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Golden Boy: o que te faz feliz?

Posso começar esse texto dizendo que sempre tive uma ideia quase que utópica de felicidade – e a palavra “estabilidade” foi predominante no meu conceito. Nós nascemos, crescemos um pouco, entramos na escola. Estudamos. Crescemos um pouco mais, nos formamos. Trabalhamos, e trabalhamos bastante. Se ousarmos escapar mesmo que de forma sutil dessa linha imaginariamente consensual, sofremos o risco do arrependimento ou até mesmo do medo de não estarmos seguindo o que se considera o mais aceitável. Mas… é só isso então? A vida é um corredor estático e segue apenas uma direção? O descobrimento de nossas próprias indagações não estaria entrelaçado unicamente à nós mesmos?

Ok, admito que essa foi uma introdução longa, mas no decorrer do texto vocês vão entender onde eu quero chegar.

Lançado em 1995, Golden Boy é um anime de 6 episódios, produzido pela Shueisha em conjunto com a KSS. Baseado no mangá de mesmo nome, o criador Tatsuya Egawa nos apresenta à jornada do jovem Oe Kintaro, um rapaz de 25 anos que optou por “largar tudo” e viajar com sua fiel bicicleta pelo Japão. Kintaro decidiu que iria aprender sobre a vida, percorrendo seu país não em busca de si mesmo, mas em busca de um aprendizado que só poderia ser conquistado através de uma vivência única.

Ao longo dos 6 episódios, vemos o personagem passar de cidade em cidade, de trabalho em trabalho, sempre buscando aprender o máximo que pode no lugar em que se encontra. O desapego que Kintaro tem com relação ao que a maioria considera como essencial é o que permeia toda a essência do anime, nos mostrando como a alegria pode ser encontrada nas menores e mais simples coisas.

No primeiro episódio, o jovem acaba conseguindo um emprego como faxineiro de uma empresa de informática comandada por mulheres. Mesmo ocupando uma função “simples” e que nada tinha a ver com a computação, Kintaro está sempre com um caderno em mãos, anotando tudo que as suas chefes lhe dizem e até mesmo tudo que elas falam entre si sobre programação e tecnologia. O ânimo em absorver o que o atual momento lhe proporciona é inclusive reparado pelas moças, que veem no jovem uma curiosidade excepcional.

Numa noite, ao estar sozinho no trabalho após o expediente, Kintaro vê um dos computadores ligados, e, numa falha tentativa de poupar energia e ajudar a natureza, desliga o aparelho. O ato ecológico, no entanto, acaba por jogar fora todo o trabalho de meses da empresa, que estava desenvolvendo um programa de computador para um exigente cliente. Perdendo o emprego, Kintaro sente que precisa, de alguma forma, compensar o erro e ajudar as mulheres, começando então a ele mesmo desenvolver o programa que havia deletado. Consultando suas próprias anotações do seu tempo na empresa e mais diversos livros, o jovem consegue criar do zero um software ainda melhor do que o deletado, entregando o arquivo na empresa com um pedido de desculpas e agradecendo por todos os ensinamentos que teve.

Ao perceberem o resultado e o talento de Kintaro, as empresárias procuram pelo jovem, que já havia subido em sua bicicleta e partido rumo à uma nova aventura. O rapaz sente que sua função ali já foi cumprida, que aprendeu o que podia e que conseguiu, de alguma forma, ajudar as pessoas que conheceu.

Em outro momento, vemos Kintaro agora trabalhando em um restaurante de massas artesanais. Morando provisoriamente em um quarto na casa dos proprietários, Oe fala que vai partir assim que o braço do responsável melhorar e o mesmo já puder preparar os pratos sem dificuldades. No decorrer desse tempo, percebemos como o jovem se importa com a família que o contratou – e o acolheu -, dando duro no trabalho, ajudando no que precisa e, o mais importante: vemos como ele está feliz em estar ali.

Sabemos – nós expectadores e a família do restaurante – que a estadia de Kintaro é passageira; sabemos que ele seguirá seu caminho e que as pessoas que ele conhecerá não embarcarão na mesma jornada. Entretanto, mesmo tendo ciência desses fatos, sentimos quando a despedida acontece. Novamente, ao sentir que ali cumpriu sua missão, Kintaro parte, carregando consigo a experiência que adquiriu e os laços que criou.

Kintaro nos faz refletir sobre nossos próprios conceitos de felicidade e aprendizado, nos ensinando (mesmo sendo ele quem está buscando aprender) a olharmos para as oportunidades como uma nova forma de encarar a vida. Percebemos como muitas pessoas irão passar pelos caminhos de Oe e que, mesmo que elas não permaneçam, suas marcas serão eternas. A  solidão de constantes separações acaba sendo compensada pelas belas paisagens que conhece, pelos lugares que visita e pelos encontros que essa incrível jornada lhe proporciona. E, uma coisa eu posso afirmar: Kintaro é feliz. Kintaro leva a felicidade aonde vai, e, do seu jeito, transforma a vida de quem cruza seu caminho, nos mostrando que parte da trajetória também é a partida.


Mesmo sendo um anime ecchi, com cenas de insinuação sexual e até mesmo nudez, Golden Boy consegue empregar a sexualidade de uma forma eficaz, sendo coerente com a narrativa, mesmo que as vezes acabe pesando um pouco na dose. Cabe ressaltar que, por ser uma produção de mais de 20 anos atrás, temos muitos conceitos e entendimentos da época, fazendo com que algumas cenas e piadas se tornem “datadas”. A animação é muito bem feita e produzida, tendo o estilo único que os anos 90 proporcionaram para os padrões estéticos e de traçado. Recomendo essa obra, do fundo do meu coração, não somente aos amantes de animações japonesas, mas à todos que procuram uma trama diferenciada quanto à mensagem que traz. O anime pode ser encontrado na Crunchyroll, clicando AQUI.

PS: se te der vontade de pegar uma bicicleta e sair pelo mundo… não esqueça: a vida é boa e merece ser vivida todos os dias.


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Anônimo: Espetáculo da violência e da mediocridade

Nobody (título original em inglês), lançado no Brasil como Anônimo, é sobre ninguém. O ninguém que mora na sua rua, no seu bairro, na sua cidade, no seu país, ou até mesmo você. Há diversos ninguém vagando mundo afora, aqueles que vivem a vida de forma uniforme, sem mudanças drásticas, com um certo conformismo de que a vida é como ela é, e ponto final. Em Nobody, Hutch Mansell (Bob Odenkirk) aparenta aceitar essa condição,  embora esteja sedento por sangue.

A vida de Hutch reflete o estilo da classe média americana; um cotidiano repleto de comportamentos no modo automático, enquanto no trabalho as funções tornam-se repetitivamente excessivas e constantes, a sua família – formada por uma esposa e dois filhos, a representação padrão das famílias americanas – tem relações frágeis sustentadas por momentos de união no café da manhã e jantar. Mas nada muda em relação a isso; a tabela do Excel, o travesseiro dividindo o casal na cama, o horário do lixo… todos se mantém concretos e imutáveis, como se Hutch não tivesse nem controle do que estaria ocorrendo em seu em torno. 

Assim, uma das maiores qualidades de Nobody é justamente construir essa concepção de repetição imutável, intercalando várias cenas comuns do cotidiano de Hutch para representar o ciclo sem fim que o circunda. Contudo, a particularidade mais valiosa da produção é tornar Hutch em um homem vulnerável e incomodado. A forma com que Odenkirk se porta, fisicamente retraído e inseguro transparecendo certa fragilidade, além das inúmeras cenas que reforçam o olhar depreciativo das pessoas ao seu status, adicionadas ao seu desgaste psicológico, como se sempre estivesse a um passo da violência, próximo do retorno à vida que tinha, traduzem tanto o momento atual do protagonista como o seu passado. 

