Finn, o Stormtrooper redimido de Star Wars: O Despertar da Força, serviu de inspiração para que o escritor Jason Aaron aprofundasse a personalidade e motivação de alguns Stormtroopers nas histórias em quadrinhos. Reunidos em um esquadrão de elite e liderados por um sargento poderoso, Jason Aaron e Jorge Molina nos apresentam os Stormtroopers mais legais de Star Wars: a Task Force 99.
Task Force 99
O arco “The Last Flight of Harbinger” (O Último Vôo do Precursor), que acontece entre as edições #21-25 do título Star Wars da Marvel, apresenta a Task Force 99, um esquadrão de elite composto por Stormtroopers que possuem uma forte motivação para se unir ao Império Galáctico. Esse esquadrão não é muito suscetível a morte como os soldados cabeça de balde dos filmes de Star Wars e ainda possuem um visual extremamente bad ass.
Kreel, também conhecido com Agente 5241, é o sargento do Task Force 99 e o personagem mais notável do grupo. A maior peculiaridade dele está no fato de possuir um sabre de luz verde, bem com uma forte motivação para ser leal ao Império Galáctico.
Kreel vs Luke Skywalker
A ideia do Task Force 99 veio do Bad Batch, uma equipe “irregular” de Stormtroopers defeituosos que tinham um método bruto e diferenciado dos Stormtroopers normais. O Bad Batch faz parte de um episódio inacabado da animação Star War: Clone Wars que seria lançado na sétima temporada, mas a produção da série animada foi interrompida.
Bad Batch em Star Wars: Clone Wars
O escritor Jason Aaron e o desenhista Jorge Molina resgataram o conceito do Bad Batch nos quadrinhos e criaram alguns conceitos novos para criar a Task Force 99. Aaron desenvolveu as motivações da equipe, principalmente as do Sargento Kreel. Molina deu forma ao grupo pegando o visual clássico dos Stormtroopers e acrescentando alguns apetrechos.
Confira o design dos membros da Task Force 99 criado por Jorge Molina:
A primeira aparição da Task Force 99 acontece em Star Wars #19 da Marvel Comics e, posteriormente,a equipe possui um arco próprio entre as edições #21-25 do quadrinho.
O mercado de quadrinhos possui alguns títulos, personagens e séries de bárbaros. Conan, Red Sonja e quadrinhos de Esteban Maroto são alguns exemplos da temática muito bem utilizada. Em O Coração do Cão Negro, primeiro volume da série Contos do Cão Negro publicada pela AVEC Editora, temos um ótimo gibi produzido por autores nacionais com a temática de bárbaros, com boas reviravoltas e belíssima arte!
Cão Negro é uma série criada por Cesar Alcázar. Com o livro A Fúria do Cão Negro, publicado em 2014, o autor nascido em Porto Alegre e fã de Robert E. Howard deu início a este universo que viria a se tornar, posteriormente, uma série em quadrinhos que narra as aventuras do anti-herói e protagonista Anrath.
Arte da capa do primeiro volume, O Coração do Cão Negro.
Mercenário irlandês conhecido como “Cão Negro de Clontarf”, Anrath foi criado entre os vikings e possui um passado sombrio, cheio de tragédias que o destinaram a se tornar um renegado. Contratado pelo misterioso Inglês para encontrar um medalhão chamado “Coração de Tadg”, Anrath lida com as consequências de seu passado, enfrentando guerreiros que desejam a vingança e encarando horrores inimagináveis.
A sinopse acima detalha muito bem o teor da história presente neste primeiro volume. Nada revolucionária dentro do gênero espada e feitiçaria, porém dentro dos padrões de qualidade das melhores séries do gênero, a narrativa contém todos os clichés típicos da temática. O grande destaque fica para o jeito que é apresentada a aventura, de forma muito bem narrada, com roteiro e arte de qualidade acima da média!
Arte não finalizada de um dos quadros da história.
O estilo remete a bons quadrinhos europeus, padrão das séries da AVEC Editora. Situado na Irlanda, este primeiro volume serve como uma introdução ao universo, apresentando Anrath, seu passado e personagens coadjuvantes. A personalidade do protagonista é o padrão dos bárbaros, sendo forte, exímio guerreiro e muito calado. E toda a apresentação à mitologia do Cão Negro é belissimamente ilustrada por Fred Rubim.
