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Melhores quadrinhos estrangeiros publicados no Brasil em 2018

O ano de 2018 foi marcado pela publicação de excelentes quadrinhos. Algumas editoras estrearam no mercado, outras consolidaram seus nomes, e em meio a uma crise que atinge todo o setor livreiro do Brasil, os leitores priorizam suas coleções e leituras através de boas indicações e séries/personagens favoritos.

A Torre de Vigilância, para marcar o início de 2019, elencará nesta publicação os 10 Melhores Quadrinhos Internacionais do ano passado na opinião de três redatores da categoria Quadrinhos do site, sendo eles: Marcus Santana, Ricardo Ramos e Gabriel Faria. No total, são 30 (ou quase 30, pois alguns se repetem) quadrinhos indicados.

Os critérios básicos para escolha dos materiais foram: o quadrinho deve ter sido lançado no Brasil em 2018, e deve ser uma obra inédita, nunca antes publicada no país. O motivo é simples: queremos indicar as melhores novidades para o público leitor. Haverá também uma lista elencando as melhores republicações do ano, e outra elencando os melhores quadrinhos nacionais – para dar um destaque único e exclusivo aos autores nacionais -, mas isso ficará para outro dia. Outro critério para escolha dos gibis, é claro, foi o gosto pessoal de cada um dos redatores. Uma das graças em fazer este tipo de levantamento é a divergência (ou não) de opiniões, e o gosto  pessoal sempre influenciará na escolha dos indicados.

Sem mais delongas, vamos às listas:

Marcus Santana

Blacksad – Alma Vermelha

Os dois primeiros volumes de Blacksad saíram pela Panini no Brasil há mais de 10 anos. Na época, A Alma Vermelha já havia sido lançado na Europa, mas as baixas vendas, fruto de uma estratégia mal-sucedida de vender álbuns europeus em bancas fez somente em pleno 2018 os leitores brasileiros terem acesso ao terceiro álbum da série. 

Mesmo que um pouco abaixo de Arctic-Nation, meu volume favorito do personagem, o nível ainda é muito alto. A trama envolvendo pesquisas nucleares, tensões políticas bem parecida com os dias de hoje, uma fórmula secreta e obras de arte é genial. A arte, as cores, a narrativa, a tradução e o projeto editorial deram muito certo.

A aceitação dos leitores pela segunda encarnação de Blacksad por aqui parece ser boa, uma vez que, em menos de um ano e meio, a editora SESI-SP lançou cinco álbuns do gato de sobretudo. Ainda em 2018 saíram  O Inferno, o Silêncio e Amarillo, alcançando assim o último álbum da série lançado até o momento. Agora é esperar por novos volumes, que foram anunciados em 2016 mais ainda não foram lançados.


Verões Felizes – Senhorita Estérel

Nostalgia é a maior inimiga do senso critico. Grande problema ver tantos produtos de entretenimento que mexem com o passado, nos encantamos e achamos que é o máximo simplesmente por isso. 

Verões Felizes conta em cada volume determinado período de férias da família Fálderault. Apesar de breves passagens em 1992, Senhorita Estérel se passa em 1962, antes dos dois primeiros álbuns da série. Em direção à Saint-Étienne, nos aprofundamos mais ainda na origem dessa família que identificamos cada vez mais como nossa. Seus pais, avôs, filhos… nos sentimos em casa. A arte de Jordi Lafrebe é linda. Seus cenários, expressões, cores e etc. Mesmo ser uma diferença imensa entre hábitos, nostalgia aqui tem qualidade. 

Fica a torcida para os volumes 4 e 5 serem lançados o quanto antes. Já estamos ansiosos.


Ayako

Poucos autores simplesmente não erram. Osamu Tezuka sequer deu a alguém a chance de apostar um descuido em suas obras. E no Brasil já tivemos algumas chances: Adolf, A Princesa e o Cavaleiro, Buda, Dororo, Kimba… Ainda uma lista tímida  se levarmos em conta que ainda faltam obras como Astroboy, Black Jack, Doutor Tenma e Pukko.

Tezuka conseguia surfar em mares agitados, tratava de temas para todos os públicos e mostrou que HQs lá no oriente não é entretenimento somente para jovens. Ia do infantil ao seinen.

O Japão pós-guerra narrado em Ayako foi o período que justamente popularizou os mangás por lá, devido a ocupação dos EUA no país. Temos uma narrativa mais real que fantástica, diferente de Adolf, que mescla os dois universos.

Não vou negar que, apesar da qualidade imensa, a edição da Veneta é grande e cara. 720 páginas em capa dura não teriam como resultar em outra consequência, mas Tezuka vale o esforço. 


Duas Vidas

Já havia gostado muito de Não Era Você Quem eu Esperava, lançamento anterior desse francês que fala português melhor que muito brasileiro.

Dois irmãos, duas carreiras e duas vidas em colisão. É nada mais que isso.

Toulmé fala de obstáculos e situações complicadas de forma ao mesmo tempo serena, preocupante e cômica. Ponto pra editora Nemo.


Black Dog: Os Sonhos de Paul Nash

A surpresa do ano. Muitos têm seu auge e depois se mantém, apesar de um nível abaixo, regulares.

Não é o caso. Apesar de recente e ter sido um trabalho encomendado por um instituto, considero essa uma obra-prima de McKean.

São sonhos (sim, pensei o mesmo que você a respeito de outro personagem do autor) e reminescências de Paul Nash, artista e militar da Primeira Guerra Mundial. Com suas imagens de conflito, ficou conhecido como artista oficial do período.

A leitura é sensorial. Uma ótima experiência. Obrigado, DarkSide! Inclusive por escolher capa dura, edição que, no reino unido, só saiu em 500 exemplares.


Mort Cinder

Oesterheld é para mim o maior roteirista de HQs que já existiu. Podem tentar copiá-lo, mas não tem como chegar no patamar que ele tinha em combinar palavras em sua narrativa. Eu sinto a tensão do ambiente, o peso das vozes e os efeitos sonoros de cada palavra que ele escreve. É o maior.

Alberto Breccia é um gênio da ilustração. Desenhar assim usando como um dos utensílios LÂMINA DE BARBEAR não é para qualquer um.

A trama? Bom, vou deixar vocês mesmos descobrirem. O assunto poderia ser o que fosse, com esses dois não teria a mínima possibilidade de dar errado.

A edição da Figura é melhor até que a versão argentina, país de origem da HQ, que já saiu na França, Alemanha, Portugal, Espanha, Estados Unidos da América e FINALMENTE no Brasil. 

Ano que vem é o centenário de ambos os autores, então se ainda não os conhecem, a hora é essa.


Crimes e Castigos

Carlos Nine é um autor quase desconhecido no Brasil e quase nada de sua autoria foi publicado por aqui. Reparando esse erro, a Figura lançou este ano essa inesperada edição que por pouco não veio. Crimes e Castigos quase não teve sua meta de financiamento coletivo atingida, e o azar seria nosso.

A narrativa de Nine é similar à de Rodolphe Töpffer e Hal Hoster. Com apenas caixas de texto, o detetive Babously desvenda um mistério que, ao mesmo tempo que conta uma história ao longo da HQ, é recheada de narrativas mais curtas em cada uma de suas aventuras.

Os desenhos de Nine beiram o surreal e misturam erotismo, ação e violência neste volume. Sua construção de página são extremamente criativas e divertidas.

