma

Desde o lançamento de seu primeiro volume, ‘Love, Death & Robots’ havia se tornado uma série querida pelos fãs apaixonados nas ideias e criações totalmente singulares da Netflix. Com isso, o anseio para seu segundo volume era estrondoso. Infelizmente, toda essa expectativa é quebrada, mas com classe.

Contando com apenas oito episódios, com sua duração mais longa de 18 minutos, é difícil explicar como essa temporada consegue decepcionar tanto, em comparação a  sua anterior. Mas uma coisa é clara, quase nada explorado aqui é memorável. Enquanto em sua última temporada tivemos ‘Os Três Robôs’, ‘A Testemunha’, ‘Boa Caçada’ e ‘Zima Blue’ – que são celebrados até hoje como uma das melhores produções da Netflix – nessa temporada temos apenas quatro episódios consideravelmente marcantes: ‘Esquadrão de extermínio’, ‘Snow no Deserto’, ‘A Grama Alta’ e ‘Pela Casa’. Os dois mais longos, e os dois mais visualmente bonitos e criativos.

Já os outros episódios, precisam de uma análise mais detalhada, mas todos têm sempre duas coisas em comum: Estilos visuais desagradáveis e em alguns pontos, psicologicamente repulsivo. E histórias que não se encaixam em uma narrativa nem um pouco sólida. Começando a falar por sua arte,  é um ponto extremamente delicado, já que muitos pensadores consideram a arte como algo que tem sua necessidade de incomodar – como diz o escultor Gormley: “(…) a arte que faz você se sentir cômodo provavelmente é artesanato, não arte” (ESTADÃO, 2008). Sim, a arte tem esse papel fundamental para passar uma mensagem, mas aqui não passa nada, vemos apenas estilos artísticos desproporcionais em momentos desnecessários e mal executados; a utilização exagerada de CGI e um simples vazio criativo. Se usarmos o exemplo do episódio da primeira temporada, ‘ZIMA BLUE’, entendemos o motivo de seus traços e animação, aqui é apenas algo jogado, qual o esforço da arte aqui? Um incômodo barato é a mesma coisa que uma diversão sem alma. Esse é o paradoxo do artista pretensioso.

Já no uso de CGI, isso fica claro no episódio ‘Gaiola de sobrevivência’, estrelado por Michael B. Jordan. Em momentos, você não consegue diferenciar se está vendo o ator na cena, ou se ele é um personagem virtual com gráficos de um videogame. Isso causa uma confusão mental totalmente desnecessária. E o episódio também não tem uma história nada convincente.

Felizmente, temos episódios que salvam o que foi quase perdido. Em história, temos ‘Snow no Deserto’, que lembra muito um universo de ‘Star Wars‘, caçadas intergalácticas e que realmente prende a atenção – e tem a fotografia mais bonita da temporada. ‘Esquadrão de extermínio’ é totalmente inspirado no universo revolucionário de Ridley Scott e Phillip K. Dick, ‘Blade Runner’, e traz uma discussão filosófica ao nível de sua maior referência (até visualmente temos semelhanças, como o mundo e a cena final de ‘Blade Runner 2049’).

 Já os episódios ‘Grama Alta’ e ‘Pela Casa’ conquistam por seu estilo de animação digno do nome de sua série. Vemos o uso de uma animação 3D que se parece com uma pintura em movimento, que ao mesmo tempo parece um stop-motion, é um mistério, igual a história apresentada aqui. Já em ‘Pela Casa’ vemos um claro stop-motion muito bem feito, cada detalhe e o uso da iluminação foi feito com maestria. Esses episódios mostram como a arte tem que ser usada, como ela funciona.

Em um geral, a transição entre polos no segundo volume de Love, Death & Robots é perceptível e triste, com uma primeira temporada tão promissora, é difícil não se decepcionar com o que apresentaram aqui. Talvez possa ter sido um corte de orçamento massivo, ou uma falta de atenção, ter perdido dez episódios talvez seja o que comprometeu a experimentação psicótica e harmônica que seus fãs queriam.

Nota final: 2/5 – Prata

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Gameplay

Resident Evil: Village e o Retorno Triunfal da Franquia

Resident Evil é uma das franquias mais famosas no mundo dos videogames. Passando por diversas decepções como o sexto título da franquia, o jogo inovou em sua gameplay com o lançamento de Resident Evil 7 em 2017, apresentando-se em primeira pessoa e retomando as origens do survival horror com características de jogos fluentes na época, como Outlast.