Este passado que é ponto principal da obra. Afinal, Nobody é um filme de ação visceral, que pode ser acusado de surfar na onda da bem-sucedida franquia John Wick, mas que ganha contornos próprios pelas decisões inteligentes dos criadores. Hutch era um auditor, assassino treinado contratado para eliminar qualquer pessoa que fosse alvo ou empecilho para alguém sem deixar um rastro sequer. Seu passado o atormenta, não como ameaça, mas como desejo, principalmente quando ocorre um assalto dentro de sua casa e ele deixa os brandidos escaparem sem nenhum tipo de reação, sentido-se obsoleto e frustrado. 

O que ocorre a partir daí é um espetáculo visual onde música e violência caminham juntas para criar uma melodia que torna os desejos mais obscuros de Nobody (nome dado à sua classificação enquanto assassino) numa realidade “bem concreta”, digo… com sangue jorrando, olhos roxos, ossos quebrados e corpos queimando. A direção de Ilya Naishuller é minuciosa ao retratar e acompanhar a movimentação dos atores e da ação pelas limitações decorrentes dos espaços selecionados, seja em um ônibus ou no galpão, a câmera promove a interação intensa e fluida dos personagens, trocas de soco, facadas, tiros pra lá e pra cá,  ainda que várias truques sejam utilizados, de posicionamentos de câmera a simples cortes precisos na edição; expondo cada detalhe da ação, o filme concebe um senso realístico extremamente eficaz que potencializa a brutalidade dos personagens – e dos riscos que estes estão submetidos.

E se mencionei John Wick lá atrás, é bom deixar claro o quanto Nobody se distingue deste. Embora tenha semelhanças, afinal os filmes partem de premissas próximas, Nobody se diferencia tanto na maneira que trata seu protagonista quanto na estética. John Wick abusa das luzes, do néon e dos cenários grandiosos e inventivos, da boate ao teatro; já Nobody prefere utilizar o cenário suburbano, casual, que se conecta melhor com a própria proposta, do simples ônibus à casa aparentemente comum. Em relação aos protagonistas, enquanto John Wick é o homem sem falhas, impecável a cada movimento, preciso e com uma agilidade impressionante, Hutch é um aposentado fora de forma, que ainda consegue ser um assassino brutal, mas visualmente sem a mesma destreza, errando movimentos, caindo, apanhando; realmente como um quarentão se portaria se decidisse matar todo o quarteirão.

Mesmo assim, sua figura antiquada dá espaço a um homem seguro de suas decisões, assumindo de vez a identidade que o pertencera e o define, além de comprar a empresa que trabalhava, administrada pela família da esposa, ele compra uma briga até a última gota de sangue com um ameaçador (descartável) mafioso russo estereotipado, interpretado por Alexei Walerjewitsch Serebrjakow. O desfecho não poderia ser mais catártico possível, não só pela proporção da violência e pelo cenário ser o próprio trabalho de Hutch, um fardo inegável, mas também por se tornar a pessoa que desejava voltar a ser, junto ao irmão e ao pai, interpretado por ninguém menos que Christopher Lloyd, com atuação contida mas que rouba todas as cenas em que aparece, além de proporcionar o melhor diálogo do longa. 

O filme deixa portas escancaradas para o futuro e parece apresentar só a pontinha do iceberg de um vasto universo, que facilmente poderia ser integrado a uma outra franquia – ou ser o início de uma. E a brincadeira entre o antiquado e o moderno, a realidade e o desejado, refletida até na linguagem cinematográfica empregada, como a simplicidade dos enquadramentos que servem para mostrar uma exuberância ou um virtuosismo visual, é fundamental para Ilustrar a tentativa de Hutch se sobrepor à mediocridade e se tornar quem deseja, o Ninguém… (ou um ninguém?) Estaria Hutch condenado a voltar à normalidade? Perguntas que o significado dúbio do título promove e instiga, e, de certa forma, complementa as contradições intencionais do filme; tornar a violência espetáculo já não seria um ato um tanto quanto medíocre? 

Desse modo, Nobody é a realização definitiva do real sonho americano. Destruir seu local de trabalho, atirar em alguns russos malditos e, ao final, comprar uma nova casa, a melhor do mercado, que não só irá propiciar um prazer inquestionável, como permitirá que continue se conformando com sua vida medíocre no luxo e no conforto (com prazo de validade).

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A bela melodia no fundo do mar com Professor Polvo

O fascínio pelos mares não é uma prática recente do ser humano, uma vez que durante a nossa história inúmeros especialistas encararam esse gigante colossal líquido para conhecer os seus mistérios e conseguir entender toda a magia com os continentes, assim como a interação com a fauna e flora marinhas. Estamos falando de um organismo que consegue alcançar longas distâncias e profundezas exploradas por poucos. E mesmo com séculos de conhecimento, ainda não temos a menor ideia sobre esse importante mecanismo marinho.

Essa adoração pelo mar foi um dos pontos abordados em Professor Polvo, porém o excelente documentário de Pippa Ehrlich e James Reed conseguiu ir mais além disso ao explorar a bonita e inusitada amizade entre o cineasta Craig Foster e um polvo-fêmea (Octopus vulgaris). Parece até trama de ficção científica, porém não é. Já existem vários estudos relatando algumas espécies de animais criando laços afetivos ao longo de sua vida. Exemplo claro disso é uma característica conhecida como cuidado parental, que significa a estratégia realizada para a aumentar as chances de sobrevivência da prole.

Antes da primeira aparição do polvo-fêmea adorável, o nosso protagonista humano contou um pouco de sua vida e a sua motivação para praticar o mergulho na província do Cabo Ocidental, na África do Sul. Sua vocação começou ainda na infância ao morar numa casa que ficava de frente para o Oceano Atlântico e presenciou a fúria desse gigante d’água. Além disso, fazia mergulhos em poças de marés. Ou seja, era uma pessoa com tendência forte em continuar seguindo com esse contato com a natureza quando fosse adulto e assim foi. Passando por algumas dificuldades, ele retornou e criou uma rotina em mergulhar nas florestas gigantes de algas (formação de kelps).

E foram aqueles tentáculos! Aqueles benditos tentáculos que mudaram completamente a visão do cineasta sobre o ambiente marinho e o comportamento animal naquele meio. Conhecemos mecanismos usados para fugir de predadores e capturar suas presas. São estratégias importantes que garantem a sobrevivência de inúmeros indivíduos nessa furiosa cadeia alimentar.

Isso tudo foi capturado pelas lentes precisas de Craig e fomos contemplados com uma imersão maravilhosa no fundo do mar. A melodia perfeita entre o belo e o assustador. Todo o material nos trouxe a capacidade de pensar sobre a importância de tudo aquilo e nos fez refletir na construção dessa amizade. Todas as etapas dessa relação estavam ali: do medo e estranheza até a confiança completa naquele estranho invasor em seu território.

Ele aproveitou esse acompanhamento diário ao polvo-fêmea para registrar também toda a rotina de outros animais marinhos e como interagiam com a enorme floresta de algas. Com a narração, a história foi sendo contada em riqueza de detalhes. Com os registros, essa história ganhou forma e cor. Foi o excelente complemento que garantiu a nossa empatia para com essa amizade. Praticamente a mesma sensação de assistir alguma série ou filme e torcer pela felicidade desses amigos nos momentos bons e ruins.