Seria muito bem-vinda a iniciativa de novas histórias do autor, mas acredito que seja muito difícil pois até na Argentina, seu país de origem, o público é muito específico.


Uma Irmã

Bastien Vivés, apesar de muito jovem, já é visto como um dos grandes nomes das Narrativas Gráficas na França. Jovem como sua idade, também é sua introdução no mercado brasileiro: esta é apenas sua segunda HQ publicada por aqui. A primeira, O Gosto do Cloro, saiu em 2012.

Assim como na primeira HQ aqui lançada, o foco de Vivés é um relacionamento ao mesmo tempo instantâneo e incomum. Um garoto tem afeto cada dia maior com uma garota que tem que conviver diariamente devido suas férias. A convivência cresce e suas atividades avançam. Seria inicialmente uma irmã, mas a convivência torna a relação difícil de explicar.

Melhor dizendo, é muito bem descritível graças ao traço de Vivés. Tão leve e puro como uma convivência familiar.

A Editora Nemo há um bom tempo mudou seu perfil de publicações, e tem lançado HQs cada vez mais autorais. Infelizmente projetos como de Hugo Pratt e Enki Bilal não vingaram, mas bom saber que continuam ousando em publicar um material tão exclusivo por aqui.


Paraíso Perdido

Sempre tive um pé atras com adaptações em HQ. Ao meu ver é o mesmo que assistir ao filme ao invés de ler a HQ. Ridículo aos que têm preconceito com quadrinhos mas lotam salas de cinema. É preguiça de ler. Medo de gostar.

Mas é tão bom quando calam nossa boca; recentemente tivemos esse gostinho com Elric da Glénat (publicado no Brasil pela Mythos) e Paraíso Perdido faz exatamente isso novamente. Baseado num poema de John Milton no século XVII, temos aqui o drama de anjos que sucumbiram à uma revolta de Satanás, corrompendo a humanidade e gerando o mundo que até hoje vivemos.

A quase falta de texto não incomoda. Me lembrou bem o que Danilo Beyruth me disse em uma entrevista realizada aqui no site: quando uma arte é tão bem feita que o espaço de tempo é diferente. Passamos mais tempo que de costume apreciando cada página pois Pablo Auladell destrói. Que esse autor esteja mais presente por aqui.

A DarkSide definitivamente veio para ficar no mercado de quadrinhos. Ainda bem.


A Terra dos Filhos

Sinceramente acho que o gênero “pós-apocalíptico” se aproxima do cansaço. Muitos filmes, séries e HQs sobre o mesmo assunto em um curto espaço de tempo os estão tornando cada vez mais previsíveis. No mesmo ano, por exemplo, tivemos os filmes Um Lugar Silencioso e Bird Box. A diferença de um para outro era o sentido a ser evitado.

Finalmente publicado no Brasil, Gipi conseguiu fazer uma obra sem cair na mesmice desse gênero. Dois garotos viajam uma terra arrasada buscando uma coisa apenas: conseguir ler o diário de seu pai.

O trabalho editorial da Editora Veneta é muito bom, inclusive escolhendo uma capa melhor que a versão original.


Ricardo Ramos

Black Hammer

Uma das séries mais elogiadas lá na gringa chegou ao Brasil por meio da Intrínseca, e foi um baita golaço. A premiadíssima obra de Jeff Lemire juntamente com o artista Dean Ormston e o colorista Dave Stewart já arrebatou em 2017 o Eisner na categoria Melhor Série Original, contando a trama de um grupo de super heróis em total decadência.

Até agora a Intrínseca publicou dois volumes: Origens Secretas e O Evento, mas a editora tem em seus planos manter a continuidade da série.


A Marcha – John Lewis e Martin Luther King em uma história de luta pela liberdade – Livro 1

Lançado originalmente em agosto de 2013 nos Estados Unidos, A Marcha é a primeira parte de uma trilogia que apresenta a longa batalha do lendário congressista americano John Lewis pelos direitos humanos e civis e a luta pelo fim das políticas de segregação no país. É um retrato sobre o movimento de direitos civis na América, sob a perspectiva de Lewis e a influência que foi exercida sobre ele pelo ícone Martin Luther King.  A obra foi escrita pelo parlamentar norte-americano John Lewis e Andrew Aydin e tem desenhos de Nate Powell.

Aqui no Brasil A Marcha foi publicada pela Editora Nemo que já anunciou a segunda parte da trilogia para abril. Confira a nossa resenha AQUI.


Visão de Tom King

O tão comentado e elogiado arco de Tom King que reformulou o Visão com um vendaval de inovações na sua mitologia chegou ao Brasil e agradou os leitores. Uma história suburbana que mistura suspense, ficção científica e comédia de erros que dá prazer de ler e reler. É praticamente um thriller bem no estilo de King, com simpatias com os personagens e reviravoltas que aparecem a todo momento durante a leitura. Você pode conferir nossa resenha AQUI.


Drácula

O último trabalho de Mike Mgnola antes de cair de cabeça em Hellboy, a adaptação do filme Bram Stoker’s Drácula, chegou ao Brasil pela Editora Mino. E chegou em grande estilo. A Mino não poupou trabalho para publicar uma lindíssima edição, com uma capa vermelha sangue e a história em preto e branco, que só realçou e valorizou mais a arte de Mignola. A qualidade é tão absurda, que quando você termina a leitura dá vontade de assistir ao filme de Francis Ford Coppola em preto e branco. Um dos melhores trabalhos editoriais lançados no país ano passado.


Asa Quebrada

A obra do escritor espanhol Antonio Altarriba conta a trajetória de sua mãe Petra. Uma mulher calejada de tragédias, que começaram logo quando ela nasceu. Quando a sua mãe morreu quando dava luz a ela, o seu próprio pai a tentou matar e no ato deixou Petra com um braço imóvel permanentemente. Anos depois, ela teve que cuidar do seu pai que ficou paralisado após uma briga. E chegando até salvar a sua vida durante a Guerra Civil Espanhola. Assim como em Arte de Voar, onde Altarriba narra a história de seu pai, a trajetória de Petra se mistura com o momento em que o fascismo da Guerra Civil Espanhola aterrorizava o país.

Tanto Arte de Voar quanto Asa Quebrada foram publicadas por aqui pela Editora Veneta.


Os Vampiros

Baseada em fatos reais, a HQ de Filipe Melo e Juan Cavia apresenta um grupo de soldados portugueses que são destacados durante a guerra colonial para uma missão secreta no Senegal em dezembro de 1972. Mas o clima tenso vai pesando sobre eles que acabam sendo consumidos pela paranoia e pelo cansaço. Os homens enfrentam sucessivos demônios. Tanto os da guerra como os que cada um carrega com si mesmo. A publicação aqui foi da SESI-SP.


A Entrevista

A HQ do italiano Manuele Fior apresenta o psicólogo de meia idade Raniero, que conhece a jovem Dora, uma paciente que se torna uma catalisadora das mudanças que se impõem sobre a sua conturbada vida. Publicado por aqui pela Editora Mino, A Entrevista chegou liderar por um tempo o ranking de vendas na Amazon Brasil.


