Categorias
Tela Quente

Lupin, uma série francesa: cativante, perspicaz e divertida

O ano de 2021 começou com grandes promessas de produções da Netflix, sendo Lupin a pioneira nas séries e ainda superando a audiência de sucessos como O Gambito da Rainha e Bridgerton. Talvez o principal fator a chamar a atenção do público foi a premissa apresentada no trailer: o roubo de um colar de diamante no Louvre e cenas muito bem-apresentadas.

Mesclando o romance policial com um pouco de comédia, Lupin é uma série francesa que adapta para os dias atuais a obra de Maurice LeBlanc, criador do personagem Arsène Lupin, famoso ladrão do meio literário, sendo este o qual o protagonista Assane Diop (Omar Sy) se inspira para realizar seus planos na grande Paris. A melhor característica da história se dá pelo fato de que o protagonista não executa seus roubos visando o dinheiro, e sim uma vingança contra a elite no geral, em específico à família que seu pai prestava serviços e que acabou acusando-o injustamente pelo roubo do tal colar, logo depois suicidando-se na prisão, o que deixou marcas na vida de Assane. A série conta com cinco episódios e já tem a segunda parte confirmada e gravada.

Culturadoria

 

Tramas em que o espectador torce para o cara “mau” que infringe a lei são famosas e, dependendo da atmosfera que a produção cria e sobretudo o carisma deste, ocasionam uma experiência eletrizante. Além de conseguir propiciar essa sensação, a narrativa de Lupin é construída em uma base totalmente justificada e tangível, fazendo com que críticas sociais atuem de uma forma orgânica que conseguem nitidamente passar a mensagem necessária, sem forçar ou repeti-la várias vezes. A maior delas é a motivação do protagonista de buscar vingança, pois o racismo enraizado na alta sociedade fez com que o pai de Assane fosse preso por roubo, e ainda mais tarde a suspeita das pessoas acerca de Assane quando ele compra o colar apenas pela sua aparência. A série levanta tais questões que dão um soco no estômago por serem tão reais, e sem perder o foco central proposto.

Omar Sy (Intocáveis, Jurassic World) entrega uma performance carismática, charmosa e natural, além de passar uma sensação de poder. Os disfarces que seu personagem usa são convincentes somados à atuação de Omar. De fato, ele foi a escolha certa para dar a visibilidade que séries estrangeiras merecem.

No entanto, a série peca em algumas cenas que claramente não se adequam à realidade e que dificilmente dariam certo, em particular o episódio em que Assane vai à prisão atrás de respostas sobre seu pai. Muitos pontos parecem funcionar a fim de que o intérprete consiga alcançar seus objetivos de forma rápida e fácil, sem se preocupar com a veracidade da situação. Numa produção com esse tipo de premissa, muitos espectadores esperam circunstâncias que se afastem da ficção e pareçam genuínas.

Em suma, Lupin é inteligente, cômico, possui uma história com ótimos pretextos e sequências de cenas empolgantes. Com certeza uma ótima produção da Netflix e a escolha certa se você gosta de ser surpreendido por um enredo.

Categorias
Tela Quente

Tenet: do superestimado diretor Christopher Nolan

Antes de lançar seu novo longa em plena pandemia, Christopher Nolan insistiu para que o mesmo fosse aos cinemas pois, segundo ele, Tenet iria salvar os mesmos e era uma experiência única de ser vista nas telonas. Caso o diretor estivesse falando a respeito de Dunkirk, ele estaria completamente certo – entretanto ao falar assim de Tenet, Nolan superestimou seu longa e provocou um enorme prejuízo ao exigir seu lançamento durante a atual pandemia. Mesmo que o filme seja incrível visualmente, não há tantos detalhes técnicos que justifiquem a briga do diretor para o seu lançamento nos cinemas, entretanto ao mesmo tempo é um filme de tirar o fôlego tanto pela sua trama como pelas cenas de ação.

Review: “Tenet” de Christopher Nolan | PixelDrama

Em Tenet acompanhamos o Protagonista (John David Washington; conhecido por BlacKkKlansman), um agente da CIA que é recrutado para uma missão que tem como objetivo impedir que uma terceira guerra mundial ocorra através do tempo por meio de uma arma que faz com que ele corra ao contrário. Para isso, ele se une ao Neil (Robert Pattinson; conhecido por High Life e The Batman).

O roteiro apresenta uma boa premissa que acaba sendo mal desenvolvida pelo diretor. Como? Por meio de diálogos expositivos que, ao explicar o objetivo ou algum evento que ocorre durante a exibição do título, se tornam confusos propositalmente para que o público se perca em meio a tanta explicação. Fora isso, a montagem do primeiro ato do longa parece ter sido feita de forma apressada ao ponto de que o telespectador se perca facilmente sobre os eventos que está acontecendo. Outro problema é o vilão, que não é marcante e o roteiro não faz com que ele apresente uma ameaça real ao mundo.

Deixando esses deslizes de lado, a trama do filme é envolvente, empolgante e prende o público que consegue acompanhar todas as reviravoltas e os diálogos até o seu desfecho.

Crítica | Puramente técnico, Tenet é uma experiência sobre a trajetória, e não uma história sobre começos e fins – Por Ramon Vitor – Central HQs Central HQs

Um dos pontos fortes do longa são as atuações e a química entre Robert Pattinson e John David Washington: ambos se complementam de forma perfeita em cena e não é exagero dizer que carregam o longa nas costas durante suas duas hora e quarenta minutos de exibição.

As cenas de ação são bem sincronizadas, expostas na medida certa e em conjunto com a trilha sonora composta por Ludwig Göransson se tornam um trabalho único e bem realizado. No fim, a fotografia de Tenet e suas sequências se tornam os maiores destaques do longa.

Tenet | Filme de Christopher Nolan tem data de estreia adiada - Cinema com Rapadura

Então, é bom?

Tenet é um filme extremamente divertido com momentos de ação bem coordenados e exibidos na dose certa. A trama, por mais que tenha seus problemas, é envolvente e prende o telespectador do início ao fim. De fato, os únicos problemas do longa são sua montagem inicial e o fato de Christopher Nolan explicar algo simples de forma complexa para que o público se confunda e ache seu plot algo abstruso, coisa que não é.

Logo nos primeiros trinta minutos, um diálogo fala que Tenet não é para ser entendido, e sim para ser sentido – entretanto, durante toda a exibição do filme, o roteiro procura explicar cada detalhe com exposições em cima de exposições onde algumas distorcem o que já tinha sido dito, contradizendo o que foi exibido anteriormente. Resumindo: é um bom filme, com uma história envolve e excelentes cenas de ação, mas que seria melhor caso o diretor não tivesse superestimado sua obra afirmando que a mesma seria a salvação do cinema.

Por fim, Christopher Nolan acaba provando que é um diretor superestimado que tem a pretensão de criar grandes filmes sempre que tem a chance para dirigir um, subestimando o seu público e tentando transformar algo simples em complexo para engrandecer o roteiro no qual trabalha, além de ser elitista ao afirmar que todo filme deve ser visto no cinema, não sendo diferente com seu último longa. O enorme ego do diretor acaba atrapalhando o desenvolvimento de uma excelente ideia – não só neste filme, como em outros de seu histórico.

Nota: 3.5/5

Categorias
Tela Quente

Sound of Metal e a importância da sonoridade em um longa

São poucos os filmes que conseguem transmitir a veracidade de um sentimento ou de uma situação para as telas. Que usam todos os artifícios cinematográficos disponíveis com maestria conquistando a imersão do público. O Som do Silêncio (Sound of Metal, em inglês) se encaixa devidamente nesse perfil, sendo uma das boas surpresas do segundo semestre de 2020.

Baterista de um duo de Heavy Metal/punk com sua namorada Lou (Olivia Cooke) sendo a vocalista, Ruben (Riz Ahmed) de repente fica surdo, o que acaba colocando em jogo sua carreira que estava para decolar com uma turnê e também a vida como conhecia. Sendo ex-viciado em drogas, ele vai para uma clínica de deficientes auditivos (um termo que aliás é debatido durante o longa) a fim de evitar uma recaída por conta dos acontecimentos. Sua namorada possui um papel importante nesse aspecto apesar do pouco tempo de tela no geral, sendo ela quem o encoraja a ficar na clínica e dá apoio emocional, o que destaca a atuação de Olivia Cooke que consegue transparecer a preocupação da personagem na situação.