O documentário deixou um espaço para explorar um pouco sobre a relação de Craig com seu filho Tom. É importante repassar o seu legado para a geração seguinte, assim como assegurar o cuidado parental necessário. Ao permitir que Tom seja o seu companheiro de mergulho, tudo fica ainda mais perfeito. Ele tinha um aluno para repassar todo o seu conhecimento sobre o mar. Foi uma aula de amor, carinho e respeito com o oceano. A produção ganhou muito com essa dinâmica.

Craig trouxe conscientização ao pensar no futuro das florestas de algas e resolveu agir para garantir essa proteção se juntando com outros mergulhadores. Se já tínhamos uma noção sobre sua importância, o final apenas reforçou como essas florestas precisam ser protegidas a todo custo. As florestas de kelps são essenciais para a regulação da cadeia alimentar marítima. São muitas as espécies que dependem dessas algas para se alimentar e buscar refúgio.

Professor Polvo foi uma carta aberta de amor, carinho e respeito aos nossos mares. Uma mensagem bonita sobre uma amizade improvável que rendeu frutos mútuos e deixou uma lição importante sobre a vida. Enquanto houver mar para admirar, teremos pessoas fascinadas pela imensidão azul.

Nota: Diamante

No último domingo (25), Professor Polvo recebeu a estatueta dourada de Melhor Documentário.

 

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O poder da oratória em Judas e o Messias Negro

Oratória é a arte de falar em público de forma estruturada e deliberada, com a intenção de informar, influenciar, ou entreter os ouvintes. A oratória refere-se ao conjunto de regras e técnicas adequadas para produzir e apresentar um discurso e apurar as qualidades pessoais do orador.

Grandes figuras históricas tinham como principal característica o dom da oratória e como consequência, arrastavam multidões em seus encontros e conseguiram influenciar toda uma massa com discursos memoráveis que reverberam até hoje em nossa sociedade. Por conta disso, é essencial que essas histórias continuem sendo contadas para o grande público para conhecer mais a fundo sobre os principais ideais que montaram esses movimentos sociais.

Estamos em 2021 sob o eco do importante Black Lives Matter (BLM), que voltou com força no ano passado com a morte de George Floyd após uma abordagem policial. Judas e o Messias Negro veio com esse propósito de trazer a voz potente e revolucionária de Fred Hampton na década de 1960 como o líder dos Panteras Negras. Afinal, a oratória de Fred era realmente potente como de Malcolm X e Martin Luther King?

Daniel Kaluuya (Corra! e Pantera Negra) se destacou como um gigante na multidão numa interpretação fantástica no papel do líder deste movimento e o reflexo disso veio com a sua vitória ao receber a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante na premiação do Oscar do último domingo (25). O ator conseguiu transmitir uma energia poderosa em cada discurso dado ao longo do filme e você conseguia perceber como a sua voz chegava para todos na mesma potência.

A cena do auditório já próximo do final representou bem esse poder de falar com o público de uma forma que todos compreendessem. Esse é um bom orador. Fred conseguia repassar a sua mensagem para o público presente. Seu discurso é bastante inflamado e conquistador. Sua lábia é excelente e envolvente. Você quer estar ali e ouvir, quer participar e agir também. O título do longa não está ali de bobeira, pois realmente tem um Messias Negro. É como se estivéssemos numa igreja ouvindo a palavra do pastor e ficamos admirados com suas palavras fortes. Ninguém quer tapinhas nas costas. Muito pelo contrário, a mensagem só possui o efeito desejado quando é feito para te causar reflexão e indignação sobre tudo que acontece ao nosso redor. Coincidência, né?

Bill O’Neal é o nosso Judas ao se infiltrar nos Panteras Negras para espionar todo o movimento planejado pelo grupo. Lakeith Stanfield também teve uma atuação notável, porém faltou um melhor aproveitamento no que diz respeito na forma de seu personagem verbalizar algumas coisas. Apenas um mero detalhe que não atrapalha totalmente no desenvolvimento deste infiltrado. Suas expressões são os pontos fortes.

O núcleo do FBI é bem aproveitado, uma vez que a agência se tornou a grande antagonista deste movimento e tentaram minar suas ações. Bill foi o Cavalo de Troia nesse plano e sua dinâmica com Roy Mitchell (Jesse Plemons) segue o filme de forma fluída. Quem merece também o reconhecimento é Martin Sheen irreconhecível como o J. Edgar Hoover. Assim como Hampton, o diretor do FBI possui um discurso inflamado e potente. Sendo um excelente orador e tendo como a sua plateia seus agentes. Seu poder aqui é convencê-los do perigo de ter esse grupo solto por aí. Funciona muito bem.

Judas e o Messias Negro foi composto por produtores negros: Shaka King, Charles D. King e Ryan Coogler (Pantera Negra). A direção de Shaka não deixou a peteca cair e o roteiro não ficou para trás. Ele foi bem desenvolvido para contar a história real dos Panteras Negras e toda a articulação de Bill até o assassinato de Fred. Quer saber mais sobre? Leia aqui .

Nota: Diamante 

E aqui me despeço. Espero que tenham gostado do texto e fiquem ligados para mais críticas dos principais filmes desse atual Oscar.

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Netflix | Lucifer, O Legado de Júpiter, Love, Death & Robots e mais novidades em maio

Uma prática usual na vida dos consumidores de conteúdo é aguardar as principais novidades que chegarão nas plataformas de streaming. São séries novas, retornos de outras e diversos filmes. Sendo assim, saiba o que a Netflix preparou para este mês de maio:

01/05

Death Note

O filme centra-se no universitário Light Yagami que decide livrar o mundo do mal com a ajuda de um caderno sobrenatural que mata qualquer pessoa cujo nome é escrito nele.

 

Death Note – O Último Nome

Light põe em prática um complexo esquema para afastar as suspeitas de que é o responsável pelas mortes. No percurso, ele conhece uma fã apaixonada e disposta a ajudá-lo.

Death Note: Iluminando um Novo Mundo

Com Light morto, a força-tarefa Death Note é reintegrada. O mundo está em alerta máximo, com novos assassinatos. Um investigador privado se junta ao grupo.

02/05

Operação Overlord

Uma tropa de paraquedistas americanos é lançada atrás das linhas inimigas para uma missão crucial. Mas, quando se aproximam do alvo, percebem que não é só uma simples operação militar e tem mais coisas acontecendo no lugar, ocupado por nazistas.

04/05

Selena: A Série (2° temporada)

Nos novos episódios, iremos ver que à medida em que a carreira da cantora ganha notoriedade, ela precisa encontrar formas de se manter fiel aos seus princípios, arranjar tempo para passar com quem ama e expandir os seus negócios.

Zé Coleta (2° temporada)

Hank é um garoto de seis anos e seu melhor amigo é um caminhão de lixo. Na companhia de animais especiais, eles exploram o mundo ao redor e vivem aventuras fantásticas!

05/05

Os Filhos de Sam: Loucura e Conspiração

O caso Filho de Sam se tornou uma obsessão para o jornalista Maury Terry, para quem os assassinatos estavam associados a uma seita satânica.

 

07/05

O Legado de Júpiter (1° temporada)

A primeira geração de super-heróis passa o bastão para os filhos, mas as tensões aumentam — e as regras antigas não se aplicam mais.

https://www.youtube.com/watch?v=78QltZcT7Ws

 

Garota de Fora (2° temporada)

Nanno está de volta para expor os problemas da escola e dos colegas — e, desta vez, ela não está sozinha.

 

Monstro

Um jovem estudante talentoso se vê envolvido em um roubo seguido de morte e luta para provar sua inocência contra um sistema judiciário que já o condena.