Juízes Negros: A Queda do Mundo Morto

Não poderia faltar nesta lista de 30 quadrinhos, um do universo do Juiz Dredd, maior e mais famoso personagem dos quadrinhos britânicos. Este, escrito por Kek-W (que já teve uma obra publicada no Brasil, A Lei de Canon) e ilustrado por Dave Kendall, é um prelúdio da vida dos principais inimigos do Juiz Dredd, os Juízes Negros (Morte, Mortis, Fogo e Medo), mostrando como era seu universo que foi destruído posteriormente por sua política de “o crime é a vida, a sentença é a morte”. Com arte fenomenal e história elucidante para os fãs do Bom Juiz, A Queda do Mundo Morto (e todos quadrinhos do Dredd) merece receber destaque por parte dos leitores brasileiros.


Lazarus

Greg Rucka e Michael Lark criam, em Lazarus (da Image Comics) uma história de ação e política deslumbrante. A dupla já havia trabalhado em união na série Gotham Central da DC Comics, e em Lazarus, uma série mais autoral, eles repetem o sucesso e qualidade dessa união tão fantástica, e apresentam muita violência com uma personagem feminina, protagonista, fortíssima. O foco da história está no poder mundial, controlado pelas “famílias”, e cada “família” possui sua espada e escudo, uma pessoa, um protetor denominado Lazarus.

A edição nacional é da editora Devir, que trouxe a série em capa cartão e capa dura, para que os leitores possam escolher o que mais lhe agrada.


Fugir: O Relato de Um Refém

A editora Zarabatana, casa brasileira dos quadrinhos de Guy Delisle, surpreendeu a todos ao trazer em 2018 sua obra sobre o sequestro de um funcionário de uma ONG médica na região do Cáucaso. Delisle narra, de forma angustiante, como Christophe André foi mantido em cativeiro sem saber o motivo do sequestro. Comovente, absurda e rivalizando com suas melhores obras (Pyongyang, Shenzhen e suas Crônicas Birmanesas e de Jerusalém), esta graphic novel de mais de 400 páginas explicita muito bem o motivo de Delisle ser tão celebrado no mundo inteiro.


Gabriel Faria

Paraíso Perdido

Pra mim, o melhor quadrinho de 2018. Sempre tive um fascínio por histórias fantásticas com personagens bíblicos. Tal qual o poema original de John Milton (que li somente após ter lido o quadrinho publicado pela DarkSide), o espanhol Pablo Auladell entrega um espetáculo narrativo e visual que enche os olhos do leitor. Sua arte assemelha-se a pinturas clássicas, o que entrega à obra um charme ainda mais especial.

A história narrada, apesar de simples, é recheada de nuances e significados. O que começa como uma história intrigante torna-se rapidamente um épico de guerra, e o texto rebuscado, apesar de dificultar a leitura no início, passa a ser plenamente legível com velocidade significativa no decorrer das páginas. A edição da editora DarkSide também é um espetáculo visual primoroso.


O Relatório de Brodeck

A estreia do francês Manu Larcenet no mercado nacional veio através da editora Pipoca & Nanquim. E, assim como o quadrinho que citei anteriormente, esta também é uma adaptação de um livro. Uma belíssima adaptação.

Uma história densa, que trata especialmente sobre a crueldade humana, O Relatório de Brodeck mostra a vida de Brodeck, escriba recém-saído da Segunda Guerra Mundial, contando e investigando um assassinato brutal cometido pelos moradores de um vilarejo. A obra original é de Philippe Claudel, e a adaptação de Larcenet destaca-se em grande parte por sua arte sombria e muito expressiva.

O quadrinho é tenso. Angustiante, triste e sofrido. Ele escancara o pior do que há na humanidade, e você sente o impacto de cada momento no decorrer das páginas. Brodeck compete com Paraíso Perdido, pra mim, como melhor publicação do ano. E o cuidado editorial da Pipoca & Nanquim é belíssimo.


Blue Note: Os Últimos Dias da Lei Seca

Publicado na França pela Dargaud e chegando ao Brasil pela Mythos Editora através do selo Gold Edition, Blue Note possui dois álbuns em um, ambos situados na Nova Iorque dos anos 30, quando a Lei Seca foi abolida nos Estados Unidos.

Uma das histórias é focada em um boxeador que retorna a ativa enquanto lida com a máfia e um novo amor, e a outra é sobre um músico que se mudou para Nova Iorque. As duas histórias têm em comum o envolvimento com a venda ilegal de álcool, os clubes de música, e principalmente, gângsteres.

A atmosfera de época traduzida às páginas pela dupla Mathieu Mariolle e Mikaël Bourgouin é simplesmente deslumbrante, e a ligação entre a vida de Jack Doyle (o boxeador) e R. J. (o músico) é belissimamente conduzida. Vincenzo, dono do maior clube da cidade e perigoso mafioso, também é um personagem intrigante, e a ligação entre jazz, boxe e noir torna Blue Note uma das surpresas mais agradáveis do ano.


Uma Irmã

Assim como o texto do Marcus no início desta postagem resumiu bem, Uma Irmã é um quadrinho leve e puro, e um adjetivo ficou de fora mas acrescento aqui: delicado. História sobre descobertas e uma relação inusitada que poderia facilmente desembocar na pornografia gratuita pura e simples, mas nas mãos de Bastien Vivès, acaba por se tornar um show de empatia e delicadeza.

Vivès possui apenas 34 anos mas é considerado por muitos como um dos prodígios do mercado europeu. E não é pra menos: sua arte e narrativa são muito singelos, e a forma como ele apresenta todos os personagens quase como rascunhos, em traços finos e limpos, colabora para a inocência da história. Ponto positivo para a edição da Nemo, que poderia muito bem se tornar a casa editorial do autor no Brasil. Seria ótimo.


Shangri-La

Um quadrinho polêmico que vem dividindo a opinião de muitos leitores, Shangri-La de Mathieu Bablet me encantou do início ao fim. Para muitos, a história de ficção-científica narrada neste quadrinho foi cheia de problemas: pretensiosa, cansativa, rasa, com desenhos insatisfatórios… Entretanto, todos estes pontos “negativos” para mim são os grandes destaques do quadrinho.

Shangri-La mostra a vida em uma estação espacial após a Terra ter se tornado um planeta inabitável. A estação é dominada pela grande corporação Tianzhu, que controla a vida dos habitantes quase como de forma hipnótica, através do consumo exacerbado de novas tecnologias e controle de créditos. Entretanto, a história da vida “perfeita” na nave rapidamente torna-se questionadora quando a empresa, que possui um plano de criar vida a partir do zero em Titã, uma das luas de Saturno, é posta em cheque por um leque de personagens da estação espacial. E a partir daí inicia-se a investigação e o caos generalizado da vida humana no local.

Esta história é ficção-científica pura, sem tirar nem por: o contexto fantástico e futurista serve para que o autor fale sobre a realidade no momento atual da raça humana. E os questionamentos que ele levanta são realmente pertinentes, além de chocantes em muitos aspectos. Mas o quadrinho não dá respostas: ele apenas questiona. E acho isso um charme especial, pois o leitor deve preencher as lacunas em sua cabeça e mostrar o que absorveu daquilo que leu. A arte de Bablet é linda (apesar de realmente possuir um problema, que é a representação do rosto humano), e a edição da SESI-SP ficou primorosa. Pra mim, uma surpresa positiva.


Um Pedaço de Madeira e Aço

O francês Christophe Chabouté foi um dos destaques de 2017, pra mim, com a publicação de Moby Dick pela editora Pipoca & Nanquim. Agora, este mestre francês da arte em preto & branco retorna por sua casa editorial brasileira com um de seus quadrinhos mais aclamados, Um Pedaço de Madeira e Aço.