Contando com Riz Ahmed -que participou do universo Star Wars atuando em Rogue One– como protagonista e dirigido por Darius Marder, o longa é original Amazon Studios.

Desde o título até a premissa do filme, é importante que o telespectador se atente às cenas que põem em evidência os sentidos e sensações, sendo elas oferecidas mesmo na primeira cena onde há uma guitarra que causa incomodidade, talvez uma prévia do que estava por vir. É feito um jogo de comparação quando foca-se em sons cotidianos da vida de Ruben, como a cafeteira ligada ou o liquidificador e depois quando ele perde a audição há um completo silêncio, possibilitando que tenhamos a mesma sensação de perda e a mesma experiência que ele, o que é crucial.

Sound of Metal", da Amazon, é um dos melhores filmes de 2020 | A Gazeta

Mas o design de som não operaria perfeitamente se não houvesse uma atuação à altura, e Riz Ahmed não peca em momento algum em sua performance, pois além de aprender Língua de Sinais Americana e bateria para o filme, ele exterioriza o que chega mais perto e real da reação de alguém que sofre a perda de algum sentido bruscamente: o estado de choque, depois a negação e a aflição.

Os diálogos entre Ruben e Joe (Paul Raci), orientador da clínica, são responsáveis por nos fazer compreender o real objetivo daquela comunidade e da principal linha de pensamento desenvolvida no longa: questionar a ideia de que pessoas surdas são deficientes e de que precisam de aparelhos auditivos, ou de qualquer reparação para viverem plenamente na sociedade. Dessa forma, perder a audição não é o real problema, e sim a dificuldade em aceitá-la. Apesar disso, desapegar de sua vida antiga e abraçar o desconhecido não é um processo fácil, e esse fato faz com que o telespectador sinta empatia pelo protagonista e suas decisões ao longo do recorte de sua jornada.

Portanto, Sound of Metal é uma experiência sensorial desconfortável e necessária para entender a realidade de quem a vive e também daqueles que se veem forçados a vivenciá-la com o intuito de alcançar a sensação de pertencimento, e ainda, uma mensagem sobre resiliência. Com uma fotografia em tons frios, diálogos e representações corpóreas profundas vemos a evolução e o aprendizado de Ruben, desde o momento em que o silêncio faz com que ele surte, até o momento final em que ele prefere a calma do mesmo. Assim, começando o filme na agitação da bateria, Ruben encerra-o na calmaria do som do silêncio.

 

Categorias
Tela Quente

Dickinson é uma obra-prima atípica e que necessita de seu holofote

De tempos em tempos, vemos séries que são de deixar boquiaberto e que vicia o espectador, mas se comparar Dickinson, em sua primeira temporada, com qualquer outra, vai ver que há uma diferença enorme. Construída com tanto amor e paixão, e claro, com uma originalidade tão criativamente alucinante que faz jus ao trabalho e personalidade da poetiza moderna, Emily Dickinson.

A série se passa em um período de mudança nos Estados Unidos. Abolição da escravidão, a segunda revolução industrial e várias outras batalhas. Quando vemos uma época assim, pensamos que a série terá um tom de palavreados e músicas do seu respectivo tempo, e em alguns minutos dentro do primeiro episódio, podemos perceber que a série mergulha de cabeça no anacronismo. E a melhor parte, é que não é um anacronismo por conta de um roteiro ruim ou uma direção errônea, e sim, a série busca contar a história como se fosse da visão tão moderna de Emily, alguém que não se encaixava em um mundo tão fechado.

Para falarmos mais sobre a história, precisamos entender quem foi Emily Dickinson. Em toda a sua vida, não teve mais de 10 poemas publicados (e muitos deles foram anônimos, apenas anos após sua morte, sua família decidiu publicá-los), era alguém que miticamente consideravam solitária e reclusa, muito pressionada pela sua família por ter comportamento muito fora dos padrões femininos impostos nos oitocentos. Emily foi uma das primeiras poetisas LGBTQI+, e em sua poesia, conseguia trazer uma linguagem muito próxima a oral e tinha uma liberdade única que desprendia de padrões e fórmulas. Por Emily ser uma pessoa tão afrente de seu tempo, a série decide optar por trazer elementos modernos, e se encaixam perfeitamente, mesmo causando certo estranhamento no começo. E assim, conhecemos de forma muito bem humorada e delicada, a vida dessa enorme personalidade. O roteiro aborda cada um dos principais temas da vida da poetiza de forma muito boa e descontraída, com falas que deixam tudo mais engraçado; os roteiristas também sabem muito bem colocar os momentos certos e suas emoções, e principalmente conseguem colocar piadas atuais no contexto histórico da série de forma primorosa.

Falando de seu elenco, neles temos nomes conhecidos e alguns novos; e nenhum que vá te deixar desapontado. Nossa protagonista é a indicada ao Oscar, Hailee Steinfeld (Bravura Indômita, Quase 18, Bumblebee), que consegue dar uma das suas melhores atuações e realmente cria uma personagem tão complexa e divertida como a autora. Seu par romântico, interpretado por Ella Hunt (Os Miseráveis), consegue criar uma química ótima com Emily, mas não chega a prender o espectador.  E no elenco principal temos Jane Krakowski e Toby Huss como os pais de Emily, Adrian Enscoe e Anna Baryshnikov como os irmãos. O elenco é incrível e consegue ter uma ótima relação com os personagens, além de sempre conseguir com que seu tempo em tela seja muito bem utilizado.

Emily Dickinson, “The Greatest Freak of Them All”? | Public Books

Nos aspectos técnicos, a série também é impecável. Podemos começar com a direção de arte, que consegue trazer o passado de uma forma tão linda e também consegue misturar esse elemento com os pensamentos e a visão de Emily. A direção também não se deixa ficar de fora, com um trabalho perfeitamente alinhado com o roteiro e a fotografia, consegue adicionar mais na condução de criar algo novo, moderno e único.

Agora na parte que mais assusta, a suas músicas. É engraçado entrar no primeiro episódio e se deparar com A$AP Rocky e não com uma música instrumental da época, ou uma sonoridade ‘’antiga’’. Grandes nomes atuais da música marcam presença, como a cantora Billie Eilish. A música é, com toda certeza, um dos pontos mais divertidos e criativos de toda a série.

Voltando mais para a parte criativa da série, é muito bom ver como eles utilizaram os poemas da escritora de forma tão sutil, sendo títulos dos episódios, e mostrando os momentos de sua vida em que certo poema foi escrito. Em alguns momentos, mostram até o surrealismo de sua escrita usando efeitos especiais e momentos utópicos da mente de Emily, desde encarar a Morte, até ter uma abelha gigante como amigo. Nesse aspecto, a série lembra bastante o modelo criativo usado em Doom Patrol, o que se encaixa como um quebra-cabeças.

Em sua primeira temporada, Dickinson se provou ser uma obra-prima tão singular e imaginativa, que com toda certeza é um dos melhores coming-of-age já feitos, e uma das mais únicas biografias criadas. Em contrapartida, é triste ver como a série, assim como as obras da autora, parecem ter seu reconhecimento inexplorado pelo grande público. Assim como Emily escreveu,

“Eu sou Ninguém. E você?

É Ninguém também?

Formamos par, hein?

Segredo — Ou mandam-nos p’ro degredo.

Que enfadonho ser alguém!

Tão público — como o sapo

Coaxando seu nome, dia vai, dia vem

Para um boquiaberto charco.”

As vezes, é melhor ser invisível, e ser uma obra-prima, do que se deixar na luxúria da fama passageira.

 

Nota: 5/5

Dickinson já está disponível na Apple TV+.

A série começou sua segunda temporada no dia 08/01, e quando chegar ao seu episódio final, faremos uma crítica, então fique ligado na Torre de Vigilância!

Categorias
Tela Quente

Mulher-Maravilha 1984 e a sua carta de amor ao passado

Após o estrondoso sucesso de Mulher-Maravilha (2017), Patty Jenkins e Gal Gadot retornam na sequência da maior heroína da DC Comics na melhor forma possível. Em Mulher-Maravilha 1984 vemos uma Diana amadurecida, confiante e atuando sorrateiramente. Mas devemos deixar a principal qualidade do filme em evidência: a sua carta de amor ao passado.