Nesta que é sua primeira publicação no mundo das HQs, Rubim, nascido em Porto Alegre e formado em Desenho Industrial, dá um show nas ilustrações. Utilizando muito bem as sombras, uma técnica semelhante ao que Mike Mignola faz em seus quadrinhos, o artista dá vida e movimento aos cenários e personagens, provando sua versatilidade especialmente quando comparado a outro quadrinho de sua autoria, Le Chevalier: Arquivos Secretos. Nesta série, sua arte parece uma fusão entre Mignola e John Buscema.
Sem um estilo caricato e mais simples, indo mais para o lado realístico e cinematográfico, o ilustrador retrata com fidelidade alguns objetos do período em que a aventura se passa (1022 D.C.), como vestimentas de guerreiros (escudos, elmos, espadas) e também barcos e construções. O estilo real dos personagens e animais fascina o leitor no decorrer das páginas, e quando o lado sobrenatural entra em cena, o visual torna-se fantástico e destoante, com cores que se destacam entre os quadros, separando o normal do fantasioso.
Quadro da segunda página da história.
O texto de Cesar Alcázar é apresentado como uma aventura de ação típica, porém o domínio do passado e características de cada um dos personagens deixa claro que este é seu universo, com seus personagens e criaturas emprestadas da literatura fantástica. A narrativa segue um padrão que reveza entre presente e passado, com alguns flashbacks, e guarda as principais reviravoltas para as páginas finais, onde os mitos criam vida.
A personalidade de Anrath e a forma como ele age com relação aos seus inimigos e companheiros, antigos ou recentes, é um charme para fãs deste tipo de história. Sua lenda está relacionada a belas mulheres, de anos que se passaram ou da atualidade, e seus inimigos são motivados pelo ódio gerado por graves erros. A forma como Anrath encara o sobrenatural, no entanto, difere-se de personagens como o Conan, que nutre certa aversão por feitiçaria.
Anrath entra em ação.
A violência também é marcante, com batalhas, mortes e muito sangue. Anrath é um habilidoso guerreiro, que ataca todo aquele que vier ceifar sua vida, agindo sem piedade contra seus inimigos. A sensação de que este anti-herói já possui uma fama pré-definida atiça a curiosidade para que mais de seu passado seja mostrado, abrindo possibilidade para histórias da sua juventude, entre os vikings, e períodos posteriores. Quem sabe até um álbum de origem. Ou podemos continuar simplesmente da forma que está, com sua vida sendo apresentada aos poucos para os leitores.
O Coração do Cão Negro é mais uma prova do ótimo desempenho dos autores nacionais em criarem boas histórias, séries e personagens que não devem em nada para os quadrinhos publicados no exterior. Com boa mitologia, texto bem escrito e revisado e arte de ponta, o primeiro volume desta série é um dos grandes destaques dos quadrinhos brasileiros, e a edição e acabamento gráfico apresentados também são de ótima qualidade. Um segundo volume já foi anunciado e está previsto para ser lançado ainda em 2017.
Contos do Cão Negro Vol. I: O Coração do Cão Negro possui 64 páginas encadernadas em capa cartão no formato 28 x 21 cm, com preço de capa de R$ 39,90.
Valerian é um agente espaço-temporal. Laureline, sua parceira, divide o protagonismo das aventuras. Clássico dos quadrinhos europeus, com mais de vinte álbuns publicados, esta série de ficção científica retornou ao Brasil pela SESI-SP Editora, possibilitando que novos leitores tenham contato com tudo que torna Valerian e Laureline uma obra-prima.
Frutos da imaginação transbordante de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, os personagens Valerian e Laureline surgiram pela primeira vez nas páginas da revista Piloten° 420, em 1967. Por sua inventividade e audácia, a série rapidamente se tornou referência absoluta para os leitores de histórias em quadrinhos de ficção científica. Cinquenta anos após o início de sua publicação original, Valerian retornou ao Brasil pela SESI-SP Editora (já tendo sido publicado por aqui n’O Globinho), que publicará os sete volumes integrais da série, compilando todas as aventuras.