Nesta história com mais de 300 páginas, Chabouté mostra a vida e a passagem do tempo com foco em um… Banco de praça. E a história deste banco de praça, frequentado por diversas pessoas (e animais) da cidade onde ele se localiza, inusitadamente é uma das leituras mais emocionantes do ano. Um mestre da perspectiva e narrativa gráfica, o autor consegue, através do banco, mostrar um pouco da vida de cada um que passa por lá, criando um envolvimento único com o leitor. O banco é, assim como “personagem principal”, o único cenário da história, e a passagem de tempo (demonstrada sem textos, pois este é um quadrinho mudo) torna a finalização da leitura uma verdadeira jornada de sentimentos, que vão do riso às lágrimas em algumas viradas de páginas.

Mais Chabouté deverá chegar ao Brasil em 2019, e se a qualidade se mantiver como Moby Dick e Um Pedaço de Madeira e Aço, este autor rapidamente se consagrará como leitura obrigatória por aqui.


Black Hammer

Jeff Lemire segue consolidando seu nome como um dos maiores autores do mercado norte-americano. A cada história é uma surpresa, e a qualidade não cai. Black Hammer, na minha opinião, é o grande destaque das histórias de super-heróis publicadas no Brasil em 2018.

Lemire homenageia todo o legado dos heróis da Marvel e DC através de uma história sombria, cheia de mistérios e constantemente chocante. O plot simples (heróis presos em uma realidade/tempo específica sem saber como voltar para a vida normal), nas mãos do roteirista, cresce de maneira surpreendente e entrega uma leitura que, ao terminar, você sente necessidade de mais. E todos os personagens são memoráveis e carismáticos, representados muito bem através da linda arte de Dean Ormston. O sucesso desta publicação da Editora Intrínseca é merecido, e os leitores brasileiros precisam de mais.


Boa Noite Punpun

Assim como Ayako (já citado pelo Marcus no início desta lista), Boa Noite Punpun é o destaque dos mangás lançados no Brasil em 2018. Inio Asano é, na minha opinião, o melhor mangaká contemporâneo do Japão. No Brasil já tivemos a publicação de algumas obras suas: Solanin, A Cidade da Luz e Nijigahara Holograph. Entretanto, Punpun é sua obra-prima.

Como todos os mangás de Asano, Punpun gira em torno do fator humano. A história, que segue a vida de um garoto chamado Onodera Punpun (representado como uma espécie de passarinho) enquanto ele cresce e convive com amigos e familiares, possui tudo que o autor mais sabe fazer: algo sincero, depressivo, metafórico, imperfeito, delicado… Todas as características que se enquadram nas obras de Inio Asano, em Punpun são trabalhadas com maestria.

O crescimento e as descobertas de Punpun, o convívio com sua família quebrada e seus amigos, sua rotina escolar, seus primeiros sentimentos (como amor e depressão, alegria e tristeza), suas incertezas a respeito do que está acontecendo, seu contato com Deus… Tudo é primoroso. E a edição da JBC, em Formato Big (com mais de 400 páginas), é perfeita. Boa Noite Punpun é uma história aclamadíssima no Japão, e a oportunidade de ler esta obra no Brasil é fantástica.


Gideon Falls

Jeff Lemire surge mais uma vez, agora com uma história bem diferente do que ele conta em Black Hammer, apesar do clima de tensão de ambas as obras. Aqui, temos uma história de terror publicada nos EUA pela Image Comics. E é uma história de terror de primeira categoria.

Ao lado de seu parceiro de outros trabalhos, Andrea Sorrentino, Lemire narra a história de um padre em uma pequena cidade do interior e um rapaz transtornado na cidade, enquanto um misterioso celeiro negro está linkado às suas vidas de forma similar. E a tensão evocada pelas aparições do celeiro e todo o mistério que gira em torno de sua existência são surpreendentemente curiosas. Você quer saber o que está acontecendo a qualquer custo.

A edição da Mino, em capa dura com bom acabamento gráfico, também merece elogios. Um quadrinho que, assim como B.H., os leitores brasileiros precisam de mais!


Réquiem: Cavaleiro Vampiro

O fantástico roteirista Pat Mills (de Guerreiros ABC, Sláine, Juiz Dredd e Marshall Law) mergulha no mercado francês, ao lado do fantástico desenhista Olivier Ledroit, para contar uma das histórias mais criativas presentes nesta lista.

Um nazista morto na guerra, ressuscita como um vampiro em um mundo que é o oposto da Terra (também geograficamente falando), onde o tempo corre ao contrário, cima é baixo, esquerda é direita, água é sangue. Este mundo, chamado Ressurreição, torna-se o lar de Heinrich, que ao renascer assume o posto de Cavaleiro Vampiro, soldado que deve manter a ordem caótica deste universo estranho cheio de lobisomens, zumbis e outros monstros.

Réquiem é a cara de Pat Mills: um quadrinho ácido, violento, e visualmente fantástico graças a maravilhosa arte de Olivier Ledroit. Assim como Blue Note, Réquiem foi publicado pela Mythos Editora através do selo Gold Edition, e foi uma das mais gratas surpresas do ano. Mais volumes virão, se Drácula ajudar.

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Creed II: Superação a cada round

Depois de seis filmes focados na história do lendário pugilista Rocky Balboa (Sylvester Stallone), o primeiro Creed (2015), dirigido por Ryan Coogler, inverteu a direção temática da franquia. Explorando a vida de Adonis Creed (Michael B. Jordan), filho do falecido Apollo Creed, o filme constrói o protagonista da mesma forma que Balboa fora, porém, adiciona novas interpretações ao impor um cenário mais marginalizado e periférico com uma forte identidade racial. Em sua continuação, contando com a direção de Steven Caple Jr., esta essência é ignorada e perdida, dando espaço para uma abordagem mais familiar e íntima com a própria franquia.

O que mais marcou toda a franquia de Rocky Balboa foi a importância dada aos personagens coadjuvantes. Os filmes não tratavam, prioritariamente, da ascensão de Rocky como um lutador. Seu amadurecimento profissional sempre esteve ligado com suas relações pessoais, sejam elas familiares, amorosas ou amigáveis. Isto fica nítido ao final da luta entre Rocky e Apollo em Rocky (1976), quando Balboa procura incessantemente Adrian (Talia Shire), deixando de lado o resultado no ringue. Tal conservação de um discurso familiar, que aborda mudanças e superação, dura até os dias de hoje com Creed II.

Adonis Creed mudou completamente de Nascido para Lutar para este. O relacionamento com Bianca (Tessa Thompson) está avançando cada vez mais, sua figura é exaltada internacionalmente e sua ligação com o treinamento de Balboa parece estar em seu ápice. Mesmo estando tudo bem na vida do novo campeão, percebe-se que a sombra do pai continua o atingindo e, também, o inspirando. Até que reaparece o famoso Ivan Drago (Dolph Lundgren) e seu filho Viktor (Florian Munteanu), disposto a desafiar o cinturão de Adonis. A figura de Drago, desde o começo, é sufocada por um ambiente escuro, frio e solitário, seu estilo de vida respira e se alimenta de boxe, sendo transmitido de geração a geração. Para quem já conhece o personagem, sabe que toda essa fórmula ajuda a criar uma alusão a sua versão em Rocky IV (1985), neutra e imprevisível.