Pensando em sua história, ela é bem simples e lembra bastante os filmes de Superman, quando era interpretado por Christopher Reeves. Se passaram anos desde a primeira guerra, e Diana trabalha com arte e a história dessas peças, ao lado de Barbara Minerva (Interpretada por Kristen Wiig). Nesse tempo, um homem de negócios chamado Maxwell Lord (Interpretado por Pedro Pascal) tem o objetivo de ser o homem mais bem-sucedido do mundo, e fará de tudo para que isso te torna realidade. E por meio de um mistério, a paixão passada de Diana, Steve Trevor (Interpretado por Chris Pine), retorna para ajudar a amazona em uma nova missão.

wonder-woman-1984 (4) - Pipoca Moderna

O longa tem como tema central a verdade, assim como seu antecessor, que foi o amor. De uma forma muito bela e simples, vemos cada personagem sendo desenvolvido de forma maravilhosa e tendo seu destaque, e cada um tem seu diálogo com a verdade. Pedro Pascal arrasa e consegue roubar todos os holofotes, se tornando um dos melhores vilões do Universo Estendido da DC. Mas Gal Gadot e Chris Pine continuam com a mesma química do filme anterior, criando mais afinidade ainda com o casal. Kristen Wiig entrega uma boa Cheetah que pode ser mais desenvolvida em um futuro, mas os fãs da personagem ficarão satisfeitos com a adaptação.

Um dos pontos que mais surpreendem nesse filme é a atuação da Gal Gadot, que está fenomenal. Ela consegue trazer emoções ao espectador sem mesmo uma palavra. Duas cenas em especial são de cortar o coração, e Gal consegue transmitir a melhor atuação de sua carreira.

Flipboard - Stories from 28,875 topics personalized for you

Voltando aos aspectos técnicos, acho que é impossível não elogiar a trilha-sonora composta por Hans Zimmer. Com músicas que apenas Zimmer consegue fazer, juntando o estilo da época, é uma imersão que consegue compartilhar toda a emoção criada. Também é necessário falar sobre o uso da faixa ‘Beautiful Lie’, de Batman v Superman, em um momento crucial sobre a trama da verdade que é imposta no longa.

Mas o melhor ponto do longa é a devoção que Jenkins fez ao transcrever sua paixão ao passado da DC, vemos várias referências de filmes, séries e animações. Para os fãs da personagem, é impossível conter a emoção vendo cenas tão icônicas e esperadas desde criança; é um filme único, feito com o maior carinho possível. Vale lembrar que existe uma cena pós-créditos aqui que reafirmam com a maior força cada uma das palavras ditas diante das homenagens que a diretora fez, e essa cena não poderia ser melhor. É possível até ver nos efeitos especiais momentos que lembram cenas da série Mulher-Maravilha de 1975.

Os efeitos especiais são controversos, pois depende da forma na qual você enxerga. Se for comparar com outros filmes de herói, parece extremamente datado em certos aspectos, mas ao lado de ser uma homenagem ao passado, é possível entender a genialidade por trás disso tudo. Desde grandes cenas até pequenos movimentos de câmera, você percebe que realmente remete o passado.

HBO Max will now be available on Roku devices and TVs - Business Insider

A arte do filme segue a linha padrão do seu antecessor: impecável. Por mais que os anos 80 estejam um tanto saturados com tantas produções recriando essa época, o longa não decepciona e tenta explorar outros lados da moda e dos cenários daquele tempo. A maquiagem também é sensacional e bem utilizada.

Infelizmente, o filme não é perfeito. É notável vários erros de continuidade durante cenas e alguns erros que deixam algumas pontas soltas durante o enredo, mas nada tão grave que faça o filme ser estragado, muito longe disso.

É realmente difícil escrever sobre um filme tão único e especial como esse, com toda certeza será um longa que trará discussões e opiniões controversas caso não tenha seu principal propósito entendido: uma homenagem ao que criou o que chamamos de adaptações. É inevitável que isso aconteça, mas para as pessoas que amam a personagem, é um prato cheio de sentimentos e nostalgia. Mulher-Maravilha 1984 é um dos melhores filmes de heróis já feitos, e um dos mais atípicos (e para todas as futuras adaptações de heróis atípicas, vocês são extremamente bem-vindas).

Nota: 4,5/5

 

Mulher-Maravilha 1984 já está disponível nos cinemas. Caso vá assistir, cuide-se da nova COVID-19, verificando as orientações de higienes sanitárias vigentes em sua região.

Categorias
Tela Quente

Soul: Uma Lição para a Vida

“Joe, agora que conseguiu, o que você pretende fazer?” “Não pensei nisso. Mas tenho certeza de que vou aproveitar cada segundo.”

No dia 25 de Dezembro, a Pixar nos presenteou com sua nova animação lançada diretamente no serviço de streaming da Disney Plus. O último título da empresa, Soul: Uma Aventura com Alma,  é um filme diferente de tudo que já foi visto na empresa.

Na trama acompanhamos Joe Gardner, um professor de música para o ensino médio que sempre sonhou em tocar jazz. Quando finalmente consegue a oportunidade, um acidente acontece e Joe acaba morrendo – isso tudo logo nos 10 minutos iniciais de filme. Acordando em outra dimensão e com sua alma separada do seu corpo, o músico acaba se encontrando com 22, uma alma em treinamento que não quer ir para a Terra de jeito nenhum – enquanto Joe quer retornar para aproveitar a chance da sua vida.

Com isso, Joe22 precisarão trabalhar juntos para conseguirem uma forma de fazer com que a alma do professor retorne para seu corpo e ele consiga almejar seu sonho. O longa apresenta um roteiro bem estruturado e divertido onde tudo o que o filme quer passar é exposto durante sua exibição da forma mais natural possível.

My Thoughts on The Fish Story from Pixar's Soul - Anthony DikéTecnicamente falando, a fotografia e a animação do filme são absurdamente lindas: a iluminação do longa e sua variação entre o mundo real e o plano etéreo, os detalhes nas articulações do protagonista e das roupas, a ambientação; tudo é feito com muita precisão e é nítido o carinho de sua realização. É incrível ver também as claras diferenças entre o mundo real e as dimensões: enquanto a vida na Terra é extremamente colorida e iluminada, o mundo pós-morte apresenta uma paleta de cor fria e clara. Além disso, a passagem para a dimensão pós-morte sendo marcada por uma esteira e por uma luz branca, o centro de treinamento sendo semelhante ao paraíso e as caracterizações dos seres do outro plano são tão bem elaboradas que é impossível assistir sem um brilho nos olhos.

Acaba que o longa apresenta uma narrativa suave e bem elaborada, destacando com precisão a lição que quer passar e as diferenças entre a vida e o pós-vida, seus detalhes e a beleza de viver.

Por narrar uma trama a respeito de uma questão sensível como o que acontece após a vida, acaba que outro ponto extremamente positivo é a forma que o longa trata todos os elementos, não priorizando uma crença religiosa para apresentar sua visão e utilizando conceitos que é de fácil entendimento ao público infantil. O trabalho de Pete Docter, diretor do longa, merece destaque e inúmeros parabéns por trabalhar esse assunto de forma sensível e prática.

Soul, da Pixar, foge do clichê da autoajuda ao questionar o que é sucesso | VEJAEntão, é bom?

Soul é um título divertido, cativante e único – sem dúvida alguma, um dos melhores filmes de 2020 e uma das melhores animações da Pixar. Além de apresentar uma beleza visual inacreditável, o longa carrega também consigo uma mensagem de esperança e uma lição tanto para os adultos como para as crianças, procurando responder as perguntas essenciais da vida em um ano tão conturbado que foi esse que se passou. Todos os elementos agem em sintonia para contribuir com o objetivo do longa e fazer com que o título tenha uma alma linda.

Por fim, quando acaba a exibição, é impossível não se sentir mais leve e com uma tremenda vontade de seguir todo o aprendizado do longa: o propósito da vida é apenas algo que forjamos no caminho e o mais importante é apenas desfrutar cada detalhe que a jornada nos oferece.

Nota: 5/5

 

Categorias
Detective Comics Quadrinhos

A Leitura Que Te fez Bem! As Indicações de 2020!

Olá pessoal! Que ano né? Nossa parece até que estamos somente esperando o 2021 começar para soltarmos um grande “UFA!” por tudo que aconteceu em 2020. Lá no réveillon de 2019, quando todos comemoravam, brindavam e projetávamos o 2020, nunca imaginaríamos que iriamos estar passando pano com álcool em pacote de arroz.