No jogo acompanhamos uma nova história com Ethan Winters, um civil que vai em busca de sua mulher desaparecida. Essa jornada o leva para uma mansão que aparentemente estava abandonada, mas que na realidade estava habitada pela família Baker. O sétimo título da franquia dividiu a opinião dos fãs: enquanto alguns achavam que a essência da franquia havia retornado, outros desaprovaram a câmera em primeira pessoa e o excesso de gore e terror, fazendo com que consequentemente estes dois elementos fossem reduzidos na sua continuação. Inclusive, este foi o jogo da franquia que menos obteve lucro no Japão.

No Metacritic, 'Resident Evil Village' se torna um dos jogos mais bem avaliados da franquiaAgora, alguns anos se passaram desde os eventos do jogo anterior e Ethan Winters vive tranquilamente com a sua esposa, Mia. Ambos estavam construindo uma vida nova com sua filha, Rose, até que Chris Redfield surge e muda a vida dos dois. A partir disso, Ethan se vê em um vilarejo estranho e irá precisar combater os novos monstros da franquia para resgatar sua filha. Sendo uma continuação direta de Resident Evil 7, a trama agora apresenta mais detalhes acerca do universo apresentado no seu antecessor e explora bem os novos personagens inseridos na franquia, seja por meio de diálogos ou documentos – coisa que o título anterior não fez de forma correta.

Por si só a história já consegue ser mais cativante do que a do título anterior – mesmo que o plot inicial seja relativamente semelhante, é diferente do seu antecessor  em diversos aspectos. Enquanto a história de Resident Evil 7 tem um início lento e gradual onde o seu ápice é focado apenas em gore, neste em seus dez minutos iniciais já somos apresentados ao que está por vir em uma sequência de tirar o fôlego e que gera diversas perguntas ao jogador. E em suma, a trama é isso: inúmeros mistérios que surgem a cada momento e provocam uma busca desenfreada pelas respostas, que revela mais ameaças e áreas para se explorar.

Infelizmente o jogo não está livre de momentos tediosos e monótonos em algumas ambientações. Entretanto, no fim das contas, cumpre seu papel e acaba prendendo o jogador do início ao fim. A duração do jogo é relativa, a minha primeira jogatina foi na dificuldade média e explorei o máximo possível dos cenários, demorando cerca de 19 horas registradas na Steam para concluir o jogo.

Resident Evil Village ganha data de lançamento e gameplay para PS5 | Jogos de terror | TechTudo

Outra melhora observada é que, enquanto em seu antecessor os personagens passavam despercebidos (onde o próprio protagonista não era carismático, não tinha rosto e apresentava poucos diálogos), no atual não só o personagem principal como os demais – incluindo alguns vilões da trama – apresentam um certo desenvolvimento e mais diálogos, cativando o jogador e trazendo uma importância aos mesmos. Ethan agora apresenta um rosto, diálogos em todos os momentos com reclamações e comentários sarcásticos a respeito do que está acontecendo. Além disso, sua motivação é clara e é impossível não se ligar aos sentimentos do protagonista e ao seu amor paterno pela Rose.

A partir desse ponto entra uma das decepções do jogo: Lady Dimitrescu. O marketing do jogo deu um foco absurdo em uma das vilãs enquanto durante a jogatina sua presença é bem rápida e não provoca nenhuma sensação ao jogador. Juntando isso ao final medíocre da personagem, ela se torna apenas uma personagem secundária que não foi aproveitada na franquia.

Fica nítido que Resident Evil: Village é um somatório de todos os acertos feitos nos remakes da empresa e no sétimo título junto com as correções que deveriam ter sido feitas nos respectivos jogos.

Impressões: Resident Evil Village relembra atmosfera de RE4

Village pode ser definido como uma junção entre a ambientação e a ação presentes no Resident Evil 4 com a jogabilidade de Resident Evil 7. O jogo se passa em grande parte do tempo no vilarejo semelhante ao que Leon Scott Kennedy visita em seu título, trazendo nostalgia para a jogatina. Conforme você progride, novas ambientações são desbloqueadas sendo elas o local de cada boss do jogo. Todos os cenários são bem feitos e apresentam detalhes impressionantes mas os destaques mesmo são o vilarejo e a casa Beneviento, sendo este último um dos melhores momentos do jogo. Enquanto isso, tal como a personagem o cenário que mais deixa a desejar mesmo é o castelo da Dimitrescu.