Uma característica típica das obras de ficção científica que envolvem viagem no tempo, especialmente da década de 60, é começar com uma viagem ao passado. Doctor Who, The Time Tunnel, It’s About Time e outras produções dividem essa característica em comum. Valerian não é diferente. Em seu primeiro álbum, publicado em 67, Valerian volta à Idade Média para impedir um vilão, Xombul, que possui planos nefastos.
A simplicidade do plot de Os Maus Sonhos é refletida na simplicidade do início de Valerian como uma publicação de quadrinhos. Mézières não estava em seu auge artístico, ainda assim entregando cenáriosbem detalhados e personagens caricatos. Christin, que assinava como Linus, também estava refinando seu texto, com boas doses de absurdo e bom humor. Nesta primeira história Valerian conhece Laureline, uma garota da Idade Média, que vem a se tornar sua parceira. E com toda a simplicidade narrativa, destaca-se sempre a criatividade da dupla de artistas.
“Ano 2720, Galaxity, capital da Terra e do Império Galáctico Terrestre.” Com estas palavras, o primeiro quadro de Os Maus Sonhos chama a atenção do leitor pelo vislumbre do futuro. Apesar de primitiva, esta história faz a apresentação dos elementos básicos da série, com criaturas fantásticas, cenas divertidas e batalhas. Aqui temos a chance de visitar uma Idade Média com fórmulas mágicas, répteis gigantes e unicórnios.
Em A Cidade das Águas Movediças, de 1970, a dupla de autores parece estar encontrando o ponto ideal de suas capacidades. Perseguindo Xombul mais uma vez, Valerian e Laureline viajam para o futuro, especificamente para o ano de 1986, onde a Terra passa por um grande cataclismo e os EUA é um local instável. Nova York está submersa e Yellowstone sofre tremores e erupções, e o caos parece reinar. O mundo ruma aos seus últimos suspiros.
Esta segunda aventura, mais longa, parece um conto de literatura de onde Christin tirou parte de sua inspiração, enquanto vivia nos EUA. Na altura, Mézières aparenta estar refinando sua arte, entregando lindos quadros de paisagens devastadas e personagens menos caricatos. Parodiando figuras reais, como o pianista Sun Ra, o elenco de personagens de apoio é bem mais interessante quando comparado a primeira aventura. E em sua continuação, Terras em Chamas, o arco de perseguição a Xombul finalmente acaba.
Apesar dos pontos positivos das histórias anteriores, é nítida a adaptação para que seja atingida a plena utilização dos talentos envolvidos. Ambas as histórias servem como uma grande apresentação a este universo, com a viagem no tempo e a organização para qual Valerian responde, bem como a introdução ao status da humanidade no século XXVIII. E então, surge O Império dos Mil Planetas, de 1971.
O terceiro álbum de Valerian é uma aventura fantástica do início ao fim. Com um texto poético, situações dignas do melhor da ficção científica e desenhos em pleno potencial, O Império dos Mil Planetas mostra a que veio este clássico. E lidando de forma humanista com uma situação que envolve o domínio de um planeta inteiro, Mézières e Christin narram juntos este conto que, numa crescente, introduz elementos fantásticos, cenas memoráveis e batalhas incríveis com tecnologias de cair o queixo, além de questionarem a devoção às figuras religiosas e falarem sobre escravidão e miséria.
Enquanto os álbuns anteriores criavam a pedra angular da série, O Império dos Mil Planetas refina a construção deste universo, com o que viria a se repetir nas histórias subsequentes, alcançando a popularidade que possui hoje, graças a viagens fantásticas pelo espaço, lutas contra vilões ditadores e diálogos profundos, com tramas fechadas e belas ilustrações não somente nos cenários, como também em todos os seres de outros planetas.
A figura de Laureline, uma das pioneiras no protagonismo feminino dos quadrinhos, é adaptada com o passar das histórias, ganhando mais força no decorrer das aventuras. Independente, forte, sensível e bela, a garota ruiva fica com os diálogos mais naturais, enquanto Valerian se assemelha a um estrategista militar. O bom-humor característico dos quadrinhos franco-belgas é marcante em ambos os personagens.