Esse foi um ano marcado com a morte. E em uma escala em que afligiu à todos no mundo inteiro. De forma direta ou indireta. Alguém sofreu ou presenciou o sofrimento de alguém. As políticas controversas. As pessoas que insistiam em “desafiar” e desacreditar no que estava acontecendo. Ficar em um isolamento. Longe dos amigos, dos familiares, foi e estar sendo difícil. E não pense que o tal grande UFA! se passa à meia-noite de 31 de dezembro. Não, o ano seguinte ainda terá muitas dificuldades e ninguém aqui está esperando que seja diferente e nem enganando ninguém.

Mas nada impede de tentarmos fazer algo melhor. De tentar ser melhor. Pelo menos, alguns de nós, aprendemos a limpar melhor as mãos.
Essa lista de indicações fala muito sobre se sentir melhor. É uma lista de leitura que em algum momento desse ano, fez uma pessoa sorrir, refletir, pensar ou mesmo se distrair. Aqui tem publicações que nem foram lançadas em 2020. Mas o intuito não é nem esse. É apresentar/indicar uma leitura que fez bem para a gente em algum momento do ano. Que mexeu com a gente. Que fez entender (ou aceitar) melhor o que está acontecendo.

Agradeço a todos que participaram dessa lista (até mesmo porque foi idealizado aos 45 do segundo tempo). Nomes importantes que produzem quadrinhos, que divulgam quadrinhos, que falam sobre quadrinhos e principalmente os que “somente” leem quadrinhos! Pois no final de tudo, somos todos leitores.

Confira a nossa lista de indicações e que 2021 seja uma jornada mais leve para todos!

O Azul Indiferente do Céu (Shiko) Por Ricardo Ramos

Francisco José Souto Leite, mais conhecido como Shiko, conta em um clássico dos quadrinhos brasileiro, por meio de ficção os fatos que antecederam o assassinato do ativista colombiano, jornalista e especialista em saúde pública Héctor Adad Gómez. A “encomenda” pela vida de Héctor aconteceu após ele publicar como funcionava o universo dos matadores de aluguel naquele país que agiam para o forte narcotráfico e a tensão política da América Latina mergulhada em conflitos.

Mas o que me chamou muito atenção com Azul Indiferente do Céu, foi o final do último texto escrito por Héctor Abad Gomez em 1987: “El Facismo por más que quisiéramos, no há desaparecido de la faz de la tierra”. Sentir que um continente, que desde do México para baixo, sofreu com mazelas das ditaduras militares que bebiam e se fortaleciam de religiosidade, ter uma frase, escrita em 1987, que apresenta o fascismo ainda forte em pleno 2020 é assustador. E quando vemos alguns governantes, vemos que o pavio já está acesso, mas a bomba realmente ainda não explodiu para valer.

O Azul Indiferente do Céu é um publicação da Editora Mino



Um Conto de Natal (Carlos Giménez) – Por Marcelo Naranjo (Universo HQ e COACH DE QUADRINHOS)

Uma das HQs que mais me impactou em 2020 foi Um Conto de Natal, de Carlos Giménez (Comix Zone). O motivo está nas últimas páginas, que mostram as opções que a vida nos oferece e a maneira com a qual lidamos com elas – esquecendo, por vezes, que o capítulo final é igual para todos nós. Em um ano tão complicado, ficou impossível não lidar com escolhas difíceis.

Um Conto de Natal é uma publicação da Editora Comix Zone.


Habibi (Craig Thompson) – Por Eduardo Bautitz (Leitor, baterista e churrasqueiro)

Desde o início, Thompsom parece ter a intenção de abalar o psicológico do leitor, de rasgar a simplicidade e de enaltecer a relação entre os personagens protagonistas de forma trágica, fazendo com que você adentre a história não só por empatia, mas muito por conta do envolvimento com o paralelismo que entoa em cada retomada da narrativa. O desenrolar da trama demonstra uma beleza que caminha ao lado de cortes profundos no imaginário, ilustra consciências e posicionamentos sobre qualquer estigma que podemos carregar. Em preto e branco, a obra arrebata, cativa, enfurece, ensina, oferece conhecimento e transforma, da melhor e pior maneira possível, demonstrando uma maestria de condução e de construção de um cenário tão próprio.

Com passagens lindíssimas e um trabalho de pesquisa invejável, Habibi trabalha mais do que uma simples narrativa, ela choca, machuca, cura, renova e fere mais uma vez as únicas coisas que podem ser preservadas em um ser humano; sensibilidade, integridade, honestidade e caráter.

Habibi é uma publicação da Quadrinhos na Cia


Cais do Porto (Brendda Maria) – Por Pablo Sarmento (Podcast Emoções Misturam Ovos, ComicPod e Terra Zero)

Cais do Porto foi um dos gibis mais bonitos que eu li esse ano. Com texto e arte da quadrinista premiada esse ano 2020 com HQ Mix melhor desenhista revelação o quadrinho mostra a encontro de duas amigas, falando sobre vida e coisas mundanas. Apesar a premissa simples, em tempos de pandemia um gibi de slice of life é algo que pode lembrar como coisas simples no mundo como andar de ônibus e falar sobre rotinas pode ter um peso tão na grande. Esse quadrinho mudou demais meu ano e me fez muito bem.

Cais do Porto é publicado pela Conrad Editora


Chainsaw Man (Tatsuki Fujimoto) – por Rodrigo Cândido (quadrinhista e membro do Coletivo Sarjeta)

Chainsaw Man é meu quadrinho no ano! Dentre muitas história fechadas bem especiais que me surpreenderam (a maioria, quadrinhos nacionais), acabei sendo pego por essa série que começa como típico “mangá de lutinha” para um misto de ação e terror totalmente inesperado, com reviravoltas na trama totalmente imprevisíveis e muitas, muitas tripas voando. Pra mim foi uma aula de onde se pode levar um personagem, que mesmo sendo reflexo de um clichê ainda traz elementos que nos fazem querer ler mais e mais sua história e ate torcer para seu sucesso. Mesmo que ele seja um diabão com cabeça de serra elétrica.

Chainsaw Man (Tatsuki Fujimoto) – por Bruno Brunelli (ilustrador, diretor de arte e membro do coletivo Sarjeta)

A leitura que mais me impactou esse ano horrendo de 2020 foi o mangá Chainsaw Man. Esse projeto é totalmente desgraçado da cabeça, cara! Não tem uma parte que eu não pensei QUE PORR@ É ESSA! Todo mundo é vilão, é mocinho, é humano, é demônio, daí aparece um anjo, depois uns 20 cachorros, conspiração política, trairagem, e também repleto de humor e “non sense”.

Casou perfeito para 2020, te asseguro 😉

Chainsaw Man é uma publicação da Panini


A Grande Farsa (do Carlos Trillo e Domingo Mandrafina) – Por Jean Jefferson (Leitor e Comix Zoner Boy)

Pra mim a leitura que mais curti no ano foi a Grande Farsa, do Carlos Trillo e Domingo Mandrafina. Incrivelmente divertido, ágil e com uma arte incrível, eu fiquei absurdamente envolvido e li numa tacada só. Acho que é o mesmo sentimento de assistir um filme massa do Tarantino pelo ritmo, com uma pegada latina que faz lembrar novela da Globo. O Iguana merece ser reconhecido com um dos maiores vilões dos quadrinhos e seria personagem cult se o gibi fosse adaptado pros cinemas (algo que eu torço fortemente).

A Grande Farsa é uma publicação da Comix Zone


Grama (Keum Suk Gendry-Kim) – Por Maria Eduarda Maggi (podcaster do HQ CORP)

Pensar no quadrinho que mais marcou meu 2020 não foi difícil. Geralmente essa é uma decisão árdua, pois com tantas leituras na bagagem, nossa mente acaba se perdendo em tantas histórias que, no fim, acabamos chegando no mesmo ponto que começamos. No meio desse pensamento, Grama me veio instantaneamente à memória: uma leitura diferente de tudo que eu havia conhecido, tanto em narrativa, traço, e, principalmente, abordagem. A autora, Keum Suk Gendry-Kim, nos apresenta à real história da pequena Ok-sun Lee, uma menina sul-coreana que foi vendida pela própria família e acabou sendo forçada a virar uma escrava sexual do Exército Imperial Japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Além de Ok-sun, muitas outras mulheres foram forçadas à escravidão sexual no período, sendo comumente chamadas de “mulheres de conforto” – um eufemismo profundamente machista.