Os gráficos do jogo são os mesmos observados nos remakes e no anterior, sendo bem otimizado e rodando tranquilamente em computadores com placa de vídeo integrada no processador – entretanto, o desempenho pode ser comprometido em processadores da AMD segundo os testes realizados e relatos vistos na internet.

Resident Evil Village - PC - Buy it at Nuuvem

Os puzzles do jogo intercalam entre serem bons, exigindo certo raciocínio e entre serem um pouco arrastados em determinados pontos. Os novos inimigos da saga apresentam visuais únicos e apresentam uma IA excelente se comparado com outros jogos da franquia, apresentando um certo nível de desafio e dificuldade principalmente por parte dos chefes. A jogabilidade do título é a mesma apresentada no anterior, com novidades que foram bem-vindas: agora os itens importantes para progressão são separados do inventário normal, não ocupando espaço e há como fazer upgrades no personagem.

Outra novidade é o retorno do modo The Mercenaries, sendo a mesma coisa apresentada nos títulos anteriores: você precisa eliminar um determinado número de inimigos no tempo estipulado para ganhar pontos e desbloquear itens e habilidades para o personagem. Este modo é extremamente nostálgico e divertido para passar o tempo, prolongando a vida útil do jogo.

De fato o único problema observado durante a jogatina foi a dublagem dessincronizada: o áudio, independente da linguagem selecionada, apresentou-se adiado em relação a legenda e a cutscene. Ignorando esse problema que comprometeu um pouco a experiência, o restante do jogo fluiu bem e sem quedas de FPS ou travamentos mesmo utilizando uma placa de vídeo integrada. Até o momento desta análise, o problema não foi corrigido.

More On Chris Redfield's Significant, Darker Role In Resident Evil Village - Game Informer

Então, é bom?

Por mais que certos elementos estejam ausentes neste novo título, Resident Evil: Village acaba sendo o resultado de uma soma onde as variáveis são todos os acertos dos títulos anteriores e, assim, consegue se tornar excelente. Juntando a mecânica do sétimo com a ambientação do quarto, o título consegue transportar o jogador e dar ao mesmo uma imersão na pele de Ethan Winters mesmo que, em alguns momentos, o seu decorrer seja monótono.

De fato o único problema observado durante a jogatina e que afeta levemente a mesma foi o áudio dessincronizado com as cutscenes – desconsiderando isso, tudo o que foi prometido está devidamente entregue neste título. O título está longe de ser o melhor da franquia, mas sem dúvida alguma marca o retorno triunfal da franquia ao ser nostálgico com os elementos do quarto jogo e se consolida como o maior acerto da empresa nesses últimos anos.

Apresentando uma ambientação de tirar o fôlego junto com uma trama sólida e que prende o jogador, Resident Evil: Village é indispensável aos fãs da famosa franquia da Capcom.

Nota: 4/5 – Ouro

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Deus em Pessoa está dentro, fora e no meio de nós

Cada indivíduo guarda dentro de si sua versão a respeito de Deus. Independente do “ismo” religioso que a pessoa escolhe seguir ele está lá. Inclusive se seu “ismo” começar com “ate” pois, afinal de contas, até para não acreditar é necessário ter uma noção do que se escolhe não seguir. Independente do nome ao qual você usa para designá-lo, Deus de fato está em todos os lugares e inclusive nas HQs, onde mesmo no mercado nacional já foram feitas tentativas de quadrinhos religiosos como Anjos de Deus, Smilinguido e o recentemente afamado Dudão, que apesar sua produção datar de meados dos anos 90, ganhou notoriedade em 2020 não só pelo seu conteúdo, mas também pela representação física dos personagens.

Porém, em Deus em Pessoa, o nosso famoso Divino aparece em sua forma definitiva. Finalmente o Todo Poderoso ressurge no meio de nós e, como consequência, tem um inestimável número de perguntas para responder, principalmente por sua suposta ausência tão duradoura.

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Aqui, Deus vive no mundo real finalmente entre nós. Mas, diferente da bíblia, sua maior criação já não é mais a mesma. Mais do que isso: o retorno do Senhor estimula o lado consumista do ser humano. Sua volta promove o lançamento de parques de diversões, livros, enfeites natalinos, pelúcias, jogos de quebra-cabeça e etc. Mas, por incrível que pareça, nada disso é muito diferente do que já vemos em nossas vidas, pois afinal de contas muitos já usam a religião como forma de exploração comercial.