O Império dos Mil Planetas também é uma história marcada pela forte influência exercida na criação de Star Wars, de George Lucas. Algumas ideias e visuais da trilogia original foram nitidamente inspirados em situações deste álbum, e cenas de álbuns seguintes também vieram a criar visuais de Guerra nas Estrelas. Uma imagem presente nos extras da edição nacional faz a comparação entre as duas obras, após uma grande entrevista com os autores e com o diretor Luc Besson.
Besson, fã declarado e apaixonado pela série, está lançando em agosto de 2017 o filme Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, onde após alguns anos de ideias e preparações, os atores Dane DeHaan e Cara Delevingne darão vida aos personagens na telona.
O retorno de Valerian e Laureline ao Brasil é um dos eventos mais fantásticos do ano para fãs da nona arte, marcado inclusive por um evento especial de lançamento realizado há cerca de um mês. A edição nacional da SESI-SP Editora possui um capricho gráfico louvável, bem como um tratamento editorial ótimo. Com orelhas, efeito metálico e papel de boa qualidade, a coleção dos volumes Integrais de Valerian será uma belíssima adição às livrarias de todo o Brasil.
E enquanto admiramos a volta deste clássicospace opera de viagem no tempo, fica a esperança de que os fãs brasileiros abracem a série, tornando-a mais um sucesso franco-belga no Brasil, tal qual Asterix e Tintim.
Valerian Integral: Volume 1 possui 160 páginas, capa cartão, e compila as três primeiras histórias da série, em formato 29 cm x 22 cm. O preço de capa sugerido é R$ 58,00.
A ilha de Aqui é um lugar perfeito. Tudo é meticulosamente organizado, certinho e todas as pessoas seguem suas vidas corretas. Dave, um assalariado com um forte senso de organização, é o protagonista de A Gigantesca Barba do Mal, uma história lançada pela Editora Nemo que lida com o medo do desconhecido, tece críticas à rotina e brinca com a linguagem dos quadrinhos.
Seguindo sua rotina como toda a população de Aqui, Dave tem medo de Lá. Todos tinham medo de Lá: um local afastado, além-mar, onde ninguém jamais esteve. Contudo, Dave também sonhava com Lá. Sonhos terríveis, pesadelos onde a desordem e caos reinavam. E num belo dia seu único fio de cabelo do rosto cresceu e trouxe a temida desordem para Aqui.
O crescimento da barba de Dave mergulha Aqui em um caos assombroso. Nesta sociedade onde tudo é perfeito, a barba é algo impensável. Os enormes fios no rosto de Dave interferem nas vidas alheias, impedindo fluxos e mobilizando governos. A rotina de Aqui é transformada, e as pessoas devem descobrir novas formas de tocar seus dias.
A genialidade por trás de A Gigantesca Barba do Mal, que é a estreia de Stephen Collins com graphic novels, é a crítica bem-humorada. Com esta premissa tão estranha, Collins sutilmente aborda os principais aspectos do dia-a-dia das pessoas de cidades grandes ou médias, onde todos são regidos por conservadorismo e ignorância com relação ao diferente.
A gigantesca barba de Dave, que chega a cobrir toda a cidade, é declarada um incidente nacional. Sem maiores explicações nada consegue ir contra a força dos pelos, e com o caos na vida dos moradores de Aqui, Collins também brinca com o caos na linguagem dos quadrinhos.
Trespassando quadros e consumindo páginas inteiras, a arte desta história é feita para criar a sensação de quebra. O início demonstra a rotina das pessoas com características ultra-certinhas, em páginas ideais e quadros perfeitos, e quando a rotina é rompida, rompem-se também os limites. A narrativa é transformada com o crescimento da barba de Dave, e as sátiras à ignorância e tédio também passam a abordar a forma como as celebridades são tratadas.
O tédio da rotina finalmente torna-se algo interessante, pelos motivos mais absurdos possíveis.