A HQ nos mostra, além da triste história da protagonista, um panorama histórico da Coreia durante a guerra, bem como o retrato – muito sofrido – de outras mulheres vítimas do Exército Japonês. Além de uma história sobre mulheres de conforto, Grama é a história de superação de toda uma vida. Ok-sun Lee, hoje já idosa, continua lutando bravamente para que esse período jamais seja esquecido, e para que as vítimas recebam o pedido de desculpas que merecem, pois “mesmo derrubada pelo vento e pisoteada por muitos, a grama sempre se reergue”.

Grama é uma publicação da editora Pipoca & Nanquim


Berlim (Jason Lutes) por Lucas Fazola (Vortex Cultural)

Berlim foi uma HQ que me impactou sobremaneira desde as primeiras páginas. Contudo, apenas ao finalizar a leitura da obra pude entender o que me pegou tanto ali: a assustadora semelhança do contexto da capital alemã nos anos vinte e trinta com os tempos que vivemos atualmente. O descrédito nas instituições, a escalada política do autoritarismo chancelada por uma parcela considerável da população, o obscurantismo cerceando qualquer possibilidade de diálogo e de pensamento crítico e pluralista… todo o contexto que permitiu a ascensão de Adolf Hitler ao poder encontra semelhanças indigestas com o absurdo representado pelo ressurgimento da extrema-direita na contemporaneidade. A “Berlim” de Jason Lutes fala do passado, sim, mas alerta também sobre o presente, afinal de contas, como diria Bertold Brecht, “a cadela do fascismo está sempre no cio”, e diante de uma ameaça tão nefasta, precisamos estar sempre atentos e fortes.

Berlim foi publicada pela Editora Veneta


1Q84 (Haruki Murakami) e muitos outros – Por Felipe Coutinho (escritor, artista, professor e membro do coletivo Sarjeta)

Olá, pessoal do Torre de Vigilância! Tudo bom? 2020 foi o ano que todo mundo que esquecer por motivos óbvios, mas ao mesmo tempo, foi o ano em que ficou evidente o papel das artes em tornar nossas vidas melhores, mais leves; essa é sem dúvidas uma grande lição para levarmos adiante e que acho que prendemos como público. Saímos de 2020 valorizando mais as manifestações artísticas. Por aqui, ouvi muita música e li bastante. Nas leituras, normalmente, me relaciono com essa coisa kafkiana. Adoro um absurdo e tramas psicológicas, mas neste ano foi relativamente diferente: alternei entre a habitual desgraceira de mente e coisas mais leves para distrair. Destaco alguns na literatura: 1Q84, do Haruki Murakami; A arte de produzir efeito sem causa, do Mutarelli; Abusado, de Caco Barcellos; Estação Carandiru, do Dráuzio Varella e Trainspotting, de Irvine Welsh.

Em termos de quadrinhos, li bastante umas Webtoons que acho muito interessantes, elas são: My Giant Nerd Boyfriend, de Fishball; Hellper, de SAKK; Lorem Olympus, de Rachel Smythe; Aisopos, de Yangsoo Kim/DOGADO e reli alguns clássicos dos quadrinhos, como New York, do Eisner e a trilogia sobre quadrinhos do Scott McCloud. Também folheei algumas vezes o Dois irmãos, dos Gêmeos Bá e Moon e Estórias Gerais, de Wellington Srbek e Colin. Esses clássicos estão sempre na minha mesa de trabalho, leio e releio com frequência, além de usar muito como referência. Sobre música: Nine inch Nails, risos.

Desejo a todos um ano novo melhor. Saúde, paz e harmonia. Um abraço.


Ten Years (Randall Munroe) – Por Érico Assis (Tradutor e colunista)

A leitura que mais me marcou em 2020 tem só uma página – ou seja lá como você chamar uma tripa só de webcomic. Chama-se Ten Years, faz parte da série XKCD, e é uma história autobiográfica de Randall Munroe e companheira comemorando dez anos desde que ela descobriu um câncer. E se recuperou, claro. Munroe é um engenheiro, técnico, objetivo, pragmático, com uma sensibilidade artística e narrativa que a gente não costuma ver em engenheiros técnicos objetivos e pragmáticos. E essa noção de engenheiro das coisas entra no jeito como ele faz quadrinhos pra emocionar. É único.

*“Quando me mostraram o gráfico de expectativa de vida em dez anos, eu nunca achei que fosse chegar aqui. Não entendo como você casou comigo quando eu estava horrível. Mas foi muito fofo.”“Você é a pessoa mais legal que eu já conheci. Eu só queria todo o tempo que a gente pudesse ter junto.”“Bom, boas notícias: vou seguir inabalada na minha existência horrenda e inexplicável! Toma essa, biologia!”*

Você pode ler Ten Years clicando AQUI.


Blue Note: Os Últimos Dias da Lei Seca (Mathieu Mariolle e Mikaël Bourgouin) – Por Roberto Siqueira (Leitor e futuro quadrinista)

Por se tratar de algumas temática que eu adoro como, música, lutas, máfia e o período histórico em que se passa, meados dos anos 1920-1933. Período este que sempre rendeu boas histórias, sobretudo para o cinema, e é aí a grande homenagem desse quadrinho europeu para o cinema noir. Roteiro cativante do Mathieu Mariolle e Mikaël Bourgouin, apresentando duas histórias paralelas que se conectam. E a arte e cores do já citado Mikaël Bourgouin e o ponto alto do quadrinho, com uma narrativa envolvente que não deixa o leitor se perder. Uma obra para ser lida e estudada.

Blue Note: Os Últimos Dias da Lei Seca foi publicado pela editora Mythos.


Sabrina (Nick Drnaso) por Vinicius (2Quadrinhos)

“Ninguém retratou os nossos tempos tão bem quanto o Nick Drnaso”. Esta foi a frase que me ocorreu assim que eu acabei a leitura de Sabrina. Na mesma hora, olhei atrás da graphic novel para ver se não foi dali que saiu e… não. Então, por enquanto, vou atribuir a mim mesmo esta frase maravilhosa. A tal Sabrina mal aparece na HQ, na verdade a história vai mostrar as repercussões do desaparecimento da garota na vida das pessoas próximas. Sem nenhum monstro ou criatura sobrenatural, este é o quadrinho mais apavorante que li nos últimos anos.

Em Sabrina vemos como uma vida humana é transformada num suculento espetáculo para alimentar sites famintos por cliques. Além de ilustrar como este mesmo espetáculo dá força a conspiracionistas que, no Brasil, usam termos como “extrema imprensa”, entre outras sandices.

Sabrina foi publicada pela Editora Veneta.


Paracuellos (Carlos Giménez) por Ricardo Ramos

Esse foi um ano em que li bem menos do que eu queria, mas as minhas leituras deram um salto considerável de qualidade. E fico com o misto de emoções em que senti quando li Paracuellos do Carlos Giménez. A história autobiográfica dos meninos nos abrigos, chamados de Auxílio Social, faz você se sentir um deles. Você sente a angustia de estar lá, o medo das governantas, a expectativa perto da visita dos pais, a alegria de alguma brincadeira entre eles, os sonhos de cada um, a violência que sofriam… até quando sentem fome, você sente também.

E sem contar a importância histórica de apresentar para o brasileiro, que parece que esqueceu, como funcionava as ditaduras e suas mazelas. Ela em certos momentos é muito difícil e faz você engolir seco. Em alguns momentos e arranca risos. E te faz sonhar juntamente com as crianças. Que apesar de estarem vivendo o pior momento de todos, são apenas crianças. Com sonhos, brincadeiras e desejos. Foi como estar em 2020. Em 2020, nos fomos essas crianças sonhando e desejando algo melhor.

Paracuellos foi publicado pela Editora Comix Zone

Categorias
Anime Cultura Japonesa Pagode Japonês

Torre Recomenda | Animês de 2020

Agora sim, creio que isso seja um evento frequente o suficiente para chamarmos de “tradição”: Todos os anos, as equipes da Torre se esforçam por noites a fio para juntar as três coisas que o brasileiro mais gosta, que são “listas”, “entretenimento” e “confusão”.
A ideia dos “melhores do ano” é de botar o holofote em algumas coisas que podem ter passado despercebidas no meio de um ano agitado (que 2020 foi mais do que o normal, diga-se de passagem). Também serve para demonstrar o quão deslocada e fora do lugar a nossa equipe de animês está do público-alvo deste site. Mas tudo bem!

