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Creed II: Superação a cada round

Escrito por Thiago Pinto

Depois de seis filmes focados na história do lendário pugilista Rocky Balboa (Sylvester Stallone), o primeiro Creed (2015), dirigido por Ryan Coogler, inverteu a direção temática da franquia. Explorando a vida de Adonis Creed (Michael B. Jordan), filho do falecido Apollo Creed, o filme constrói o protagonista da mesma forma que Balboa fora, porém, adiciona novas interpretações ao impor um cenário mais marginalizado e periférico com uma forte identidade racial. Em sua continuação, contando com a direção de Steven Caple Jr., esta essência é ignorada e perdida, dando espaço para uma abordagem mais familiar e íntima com a própria franquia.

O que mais marcou toda a franquia de Rocky Balboa foi a importância dada aos personagens coadjuvantes. Os filmes não tratavam, prioritariamente, da ascensão de Rocky como um lutador. Seu amadurecimento profissional sempre esteve ligado com suas relações pessoais, sejam elas familiares, amorosas ou amigáveis. Isto fica nítido ao final da luta entre Rocky e Apollo em Rocky (1976), quando Balboa procura incessantemente Adrian (Talia Shire), deixando de lado o resultado no ringue. Tal conservação de um discurso familiar, que aborda mudanças e superação, dura até os dias de hoje com Creed II.

Adonis Creed mudou completamente de Nascido para Lutar para este. O relacionamento com Bianca (Tessa Thompson) está avançando cada vez mais, sua figura é exaltada internacionalmente e sua ligação com o treinamento de Balboa parece estar em seu ápice. Mesmo estando tudo bem na vida do novo campeão, percebe-se que a sombra do pai continua o atingindo e, também, o inspirando. Até que reaparece o famoso Ivan Drago (Dolph Lundgren) e seu filho Viktor (Florian Munteanu), disposto a desafiar o cinturão de Adonis. A figura de Drago, desde o começo, é sufocada por um ambiente escuro, frio e solitário, seu estilo de vida respira e se alimenta de boxe, sendo transmitido de geração a geração. Para quem já conhece o personagem, sabe que toda essa fórmula ajuda a criar uma alusão a sua versão em Rocky IV (1985), neutra e imprevisível.

A escolha de trazer Ivan Drago e seu filho para serem os verdadeiros antagonistas do longa foi a mais certeira – de várias – que ocorreu durante a estruturação do roteiro. Além da forte ligação com o passado de Creed, já que Ivan foi responsável pela morte de seu pai, há a tentativa de fortalecer um discurso de passagem entre duas gerações. Por isso que diversas vezes ocorre a transição de perspectivas entre os quatro. Enquanto temos Rocky e Adonis, ligados por uma fatalidade e tentando esquecê-la, vemos Ivan e Viktor procurando a reconstrução de suas vidas e legados.

E se a franquia inteira foi sobre os relacionamentos externos de Balboa, Creed II é sobre a vida pessoal de Adonis. Entre Balboa e Creed, a história só avança em relação ao antecessor. Ambos confiam inteiramente um no outro, tentam ignorar o passado até certo ponto e, profissionalmente, alcançaram seus respectivos objetivos. Talvez a disposição de Stallone e Jordan de entregarem atuações a altura do sucesso de seus filmes seja o trunfo para a inteira condução técnica e estrutural. O peso dramático se sustenta entre os dois, não há sequências tão boas quanto as conversas dos protagonistas. Há um senso de sinceridade e de realidade por ser um ator veterano e um jovem contracenando juntos, trazendo credibilidade e emoção.

Indo para o lado russo da coisa, Ivan e Viktor tem tratamentos pouco originais, mas que ganham substância ao longo do desenvolvimento. Ivan precisa que Viktor esteja em seu nível máximo, físico e psicológico, para derrotar o Creed e retomar o legado dos Drago. A forma abusiva e tensa que o filme joga no treinamento do filho condiz com a ótimo atuação de Dolph Lundgren. Sua expressão sempre neutra e séria conversa com o passado do personagem, o transformando na figura do pai durão e cego por sucesso. Em relação a Munteanu, novato do elenco, sua interpretação é extraordinária por conseguir expressar os sentimentos do personagem em poucas palavras.

Rocky Balboa tinha Adrian Pennino, assim como Adonnis Creed tem Bianca Taylor. O romance é outro que não pode faltar na composição temática desses longas, mas sem ser piegas ou superficial, há uma importância para a ascensão do protagonista. Tessa Thompson continua mostrando o porquê de ser uma das melhores atrizes da sua época. Tendo bastante tempo de tela, sua interpretação exala um senso materno e acolhedor sem perder a essência independente. A função principal é de representar o reflexo familiar de Creed, deixando claro que sua formação depende muito mais da família e o legado de seu pai do que das próprias lutas. Essa ideia fica bem clara em uma das melhores cenas dentro do terceiro ato.

O texto já transforma as duas horas e dez minutos em uma grande homenagem a este universo, e toda a direção de Caple não fica de fora. Todas as sequências e passagens de Creed II são previsíveis e acompanham a mesmíssima estrutura já conhecida dos anteriores. Porém, rimas cinematográficas e o retorno de elementos essenciais da trajetória de Balboa, transformam a obra em uma carta de apreço para toda a franquia. Apesar de negar as fortes influências de Coogler, o diretor tenta compor uma homenagem sincera e honesta.

Talvez Creed II tenha as cenas de luta mais emocionantes e significativas desde Rocky II (1979). Fotografia, maquiagem, trilha sonora e atuação são as bases para qualquer composição artística de uma luta de boxe. Os planos intercalados corretamente e cortes ríspidos dão dinamicidade para a luta; o sangue escorrido em luvas e no próprio ringue deixam mais crível; uma boa trilha sonora carrega consigo tensão e ajuda na alternância de emoções, o perigo pode ser representando pela ausência dela, enquanto a reviravolta por uma fortíssima presença; e a forma como os atores coreografam e se posicionam denota convencimento.

Como se esperava, esse pacote completo está presente. Steven Caple demonstra capacidade transformando vícios conhecidos em prazerosos e surpreendentes. Em relação a montagem e edição, a continuação apresenta um trabalho detalhado primoroso. Um dos melhores filmes de ação do ano que deixará a audiência sem fôlego durante alguns minutos. É escandaloso e frenético, mas totalmente compreensível e realístico.

Durante seus momentos finais, além de algumas surpresas, o filme tenta se limitar emocionalmente. Apesar de nos presentear com cenas fantásticas, absurdamente significativas para a transição de personagens e o desfecho de arcos, não há decisões tão corajosas que estavam sendo esperadas. Parece que o próprio diretor não queria chorar dentro da sala de edição, e decidiu deixar só a homenagem sem correr muitos riscos.

Creed II pode servir como um ponto final para tudo o que passamos até aqui. Homenageia o passado e conclui o presente, deixando em dúvida o futuro. Foram muitas lutas, rounds, felicidades, decepções, emoções e mensagens de superação que esta franquia nos presenteou. Esta seria a hora perfeita de Sylvester Stallone aposentar o pugilista de vez, e sair pela porta da frente orgulhoso, por ensinar que todos nós podemos ser um Balboa.

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Sobre o Autor

Thiago Pinto

‘’E quando acabar de ler a matéria, terá minha permissão para sair’’

-Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

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