A escolha de trazer Ivan Drago e seu filho para serem os verdadeiros antagonistas do longa foi a mais certeira – de várias – que ocorreu durante a estruturação do roteiro. Além da forte ligação com o passado de Creed, já que Ivan foi responsável pela morte de seu pai, há a tentativa de fortalecer um discurso de passagem entre duas gerações. Por isso que diversas vezes ocorre a transição de perspectivas entre os quatro. Enquanto temos Rocky e Adonis, ligados por uma fatalidade e tentando esquecê-la, vemos Ivan e Viktor procurando a reconstrução de suas vidas e legados.

E se a franquia inteira foi sobre os relacionamentos externos de Balboa, Creed II é sobre a vida pessoal de Adonis. Entre Balboa e Creed, a história só avança em relação ao antecessor. Ambos confiam inteiramente um no outro, tentam ignorar o passado até certo ponto e, profissionalmente, alcançaram seus respectivos objetivos. Talvez a disposição de Stallone e Jordan de entregarem atuações a altura do sucesso de seus filmes seja o trunfo para a inteira condução técnica e estrutural. O peso dramático se sustenta entre os dois, não há sequências tão boas quanto as conversas dos protagonistas. Há um senso de sinceridade e de realidade por ser um ator veterano e um jovem contracenando juntos, trazendo credibilidade e emoção.

Indo para o lado russo da coisa, Ivan e Viktor tem tratamentos pouco originais, mas que ganham substância ao longo do desenvolvimento. Ivan precisa que Viktor esteja em seu nível máximo, físico e psicológico, para derrotar o Creed e retomar o legado dos Drago. A forma abusiva e tensa que o filme joga no treinamento do filho condiz com a ótimo atuação de Dolph Lundgren. Sua expressão sempre neutra e séria conversa com o passado do personagem, o transformando na figura do pai durão e cego por sucesso. Em relação a Munteanu, novato do elenco, sua interpretação é extraordinária por conseguir expressar os sentimentos do personagem em poucas palavras.

Rocky Balboa tinha Adrian Pennino, assim como Adonnis Creed tem Bianca Taylor. O romance é outro que não pode faltar na composição temática desses longas, mas sem ser piegas ou superficial, há uma importância para a ascensão do protagonista. Tessa Thompson continua mostrando o porquê de ser uma das melhores atrizes da sua época. Tendo bastante tempo de tela, sua interpretação exala um senso materno e acolhedor sem perder a essência independente. A função principal é de representar o reflexo familiar de Creed, deixando claro que sua formação depende muito mais da família e o legado de seu pai do que das próprias lutas. Essa ideia fica bem clara em uma das melhores cenas dentro do terceiro ato.

O texto já transforma as duas horas e dez minutos em uma grande homenagem a este universo, e toda a direção de Caple não fica de fora. Todas as sequências e passagens de Creed II são previsíveis e acompanham a mesmíssima estrutura já conhecida dos anteriores. Porém, rimas cinematográficas e o retorno de elementos essenciais da trajetória de Balboa, transformam a obra em uma carta de apreço para toda a franquia. Apesar de negar as fortes influências de Coogler, o diretor tenta compor uma homenagem sincera e honesta.

Talvez Creed II tenha as cenas de luta mais emocionantes e significativas desde Rocky II (1979). Fotografia, maquiagem, trilha sonora e atuação são as bases para qualquer composição artística de uma luta de boxe. Os planos intercalados corretamente e cortes ríspidos dão dinamicidade para a luta; o sangue escorrido em luvas e no próprio ringue deixam mais crível; uma boa trilha sonora carrega consigo tensão e ajuda na alternância de emoções, o perigo pode ser representando pela ausência dela, enquanto a reviravolta por uma fortíssima presença; e a forma como os atores coreografam e se posicionam denota convencimento.

Como se esperava, esse pacote completo está presente. Steven Caple demonstra capacidade transformando vícios conhecidos em prazerosos e surpreendentes. Em relação a montagem e edição, a continuação apresenta um trabalho detalhado primoroso. Um dos melhores filmes de ação do ano que deixará a audiência sem fôlego durante alguns minutos. É escandaloso e frenético, mas totalmente compreensível e realístico.

Durante seus momentos finais, além de algumas surpresas, o filme tenta se limitar emocionalmente. Apesar de nos presentear com cenas fantásticas, absurdamente significativas para a transição de personagens e o desfecho de arcos, não há decisões tão corajosas que estavam sendo esperadas. Parece que o próprio diretor não queria chorar dentro da sala de edição, e decidiu deixar só a homenagem sem correr muitos riscos.

Creed II pode servir como um ponto final para tudo o que passamos até aqui. Homenageia o passado e conclui o presente, deixando em dúvida o futuro. Foram muitas lutas, rounds, felicidades, decepções, emoções e mensagens de superação que esta franquia nos presenteou. Esta seria a hora perfeita de Sylvester Stallone aposentar o pugilista de vez, e sair pela porta da frente orgulhoso, por ensinar que todos nós podemos ser um Balboa.

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Personagens da Marvel/Netflix ficarão sem aparecer durante dois anos após os cancelamentos

De acordo com o novo relatório da Variety, o acordo entre a Marvel Television e Netflix possui uma cláusula que estipula que os personagens não poderão aparecer em nenhuma série ou filme que não seja da plataforma de streaming até dois anos após os seus respectivos cancelamentos.

Isso significa que poderemos ver algo inédito com Demolidor, Luke Cage e Punho de Ferro apenas no final de 2020 ou 2021 em diante.

Essa cláusula de No Compete envolve a não competição. Dessa forma, por exemplo, a Netflix pode usar as 3 temporadas de Demolidor até o final de 2020, sem ter qualquer outra produção com esses personagens como concorrente.

Por enquanto, Justiceiro e Jessica Jones seguem com seus retornos confirmados em 2019.

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Séries

John Winchester está de volta! Jeffrey Dean Morgan estará no 300° episódio de Supernatural

Boas notícias para os fãs do personagem!

A CW anunciou nesta quarta-feira (12) que Jeffrey estará reprisando seu papel como o patriarca dos Winchester no episódio 300.

”Estamos muito empolgados em ter Jeffrey de volta neste importante marco e achamos que os fãs vão adorar o que planejamos para o seu personagem e algumas outras estrelas convidadas”, disse o produtor executivo, Andrew Dabb.

John Winchester apareceu ao longo das duas primeiras temporadas onde iniciou o plot principal sobre Azazel, demônio que assassinou Mary Winchester e fez com que John entrasse para a vida de caçador, levando Sam e Dean junto.

O 300° episódio intitulado Lebanon será exibido em 7 de fevereiro de 2019.

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Tela Quente

WiFi Ralph: Quebrando a Internet: Um mar de divertimento e concepções

O mundo digital e a internet são pautas recorrentes no cinema atual. Além de apresentarem uma dinâmica que interfere diretamente em nosso cotidiano, suas complexidades tecnológicas e culturais são chamativas e um combustível para boas histórias. O Jogo da Imitação (2014), por exemplo, aborda um dos precursores fundamentais para esse processo, enquanto A Rede Social (2013) relata a criação polêmica do famoso site Facebook, que se tornou uma das maiores redes de integração no mundo. Já quando se fala de WiFi Ralph: Quebrando a Internet, a animação surpreende em substituir a seriedade por uma comédia simples e eficiente, tornando elementos tecnológicos em personificados e cômicos.