O desenrolar deste conto surreal é tomado em proporções… gigantescas. Collins, além de falar sobre a tediosa rotina, a ignorância, sensacionalismo, espetacularização e o caos já citados, dá um charme a mais quando utiliza trechosmusicais no texto, muito bem traduzido por Eduardo Soares. Terrorismo, xenofobia e patriotismo também são assuntos tocados, firmando o teor tão atual das críticas da obra.
O caráter inventivo do quadrinho é mantido até o fim. A mídia, as corporações, as pessoas e os animais exercem alguma importância para o crescimento da barba de Dave, que pode ser inserido em diferentes perguntas. Seria o momento de rebeldia em oposição ao tédio? Seria a pressão social para com o diferente? Ou só a vontade em desbravar o desconhecido de Lá, onde tudo que foge do padrão supostamente habita?
Aqui é o que conhecemos. O mar representa o trajeto, enquanto Lá é o temido, desconhecido e diferente.
A Gigantesca Barba do Mal é uma verdadeira fábula moderna em quadrinhos. O texto é poético, as ilustrações são estilizadas e o desfecho é inesperado e melancólico. Inteligente, ousada e real, esta história marca com louvor a estreia de Stephen Collins no mercado das graphic novels, um sopro de criatividade para as HQs, tendo sido indicada ao Prêmio Eisner de Melhor Álbum Inédito.
A Gigantesca Barba do Mal possui 240 páginas encadernadas em brochura no formato 24 x 17 cm, com preço de capa sugerido R$ 44,90.
Para muitos, Batman: O Cavaleiro das Trevas se trata de uma simples história sobre um duelo entre os dois maiores ícones da DC Comics. E se eu te disser que não? E se eu te disser que ela vai muito além disso?
“Eu quero que você se lembre, Clark, em todos os anos que estão por vir, em seus momentos mais íntimos, eu quero que você se lembre da minha mão na sua garganta, eu quero que você se lembre do único homem que te derrotou.”
Vindo de uma família pobre de operários irlandeses, Frank Miller se mudou para o violento bairro de Hell’s Kitchen em Nova York ainda em sua adolescência, para tentar a vida como artista. No início, Miller trabalhou em títulos genéricos na Gold Key Comics. Até que, em 1979 teve a chance de mostrar seu talento a Jim Shooter, na época editor-chefe da Marvel Comics. Em pouco tempo, assumiu o título do Demolidor, que vinha de uma constante queda nas vendas, mas isso a gente deixa pra outro dia.
O jovem Frank Miller na San Diego Comic Con (direita) em 1982 e sua estreia no título do Demolidor na edição 158 de 1979
Em Batman: O Cavaleiro das Trevas, Frank Miller consagrou o Batman que conhecemos hoje. Psicótico, violento e sombrio, características que já estavam sendo apresentadas alguns anos antes por Denny O’Neil e Neal Adams na década de 70. Policiais não eram mais os mocinhos e você não podia confiar em seus pais, o morcego entrava na Era Moderna dos quadrinhos, onde o mundo não era mais o mesmo, e todos eram passíveis de corrupção.
Batman #244 (O Demônio vive outra vez) escrita por Denny O’Neil e desenhada por Neal Adams, já retratava um Batman mais adulto e sombrio.
Antes de tudo, é preciso entender o contexto e a época em que a história é baseada. O ano era 1986, a Era do novo conservadorismo de Ronald Reagan nos Estados Unidos e a tensão nuclear da Guerra Fria regiam o mundo. Era uma época sombria de incertezas. A energia nuclear poderia ser a nossa salvação ou nossa destruição. Muitos heróis e vilões criados durante o início dos anos 60 receberam seus poderes advindos da radiação.
Bruce Banner ganha seus poderes através da radiação gama em Hulk #1. A radiação era o assunto nos quadrinhos durante a Guerra Fria.
Desemprego, violência, inflação, decadência… eram coisas que incomodavam a mente tempestuosa de Miller na época.