 

500 Mil Quilômetros

Depois de alcançar a marca de 500 mil quilômetros rodados, um caminhoneiro enfrenta a ameaça de perder o emprego para um novo estagiário.

08/05

The Bold Type (Temporadas 1 a 4)

Série inspirada na vida da executiva da revista Hearst, Joanna Coles, e oferece um olhar sobre os bastidores dos responsáveis de uma revista para mulheres chamada Scarlet.

10/05

Boi Neon

Iremar é um vaqueiro de curral que viaja pelo Nordeste trabalhando em vaquejadas. Seu maior sonho é largar tudo e começar uma nova carreira na moda como estilista no Polo de Confecções do Agreste.

 

11/05

Outlander (5° temporada)

Os Frasers se esforçam para prosperar dentro de uma sociedade em que, como Claire bem sabe, está marchando em direção à Revolução Americana.

Explicando…Dinheiro

Nós o gastamos, emprestamos e poupamos. Mas agora vamos falar sobre as armadilhas do dinheiro, como os cartões de crédito, os cassinos, os golpes e o crédito estudantil.

12/05

Família Upshaw

Nesta série de comédia, uma família cheia de histórias para contar tenta equilibrar os desafios e as alegrias do dia-a-dia.

https://www.youtube.com/watch?v=Rod29FKKKk0

 

Oxigênio

Uma mulher acorda em uma unidade criogênica totalmente sem memória. A reserva de oxigênio começa a se esgotar, e ela precisa se lembrar de quem é para sobreviver.

 

Peter Tatchell: Do Ódio ao Amor

Este documentário conta a história do ativista de direitos LGBTQIA+ Peter Tatchell e sua luta por justiça em meio a controvérsias e comoções políticas.

13/05

Amor, Casamento e Divórcio

A vida de três mulheres bem-sucedidas que trabalham em um programa de rádio vira de cabeça para baixo quando seus casamentos são ameaçados por segredos e reviravoltas.

Castlevania (4° temporada)

A série conta a história dos caçadores de vampiros Trevor Belmont, Sypha e Alucard, que, no começo do seriado, defendiam o condado de Valáquia do temível Drácula e do exército de demônios do lorde vampiro.

14/05

Love, Death & Robots (2° temporada)

De aventuras selvagens em planetas distantes a encontros perturbadores perto de casa: a antologia vencedora do Emmy está de volta com novas histórias instigantes.

https://www.youtube.com/watch?v=Gj2iCJkp6Ko

Eu Vi (3° temporada)

Uma mansão horripilante. Uma melodia sinistra. Um gato demoníaco. Mais pessoas comuns compartilham histórias assustadoras de seu passado — e a verdade é apavorante.

A Caminho do Céu

Existe vida nos pertences de quem já faleceu. Um jovem com síndrome de Asperger e seu tio ex-presidiário descobrem e relatam essas histórias para aqueles que ficaram.

 

A Mulher na Janela

Confinada pela agorafobia, uma psicóloga fica obcecada com seus novos vizinhos e quer resolver um crime violento que testemunhou de sua janela.

 

Ferry

Antes de construir um império das drogas, Ferry Bouman volta à sua cidade natal em uma missão de vingança que põe à prova sua lealdade — e encontra um amor que muda sua vida.

 

15/05

Sicario: Dia do Soldado

Para investigar cartéis mexicanos suspeitos de terrorismo, um agente federal pede a ajuda de um assassino. Mas essa guerra acaba virando uma batalha pessoal.

 

Irmã Dulce

A história de uma mulher que enfrentou todas as adversidades para dedicar a vida aos mais necessitados, deixando um legado que perdura até hoje.

 

Kuroko no Basket

Kuroko, Kagami e o resto do time enfrentam os adversários mais difíceis da região com um objetivo em mente: vencer o torneio de inverno.

https://www.youtube.com/watch?v=vChKfGQleqk

 

19/05

Quem Matou Sara? (2° temporada)

Para se vingar, Álex terá que revelar o lado mais sombrio da irmã e aceitar o fato de que nunca conheceu a verdadeira Sara.

The Last Days

Este documentário vencedor do Oscar conta a emocionante história de cinco judeus húngaros que resistiram ao terror do holocausto e do domínio de Hitler.

20/05

Special (2° temporada)

Afastado da mãe, Ryan continua explorando o mundo por conta própria, enfrentando todos os altos e baixos da vida e do amor.

21/05

Army of the Dead: Invasão em Las Vegas

Após uma invasão zumbi em Las Vegas, um grupo de mercenários se aventura pela zona de exclusão para realizar o maior assalto de todos os tempos.

O Vizinho (2° temporada)

Javi achava que já tinha dominado essa coisa de ser super-herói, mas ainda vai precisar enfrentar uma concorrência improvável e alguns visitantes extraterrestres.

Jurassic World: Acampamento Jurássico (3° temporada)

Os jovens na Ilha Nublar estão de volta para mais uma temporada em que, juntos, tentam fugir da ilha habitada por dinossauros.

 

22/05

Olá? Sou Eu!

Fracassada e infeliz, uma mulher sente que perdeu a alegria de viver — até dar de cara com uma versão mais jovem de si mesma, que aparece exigindo mudanças.

26/05

O Divino Baggio

Um relato dos 22 anos de carreira do craque italiano Roberto Baggio, incluindo a difícil estreia nos campos e os conflitos com alguns de seus treinadores.

 

Da África aos EUA: Uma Jornada Gastronômica

Arroz, quiabo, até mesmo o famoso macarrão com queijo. A culinária afro-americana teve (e tem) grande importância no cenário gastronômico dos Estados Unidos. Nesta minissérie, Stephen Satterfield analisa esse impacto.

Atentados em Londres

Este documentário conta a história dos atentados contra minorias em Londres, em 1999, e a corrida para encontrar o extremista de extrema-direita responsável pelas explosões.

27/05

Milagre Azul

Um grupo de crianças e o dono do orfanato onde moram se unem a um marinheiro rabugento para uma lucrativa competição de pesca esportiva, na tentativa de salvar a instituição.

Soy Rada: Serendipia

O humorista argentino Agustín Aristarán, conhecido como Soy Rada, está de volta para falar sobre família, filhos, magia e música.

Eden (1° temporada)

A história de robôs que cuidam da última criança humana.

https://www.youtube.com/watch?v=q3oekuh5Vyw

28/05

Lucifer (5B)

Lucifer protagoniza um retorno memorável à terra dos vivos para fazer as pazes com Chloe. E vem pegando fogo.

O Método Kominsky (3° temporada)

Um novo capítulo se abre para Sandy, que deve lidar com uma difícil perda, um problema financeiro, uma reunião importante e um grande impulso na carreira.

EncrenCão

A vida privilegiada de um cão mimado vira de cabeça para baixo quando ele se perde e precisa aprender a sobreviver nas ruas da cidade grande.

29/05

O Mito de Sísifo

Depois de um incidente estranho, um engenheiro descobre segredos perigosos e conhece uma mulher que veio do futuro procurar por ele.

31/05

Imóveis de Luxo em Família

Este reality show acompanha a família Kretz e sua imobiliária de luxo em Paris.

Isso é tudo, vigilantes. Próximo mês estará caprichado de produções para agradar todo o tipo de público e agora é se programar, pois maio está logo aí. Boa maratona para todos!

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Gameplay Games

The Signifier: Director’s Cut vai além da mente humana

Para os que caíram aqui de paraquedas, The Signifier já possui uma análise, feita por nós da Torre de Vigilância. O que vamos falar aqui é sobre sua principal DLC, o Director’s Cut. O plot inicial do jogo, nós já conhecemos.