WiFi Ralph parte da premissa que o WiFi é o grande destaque da vez. A instalação da conexão afetará diretamente a vida dos personagens já conhecidos do arcade, pois se tornará uma opção viável para a reconstituição de um dos jogos quebrados. Tal problemática é levada até o fim dos créditos, uma vez que o contraste entre os dois estilos de entretenimento, internet e fliperama, é o tema mais atraente do roteiro, e que será usado como base para a construção dos melhores momentos e de diversas piadas da sequência.

Rich Moore e Phil Johnston, diretores do projeto, trouxeram à vida uma incrível concepção completamente inovadora para a internet. Todas as práticas dos usuários e os elementos presentes no dia-a-dia da era digital (bugs, spans, publicidades, vírus, comentários, etc) são transformados em seres animados com jeitos e manias humanas. As famosas páginas e banners publicitários são transformados em seres segurando uma plaquinha e gritando excessivamente no rosto das pessoas. Estas pessoas, deixando registrado, são apenas bonecos que representam a vida do usuário dentro do servidor digital, inexpressivos e robóticos.

Outros tópicos como compras e comentários são hilários de se verem transformados. Ao apertar o link, um carrinho surge inesperadamente levando o usuário até o respectivo site – todos os sites são representados por casas, prédios ou monumentos – e os comentários se assemelham com o que nós vemos na realidade nua e crua. Embora superficialmente, o longa flerta em discutir questões envolvendo privacidade e manifestações de críticas gratuitas.

Contudo, há de se dizer que as referências, como no antecessor, continuam sendo o maior sucesso. E deve-se dizer que nem é tão difícil formular piadas quando se tem marcas como Google, Disney, eBay, Amazon, entre outras, no seu contrato. WiFi Ralph, portanto, usa essa vantagem com inteligência em prol da constituição de seu entretenimento e o envolvimento de seus protagonistas, e do próprio público, com a narrativa principal.

Toda a sequência ocorrida dentro do espaço da Disney atinge o nível máximo de referências. Star Wars, Marvel, Ursinho Pooh e o lendário Stan Lee são os principais atrativos e forçam o público, inconscientemente, a apontar os dedos e explicar as diversas presenças dentro de tela.  Há inúmeras cenas, aliás, que guardam mais de cinco representações simultaneamente. Algumas delas estão no encontro entre a protagonista Vanellope e, absolutamente, todas as princesas da Disney. O diálogo, que ocorre dentro de um salão de princesas, guarda diversas menções sobre as origens das respectivas personagens, bastante conhecidas pelo público.

Porém, como em diversas animações que apresentam discursos mais inflamados por trás, WiFi Ralph traz consigo uma mudança essencial. Além da alternância entre o protagonismo de Ralph e de Vanellope, que é bem mais importante neste filme do que no anterior, esta fantasia criada pela Disney tenta quebrar diversos paradigmas das fábulas encantadas, deixando clara sua intenção de dar mais notoriedade e importância para as personagens femininas. Mesmo assim, a animação consegue manter um alto nível de divertimento e infiltra críticas razoáveis durante as ações das personagens.

O único problema que estraga WiFi Ralph é a falta de uma narrativa principal convincente. Há tantas coisas acontecendo ao redor do conflito mais significativas, que o clímax acaba sendo desinteressante, acarretando em um final pouco expressivo e impactante. Ao invés de nos importarmos com os acontecimentos da trama, ficamos mais ligados na próxima referência, no aparecimento de algum site conhecido ou de uma personalidade famosa.

Wifi Ralph: Quebrando a Internet cumpre perfeitamente seu papel como animação. Apesar de ter uma história completamente irrelevante e, até certo ponto, boba, agrada por apresentar elementos reais traduzidos para a técnica de animação. Engraçado, divertido e esteticamente deslumbrante, a continuação promete ficar na cabeça dos apreciadores e caçadores de referências por mais um tempo.

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Games PC

Números recordes do Campeonato Mundial de LoL

A Riot Games acaba de divulgar os números oficiais da audiência do Campeonato Mundial League of Legends 2018, o torneio anual que reúne as principais equipes de 14 ligas regionais de LoL para competir pelo título de melhor do mundo.

A final da competição, que ocorreu em Incheon, Coreia do Sul, teve 99,6 milhões de espectadores únicos sintonizados durante a partida, chegando a 44 milhões de espectadores simultâneos, com uma audiência média de 19,6 milhões. A audiência média por minuto é um valor que descreve a quantidade média de espectadores que visualizaram a transmissão durante um determinado minuto do programa e é tradicionalmente usada para medir a audiência televisiva de grandes eventos esportivos.

Na última temporada, a audiência do Campeonato Mundial de LoL alcançou 80 milhões de espectadores únicos.

“Há oito anos, nós trabalhamos arduamente para transformar o League of Legends no próximo esporte global de primeira linha”, diz Whalen Rozelle, Co-Head de Esports da Riot Games. “O interesse internacional que vemos, em particular no Mundial, é resultado direto de nosso investimento no desenvolvimento de um ecossistema competitivo e profundo em níveis regionais e globais. Estamos seguindo em direção ao nosso objetivo de fazer do LoL o primeiro Esport multigeracional e sustentável.”

Uma plateia lotada com mais de 23 mil fãs vibrou quando a equipe Invictus Gaming, da China, derrotou a FNATIC, da liga europeia. O Campeonato Mundial de 2018 também viu a Cloud9, da América do Norte, chegar às semifinais, um feito inédito para uma equipe da região em toda a história do League of Legends.

Equipe da Invictus Gaming levantando a taça de campeã do mundo de 2018.

Mais que um Esport

Milhões de fãs em todo o mundo também assistiram à Cerimônia de Abertura do Campeonato Mundial, apresentada pela Mastercard, que estreou o K/DA, um grupo musical criado pela Riot Games, e sua música “POP/STARS”, apresentada no palco por Madison Beer, (G)-IDLE e  Jaira Burns. A performance contou com as artistas se apresentando lado a lado das personagens de League reproduzidas no palco por meio de realidade aumentada.

O videoclipe de “POP/STARS” alcançou o primeiro lugar nas paradas musicais da Billboard, o número 1 na Top Songs do Google Play, o número 1 no iTunes K-Pop e o número 2 no iTunes all Pop. A música acumulou mais de 242,8 milhões de streams considerando os vídeos e a própria música.

Além disso, a música tema do Campeonato Mundial de 2018, “Rise”, produzida pela Riot Games em parceria com The Glitch Mob, Mako e The World Alive, acumulou mais de 143,7 milhões de streams de vídeos e músicas.

League of Legends é hoje um fenômeno de entretenimento global com um universo incrivelmente rico”, disse Jarred Kennedy, Co-Head de Esports na Riot Games. “Nossa jogada de adicionar mais elementos de entretenimento no Mundial deste ano reflete esse mundo de possibilidades e os resultados vistos em Rise e POP/ STARS validam nossa visão para o futuro do entretenimento de Esports. Estamos empolgados com o fato de que nossos jogadores e o público mais amplo que sintoniza o Campeonato Mundial se identificaram com as atrações”.