Na história, ambientada em um futuro distópico e autoritário, Bruce Wayne está aposentado há 10 anos de suas atividades como vigilante, após a trágica morte de seu parceiro, Robin(Jason Todd) e de diversas pressões governamentais, que tornara qualquer atividade de mascarados ilegais. O Batman não existe mais e o mundo vive em decadência, a mercê das gangues e da corrupção. Mas agora, com 55 anos, ele se vê obrigado a reviver velhos hábitos e vestir novamente o manto do protetor de Gotham:
”O momento chegou. Em seu íntimo você sabe, pois eu sou sua alma. Não há como escapar de mim. Você é frágil, você é pequeno…Você é menos que nada, uma carcaça vazia, um trapo que não pode me conter. Ardentemente eu queimo sua pele e assim brilho cada vez mais belo e feroz. Você não pode me deter, nem mesmo com o vinho ou o peso da idade! Você não tem como me deter, e mesmo assim ainda tenta, ainda foge.” Em uma de suas alucinações, vemos o morcego retomar o controle de Bruce Wayne.
Considerado um fora da lei, ele age como um agente anti-governo para proteger o povo. Para muitos, chega a ser um personagem com tendências fascistas, já que ele atua como juiz, júri e executor, passando por cima de qualquer burocracia ou legislação. O traço de Miller casa perfeitamente com a narrativa, dando um tom ”sujo” e decadente a história. Não podemos esquecer da arte-final magistral de Klaus Janson e as cores de Lynn Varley que complementam a obra e toda sua atmosfera.
Um detalhe interessante em algumas das páginas da Graphic Novel é seu formato 4×4. Uma grade de 16 quadros com textos e diálogos torna a leitura mais densa e pode assustar alguns leitores inexperientes logo de cara. A inspiração de Miller para o personagem veio de uma figura carimbada dos filmes de ação. Clint Eastwood, de Impacto Fulminante de 1983, onde o policial Harry Callahan é forçado a voltar a ativa e botar ordem na casa com sua Magnum 357. Um clássico do cinema Brucutu!
Cavaleiro das Trevas foi um marco no mercado também. Visto antes como um produto infantil, os quadrinhos ganharam notoriedade e atenção da mídia da época. O impacto da obra e o boca-a-boca fizeram com que o título tivesse 4 reimpressões seguidas, coisa que não acontecia há pelo menos 30 anos.
Entrevista de Frank Miller a badalada Revista Rolling Stone em Janeiro de 1986.
Logo na primeira parte da trama, somos apresentados ao reabilitado ex-promotor público e criminoso, Harvey Dent (Duas Caras). Através de uma cirurgia plástica, Harvey tem sua face reconstruída e aparentemente arrependido de seus crimes, deseja ser reintroduzido a sociedade. Mas se tratando de vilões do Batman, nada termina com um final feliz e Harvey acaba ressurgindo ainda pior e mais obssessivo com o número 2 e sua dualidade (bem e mal). Os diálogos poéticos de Miller trazem uma profundidade ímpar as páginas.
Fato curioso, é que percebemos que o Morcego é tão perturbado quanto os vilões que combate, e tudo que ele vê é um reflexo.
Também somos apresentados a Carrie Kelley, a carismática sidekick que, com uma fantasia caseira de Robin e inspirada pelos atos do Morcego decide fazer a diferença no mundo e lutar contra aquilo que acha errado. Essa é uma característica muito marcante de Frank Miller e seus personagens. O “American Way of Life” de fazer as coisas. Lutar por aquilo em que acredita, liberdade, direitos à vida e a busca pela felicidade. A relação paternal e hierarquica entre os dois personagens ao decorrer da trama é outro ponto alto do gibi.
Não faltam críticas ácidas às políticas brandas de punição e aos Direitos Humanos. Os diálogos televisivos mostram sempre a dualidade das opiniões em relação a violência. De um lado, a hipocrisia dos intelectuais, do outro, Lana Lang, a ‘advogada do Diabo’, defendendo os atos ilegítimos do Morcego.
Até onde vão os direitos de um criminoso? Tema muito debatido até hoje, principalmente nas Redes Sociais.
Nem a mídia escapa. Em seu prefácio, publicado aqui no Brasil na edição definitiva, Miller faz duras críticas aos meios de comunicação, e a parcialidade dos mesmos.