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Como já dito, cada um tem sua interpretação específica do Eterno, que durante toda a HQ de Marc-Antoine Mathieu não tem seu rosto revelado e curiosamente, nenhuma religião ou seita específica é retratada durante toda a narrativa. Não vemos destaques a padres, pastores, rabinos ou qualquer outro líder por mais que, aqui na terra, são os maiores difusores de suas palavras sagradas. Isso não interessa em primeiro plano, mas sim a versão mais simples de interpretação individual.

A estrutura gráfica deste título é, perdão pelo trocadilho, bem conservadora. O traço de Mathieu é simples e as únicas cores usadas são preto, branco e cinza. Mas nada disso é um demérito ao fim das contas, pois o forte da narrativa está em seu texto repleto de reflexões profundas e filosóficas sobre a ciência, sociedade e religião. Assim como em seus ensinamentos expressos nos livros sagrados, a palavra torna-se protagonista em Deus em Pessoa.

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A edição a Comix Zone mantém o padrão de seus títulos anteriores. Para uma editora ainda jovem, é louvável a manutenção de um lançamento diferente a cada mês e ainda com a mesma qualidade em edição e acabamento. Neste último quesito, vale como menção o trabalho feito principalmente nas páginas 29 e 30, onde a tradução dos textos expressos nas placas protesto e capas de jornal foram totalmente traduzidas e adaptadas ao nosso idioma e na página 59, onde diversas fontes próprias tiveram que ter suas letras adaptadas para a escrita da mesma palavra, no caso, Deus.

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Para a editora, vale a pena apostar mais em títulos franco-belgas, pois esse é somente o segundo lançado até agora pela Comix Zone. Apesar da já citada jovialidade da editora, essa escola de HQ ainda tem um bem menor número de lançamentos se comparados aos quadrinhos argentinos lançados pela mesma. Igual David Byrne nos anos 90, a CZ faz um ótimo trabalho descobrindo a América tal qual Cristóvão Colombo e Vicente Pinzón, mas ainda falta uma maior exploração no Velho Mundo, e é esperado que Deus em Pessoa marque essa retomada que se iniciou em Boca do Diabo e que se espere que não fique só nesses dois títulos.

Deus está vendo. Está por aí, por aqui, por acolá ou dentro e fora de nós. Ele está inclusive nas nossas HQs, seja em seu conteúdo ou no material utilizado para sua confecção. Não adianta tentar retira-lo de sua cabeça, pois quando se menos esperar ele aparece de surpresa, assim como nessa obra.

Deus em Pessoa
Marc-Antoine Mathieu (roteiro e arte)
Érico Assis e Fernando Paz (tradução)
Audaci Júnior (revisão)
128 páginas
29 x 21 cm
R$79,90
Capa Dura
Comix Zone
Data de publicação: 03/2021

 

 

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Detective Comics Quadrinhos

O Imortal Hulk: Os monstros condenados

Para aqueles – como eu – que nunca colocaram a mão em uma revista do Golias Esmeralda, O Imortal Hulk, da dupla criativa Al Ewing e Joe Bennett, é, além de ótima porta de entrada, uma obra precisa ao explorar as raízes da humanidade e destrinchar o sentido, a razão e o fardo de ser humano (ou monstro?). A escrita ágil e a arte incomparável são as principais razões da qualidade surpreendente do material, que não só fará qualquer curioso se interessar a explorar o vasto universo do personagem, como também servirá de comparação para obras futuras e passadas.

Sem ter qualquer contato com materiais do Hulk, houve um receio inicial ao comprar as primeiras seis edições lançadas até a data desta publicação pela editoria Panini; pelo simples fato de um dos personagens que menos me atraiu no universo dos heróis ser o título da revista. Embora nunca tivesse motivos para desgostá-lo, Hulk nunca foi foco da minha atenção e tampouco do meu tempo de leitura, e as histórias provenientes dele ficavam fora do radar, sem contar o seu universo riquíssimo que foi deliberadamente negligenciado por mim. Contudo, a experiência elucidou o quanto estava errado sobre o personagem-título.  Isto prova o brilhantismo da linha comandada por Ewing e Bennett; ambos construíram uma trama tão atraente, complexa e reflexiva, que mesmo o cara mais desinteressado ficaria com os olhos vidrados da capa à quarta capa.