Mas para ambienta-los melhor (caso você não leu a análise ainda -triste por você-), vamos fazer uma pequena retrospectiva. The Signifier é um drama interativo, com boas doses de suspense psicológico.

Localizado em um futuro onde é possível recuperar partes da memória de pessoas já falecidas através de uma IA (Inteligência Artificial), jogamos com Frederick Russel, especialista em psicologia digital. E junto ao doutor, precisamos descobrir mais a respeito da morte da vice-presidente de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, a Go-At. No decorrer da gameplay vamos nos deparando com puzzles, no melhor estilo point and click.

 

Falando agora do que temos em mãos. The Signifier: Director’s Cut trás melhorias ao jogo já sólido, que tínhamos jogado anteriormente. Então me pergunto a necessidade desta DLC, entretanto logo me vem a resposta simples em mente. O que é bom pode ficar ainda melhor, ou não! Felizmente, aqui tudo correu para o lado certo.

The Signifier:Director’s Cut não altera em nada a jogabilidade habitual do jogo. Que é bem simples, point and click clássico, em uma perspectiva de primeira pessoa, focando suas forças em criar puzzles de variados níveis, em cenários grandiosos, com pequenos detalhes as vezes imperceptíveis aos olhos de um jogador casual, mas mesmo este perfil de jogador se impressionará facilmente com a melhoria gráfica presente no Director’s Cut.

 

Aqui no Director’s Cut temos a oportunidade de ir mais além em algumas memórias da vice-presidente Johanna, e acabando por descobrir que a sua morte esta conectada em uma rede de tramas ainda mais complexa do que vimos anteriormente, e por sua vez é necessário descobrir as respostas de diferentes puzzles acrescentados nesta DLC. Só avançamos na história se as peças corretas estiverem em seus respectivos lugares, afinal, estamos aqui para recuperar e analisar memórias. Como seria difícil analisarmos memórias fragmentas não é?

É claro que não ficaríamos presos dentro de um laboratório o jogo inteiro, Frederick Russel ainda precisa ter uma vida social, mesmo que não a queira. Tanto fora da IA, quanto lá dentro, os diálogos são pontos altos durante toda a sua experiência, principalmente quando interagimos com os personagens, buscando por pistas a respeito da vítima, ou buscando entender melhor sobre a filha de Russell.

As camadas criadas através dos diálogos são impressionantes, uma exploração super valiosa ao que se diz respeito da psicanálise. E ainda melhor aqui em The Signifier: Director’s Cut, onde algumas pontas soltas, acredito que propositalmente para servir anteriormente como fonte de teorias, hoje são praticamente inexistentes, a medida que vamos encontrando mais pistas e as cruzamos com informações cedidas por algum personagem, está vazio vai sendo preenchido de forma natural, nada de jogar informação na sua cara.

Além dessas camadas mais peculiares dos diálogos, as memórias que acessamos possuem uma profundidade e importância ainda maior. Elas não servem como um livro de informações e uma atividade de quebra-cabeça. E para melhorar temos a ainda bela trilha sonora, que mistura o suspense com o terror psicológico, totalmente coerentes com a gameplay apresentada desde o início do jogo.

 

Assim, The Signifier: Director’s Cut melhora alguns problemas da edição inicial. Principalmente quando falamos em otimização, na versão inicial, durante as lembranças, propositalmente eram apresentadas falhas, assim como uma televisão antiga, chiados, desfoques e instabilidade visual. Entretanto anteriormente tínhamos uma espécie de salada mista destes problemas, onde não era possível compreender o que deveríamos fazer. Já com a DLC, nós temos essas falhas presentes, porém, nos momentos onde elas devem existir, para poder criar a ambientação do jogo.

Uma coisa que eu gostei bastante desta DLC foi sua extensão, o jogo consegue entregar tudo que é necessário, em poucas horas, se comparado com outros jogos que seguem a mesma linha racional da sua. Visto que funciona realmente como um passatempo, um filme ou uma pequena série, que pode ser “assistida” entre o seu horário de trabalho e o seu horário de almoço.

Por fim posso dizer que The Signifier: Director’s Cut, não é um jogo para qualquer um. Seus dramas e gameplay podem não agradar a todos, mas caso você seja um curioso, mesmo que não seja seu estilo de jogo, pode ter certeza que terá uma ótima experiência, e por conta de sua curta gameplay, mesmo que você não goste do jogo como um todo, não será um tempo gasto em vão, certamente alguma informação será absorvida de forma subconsciente, e consequentemente você se lembrará dele ao comentar, que estivesse presente nas diversas camadas do jogo.

 

 

O que temos aqui é uma melhoria do jogo que tínhamos anteriormente, o que não diminui o mérito dos desenvolvedores e produtores, que pegaram o seu material e o exploraram com mais esmero. Mesmo com finais alternativos adicionados aqui, The Signifier: Director’s Cut permanece com uma conclusão muito impactante, além de todo o seu peso como final, ela é arremessada a você, quando menos esperar ela estará no seus braços e você vai tentar entender como ela foi parar ali.

Contudo, The Signifier: Director’s Cut traz um futuro um tanto quanto curioso, com dilemas e questões morais a serem explorados ainda mais. Sua imersão ao mesmo tempo que cativa, cria uma atmosfera de tensão e repulsa. Mesmo sendo um jogo com nicho bem específico a experiência esquisita e amedrontadora por traz de toda a gameplay o jogo consegue ser incrivelmente belo.

Veredito: Prata- Considerável

The Signifier: Director’s Cut, foi testado através de código, enviado antecipadamente para teste. Esta versão está disponível para PCs a partir do dia 22 de abril, e posteriormente terá versões para Mac, PlayStation e Xbox tanto da geração atual quanto da anterior das empresas.

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Detective Comics Quadrinhos

A Casa, de Paco Roca, tem em sua moradia saudades e lições de vida

– Pai, agora você vai ficar aqui e a enfermeira vai cuidar do senhor. Vai ficar tudo bem.
– Obrigado por cuidar de mim.
– Sempre vou cuidar do senhor, pai.

Esse foi o meu último dialogo com meu pai antes dele falecer em setembro de 2020, depois de passar uma madrugada com ele no hospital. Ele teve um câncer que em um mês e meio o levou. Fui o último filho a vê-lo com vida. E ainda não é fácil.

No posfácio de A Casa, Fernando Marías diz que a morte do pai é um dos grandes desafios da literatura. Por um lado é complicado para o autor não seguir somente os instintos e sentimentos, à mercê de dúvidas racionais que chegam de todos os lados. Por outro lado, a escrita meio que flui mais tranquila, parecendo que o pai morto está passeando com o filho. E realmente a obra de Paco Roca você sente a presença do pai dos personagens vivendo e pulsando pela casa em questão.

“As mesmas histórias tristes que se ouve dizer. Dessa vez o escolhido fui eu.” (Honrar teu Nome – CPM #22)

A história gira em torno de três irmãos que perderam o pai e agora precisam decidir o que fazer com a casa, que antes era de veraneio quando eram crianças, e veio se tornar a moradia definitiva dos pais. Assim como é o normal da vida, todos os filhos seguiram seus destinos, saindo das tutelas familiares, mas chegou o momento de encontrar novamente com o passado e o pior, ter que decidir o que fazer com esse passado.

Em meio a lembranças, que na maioria dos casos são boas, os três filhos se apegam a casa que o pai deixou em uma viagem no tempo com essas lembranças. E como eu disse são lembranças boas, porque é do ser humano lembrar somente das coisas boas de pessoas recém falecidas. Isso me remete ao pequeno dialogo que está no inicio desse texto, por mais que seja uma lembrança dolorosa é uma boa lembrança. Pois ali eu vi que pela primeira vez em um mês em meio, o meu pai estava em paz. Ele estava se sentindo bem. Por isso guardo esse momento com tanto carinho. Obviamente existem momentos melhores.