“O Cavaleiro das Trevas é, obviamente, uma história do Batman. Em grande parte, procurei usar a escalada da criminalidade no mundo ao meu redor para retratar um mundo que precisava de um gênio obsessivo, hercúleo e razoavelmente maníaco para por as coisas em ordem. Mas isso era apenas metade do serviço. Eu não guardei meu veneno mais poderoso pro Coringa ou pro Duas-Caras, mas para as insípidas e apelativas figuras da mídia que cobriam de forma tão pobre os gigantescos conflitos daquela época. O que essas pessoas insignificantes fariam se gigantes andassem sobre a Terra? Que tratamento elas dariam a um herói poderoso, exigente e inclemente?”
As autoridades sempre se esquivam quando questionadas sobre a escalada da violência em Gotham. Um jogo de Volleyball de responsabilidades, que passa do Presidente, ao Governador, do Prefeito ao Comissário.
O Dr. Bartholomew Wolper representa os direitos humanos. Cumpre o papel de sempre defender vilões, e sempre atribuir a culpa a terceiros e ao próprio Batman pela violência em Gotham.
Batman passa a sentir prazer na tortura que inflige aos criminosos. Miller nos faz sentir empatia por um personagem sádico e violento, ao mesmo tempo que nos apresenta adversários tão violentos quanto. Seria uma forma de justificar os seus métodos. Fogo contra fogo.
“Foi difícil carregar 120 quilos de sociopata até o topo das Torres de Gotham… o ponto mais alto da cidade. Mas os gritos compensaram”.
Alguém está armando a Gangue Mutante em Gotham. Ao interrogar um dos membros da sádica gangue de jovens, Batman chega ao General do Exército, que se suicida ao saber que foi descoberto. Impossível não associar ao famoso escândalo Caso Irã-Contras, episódio onde os EUA facilitara a venda de armas aos Iranianos em troca de reféns estadunidenses, sequestrados pelo Hezbollah e o Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica. Oliver North, na época membro do Conselho de Segurança Nacional, usara o dinheiro das armas para financiar os Contras na Nicarágua em uma campanha rebelde anticomunista.
O Coronel Oliver North na capa da revista Time (esquerda) O General do exército se suicida ao ser descoberto (direita) O quadro representa a morte da moral e da ética.
Os jovens integrantes da Gangue Mutante se resumem simplemente a brutalidade. Não se importam com dinheiro, apenas chocar a sociedade.
“Mulher explode no Metrô. Imagens no noticiário às onze.” A violência nas estações de metro nos anos 80 retratada em ‘Cavaleiro das Trevas.
As gangues eram o assunto do momento, inclusive na música e no cinema.
Em seu primeiro confronto contra o Líder Mutante, Batman acaba percebendo que não é páreo para o vigor e a selvageria da juventude. Outro ponto interessante que marcou e influenciou o personagem em seus anos seguintes nos quadrinhos: a necessidade constante de sempre estar se testando diante de inimigos mais fortes.
A juventude em Cavaleiro das Trevas é retratada como uma massa sem direção, a procura de um líder. Ela clama por um líder. Um tópico bem atual hoje em dia também. Isso é exemplificado na épica luta contra os Mutantes, onde, após humilhar o Líder Mutante em uma poça de lama, ganha a liderança dos jovens, sedentos por brutalidade.
“Isso não é uma poça de lama! É uma mesa de operação, e eu sou o cirurgião!”
O Líder Mutante é humilhado na frente de todos os seus soldados, brutalmente espancado. Uma vitória moral.
Os Mutantes agora não existem mais e têm um novo líder.
”Gotham City pertence ao Batman!” Os Mutantes foram extintos. Os remanescentes da antiga gangue foram presos, e a maioria se juntou a nova gangue: Os Filhos do Batman.
Ainda falando de vilões, Brüno, uma vilã com suásticas nazistas tatuadas nos seios e glúteos, aterroriza Gotham a serviço do Coringa.
Brüno teve seu visual inspirado em um vilão de sucesso da época: Ivan Drago de Rocky IV (1985).
A volta de Batman a ativa trouxe não só os holofotes da mídia para si, mas também de um antigo inimigo: O Coringa, há 10 anos no Asilo Arkham sem um objetivo, agora desperto, planeja uma aparição na TV junto ao seu médico, o Dr.Bartholomew Wolper.
