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Anônimo: Espetáculo da violência e da mediocridade

Escrito por Thiago Pinto

Nobody (título original em inglês), lançado no Brasil como Anônimo, é sobre ninguém. O ninguém que mora na sua rua, no seu bairro, na sua cidade, no seu país, ou até mesmo você. Há diversos ninguém vagando mundo afora, aqueles que vivem a vida de forma uniforme, sem mudanças drásticas, com um certo conformismo de que a vida é como ela é, e ponto final. Em Nobody, Hutch Mansell (Bob Odenkirk) aparenta aceitar essa condição,  embora esteja sedento por sangue.

A vida de Hutch reflete o estilo da classe média americana; um cotidiano repleto de comportamentos no modo automático, enquanto no trabalho as funções tornam-se repetitivamente excessivas e constantes, a sua família – formada por uma esposa e dois filhos, a representação padrão das famílias americanas – tem relações frágeis sustentadas por momentos de união no café da manhã e jantar. Mas nada muda em relação a isso; a tabela do Excel, o travesseiro dividindo o casal na cama, o horário do lixo… todos se mantém concretos e imutáveis, como se Hutch não tivesse nem controle do que estaria ocorrendo em seu em torno. 

Assim, uma das maiores qualidades de Nobody é justamente construir essa concepção de repetição imutável, intercalando várias cenas comuns do cotidiano de Hutch para representar o ciclo sem fim que o circunda. Contudo, a particularidade mais valiosa da produção é tornar Hutch em um homem vulnerável e incomodado. A forma com que Odenkirk se porta, fisicamente retraído e inseguro transparecendo certa fragilidade, além das inúmeras cenas que reforçam o olhar depreciativo das pessoas ao seu status, adicionadas ao seu desgaste psicológico, como se sempre estivesse a um passo da violência, próximo do retorno à vida que tinha, traduzem tanto o momento atual do protagonista como o seu passado. 

Este passado que é ponto principal da obra. Afinal, Nobody é um filme de ação visceral, que pode ser acusado de surfar na onda da bem-sucedida franquia John Wick, mas que ganha contornos próprios pelas decisões inteligentes dos criadores. Hutch era um auditor, assassino treinado contratado para eliminar qualquer pessoa que fosse alvo ou empecilho para alguém sem deixar um rastro sequer. Seu passado o atormenta, não como ameaça, mas como desejo, principalmente quando ocorre um assalto dentro de sua casa e ele deixa os brandidos escaparem sem nenhum tipo de reação, sentido-se obsoleto e frustrado. 

O que ocorre a partir daí é um espetáculo visual onde música e violência caminham juntas para criar uma melodia que torna os desejos mais obscuros de Nobody (nome dado à sua classificação enquanto assassino) numa realidade “bem concreta”, digo… com sangue jorrando, olhos roxos, ossos quebrados e corpos queimando. A direção de Ilya Naishuller é minuciosa ao retratar e acompanhar a movimentação dos atores e da ação pelas limitações decorrentes dos espaços selecionados, seja em um ônibus ou no galpão, a câmera promove a interação intensa e fluida dos personagens, trocas de soco, facadas, tiros pra lá e pra cá,  ainda que várias truques sejam utilizados, de posicionamentos de câmera a simples cortes precisos na edição; expondo cada detalhe da ação, o filme concebe um senso realístico extremamente eficaz que potencializa a brutalidade dos personagens – e dos riscos que estes estão submetidos.

E se mencionei John Wick lá atrás, é bom deixar claro o quanto Nobody se distingue deste. Embora tenha semelhanças, afinal os filmes partem de premissas próximas, Nobody se diferencia tanto na maneira que trata seu protagonista quanto na estética. John Wick abusa das luzes, do néon e dos cenários grandiosos e inventivos, da boate ao teatro; já Nobody prefere utilizar o cenário suburbano, casual, que se conecta melhor com a própria proposta, do simples ônibus à casa aparentemente comum. Em relação aos protagonistas, enquanto John Wick é o homem sem falhas, impecável a cada movimento, preciso e com uma agilidade impressionante, Hutch é um aposentado fora de forma, que ainda consegue ser um assassino brutal, mas visualmente sem a mesma destreza, errando movimentos, caindo, apanhando; realmente como um quarentão se portaria se decidisse matar todo o quarteirão.

Mesmo assim, sua figura antiquada dá espaço a um homem seguro de suas decisões, assumindo de vez a identidade que o pertencera e o define, além de comprar a empresa que trabalhava, administrada pela família da esposa, ele compra uma briga até a última gota de sangue com um ameaçador (descartável) mafioso russo estereotipado, interpretado por Alexei Walerjewitsch Serebrjakow. O desfecho não poderia ser mais catártico possível, não só pela proporção da violência e pelo cenário ser o próprio trabalho de Hutch, um fardo inegável, mas também por se tornar a pessoa que desejava voltar a ser, junto ao irmão e ao pai, interpretado por ninguém menos que Christopher Lloyd, com atuação contida mas que rouba todas as cenas em que aparece, além de proporcionar o melhor diálogo do longa. 

O filme deixa portas escancaradas para o futuro e parece apresentar só a pontinha do iceberg de um vasto universo, que facilmente poderia ser integrado a uma outra franquia – ou ser o início de uma. E a brincadeira entre o antiquado e o moderno, a realidade e o desejado, refletida até na linguagem cinematográfica empregada, como a simplicidade dos enquadramentos que servem para mostrar uma exuberância ou um virtuosismo visual, é fundamental para Ilustrar a tentativa de Hutch se sobrepor à mediocridade e se tornar quem deseja, o Ninguém… (ou um ninguém?) Estaria Hutch condenado a voltar à normalidade? Perguntas que o significado dúbio do título promove e instiga, e, de certa forma, complementa as contradições intencionais do filme; tornar a violência espetáculo já não seria um ato um tanto quanto medíocre? 

Desse modo, Nobody é a realização definitiva do real sonho americano. Destruir seu local de trabalho, atirar em alguns russos malditos e, ao final, comprar uma nova casa, a melhor do mercado, que não só irá propiciar um prazer inquestionável, como permitirá que continue se conformando com sua vida medíocre no luxo e no conforto (com prazo de validade).

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Sobre o Autor

Thiago Pinto

‘’E quando acabar de ler a matéria, terá minha permissão para sair’’

-Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

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