Com uma leveza pura e uma arte que descansa os seus olhos, A Casa de Paco Rosa é uma delícia de leitura, todo detalhe dela parece ter sido feita com amor e cuidado de não forçar um sentimento no leitor, mas sim de fazer a gente adentrar na casa e se sentir membro da família e se sentir apegado e amado pela casa. É como o leitor fosse um “quarto irmão”. Não é uma história de manter legados e sim de cultuar e celebrar o que foi construído. Não somente em bens materiais, mas também com sentimentos, ensinamentos e lembranças.

“Naquela mesa ‘tá’ faltando ele. E a saudade dele ‘tá’ doendo em mim” (Naquela Mesa – Nelson Gonçalves)

A Casa também fala de elos quebrados e “desquebrados”. A família tinha um elo de união que era a casa onde passavam as férias, quando cada um segue a sua vida, esse ela é partido. E o elo se refaz, e esse elo é o pai recém-falecido, ela já não se encontra mais unida há tempos (o que é normal também), a obra apresenta como o único elo que era a união da família depois de quebrado, pode vir a unir todos depois. Pois isso também é da natureza humana, sofrer um machucado e lamberem as feridas juntos. Mas se essa união irá continuar… quem sabe?

A Casa atinge em cheio quem já perdeu um ente querido, seja qual membro familiar for ou até mesmo aquela amizade. Mas a obra também atinge quem não perdeu ninguém. Pois faz aflorar a ideia que temos que celebrar enquanto estamos vivos, criar boas lembranças, pois um dia tudo vai passar. No meu caso não foi uma obra fácil de ler, mas também não me levou às lágrimas. Ela me passou uma coisa boa, e um tanto clichê, de que a vida é assim. Tudo passa e que devemos continuar sempre em frente.

A Casa foi publicada aqui no Brasil pela Devir, tem formato 24,7 x 17,9 cm, capa dura, 136 páginas coloridas e a tradução da Jana Bianchi.

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Música Vitrola

Quando eu me apaixonei por Joey Ramone?

Quando eu me apaixonei por Joey Ramone? Não sei dizer ao certo. Acho que primeiro não exatamente por ele. Era apenas um guri beirando na idade de 13 ou 14 anos, talvez já estivesse com 15 anos. Talvez. Mas lembro de conhecer algumas coisas dos Ramones, mas não tinha desenvolvido o mantra: “Tudo que você faz escutando Ramones, fica melhor”. Até que um amigo me emprestou uma fita K7 com uma (com o perdão do trocadilho) cassetada de músicas dos Ramones. Ali tudo mudou.

Infelizmente, quando comecei a gostar dos Ramones foi também o mesmo período em que a banda já estava na reta final de sua existência. Nunca tive o prazer divino de ir nos shows dos meus heróis. E confesso que na época eu também não era tão fã como sou atualmente, ou como eu era a 20 anos atrás. Infelizmente. Eu tinha amigos que amavam mais do que eu, que ouviam mais do que eu e sabiam mais sobre a banda do que eu. E quando eu me apaixonei por Joey Ramone já era um tanto tarde demais para ir em shows dos caras. Mas graças ao punk amor sempre é eterno.

Joey em sua casa. Foto de André Barcinski

Em razão de alimentar esse amor, como fazemos com qualquer companheiro(a) que encontramos na vida, busquei saber tudo sobre ele, sobre a banda, integrantes e tudo que aconteceu ao redor. Desde o início da banda na década de 1970 até o “final” na década de 1990. E isso é algo perigoso pois em certo momento pode gerar algum tipo de decepção, quando desnudam os seus heróis. E meio que me senti assim em certos momentos. Em relação a todos os Ramones. Sem exceção. Mas, em uma escala menor com Joey.

Jeffrey Ross Hyman teve uma infância difícil, sofrendo com o bullyng das crianças da escola, com a separação dos pais, com um pai que considerava que ele (e o irmão Mickey Leigh) deveriam ir para uma escola militar, com o fato de ser o “esquisitão” da rua e com os primeiros sintomas do TOC. O menino Joey passou por uns maus bocados. Era a personificação de momentos que muitos passam na vida mas buscam esconder, e não me excluo dessa. Tenho momentos em que sofri muito para ir à escola quando criança por causa do meu peso, eu me fechava por dentro e não demonstrava. Ficava introspectivo e silencioso, juntamente com meus quadrinhos e músicas.

Joey, Mike (seu irmão) e um tio deles.

Joey Ramone é um case de sucesso que faz os olhos de qualquer coach, desses bem charlatão, brilharem. Era o derrotado, que montava banda após banda com baterista, em certo momento foi posto para fora de casa, virou Jeff Starship e tocou na Sniper, uma banda de GLAW ROCK, de onde foi expulso por não ser bonito o suficiente para ser vocalista. Muitas idas e vindas em clínicas psiquiátricas, onde foi atestado como “O paciente essencialmente se enxerga com baixa autoestima, sofrendo grande dor emocional na forma de ansiedade; a personalidade do paciente é consistente com o diagnóstico de esquizofrenia do tipo paranoide”, lutou contra um linfoma de 1994 até 2001 e se tornou lenda amada do rock.

Isso sem falar em tocar em uma banda que vivia em zona de conflito. Muitas vezes graças ao domínio de ferro de Johnny Ramone e seu tradicional mau humor e jeito conservador. Joey ainda teve a decepção de ver a sua namorada, Linda, começar a ter um caso com o guitarrista da sua banda. Aliás ele não viu, depois de muitos comentários foi que tudo explodiu.

Joey, Johnny e Linda.

E perdeu a namorada, foi traído, descobriu a traição e continuou na banda. Uma banda que não explodia no sucesso que todos achavam que ia fazer. Os Ramones só foram ser tornar pilares deuses do rock quase ou já no final da carreira, a maior parte de suas carreiras eram grandiosos no circuito underground. Eles por exemplo, se posicionam hoje em um local como (serei xingado) os Beatles. Os rapazes de Liverpool foram o grande estopim de diversas bandas como o Black Sabbath e os próprios Ramones. E inspiraram milhares de pessoas ao redor do mundo. O efeito Ramones no punk é equivalente a isso. Pois muitas bandas como o Green Day, Ratos de Porão e Racind, por exemplo, citam os caras como grandes mestres.

Os Ramones nunca tiveram um grande disco de sucesso. As vendagens sempre foram baixas. Os motivos nunca foram claros. De repente foi a estratégia que tiveram no inicio, o discursos, as suásticas que usavam para chocar a sociedade judaica, apesar de ter judeus em seus integrantes (Joey era um), as confusões etc e tal.

GABBA GABBA HEY!

Os Ramones, incluindo o próprio Joey, tiveram momentos esdrúxulos que acabaria com o fanatismo de qualquer fã. Johnny tinha uma namorada que ele batia com regularidade, por exemplo. Dee Dee Ramone, além de todas as drogas, ele ainda foi diagnosticado com Distúrbio de Bipolaridade. O próprio Joey era um turbilhão de emoções, e ao mesmo tempo que era uma pessoa mais amável do mundo, era o tremendo escroto irritante. De gritar com quem tivesse que gritar. Sem pudor.

Mas então porque eu me apaixonei por Joey Ramone? E possivelmente você também?