Esse ano, este que vos digita (Vini) estará acompanhado de ninguém menos que Luiz Alex para te trazer os animês que foram, em nossas humildes opiniões, os cinco melhores de 2020 (com algumas ressalvas).

Redator: Vini Leonardi

5 – BOFURI: I Don’t Want to Get Hurt, so I’ll Max Out My Defense. (Inverno 2020)

Eu já disse que amo comédias? Em quinto lugar, um show do já tãaaao longuínquo mês de Janeiro.
Esse animê foi um caso positivo de quebra de expectativa (e vocês vão ver que isso aconteceu bastante esse ano): Eu imaginei que teríamos um simples show Slice of Life fofinho com garotinhas fofinhas fazendo coisas fofinhas. E, sinceramente? Isso bastaria pra mim. Mas o que eu recebi foi muito mais do que foi prometido. Recebemos um show hilário com uma comédia absurda e nonsense que eu simplesmente adoro. E, como a cereja do bolo, um elenco de personagens carismáticos tanto em design como em personalidade, que conseguiram me cativar em meros 12 episódios.
Estou com muitas saudades da Maple e ficarei feliz de assistir a segunda temporada – que já está anunciada – assim que ela começar.

O show está disponível na Funimation.

4 – Ikebukuro West Gate Park (Outono 2020)

(Contestavelmente) O único título da minha lista que não é uma comédia. O show que se auto-abrevia como IWGP faz parte de um gênero que eu adoro, e que sempre que encontro, decido assistir imediatamente: O mistério urbano. Esse, em especial, trata de um subgênero do mistério urbano que eu gosto ainda mais: O urbano racional, onde os conflitos são intrinsecamente humanos.
Você gosta de guerras de gangue em um centro urbano japonês do início dos anos 2000? Se sua resposta é “sim”, eu não tenho como te recomendar mais esse show.

Apesar de ser totalmente fabricado para apelar aos meus gostos, eu ainda consegui encontrar algo que me surpreendeu na trama: Os temas que seus contos episódicos contam, se considerando a data do material de origem. O show trata de temas complexos como xenofobia e imigração, preconceitos irraigados da cultura japonesa, uso de drogas e prostituição, suicídio e muito mais. Pode não parecer nada de extraordinário nos dias de hoje tratar desses assuntos, mas quando você percebe que o show é uma adaptação de uma série de livros cuja publicação começou em 1998, você entende o quão “ousado” foi Ira Ishida, o autor da obra.

Como comentei, o show é episódico, então você pode pegar apenas o primeiro episódio para assistir, e ver se é o seu tipo de entretenimento. Se não gostar logo de cara, já abandona o barco e parte pro próximo. Simples assim.

O show está disponível na Funimation.

3 – My Next Life as a Villainess: All Routes Lead to Doom! (Primavera 2020)

Já falei bastante sobre “Hamefura” quando tratei do futuro do isekai. Recomendo a leitura para entender do que o show se trata: O Futuro do Isekai e “My Next Life as a Villainess”.

E, agora que o show já está terminado, tenho ainda um ponto extra a acrescentar, e que fez com que as aventuras de Catarina (que, aliás, espero que esteja tendo um bom dia) ficassem ainda melhores: A história é fechada com uma conclusão extremamente satisfatória. É muito, mas muito raro encontrar shows adaptados de Light Novels (principalmente isekais) que conseguem… terminar. Sempre acabamos com um final em aberto que grita “vá ler o material original” na sua cara. Mas a Catarina é boba demais para fazer isso. Ela te deu um final que é realmente um final, e isso foi o suficiente para me dar uma satisfação absurdamente grande.

As Light Novels continuam depois do animê, e, inclusive, já temos uma segunda temporada anunciada. Mas é um caso onde a história não precisava continuar. Isso, aliás, me dá um pouco de medo do que vem por aí…

O show está disponível na Crunchyroll.

2 – A Destructive God Sits Next to Me (Inverno 2020)

Possivelmente uma das comédias mais tecnicamente perfeitas já feitas na história da humanidade. Eu fiz questão de explicar os motivos por trás dessa afirmação ousada numa postagem: Os princípios da comédia em “A Destructive God Sits Next to Me”.

Entendo que se trata de um show que não faz o gosto de todo mundo, mas tenho certeza que se você, assim como eu, simplesmente adora o absurdo e se acaba de rir com a desgraça alheia, você vai adorá-lo, a ponto de cair da cadeira rindo. Não que isso tenha acontecido comigo… Não… Jamais…

Tendo sido um título de Janeiro, eu passei o ano todo tendo certeza que uma das posições do meu TOP 5 já estava ocupada. E, por grande parte do ano, tive a impressão de que nada – nem ninguém – seria capaz de tirar o título de Koyuki Seri. Porém…

O show está disponível na Crunchyroll.

1 – The Misfit of Demon King Academy (Verão 2020)

Você achou mesmo que ser o melhor animê do ano seria o suficiente para tirar Anos Voldigoad, o Rei-Demônio da Destruição, do primeiro lugar?

Surpreendendo você, eu, e até a minha mãe, o melhor show do ano foi um Harém Escolar Mágico Genérico com protagonista invencível. É um animê que trabalha com expectativas e realidade, e é justamente isso que eu explico no meu mais sincero pedido de desculpas: Expectativas e Realidade em “The Misfit of Demon King Academy”.

Como comentei mais cedo na lista, há controvérsias sobre classificar “The Misfit of Demon King Academy” como uma comédia, pois… Bem… Não temos certeza se a ideia era ser uma comédia ou ser levado a sério. A arte de ser capaz de fazer uma obra que pode ser lida tanto seriamente, como também se fosse uma paródia, e fazer ambas as leituras serem viáveis e plausíveis é de aplaudir de pé.
E a minha forma de aplaudir de pé é dedicando o título de “Melhor animê do ano” para o Rei-Demônio da Destruição, Anos Voldigoad.

Fico com muita expectativa de que façam mais. Eu quero mais! Há muito mais a se explorado! A ser explicado! Muitas frases de efeito cafonas para serem ditas! Por favor, Japão, nunca te pedi nada!

O show está disponível na Crunchyroll.

Redator: Luiz A. Butkeivicz

– Dorohedoro (Inverno 2020)

Adaptando o mangá seinen de mesmo nome, Dorohedoro foi um dos destaques e surpresas desse ano.

Produzido pelo estúdio MAPPA e dirigido por Yuuchirou Hayashi, Dorohedoro é um animê em CGi que se passa na sombria cidade distópica, Hole, onde usuários de magia testam suas habilidades nos seus residentes. Kaiman, um homem misterioso com cabeça de lagarto, e Nikkaido, dona de um restaurante cuja especialidade é o seu gyoza, caçam esses usuários de magia a fim de conseguir respostas sobre o passado de Kaiman. No decorrer da história, conhecemos outros personagens fascinantes como Shin e sua parceira Noi, usuários de magias extremamente fortes e violentos mas também incrivelmente carismáticos, que fazem a trama brilhar ainda mais ao borrar a linha entre protagonistas e antagonistas.

Produzido completamente em CGi, Dorohedoro demonstra, através de cenas de luta incrivelmente brutais e multicoloridas, a realidade cruel, monstruosa, suja e distópica de Hole e que é possível se apropriar dessas técnicas sem quedas de qualidades na animação em comparação com o estilo tradicional 2D.

Dorohedoro é uma recomendação excepcional que se destaca pela sua ambientação fantástica, lutas incríveis e sangrentas e personagens vívidos e carismáticos que, a cada episódio, sempre deixam ansioso para o próximo e com um gostinho de quero mais.

Dorohedoro está disponível em streaming na Netflix.

– Kakushigoto (Primavera 2020)

Uma obra de um dos meus mangakas favoritos, Koji Kumeta, não decepcionou ao trazer Kakushigoto para a tela através do estúdio Aija-Do (Honzuki no Gekokujou) na primavera de 2020.

A sinopse do animê, pela Funimation, diz: “Kakushi Goto é um pai solteiro com um grande segredo. Ele é o artista mais vendido de mangás eróticos populares, e sua filha, Hime, não pode descobrir. Ele tem que rebolar para impedi-la de descobrir neste conto de amor e risos entre pai e filha.”

Ainda seguindo muitos passos característicos do autor desde sua obra anterior, Sayonara Zetsubou Sensei, Kakushigoto cria sua própria marca e é em comparação uma história muito mais linear e pessoal, que a cada episódio traz com extremo sucesso o espectador mais próximo da tela e de seus personagens.