 

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Tela Quente

Bird Box: A Inversão de Valores

O novo projeto da Netflix, baseado no livro homônimo de Josh Malerman, que marca a primeira empreitada de Sandra Bullock no serviço, tenta algo incomum quando relacionado aos gêneros. A mistura de terror e drama familiar precisa ser competente para alcançar o relacionamento psicológico com o público.  Se não ocorresse uma boa exploração e um aprofundamento diante desses dois conceitos, além do estabelecimento da conexão entre eles, provavelmente Bird Box seria um fracasso. Porém, diante do talento da sua protagonista e a habilidade técnica da diretora Susanne Bier, o resultado é positivo, mesmo que guarde alguns tropeços no decorrer da narrativa.

A história principal é fragmentada em dois espaços temporais. O primeiro ocorre no passado e mostra o início de uma doença desconhecida que faz com que as pessoas se suicidem apenas a olhando. Na segunda linha, temos os tempos atuais com Sandra Bullock e um casal de crianças em um mundo pós-apocalíptico completamente devastado. O filme consegue contrastar os dois ambientes e desenvolve a narrativa em prol da construção da protagonista Malorie Shannon.

Shannon transmite um perfil inicial clichê e pouco criativo. Ela está prestes a ser mãe, mas tem uma vida completamente distinta deste novo papel, negando a sua gravidez. Nos primeiros minutos a abordagem evidencia essa negação e já apresenta alguns momentos do futuro, apresentando, visualmente, um perfil bem diferente do que estamos presenciando. Ao passo em que a doença começa a se difundir na cidade, a moça encontra um grupo de sobreviventes, e é a partir do encontro que a história começa a se resolver e criar sentido.

Talvez todo a linha do passado seja o maior ponto fraco do roteiro. Não há um texto tão elaborado e inventivo, coisas que se tornam claras no fraco relacionamento entre os atores, – estes que são muito mal interpretados e decepcionam ao entregar atuações robóticas e pouco originais – na pobreza do cenário que aparenta ser de qualquer novela das nove e do tratamento superficial que se dá aos conflitos emocionais dos personagens. Em várias sequências o filme demonstra um vazio técnico e estrutural, mas sua linha futura contrasta inteiramente com essa ideia.

O futuro apocalíptico é profundamente pensado e idealizado. Os sets mais soturnos que abordam a natureza com árvores, rios e paisagens naturais, transforma o ambiente isolado e conecta com o psicológico dos personagens presentes. Principalmente a de Sandra Bullock, esta tem uma exploração tridimensional profunda e auxiliada pelos elementos cinematográficos presentes. As câmeras insistem em ângulos mais fechados e primeiros planos para realçar as emoções daquelas pessoas. A composição sonora também auxilia nessa composição tensa e cansativa, ficando impostada nas cenas de mais ação e perigo.

E é nas cenas futuras dentro das florestas que a mistura de gêneros se concretiza. Há diversos diálogos que expõem relacionamentos e transmitem angústia, enquanto os sustos tentam idealizar a figura da “doença” e o vínculo entre Shannon e as crianças constrói a concepção familiar da história, estabelecendo certas mensagens além da perspectiva psicológica da protagonista.

Deixando de lado o desfecho, – um bom twist – o que mais surpreende é a originalidade em abordar temas tão comuns em filmes dramáticos e familiares. Tudo o que acontece entre as crianças e Malorie Shannon tem um significado profundo e auxiliará eles durante a jornada, abordando aspectos familiares e sociais. Eles não estão mais em estruturas sociais presentes em um estado ou em uma sociedade, suas vidas retornaram ao estado natural sem laços pessoais, parentais ou comunitários, as crianças, principalmente, devem aprender e resgatar estes valores, mesmo que tenham de ser adaptados à nova situação mundial.

Apesar de apresentar certa bipolaridade em sua estrutura, Bird Box é extremamente habilidoso e inteligente ao abordar figuras no estado natural delas, e traduzir isso em transformações incríveis para seus personagens. Com um discurso fortemente voltado ao feminismo e a igualdade social, este novo projeto da Netflix se consagra como um dos melhores do serviço até agora.

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Detective Comics Quadrinhos

Papo de Saloon | Tex: O Sinal de Yama

No último Papo de Saloon tive a oportunidade de dar um panorama geral sobre o maior vilão de Tex, o famoso Mefisto. Em Tex: A Volta de Mefisto, o icônico mago ilusionista retornou em toda sua glória numa história escrita e desenhada por dois gigantes da Sergio Bonelli Editore. Mas se você é fã de Tex Willer também deve conhecer o filho de Mefisto, Yama, um bruxo poderoso como seu pai. E onde ele esteve durante tanto tempo, após ter sido derrotado a última vez por Tex e seus pards? Em Tex: O Sinal de Yama vemos justamente isso.

Steve Dickart, o Mefisto, teve um filho com a cartomante Myriam. Este filho, Blacky, herda o legado do pai nos momentos finais de sua vida, adotando o nome de Yama e buscando vingança contra Tex e seus pards. Apesar de agir em nome do pai e recorrendo à ajuda de descendentes maias e astecas, ou por mestres do voodoo, Yama nunca obteve êxito em seus objetivos e, repudiado por seu progenitor, retornou à vida de saltimbanco com sua mãe.

O parágrafo acima resume muito bem tudo o que você precisa saber acerca deste vilão icônico do ranger mais querido dos quadrinhos. Yama sempre foi considerado inferior em poder ao seu pai por magos poderosos e até mesmo por Willer e Carson. Entretanto, em O Sinal de Yama, o vilão está determinado a, de uma vez por todas, dar um fim à vida dos heróis texianos.

Escrita por Mauro Boselli e ilustrada por Fabio Civitelli, Tex: O Sinal de Yama é uma história recente da cronologia do personagem. Este arco teve início na Itália na revista Tex 673 de novembro 2016, sendo publicado até a edição 675. No Brasil, em julho de 2017, a história chegou pela primeira vez às bancas em Tex 573. E por se tratar de uma obra artisticamente impecável desde sua primeira página, em maio de 2018 ela foi compilada no encadernado de luxo com capa dura que é o tema deste Papo de Saloon!

Boselli, um dos gigantes da Sergio Bonelli Editore, também edita o personagem, além de escrever história fantásticas e clássicos instantâneos praticamente 100% das vezes. Nesta história, Boselli bota na mesa todo seu conhecimento da cronologia texiana quando, ao trazer Yama de volta de sua rotina sórdida acompanhando sua mãe, busca toda a mitologia mística das páginas de Tex para criar uma aventura assombrosa com a nata do ocultismo.

Apesar de estarmos acostumados a ler histórias escritas por Mauro Boselli com mais “pé no chão“, como a maravilhosa Patagônia, quando o autor escreve histórias mágicas o nível se mantém da mesma forma. O roteirista trata todos os personagens, obviamente, de forma muito respeitosa, mas ao mesmo tempo cria momentos fantásticos envolvendo monstros das profundezas e fenômenos da natureza que são de arrepiar.

O autor é sagaz em, de forma inusitada, turbinar os poderes de Yama para que ele represente uma ameaça muito maior ao grupo de Tex, tanto quanto seu pai jamais representou. E apesar do tempo de publicação tão espaçado, esta aventura serve até mesmo como uma continuação para a história comentada no último Papo de Saloon, A Volta de Mefisto. O pai de Yama é uma figura essencial para a história do jovem bruxo, e não é deixado de lado neste épico mágico.