Pode ser toda a mística que envolve os Ramones. O jeito fácil que pega quando você é moleque e pensa: “uma banda inteira que toca em três notas. Eu posso fazer isso também!”, esse tipo de ensinamento é algo que se pode levar para a vida. “Se fulano consegue, porque eu também não consigo” (brilham os olhos dos coachs novamente).

Pode ser pelo fato de Joey teve uma vida complicada desde criança. Muitos de nós temos nossos momentos em que somos ridicularizados, nos sentimos para baixo, mas sabemos que temos os Ramones para afagar e Joey levantar o astral com seu HEY HO!

A placa em homenagem a Joey Ramone, fica na esquina da Bowery com a East Second Street em Nova York e é a placa mais roubada da cidade. O que obrigou a prefeitura instalar a seis metros de altura.

Não sei o motivo na verdade porque me apaixonei por Joey Ramone. Só sei que hoje, 15 de abril, completam 20 anos de sua morte. E sinceramente sinto a falta de como se fosse um amigo. Um amigo que esteve em momentos felizes e tristes da minha vida adolescente e adulta. Mas um amigo que eu nunca vi pessoalmente, que é só eu dar um play em alguma música e sei que ele estará ali para me abraçar novamente.

No livro Eu Dormi com Joey Ramone, escrito por Legs McNeil e Mickey Leigh. Mickey revela a última música que Jeffrey Ross Hyman ouviu no dia em que faleceu, aos 49 anos, após uma batalha de sete anos contra o linfoma no Hospital Presbiteriano de Nova York em 15 de abril de 2001, foi “In Little While” do U2. Confira abaixo a versão legendada em português.

Eu te amo Joey Ramone!

 

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As séries da Marvel são apenas boas, e isso é maravilhoso!

Esta publicação está sendo escrita logo após o segundo episódio da série da Marvel, Falcão e Soldado Invernal, mas não teremos spoilers desta série, mas sim de WandaVision. O que  falarei aqui é uma opinião a respeito das séries, assim como qualquer outra opinião ela pode ser mudada no futuro. Caso aconteça vocês saberão, ou não.

 

 

A primeira coisa a se falar é que as séries da Marvel são boas, de fato, assim como aquelas que foram canceladas pela Netflix, Demolidor, Jéssica Jones, Luke Cage, O Justiceiro e Punho de Ferro e Os Defensores (estes dois últimos nem tanto). Até por que se não fossem boas teriam sido canceladas na primeira oportunidade, sem segundas temporadas (algumas), e não após a Disney anunciar um serviço de streaming próprio. Certo?

Mas o que tenho a falar aqui não envolve só as séries, envolve os filmes da Marvel também, até pelo fato desses apêndices serem comercializados como Universo Cinematográfico da Marvel – MCU ou parte dele. A questão aqui é o simples fato das séries serem boas, mas não acrescentarem em nada o desenvolvimento dos personagens que já conhecemos das telonas. Quando falo de desenvolvimento, é literalmente o seu sentido completo, como crescimento, evolução, progresso, e não de informações sobre o personagem passado para nós. Porque isso é passado, o que passamos a conhecer mais, durante a série sobre determinado personagem nada mais é, aquilo que ele já passou. Poderíamos não saber a respeito, mas ele já sabia e tudo o que ele é naquele momento (presente da série), é resultado deste passado. Assim como todos os eventos que nos levaram a ser como somos hoje.

 

 

Pegando WandaVision como exemplo, já que a série foi finalizada e foi a primeira a ser lançada nesse novo modelo adotado pela Marvel, podemos dizer que a protagonista Wanda não evolui durante a série. “Como assim? Tudo que ela passou durante a série não a fez evoluir?” Correto, não evoluiu. Ao final de Vingadores Ultimado, Wanda termina seu pequeno arco em luto pelo seu namorado/marido/esposo Visão, até que começamos a série com ela enfrentando estas mesmas dificuldades, porém com o acréscimo de tentar gerir tudo aquilo que ela esta provocando, manipulação mental dos cidadãos da cidade e cárcere (além de toques na manipulação da realidade). “E como ela evoluiria na série?” Primeiramente, ela passaria pela fase de luto, compreenderia que seus poderes usados de forma não responsável podem causar um dano gigantesco. E como terminamos a série todos nós que assistimos a série sabemos, de luto pelos seus filhos que só existiam dentro da sua realidade criada dentro do domo, e pelo Visão que nunca retornou dos mortos de fato.

Então entra o questionamento, mas o Visão passou suas lembranças para o Visão Branco, a Wanda teve contato com Agatha outra bruxa e aprendeu novos truques (nas hqs ela é inclusive a professora de Wanda Maximoff nas artes mágicas), e ao final estava estudando com o livro pego desta bruxa. De fato temos essas questões que são facilmente explicadas. A primeira é que o Visão Branco era um projeto secreto dentro da S.W.O.R.D – E.S.P.A.D.A, e só quem o viu foram Wanda, Visão, Monica Rambeau, EMT e Darcy. Além do fato dele ter desaparecido após a conversa de Barco de Teseu com Visão original, o que nós leva a necessidade de uma explicação por parte destes personagens para o alto escalão de personagens do Universo Marvel. Se há explicação não há evolução.

 

 

Nós temos que entender que séries e filmes mesmo dividindo o mesmo universo, são produtos para mídias e públicos diferentes, claro que existem aqueles grupos em comum, mas não idênticos – veja o pequeno gráfico que montei para explicar melhor. Imagine a confusão que a Marvel causaria no público comum (público que é alvo da Marvel), podendo causar um desinteresse, ao apresentar uma Wanda completamente diferente em uma sequencia cinematográfica, entretanto é fácil mostrar que ela simplesmente agora tem um novo uniforme, como qualquer outra super-heroína que muda de uniforme ou de visual todo filme, e que ela agora tem um livrinho pra estudar. Bem simples, sem precisar resumir a temporada inteira os acontecimentos etc. Mas o ponto é que no final das contas ela se encontra no mesmo estado, com psicológico abalado, e agindo de forma emocional, do mesmo jeito em que terminou o último filme em que participou. Ou seja, nesse ponto de vista que compartilho, não houve evolução da personagem.

1 – Público fervoroso (As vezes estou nesse, ou no 3).
2 – Público importante para o streaming.
3- Público Importante para os cinemas.
4 – Público mais recente, que pode ou não ter começado a acompanhar o MCU recentemente.

 

Um outro exemplo, bastante engraçado, já que faremos um exercício de pensamento inverso, é falarmos de OVAs e filmes de animações japonesas, animes. Me desculpem aqueles que possuem um conhecimento maior em relação a este tipo de mídia, mas aqui vou falar de forma fácil e genérica para demonstrar o ponto da evolução da história.

Um OVA (Original Video Animation), ou filme baseado em animes, normalmente são lançados fora da plataforma original deste anime, geralmente são spin-offs, e não possuem relevância significativa com a história principal. Mas possuem um enredo que trabalha mais o passado de cada personagem, trabalha alguma informação nova, mas que ao voltar para o anime, demandará de explicações. Ou seja, considerando os filmes da Marvel como um anime, que possuem dentro de cada obra seu desenvolvimento de personagens e trama, as séries podem ser encaixadas como esses spin-offs que sim, agregam. Mas não interferem na história principal que é o que temos no cinema.

Se pararmos para analisar de forma fria, até mesmo alguns filmes funcionam desta maneira. Como é o caso do Incrível Hulk com Edward Norton no papel de Bruce Banner, os primeiros filmes de Thor e Capitão América. Todos eles foram implementados de formas independentes, com pequenos easter eggs que os fãs mais fervorosos puderam perceber, e só depois de estabelecidos de forma correta, passaram a ter uma importância maior na timeline do Universo Cinematográfico da Marvel – MCU.