Um slice of life dramático incrível que demonstra o crescimento do autor tanto dentro quanto fora da obra, além de uma ótima introdução – leve e casual – para as obras de Kumeta.

Kakushigoto está disponível em streaming na Funimation.

– Keep Your Hands Off Eizouken! (Inverno 2020)

Do lendário diretor, Masaaki Yuasa (Devilman: Crybaby, Tatami Galaxy), “Keep Your Hands Off Eizouken!” brilhou como ouro desde o seu primeiro episódio ao apresentar uma história hilária e cativante sobre o poder que a animação tem de criar e trazer sonhos à vida.

Midori Asakusa é uma garota com uma grande imaginação sempre perdida em seu sketchbook, enquanto sua melhor amiga, Sayaka Kanamori, é uma calculista que traz Asakusa de volta das suas viagens imaginárias.
Após as duas se encontrarem com Tsubame Misuzaki, as três imediatamente formam uma conexão quando Asakusa e Misuzaki percebem suas paixões pela arte da animação. Movida pelo seu interesse em fazer dinheiro, Kanamori sugere que as três formem o clube de animação com Asakusa desenhando as magníficas paisagens e cenários e Misuzaki os vívidos personagens. A história segue o trio em uma aventura através dos insights e técnicas da indústria da animação em trechos fantásticos que ilustram a imaginação das personagens ganhando vida.

Com diversas indiretas e referências a ícones e obras da indústria, Eizouken é uma declaração de amor que transpira sentimentos de paixão e nostalgia pelo sonho de criar um mundo absurdo e fantástico através do poder da animação; uma declaração compreendida tanto por aqueles que possuem esse sonho como aqueles que cresceram vivenciado as histórias e magias que ela proporciona.

Eizouken é verdadeiramente uma experiência mágica que através de uma direção e animação geniais leva o espectador de volta à infância e nos lembra o esforço e paixão que está por trás das obras que colocam um sorriso em nossos rostos.

Keep Your Hands of Eizouken! está disponível em streaming na Crunchyroll.

– The God of Highschool (Verão 2020)

Numa nova onda de adaptações de manhwa e webcomics, The God of Highschool traz tudo que um shounen de torneio precisava.

The God of Highschool, abreviado GOH, é um torneio nacional de artes marciais livre organizado pelo misterioso Park Mujin, membro da Assembléia Nacional, a fim de testar os lutadores mais fortes da Coréia, conferindo ao vencedor do torneio um desejo a seu alcance. É nesse torneio que o expert de taekwondo Jin Mo-ri, o karateka Han Dae-wi e a espadachim Yu Mi-ra se encontram, cada um seu objetivo para alcançar o título de God of Highschool.

Através de uma animação incrível, o estúdio Mappa traz à vida as sensacionais cenas de luta que definem o animê. Aos poucos o show se distancia do torneio e começa a revelar um plot maior envolvendo poderes divinos que, embora já explicados, devem ser mais explorados futuramente.

Com o manhwa em andamento; a promessa de uma continuação ambientada na China; e ter terminado deixando mais dúvidas do que respostas, o show nos deixa ansiosos para o retorno do trio de Seul.

The God of Highschool está disponível em streaming na Crunchyroll.

– The Millionaire Detective – Balance: Unlimited (Primavera 2020)

Seguindo na linha da comédia e do gênero policial, The Millionaire Detective – Balance: Unlimited foi uma das surpresas ofuscadas da temporada de primavera de 2020, estreando ao lado de Kaguya-sama e Kakushigoto. Entretanto, acabou reluzindo no final das contas e ganhando seu espaço nessa lista.

O animê segue Haru Katou, um mundano detetive guiado pela justiça que após um evento traumático é transferido para a Divisão de Prevenção de Crimes da polícia metropolitana, e Daisuke Kanbe, um playboy multimilionário que ingressa para força policial como parceiro de Katou. Completamente opostos, Daisuke e Haru deverão rever seus valores e trabalhar juntos para chegar a conclusão de um caso enraizado no alto escalão.

É brincando com os estereótipos do gênero mas também explorando a temática do poder ilimitado do dinheiro que “The Millionaire Detective” se faz uma história movida por seus personagens; onde aos poucos, o objetivo é entender o que “justiça” significa para Katou e Daisuke, e como isso afeta seu trabalho como detetives. A discrepância entre os detetives é o que verdadeiramente faz a história do animê brilhar, já que suas diferenças vão muito além apenas da sua metodologia em relação a combater o crime, mas também suas vidas financeiras e personalidades, fazendo com que muitas vezes sua amizade pareça com uma rivalidade.

Com uma excelente dinâmica e interação entre os personagens e extremamente divertido do primeiro ao último episódio, The Millionaire Detective – Balance: Unlimited não chamou muita atenção durante sua estreia mas no fim das contas se destaca como um dos melhores de 2020.

The Millionaire Detective – Balance: Unlimited está disponível em streaming na Funimation.

Categorias
Tela Quente

Com uma jogada feita com maestria, O Gambito da Rainha é a melhor produção do ano na Netflix.

Ver minisséries tendo um grande destaque é algo atípico, geralmente elas são destinadas para um público mais seleto e menor do que as grandes produções da gigantesca Netflix. Só que agora, a plataforma de streaming mudou tudo com a sua nova produção, ‘O Gambito da Rainha’, uma adaptação do romance publicado em 1983, escrito por Walter Tevis. É curioso ver que o livro não é baseado em fatos reais, e sim em experiências do autor; infelizmente, o livro não chegou a ser publicado no Brasil.

Quando falamos sobre ‘O Gambito da Rainha’, é intrigante lembrar que originalmente seria um filme. O co-criador da série, Allan Scott, tem os direitos da adaptação há mais de 30 anos, e ganharia um filme em 2008, dirigido por Heath Ledger e teria o ator Elliot Page no papel principal. Após a morte de Ledger, a produção ficou de lado e parada. Scott assistiu uma série chamada ‘Godless’, e logo em seguida enviou uma carta para Scott Frank, que dirigia, e eles decidiram que o formato de minissérie seria o ideal para adaptar o romance. E em 2018, a série começou a tomar forma, e agora em 2020, temos a minissérie mais assistida da Netflix, e com sua nota no Rotten Tomatoes em 99%.


Começando a falar sobre seu roteiro, citar o fato de que isso não é uma história baseada em fatos reais é algo de se admirar. A riqueza dos detalhes em todas as partes da trama, datas, jogadas, locais e falas, isso cria uma imersão enorme enquanto é assistida. As personagens são tão bem desenvolvidas e humanas, nada parece que é genérico ou que não se encaixa, a escrita é um quebra-cabeças que é feito no tempo certo. Scott Frank é o escritor e o diretor, então, a sua visão para obra foi mais do que certeira. Em história, o triste que é realmente difícil comparar ao livro original, mas vendo a minissérie, é de encher o coração; ver Beth Harmon passar por momentos difíceis e supera-los com a ajuda de amigos e ver como ela coloca sua alma nos jogos. Algo muito bom e curioso sobre a série, é que mesmo sem saber nada sobre xadrez, a série consegue cativar e não deixar o telespectador boiando.
Já sobre as atuações, é impressionante como todo o elenco se destaca de formas maravilhosas. A protagonista, interpretada por Anya Taylor-Joy (A Bruxa, Os Novos Mutantes) rouba a cena com uma atuação bem fria e que evolui a cada jogo e decisão da personagem. Outra personagem que chama muito a atenção é a de Benny, interpretado por Thomas Brodie-Sangster (Maze Runner, Nowhere Boy), que faz um grande enxadrista que ajuda no avançar do desenvolvimento de Beth. Aliás, vale citar que cada personagem aqui é tão bem escrito, que todos influenciam no desenvolvimento de Harmon, nomes como Moses Ingram, Harry Melling, Bill Camp e Marielle Heller trazem atuações ótimas e personagens que são de extrema importância.

Agora partido para partes mais técnicas, precisamos falar sobre a direção. É maravilhosa, Scott Frank faz um trabalho surreal em juntar tão bem o roteiro com sua direção, mas a única parte que diria ser ruim na série como um todo, são algumas partes em seu ritmo, que parece perder forças e pode ficar um pouco massivo. Mas de resto, a direção é ótima, e entrega o que promete. Falando sobre a fotografia, é uma das partes que mais surpreendem, é simplesmente de tirar o fôlego, o trabalho de Steven Meizler foi essencial para criar a atmosfera certa para o mundo de Beth e para criar cenas maravilhosas, e totalmente simétricas. Sua edição também é totalmente bem-feita e com uma montagem ótima, não se perde no storytelling e também é um pilar para criar esse universo da série.