Essa foi minha experiência ao ler O Imortal Hulk, que ainda não foi finalizado – e no Brasil está um pouco atrás das publicações americanas por conta da distribuição, fator comum aos leitores brasileiros cientes das dinâmicas do mercado de quadrinhos no país. Todas as edições contam com um trecho inicial, que simplifica os temas abordados no quadrinho e promove uma marca registrada e exclusiva de edição por edição, dando importância às suas individualidades e abordagens, enquanto algumas priorizam a ação, principalmente quando os Vingadores, a Tropa Alfa e a Base Sombra aparecem, outras partem para construções filosóficas – marcadas por tentativas de conceber e interpretar imagens sobrenaturais e divinas -, além daquelas que fogem um pouco dos temas principais, e demonstram a inventividade da dupla pela alternância dos traços e do conteúdo, como a terceira revista, que trabalha com relatos fragmentados de um mesmo caso específico suspeito da presença do Hulk.

Homem, Monstro ou… ambos? Eis a primeira pergunta do quadrinho, eis o legado de Bruce Banner… conviver com um monstro interior que desperta à noite, mas de dia o atormenta – e o reflexo de vidro é um ótimo artifício para ilustrar o conflito de sua identidade. Porém, as escolhas artísticas acabam favorecendo a presença do Hulk em detrimento de Banner, com visual assustador; um monstro em forma de demônio verde. A arte de Joe Bennett é a razão para O Imortal Hulk ser tão aclamada pela crítica e público. Através do roteiro de Ewing, o quadrinista retorna às raízes do personagem para desenhá-lo da maneira mais assustadora e terrível possível. Hulk é um monstro? Demônio? A outra face de Deus? Diabo? Maldição? Bem, toda maldade grotesca – e bondade aparente – imaginável cabe para descrever as figuras traçadas por Bennett.

A exploração física dos membros, dos músculos e das transformações do Hulk é outro ponto para se prestar atenção. E as escolhas sempre trabalham a favor da história a ser contada; quando Hulk se assemelha ao herói comum, que busca trazer justiça (um tanto quanto distorcida), sua representação é grandiosa, peito estufado, a clássica imagem do personagem. Contudo, quando ocasiões mudam sua aparência (absorção de radiação, mega explosões, secreções digestivas que drenam energia) a imagem do Hulk se transforma em algo grotesco, lembrando um demônio em pé.

E a dinâmica entre os artistas fica ainda mais evidente em momentos pontuais; quando Hulk está no inferno com a radiação absorvida, como se estivesse sofrendo uma punição divina, um julgamento moral e religioso, seus músculos enormes dão espaço para sobras de pele, penduradas pelos ossos finos, e mesmo assim sua ânsia por violência o faz lutar bravamente e incansavelmente, confundido-se com um morto-vivo. Há outras sequências que o tornam como um espantalho, pernas, braços e olhos arrancados, enquanto em outras seus membros são divididos em prol de experimentos. É absolutamente agonizante e igualmente extraordinário, uma arte de tirar o fôlego restitui a figura monstruosa do Gigante Esmeralda.

Essa mesma arte colabora com a construção narrativa de toda a saga do Imortal Hulk. A exploração física de Hulk é proporcional à exploração psicológica de Banner; a pergunta Homem, Monstro ou… Ambos? é, desta maneira, o condutor das opções de Ewing. Qual é a maior atribuição de Hulk? O físico. E a de Banner? A mente. Dessa forma, as maiores notoriedades de ambos tendem a ser desmembradas e exploradas por Ewing, em uma jornada que julga – ao mesmo tempo que venera – as figuras do homem e do monstro. Hulk é a sombra, o reflexo do homem, que surge à noite; soa como maldição, pagamento dos pecados de Banner, mas também soa como milagre, um dom único, já que a essência de Hulk é – por Ewing e Bennett – naturalmente dúbia (repare as distinções entre a mão esquerda e direita de Deus).

Se a essência de Hulk é dúbia, os nossos temores a ele também seriam? O medo das pessoas é devido à sua monstruosidade, capacidade destrutiva, ou há um componente de inveja humana? Afinal, a capacidade de exteriorizar demônios e emoções, vista como fardo e milagre, se tornou inerente a Banner, sendo assim, o medo pelo Hulk não é apenas por representar uma ameaça física e psicológica, mas ser a prova frustrante da nossa incapacidade enquanto humanos: não podermos, nem um dia sequer, nos transformarmos em nossos próprios reflexos.