Além dos louros dedicados ao texto de Boselli, a outra parte que brilha aos olhos do início ao fim é a arte de Fabio Civitelli, o motivo desta edição existir. Um gigante no domínio de luz e sombras, Civitelli trabalha com tons de preto como poucos artistas da Bonelli. E a decisão editorial da Mythos em publicar esta história em formato gigante, valorizando o desenho do artista, foi acertadíssima. A ideia do encadernado maior que o formato italiano veio desta proeza do desenhista em chamar a atenção do leitor para cada detalhe obscuro.

O artista desenha criaturas Lovecraftianas, espíritos e demônios com a mesma maestria com a qual inunda as páginas com tempestades, furacões, inundações ou somente pessoas conversando. Cada quadro de Civitelli se assemelha a uma pintura, sempre se baseando no contraste do preto com o branco. E desta forma, as 330 páginas de horror e tiroteio fluem tão perfeitamente, de forma quase cinematográfica, que o combinado de roteiro e arte demonstra com perfeição o que ocorre quando se juntam dois autores fantásticos.

Tex: O Sinal de Yama deixa ganchos para uma continuação. Como todas as séries da Bonelli, Tex possui um potencial infinito de como seu universo pode ser explorado, e ter em mãos alguns usos em potencial para figuras tão emblemáticas é importante caso outros autores – ou os mesmos, e isso seria incrível – venham a se aventurar no ocultismo dos Dickart.

O preço sugerido desta edição é R$ 74,90, e seu formato é 27,2 x 20,2 cm. Caso tenha se interessado, clique aqui para garantir o seu com 26% de desconto!

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Séries

O Cavaleiro das Trevas está chegando em trailer da temporada final de Gotham

A emissora FOX liberou o vídeo com cenas inéditas do desfecho dessa releitura televisiva do que conhecemos sobre Gotham e seus icônicos personagens.

A série foi criada por Bruno Heller e foca principalmente na origem de Bruce Wayne (David Mazouz), James Gordon (Ben McKenzie), além de alguns vilões. Os episódios começaram a ser exibidos em 2014.

A quinta e última temporada de Gotham será lançada em 3 de janeiro de 2019.

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Detective Comics Quadrinhos

Da Lama ao Caos, do caos a Lama nasce o revide da natureza

Lá pelo ano de 1564, a Capitania de São Vicente, teve um encontro bizarro e apavorante com um monstro que saía da água. Era o Ipupiara, o demônio d’água.

Em 05 de novembro de 2015, o rompimento da barragem da Samarco, provoca o maior desastre ambiental da história do Brasil. Derramando mais de 40 milhões de metros cúbicos de lama de minério em um vale, na área rural de Mariana, devastando povoados. Mais de 200 famílias perderam suas casas e 19 pessoas morreram. Até hoje ninguém foi condenado por esse crime.

“Ô Josué eu nunca vi tamanha desgraça. Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça.” (Da Lama ao Caos – Chico Science & Nação Zumbi)

Partindo desse verso dito pelo saudoso Chico Science no icônico disco Da Lama ao Caos (1996), é por onde segue a linha da trama de Lama, nova HQ de Rodrigo Ramos e Marcel Bartholo. Em uma incrível junção de ficção histórica, folclore e horror à la Lovecraft, é contada a história de uma pequena cidade que foi acometida por um desastre no estilo de Mariana. Nessa cidade vivem, ou sobrevivem, Jorge, um pequeno agricultor, e Maya, dona de uma pousada à beira da falência. Ambos insistem em permanecerem na cidade, mesmo depois de da tragédia, acreditando que um dia tudo irá melhorar.

Acontece que Lama é uma história sobre o revide. Sobre vingança. E o PUNCH vem da natureza. Uma força ancestral aparece para condenar os homens pela destruição do seu local de repouso. E ela usa os próprios homens como instrumentos para sua macabra vingança.

Algo como o ciclo que vivemos, já não é de hoje, mas sem monstros físicos (será que não existem mesmo?). O homem destrói a Terra, nisso ficamos escassos de recursos naturais, é a vingança, em forma morta. Mas isso é uma outra conversa, apesar de ser uma excelente analogia com a HQ.

“Se acabar não acostumando. Se acabar parado calado. Se acabar baixinho chorando. Se acabar meio abandonado.” (Segue o Seco – Marisa Monte)

Lama implica em cutucar mais fundo possível onde a esperança terminou. O cenário desolado da pequena cidade, muito bem ditado com a arte de Marcel Bartholo em preto e branco, remete melancolia e a falta de um futuro melhor. O povo tem a cara castigada e cansada assim como as ruas e prédios do local. Jorge é a personificação ideal da cidade. Ele tem o semblante entristecido e o olhar profundo da desesperança, assim como o povo vai abandonando a cidade. Jorge também foi abandonado. A cidade é orgulhosa, e repreende os que causaram o seu apocalipse ambiental. Como Jorge segue orgulhoso e não quer abaixar a cabeça e ão quer depender das pessoas que deixaram tudo ser destruído. Assim como a cidade ainda tenta respirar pelo amor dos que ficaram, o amor tenta fazer Jorge respirar. Maya é o porto que segura Jorge ali no lugar.

A trama de Lama vai desbravando em duas frentes, uma no passado e outra no presente. Falando sobre a lenda de Ipupiara e sobre a pequena e condenada cidade. Com uma narrativa gráfica bem diferenciada do que normalmente estamos acostumados a ver, as sequencias tem tons dramáticos e causam até uma certa “ânsia” dentro de nós. Os quadros seguem dos mais diversos tipos, algo que se vê também em Carniça, HQ da dupla de autores (se não leu, corra para ler), e dita uma regra artística, mas ao mesmo tempo não se apegando muito nela, pois ao decorrer da leitura, os quadrinhos vão se diferenciando, mas continuando o mesmo estilo.

Os momentos de terror de Lama são de meter medo mesmo. Com requintes de suspense psicológico, de gore e de pavor. A história não nega ao leitor o que ele veio buscar ao adquirir a HQ. Pela bela capa sabemos o produto que temos em mãos, e ele não decepciona. O roteiro de Rodrigo Ramos nos transporta para aquele cenário angustiante e sem esperança. Eu ousaria falar que temos pitadas de Lovecraft com Monstro do Pântano e tempero brasileiro. A arte de Marcel Bartholo faz a ponte para esse cenário escrito, com tons de lápis alternando para o nanquim, ditam a mudança entre passado e presente. No passado, as imagens são mais claras. Quando a trama vira a chave para o momento presente, a arte fica mais escura, pesada. Contribuindo com o clima sem esperança da pequena cidade e a dupla de personagens principais.  Mas, não pense que Lama não tem seus suspiros de esperança. O amor é forte em todos os lugares. Até no meio da Lama. E ele tenta florescer no meio do caos como uma flor de lótus.  Só que o caos é forte.

O projeto é uma publicação do selo Carniça Quadrinhos, que leva o nome do primeiro trabalho da dupla, Carniça (2017). O selo foi formado para hospedarem suas futuras histórias de horror. Para adquirirem seus exemplares, entrem em contato na página do facebook da Carniça Quadrinhos.

Lama tem formato 21 x 28 cm, 48 páginas e papel couché fosco. Rodrigo Ramos e Marcel Bartholo estarão na mesa G37 do Artist’s Alley, na CCXP 2018, que acontece entre os dias 6 e 9 de dezembro.