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A poesia e a apatia em Vozes e Vultos

Escrito por Tassio Luan

Produções cinematográficas e televisivas que abordam uma casa mal-assombrada não é um assunto recente para quem consome esse tipo de conteúdo, pois é só olhar para trás e perceber que já tínhamos The Amityville Horror (1979), O Iluminado (1980) e Poltergeist (1982), entre muitos outros. Esse tema está tão recorrente atualmente, que ficamos completamente indiferentes quando um novo filme é lançado e o culpado disso tudo é a forma como o roteiro não sai de sua zona de conforto, e como consequência, nada nos prende. Alguns longas até conseguiram sair dessa estatística amarga, mas o saldo ainda pende em sua maioria para o lado mais preguiçoso. E sim, Vozes e Vultos se encaixa neste saldo negativo.

A recente produção da Netflix acompanha uma artista de Manhattan (Amanda Seyfried) que se muda com sua família para o Vale do Hudson. Conforme ela começa sua nova vida num vilarejo histórico, ela passa a suspeitar que seu casamento e sua casa está cercado por algo obscuro.

James Norton (George Clare) e Amanda Seyfried (Catherine Clare) interpretam o típico casal feliz e empolgado pela mudança, porém tudo começa a desandar conforme a presença inicia as suas manifestações para Catherine. O roteiro abre uma discussão sobre o poder feminino quando deixa claro que a personagem se tornou o centro das aparições sobrenaturais. Isso não foi um mero acaso, pois uma explicação é dada para tal. Não vou entrar em mais detalhes para não estragar a experiência de quem ainda não assistiu, porém foi uma das poucas coisas que gostei do filme.

Enquanto isso, o filme afasta um pouco (até certo momento) George dessas manifestações e entra num contraponto com a discussão mencionada acima. Aqui o vemos assumindo um lado adúltero com a jovem Willis (Natalia Dyer) e conforme a trama avança, as aparências de bom moço continuam rachando até o seu ponto de ruptura. Assim como sua parceira, ele também possui um motivo específico que é revelado posteriormente. Não é um plot twist digno de revirar na cadeira sedento por mais, uma vez que fica completamente óbvio a direção que o roteiro pretende seguir para seu ato final.

A poesia sobrenatural foi bem trabalhada através da obra de Emanuel Swedenborg (1688-1772). Ele foi um filósofo e espiritualista sueco que era visto como iluminado e louco por causa de sua visão sobre o mundo espiritual. Segundo ele, os mortos não precisam causar medo, isso o que faz é a vida. O eterno debate sobre as consequências de nossos atos em vida foi pauta entre os personagens principais e quem guardou esses diálogos, claramente percebeu a referência na cena final.

Vozes e Vultos acerta em trazer essa atmosfera poética para o campo sobrenatural, mas peca pela apatia em não trazer mais nada de novo para o gênero. Então, acaba se tornando uma adaptação cinematográfica (baseado no romance All Things Cease to Appear de Elizabeth Brundage) esquecível um pouco depois que você termina de assistir antes de pular para a próxima diversão do dia. Aliás, já assistiram À Espreita do Mal?

Nota: Prata. 

Vozes e Vultos está disponível atualmente na Netflix.

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Sobre o Autor

Tassio Luan

Biólogo explorador do horror cósmico e de universos desconhecidos.