Pensando na perturbada mente de Banner, que compartilha-a com outras identidades, o quadrinho aborda a inquietude e o tormento do protagonista – desde elipses por conta de trocas de identidade, quando o quadrinho apenas salta de um momento para outro sem explicação, até a maneira quando os pensamentos, tanto de Bruce como de outros personagens secundários, se intercalam com as sequências de ação, do seu desenvolvimento ao desfecho. As próprias citações iniciais também são exemplos de como Ewing traça o tom da edição com certo estilo de contexto, variando da literatura à religião, do cinema ao teatro, flertando com lições da psicologia analítica.

Nota-se como o artigo tem mais perguntas do que respostas concretas. Isso ocorre de forma semelhante no quadrinho. Em nenhum momento, pelo menos até onde li, os autores resolvem seus raciocínios e julgamentos, apesar de apresentarem respostas possíveis. Não batem o martelo, levantam questões, criam e desenvolvem dúvidas pertinentes que acompanham os pensamentos de Banner e do leitor. Há um movimento contemporâneo nos quadrinhos de herói, pegando o exemplo do roteirista Tom King, que é de explorar mais a humanidade nas histórias de heróis; enquanto King gosta de experimentar uma relação íntima com o fã, através da emoção e dos dramas dos personagens, a dupla trata de trazer questionamentos constantes, que colocam em xeque a própria humanidade do leitor.

Ewing e Bennett traduzem questões reflexivas contemporâneas em um ótimo quadrinho de ação, aventura e terror. Enquanto a ação e a aventura estão ao longo da história, o terror circunda por fora ao enaltecer e insistir nas perturbações de Banner e explorar sua relação com o Hulk, partindo de argumentos, citações e alegorias religiosas, filosóficas e políticas. Se Banner parece estar condenado a viver para sempre em seu confuso e tenebroso universo pessoal, o quão diferente nós somos dele, ao compartilharmos um fardo tão semelhante quanto viver neste mundo?

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Tela Quente

Meu Pai e a Brilhante Atuação de Anthony Hopkins

Baseado em uma peça de teatro escrita por Florian Zeller – sendo este também responsável pela direção do longa, Meu Pai concorreu a seis categorias do Oscar, incluindo a principal de Melhor Filme, e levou duas estatuetas: Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator para Anthony Hopkins.

Na trama acompanhamos Anthony (interpretado por Anthony Hopkins), um senhor de 81 anos que mora sozinho e não aceita os cuidadores que sua filha Anne (interpretada por Olivia Colman) contrata. Após um tempo sua filha decide se mudar para Paris com o namorado e os cuidados se tornam mais necessários do que nunca. Anthony reluta a aceitar a situação enquanto precisa lidar com sua perda de memória provocada pelo  Alzheimer, que fica pior a cada minuto de exibição. The Father (Florian Zeller)

O grande destaque em Meu Pai é que durante toda a exibição do título somos intrigados com a fragmentação que ocorre na montagem do filme, com partes de memórias soltas e outras situações inusitadas. Assim como o nome da película sugere a trama é focada completamente na narrativa do pai e, por mais que tenhamos contato também com os sentimentos de sua filha através de cenas isoladas, somos imersos apenas à sua visão da história.

Como dito acima, a história originalmente foi escrita para o teatro e sua adaptação é feita com maestria ao utilizar os elementos técnicos que apenas o cinema proporciona, tais como a montagem, a iluminação, a fotografia e outros pequenos detalhes que somados contribuem para contar uma história tão delicada de forma que o telespectador se sinta tocado pela mesma.

Crítica - The Father (Meu Pai) - Noite de Oscar

Por fim, acaba que o longa se torna uma experiência sensorial onde o telespectador presencia o retrato da demência por meio dos olhos de Anthony. A cada cena que se passa, a confusão aumenta e o telespectador se sente angustiado ao querer encaixar as peças do quebra-cabeça exibido em tela e vulnerável até chegar no desfecho da trama. Zeller construiu sua adaptação com a perfeição que a sétima arte poderia provocar, e é digno de aplausos.

O elenco do título, composto por excelentes nomes, também contribui bastante para essa experiência. O destaque vai para a interpretação brilhante de Anthony Hopkins como o protagonista, conseguindo transmitir com excelência toda a confusão gerada pelas cenas tumultuadas e toda a angústia provocada pela doença. Além disso Olivia Colman está fenomenal interpretando sua filha, passando com clareza os sentimentos envolvidos perante a situação com seu pai. Hopkins de fato mereceu o prêmio de Melhor Ator: sua atuação neste longa é brilhante e merece toda a atenção possível.