Para entrarmos de forma sutil nos anos 60, precisamos de uma boa cenografia e de bons figurinos, e essa minissérie… acerta em cheio, de forma incrível. Sinceramente, a atenção ao mundo, roupas, locais e carros é extraordinário, o mundo é genuíno e fácil de se perder no tempo. Cada escolha do figurino também é precisa e certeira, suas roupas contam história e também fazem parte da história e sentimentos do personagem. Onde isso fica o mais evidente possível, é na última roupa que Beth utiliza no episódio final, que simboliza uma peça de xadrez da rainha. O tamanho esforço em cada parte dessa obra é algo que é admirável e que outras produções, sejam séries, minisséries ou filmes, devem tomar como inspiração.


Outro ponto essencial é a trilha-sonora, composta por Carlos Rafael Rivera, que trabalhou ao lado de Scott Frank em Godless, e que define muita das cenas o humor e o seu tempo. É incrivelmente única, e cresce ao decorrer do necessário, da excitação da partida, do mundo ao redor de Beth. O piano é o líder aqui, que segue com uma trilha harmônica tão emocional e delicada. E falando sobre o som, também é necessário elogiar o trabalho dos dubladores nessa série, que se encaixa tão bem e que consegue transitar de forma impressionante com as atuações.

Mesmo falando tanto sobre a obra, parece que não arranhei nem a superfície do que O ‘Gambito da Rainha’ é. Ele proporciona algo tão diferente ao ser assistido, cada um de seus episódios chega a ser tão empolgante que não dá vontade de parar. Torcer para ver como o jogo terminará em cada partida de Harmon (mesmo sem saber nada sobre o xadrez), é uma experiência que, se você tiver como presenciar e experimentar, não perca seu tempo. Esse é um dos casos raros de uma minissérie que abala tudo por sua tamanha qualidade, e que merece todos os aplausos.

Apenas com uma citação final, Scott Frank confirmou que fará uma adaptação em filme do livro ‘Laughter in the Dark’, do russo Vladimir Nabokov, estrelado também pela Anya Taylor-Joy. Esperamos que esse filme seja tão bom quanto essa minissérie, que merece ser eternizada como uma das melhores produções, não só da Netflix, como de todo o audiovisual.

Nota: 5/5

‘O Gambito da Rainha’ contém 7 episódios e já está disponível na Netflix.

Categorias
Tela Quente

Os Novos Mutantes e o seu potencial perdido pelo tempo

Depois de praticamente três anos de espera, finalmente tivemos a possibilidade de assistir ao tão aguardado e prometido, “Os Novos Mutantes”, que tentou trazer os filmes de heróis para o tão amado terror. Josh Boone (A Culpa é das Estrelas) dirige o longa, e traz a construção de personagens adolescentes nessa trama, cada um sendo bem diferente um do outro.

Para começar, o filme passa longe de ser um terror de fato, ele tem suas cenas mais voltadas ao susto e de mostrar o trauma de cada personagem, e isso chega a ser o máximo. Para pessoas mais velhas, essas cenas provavelmente não causarão o mesmo efeito como em alguém mais jovem, o que foi pensado pelo diretor; é como aquele filme de quando você é criança e tem uma cena estranha que te marca para sempre? Sinceramente, essa abordagem mais leve de terror consegue se encaixar no tom do longa, mas talvez algo mais pesado e voltado para um público adulto seria melhor para uma inovação no gênero de heróis, e para o próprio filme.

Os Novos Mutantes decepciona quem esperou anos pelo filme de terror da  Marvel

A melhor parte do filme se dá pelas personagens, cada uma cativa um tipo de espectador. Na trama, a protagonista é Dani Moonstar (Blu Hunt), que é uma garota tímida e que não controla seus poderes, ela tem um ótimo amadurecimento ao longo da história, e tem uma química natural e bem construída com a personagem da Maisie Willians, Lupina. Quem rouba a cena é a Illyana Rasputin, interpretada pela Anya Taylor-Joy, que tem uma as personalidades mais fortes do longa e provavelmente a melhor atuação; seria ótimo poder explorar mais essa personagem que foi tão bem adaptada. Já o polêmico Roberto da Costa, interpretado pelo brasileiro Henry Zaga, não tem muito fogo para seu personagem, que mais serve como alívio cômico. Comparando seu personagem dos quadrinhos com o do filme, ele realmente foi bem deturpado e com uma origem de superpoderes bem inferior em peso dramático, mas consegue se encaixar no elenco. Charlie Heaton também é um pouco mais apagado, porém, traz um personagem forte e provavelmente o mais dramático, ele também atua muito bem. E para finalizar, temos a Alice Braga como uma cara misteriosa para os mutantes, e faz isso com maestria, você nunca sabe o que esperar dela e quais são suas motivações, encaixou perfeitamente.

Anya Taylor Joy Archives - Outtake Magazine

Comentando mais sobre a história do filme e seu roteiro, é algo mais difícil. A história se passa no mesmo universo de Logan (2017), e vemos referências incríveis ao universo perdido dos X-men, mas o problema vem na duração. O longa tem aproximadamente uma hora e quarenta de duração, e isso dificulta um pouco o desenvolvimento, e também a falta de atenção dos estúdios da FOX trouxeram mais complicações nisso, tem muitos pontos desse filme que poderiam ter sido explorados com uma maior profundidade e cuidado, mas acabou sendo deixado de lado. A história é simples, mas te engata e vai crescendo de forma harmônica, alguns diálogos são fracos, e alguns bem pesados (como comentários fazendo piada com abuso e alguns apelidos racistas, o que é péssimo, e que podem afetar espectadores mais sensíveis). Mas de resto, é bem divertido de se assistir e ver como a história se desenrola. Muitos momentos dão a impressão de um filme adolescente, como mencionado anteriormente, e isso traz elementos ótimos para a maior apreciação e conexão com os quase-heróis. Um ponto que merece palmas nesse filme, é por ser o primeiro longa de super-heróis com um beijo LGBTQI+.

Novos Mutantes | Crítica detona o filme – Cabana do Leitor

Comentando as partes técnicas, agora fica um pouco mais difícil do filme se segurar. A montagem é muito estranha, vemos como os dias se passam com praticamente o mesmo corte várias cenas seguidas, o problema é que, além de uma sensação estranha na edição, é claramente visível um erro de continuidade durante essas transições. Em sua fotografia, também não há um charme como em produções mais recentes, ela é bem simples, mas se arriscasse mais na coloração e movimentações diferentes, seria uma ótima adição à experiência. No termo de efeitos, durante o início e meio, eles são bem mais simples e lembram algo como efeitos usados em séries, mas o final do filme é um espetáculo de efeitos para todos os cantos, que trazem cenas de luta que são um dos maiores pontos fortes do longa. Mas para atrapalhar essa imersão, a trilha-sonora do longa é abafada no processo, algo que é triste, já que ela é muito boa, às vezes parece que ela nem está lá de tão baixa.

Concluindo, ‘Os Novos Mutantes’ é uma experiência divertida e que rende um bom entretenimento, mas tinha potencial para muito, muito mais. Talvez a culpa dessa falta de qualidade deva ser por conta do estúdio, a aquisição da FOX pela Disney, vários adiamentos, orçamento muito baixo e falta de regravações fizeram os erros desse filme se destacarem. Se houvesse um período de rever gravações, roteiro, uma edição mais firme e provavelmente uma direção com mais liberdade, esse filme se tornasse tudo aquilo que ele prometeu. O futuro dos mutantes é incerto, e provavelmente pessimista, mas seria de bom grado ver alguns desses personagens voltando em um futuro, quem sabe, não vemos a Illyana em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura? Sonhar não custa nada. Para os fãs que esperavam ansiosamente para esse filme, podem se decepcionar um pouco, mas devem sair satisfeitos e felizes de finalmente poderem assistir.

Nota: 2,5/5

 

‘Os Novos Mutantes’ estreou em 22 de outubro de 2020 nos cinemas brasileiros. Caso vá assistir nos cinemas, cuide-se do novo COVID-19, verificando as orientações de higienes sanitárias vigentes em sua região.