Pode ser, que as séries conversem entre si de forma mais concreta no futuro, e que eles realmente interfiram nos cinemas (o que acho difícil), mas no momento, com o material que temos em mãos isso não está parecendo possível.

 

Contudo, eu não desmereço as séries, muito pelo contrário, quanto mais conteúdo melhor, até porque sem elas eu não estaria escrevendo esta matéria. Sou consumidor, e admiro este trabalho que a Marvel faz, com relação a entender o seu público alvo de cada mídia, o que a faz grandiosa. Esta publicação serve para responder algumas perguntas daqueles que tem medo ou dúvidas do futuro que a Marvel está montando. “Será que vou precisar assistir todas as séries?” “Será que tudo vai ficar diferente de uma hora pra outra?” A resposta é simples, e direta. Não! A Marvel, sabe o que faz e não vai sair mudando tudo que ela construiu em mais de 10 anos de trabalho duro nos cinemas. Pode ficar tranquilo!

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O Legado e “Vingança” de Zack Snyder e do Seu Snydercut

Finalmente foi lançado o tão falado e esperado Liga da Justiça – Snydercut. E pasmem (para os haters) ele é bom! Sim! A visão/versão do Zack Snyder para a filme do maior grupo de heróis da DC Comics, lançado em 2017, capitaneado (em sua maior parte) pelo diretor Joss Whedon, que foi uma decepção tanto de crítica, para o estúdio, para os fãs e até para os atores, finalmente recebeu o seu devido tratamento. O filme de 2017 pareceu ganhar mais corpo e as coisas que ocorrem nele fizeram mais sentido com o Snydercut. Para os fãs foi um alento e alívio.

Primeiro porque os fãs ardorosos, alguns são muito mais fãs do Zack Snyder do que dos personagens do Universo da DC Comics fizeram acontecer em inúmeras petições online pelo mundo, os atores, principalmente o Ray Fisher, que interpreta o Cyborg no longa, foi um que mais levantou a bandeira para dar força ao diretor, que começou uma campanha na rede social Vero soltando esboços, storyboards de sua versão. E na verdade o Snyder merecia contar essa história. Desde que ela foi interrompida pela sua tragédia familiar. Eu imagino o grande UFA que ele soltou ao terminar.

O Snydercut foi chegando aos poucos, com muitas ironias de pessoas espalhadas pela internet, a cada notícia viam piadas e zombações com os fãs. Fãs esses, que obviamente não foram todos, se mostraram um fandom tóxico demais. Muitas vezes abrindo o esgoto que se encontra na rede mundial de computadores. E muitas vezes com atrocidades que quase equivalem a de trolls cibernéticos. Mas como eu disse acima, não são todos. E na força desse fandom, o Snydercut nasceu.

Um filme de quatro horas de duração, que completa a famigerada película de 2017. E possivelmente seja o maior calo do filme, em certa altura do filme, fica o pensamento de que poderia ser menor. Em certo momentos você torce para o filme acabar logo. Mas não é somente isso. Primeiro que sendo óbvio, melhorar o filme de 2017 não é nenhum mérito. A história é ruim. E o Snydercut tem uma história ruim. Ela não envolveu em 2017, e não envolve agora em 2021. O excesso de slow motion e cenas (que muitos consideram épicas) é cansativo e desgasta muito o que poderia ter de narrativa. E o CGI está falho em diversas cenas, chegando em alguns momentos ser até amador. Como a cena do Lex Luthor dentro da água vislumbrando o Lobo da Estepe e as Caixas Maternas.

O espectador não se apega muito na importância, por exemplo, das Caixas Maternas, onde a trama gira em volta. Mas esse “não se apegar”, sejamos justos, nem é totalmente culpa do filme. Sem querer comparar mas já comparando, você entende mais a importância das Joias do Infinito por exemplo. Mas essa importância foi construída durante anos, as Caixas Maternas praticamente caíram no colo de quem assiste.

Onde o Snydercut ajudou e melhorou?

Em lances pontuais. Abrir novos horizontes. Gostaria mesmo de ver um filme, ou quem sabe uma série, sobre Batman do Ben Affleck com o Exterminador de Joe Manganiello, caçando o Morcego por Gotham City e com J.K. Simons como Gordon. Ainda mais depois daquele final do Exterminador no iate com Lex Luthor, aliás esse dialogo ficou muito melhor do que “vamos montar nosso clubinho do mal”.

A construção do Victor Stone. Essa peça faltou no primeiro filme e foi colocada com o Snydercut. Uma importância ao Cyborg. Um personagem tão clássico da DC Comics. Aqui ele tem um desenvolvimento tão importante que abrange diversos personagens do filme. Principalmente a ligação e relacionamento com seu pai. A história de derrota e redenção dele é excelente e empolga. O que é uma recompensa para o ator, que foi o único do elenco que falou sobre o comportamento abusivo do diretor Joss Whedon nos sets de filmagem e as acusações de racismo pelos executivos Toby Emmerich, Geoff Johns e Jon Berg. O que resultou a retirada do ator no futuro filme do Flash.

O Lobo da Estepe também é outro personagem que melhorou muito, não tanto visualmente (pelo menos para mim) mas na sua essência. Em muitos momentos o vilão realmente mete medo. Ele é grandão, monstruoso e sem escrúpulos. A devoção à Darkseid é messiânica como se espera de um lacaio e mesmo ele sendo tão poderoso, se rebaixa para obter o perdão de seu líder maior. Darkseid é um espetáculo a parte. Gostaria de ver mais filmes com ele. Ele ficou do jeito que todos esperávamos e acho que ficou até melhor. Ele tem o porte de conquistador, tirano e também mete medo. É aquele cara que você não quer enfrentar. A batalha dos antigos deuses contra ele é muito boa também. O início em que ele segura a terra é de arrepiar.

O Coringa de Jared Leto, também foi melhorou demais. Zack Snyder mostrou que pode fazer o personagem sem inventar muito em cima. O dialogo dele com o Batman no “pesadelo/premonição”, é possivelmente, o melhor do filme.

Mas principalmente, a melhor coisa foram as exclusões de cenas onde o antigo diretor buscava sensualizar algumas personagens, principalmente a Diana. Como a famigerada cena do Flash caindo por cima dela e o olhando os seus seios. E as inúmeras cenas de piadas sem nexo e indesejáveis, como o Superman e o Cyborg rindo caídos no chão. Uma coisa de se lamentar do gigantesco fandom que brigou bravamente pelo filme, é que muitos comemoraram mais a exclusão das cenas das “piadas” do que as que sensualizavam.

O Snydercut chegou e mostrou uma versão mais engordada, um tanto quanto brega (que é muito bom!), mas não tão diferente do filme original de 2017. Ainda é um filme com uma história ruim, mas ele tem excelentes pontos que abrem para o futuro. Muitos falam que Snyder não entende dos personagens, pode até ser que ele escorregue aqui e ali. Até porque isso é uma coisa que é desde o Homem de Aço e continuou nos filmes dessa linha da DC Comics, os personagens são bem rasos e genéricos. Mas ele sabe o que queria fazer com os personagens. E onde queria colocar cada um deles no futuro. E em cima disso montou o que ele montou um horizonte interessante e introduziu um universo que pode e
deveria ser trabalhado.

No final das contas, Zack Snyder meio que se “vingou” da Warner ao abrir segmentos bastante interessantes para o futuro. E fez isso sabendo que o seu fandom estará sempre pronto para lutar por esse futuro. E agora com a adição de quem antes não acreditava em respiro desse universo.

Para a Warner só resta segurar essa batata quente.

E eles que lutem.