The Father | Rob's Movie Vault

Então, é bom?

Meu Pai é um longa incrível que apresenta uma história comovente, tocante e única. Anthony Hopkins atua de forma brilhante e conduz a história com maestria em conjunto com Olivia Colman e todos os outros personagens secundários, adaptando de forma perfeita o material original. Sem dúvida alguma é um longa que merece ser enaltecido e deve ser visto por todos com a devida atenção.

Nota: 5/5 – Diamante

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Anime Pagode Japonês

Vlad Love é uma declaração de amor ao caos

Clichês são, de certa forma, o ápice da literatura. Afinal, para que algo se torne um clichê, ele precisa ser usado à exaustão, e só existe um motivo para quererem usar algo tanto assim: Essa coisa precisa ser boa. Quando chegamos no patamar de clichê, porém, a necessidade de inovação se torna maior e mais importante, fazendo com que mudanças e reviravoltas precisem ser adicionadas ao seu roteiro. Um exemplo clássico disso são as velhas histórias de vampiro. Desde “The Vampyre“, tivemos diversas pessoas tentando fazer algo novo: Bram Stoker, Stephenie Meyer, Jorge Fernando…

E como o nome sugere, “Vlad Love” é uma história de vampiro. Ao menos, é a ideia que ela tenta te passar. Só que dessa vez, o destaque está na reviravolta que precisa existir para saírmos do clichê: Existem coisas pequenas e existem coisas grandes. Existem coisas enormes, e existem coisas colossais. E, acima de tudo isso, existe seja lá o que aconteceu nesse show.

A sinopse e o trailer, ambos cortesia da Crunchyroll:

Mitsugu Bamba é viciada em doar sangue, e visita bancos de sangue tão frequentemente que chega a atrair a inimizade das enfermeiras. Certo dia, Mitsugu encontra uma bela garota que parece ter vindo do exterior. Ela é tão pálida que parece prestes a desmaiar, então Mitsugu decide levá-la pra casa…

Para entender o que, e principalmente, o como isso sequer saiu do papel, precisamos conhecer o responsável (ou “culpado“, se preferir) por tudo: Mamoru Oshii.
Atualmente o meu diretor predileto, esse homem é responsável não apenas por títulos que você conhece, mas também por difundir uma boa parte dos diversos esteriótipos de animê que são usados até hoje.
Como cineasta, dirigiu filmes que quebraram recordes, como Ghost in the Shell (1995, com sequência em 2004) e Patlabor (1989, com sequência em 1993). Para o nosso contexto, porém, creio que seu maior mérito esteja em Urusei Yatsura, animê de 1981, que é a própria definição do gigante naquela famosa frase de Isaac Newton, sobre “ver mais longe“.
Se esses nomes não te deram contexto nenhum, significa que você não está familiarizado com esse lado da internet, e, muito provavelmente, “Vlad Love” seria um baque grande demais pra você suportar.

Por mais incrível que possa parecer, esse nem é o clube mais esquisito da escola

Aí você pega um diretor que, pelo histórico que tem, sabemos que gosta de fazer coisas absurdas e impensáveis… e dá a ele carta branca para fazer o que ele quiser, do jeito que ele quiser. Como foi um animê completamente patrocinado por uma única empresa privada, Mamoru Oshii recebeu o dinheiro e teve a liberdade de simplesmente fazer o que diabos ele tivesse afim. Ele não precisava ser coeso, ele não precisava criar algo que fizesse sentido. Ele podia apenas fazer por fazer. A habilidade – e, talvez, a possibilidade – de criar tantas tangentes quanto ele quisesse é, indubitavelmente, a própria essência de o que é o “caos“. E a frase anterior é pomposa de propósito.

Não vou contar tudo o que acontece na animê, para você ainda ter a chance de viver essa experiência surreal em primeira mão, mas só para te dar uns exemplos: Temos desde referências a quadrinhos avant-garde da década de 60; pausas de vários minutos para ler artigos da Wikipedia sobre assuntos diversos; Escolhas artísticas e visuais que são ousadas até mesmo para o próprio Mamoru Oshii… São coisas tão absurdas que quando chegamos na violência gratuita, nas quebras de quarta parede e nas piadas com direitos autorais, elas parecem até normais demais.

Por mais incrível que possa parecer, essa nem é a pausa para ler um artigo da Wikipedia mais esquisita do show

O resultado é que, em sua essência, Vlad Love não é uma história. O animê é apenas um delírio coletivo, uma alucinação liderada por um homem louco e que não tem nada a perder, e que está disposto a entregar uma experiência surrealista e irracional para qualquer pessoa insana o bastante para querer recebê-la. Ao abraçar o caos em sua mais pura forma, o show se torna a própria definição de “comédia“, ao ser completamente impossível de se prever, tal como dita o terceiro princípio do gênero.
E, se não conhece os três princípios da comédia, um outro show pode te apresentar ao conceito: “A Destructive God Sits Next to Me“.

Assim como uma seita, é preciso aceitar a doutrina completamente sem pé nem cabeça e se tornar um seguidor fanático. Sem essa aceitação, o animê simplesmente não funciona, e por isso, ele acaba sendo extremista: Ou você o ama religiosamente, ou você o odeia tanto quanto o diabo odeia a cruz. Se você acha que gosta de humor absurdo e nonsense, Vlad Love é, com certeza, um teste para ver se isso é verdade.

Por mais incrível que possa parecer, essa nem é a quebra de quarta parede mais esquisita do animê

Se acredita que é verdade, eu não poderia recomendar mais esse show, que, acredito eu, foi o responsável por queimar o resto dos fusíveis que eu ainda tinha funcionando na cabeça. E eu os queimaria novamente com o maior prazer.

Caso seja o seu tipo de animê, a única avaliação possível para “Vlad Love” é Diamante. Mas só se for o seu tipo de animê.
Você pode assistir “Vlad Love” completo na plataforma de streaming Crunchyroll, com legendas em português.

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Tela Quente

Sem Remorso apresenta boa ação numa trama genérica e previsível

O Amazon Prime Video encerrou o mês de abril com mais um lançamento original em sua extensa grade de produções e para quem curte uma boa pegada de ação misturada com conspiração, então Sem Remorso será uma excelente recomendação para você que está neste momento lendo esse texto.

Baseado no universo literário de Tom Clancy, sua adaptação cinematográfica apresenta um militar de operações especiais, John Kelly (Michael B. Jordan) que, após voltar de uma missão secreta, vê seus companheiros serem assassinados juntamente à esposa grávida. É isto! A sinopse é simples, nada além disso. O filme também não tenta ser além do que é e por isso que ele é ótimo. Apesar disso, uma contrabalança veio ao apresentar uma trama genérica e que em certos momentos, o telespectador já conseguia adivinhar as reviravoltas. Claro que nada que te faça se sentir traído pela proposta ou ficar com um gosto amargo na boca. Longe disso! 

A trama já recebe sua movimentação ainda no início e segue até o fim com uma dosagem ótima de ação intercalada com pequenos momentos de calmaria. Michael B. Jordan atua muito bem e foi outro ponto positivo para gostar do filme. Ele consegue entregar todo o sentimento de dor pela perda de sua família e também consegue expressar maravilhosamente o sentimento de alguém que pretende se vingar. Isso é facilmente corroborado em diversas cenas. Temos todo o ódio acumulado dentro de um homem que carrega a morte em suas mãos e pretende esvaziar esse peso da melhor forma que faz: em campo lutando.

Essa adaptação ganhou muito com Jordan no elenco. Não só ele, pois Jodie Turner-Smith, Guy Pearce e Jamie Bell também atuaram bem. Ainda mais pelo terceiro, uma vez que criamos uma antipatia pelo seu personagem de imediato e como consequência, o fantástico mundo do previsível se faz presente para determinar quem está por trás disso tudo.

Sem Remorso segue de forma bastante modesta em toda a sua duração, porém ganha um elemento promissor com a sua cena pós-créditos ao deixar clara a intenção de expandir a sua mitologia. Uma pesquisa rápida para você descobrir que o autor Tom Clancy possui uma obra de livros com o personagem John Kelly e esse é o mesmo universo de Jack Ryan. É fácil concluir que o longa foi uma história de origem para John e que caso confirmem uma sequência, poderemos revê-lo futuramente com a adaptação do livro Rainbow Six. E que venha uma franquia!

Nota: Ouro.

Sem Remorso de Tom Clancy está disponível atualmente no Amazon Prime Video.