O Coringa planeja algo grande para sua aparição na TV.
The David Endochrine Show vs Late Show With David Letterman: uma paródia ao icônico apresentador, responsável por difundir formatos de Talk Shows.
O Palhaço do Crime está no ápice de sua insanidade. Mata todos no estúdio, centenas de pessoas inocentes. Agora, ele quer que o Batman o cace, como um jogo de gato e rato, como nos velhos tempos. Mas agora é diferente. O morcego se sente responsável por todas aquelas vidas ceifadas. Decidido de vez a acabar com o Coringa, parte com tudo pra cima do Palhaço. Desta vez não haverá prisioneiros.
Carrie Kelley fica chocada com a pilha de mortos deixada pelo Coringa na Feira da Amizade. Pelo menos 16 escoteiros.
“Pretendo contar os mortos, um a um. Vou pôr todos na lista, Coringa. A lista das pessoas que eu assassinei, por ter deixado você viver[…] Consegue ver, Coringa? Eu sinto como estivesse escrito em meu rosto. Passei noites em claro planejando, visualizando a cena. Noites sem fim. Considerando todos os métodos possíveis, saboreando cada momento imaginário. Desde o começo eu sabia, que não há nada errado em você que eu não possa resolver com minhas mãos.”
A luta contra o Coringa é sangrenta e implacável. Ela se estende por toda a Feira, passando pela casa de espelhos até ter seu desfecho no Túnel do Amor. Miller não poderia ter escolhido lugar melhor para terminar. No último instante, a moral do Morcego prevalece.
“Vozes me chamando de assassino. Eu gostaria de ser.”
Ele desiste da ideia de matar o Coringa, mas o aleija, deixando o vilão paralítico do pescoço pra baixo e um pouco decepcionado.
“Eu estou desapontado com você, querido. O momento era tão perfeito, e você não teve coragem. Uma pressãozinha a mais e eu teria…”
Em um último ato de vilania, ele termina de quebrar o próprio pescoço. Este é o fim do Palhaço do Crime. Batman agora precisa fugir da polícia o quanto antes, mas não sem antes de um último adeus. Digno.
Na útlima parte, temos a cereja do bolo, ou pelo menos o momento mais lembrado pelos fãs. Batman x Superman.
Mesmo impedindo a bomba nuclear, o Superman não consegue impedir o blackout total, gerado pelo pulso eletromagnético da explosão. Antes, sufocando pelo calor angustiante, agora a cidade perece com a ausência de energia elétrica e luz solar, esta última bloqueada pela fuligem das cinzas da bomba. Pessoas estão morrendo de frio e de fome, o caos é instaurado e o sentimento de egoísmo toma conta dos corações dos cidadãos de Gotham, que querem a qualquer custo sobreviver. Mesmo que para isso tenham que matar seus vizinhos.
“Não existe desculpa pro que fizemos. Não estávamos loucos. Simplesmente viramos um bando de animais egoístas”.
Batman e sua nova Gangue, os Filhos do Batman, botam ordem ao caos, não só combatendo aqueles que se negam a ajudar, mas inspirando os cidadãos a despertar o seu bom senso. Dentre todas as cidades afundadas em desordem e desespero, Gotham é a única que consegue se manter no controle.
“Hoje nós somos a lei. Hoje, eu sou a lei”.
Isso enfurece o presidente, que agora com a opinião publica contra suas políticas, aciona o Superman para dar cabo, de uma vez por todas no Vigilante de Gotham. Presidente este que atua diante as câmeras, um falso otimismo em meio ao pânico nacional. Uma alfinetada de Miller ao presidente Ronald Reagan, que foi ator em sua juventude.
“Nada que não possamos resolver, pessoal. Nós ainda somos a América e eu ainda sou o presidente.”
É interessante frisar que este Superman submisso ao presidente não é o mesmo Superman que estamos acostumados. Há sempre aquele papo de “Frank Miller descaracterizou o meu Superman”. É bom lembrar que este universo é pertencente a Terra-31. Essa é a beleza do Multiverso da DC Comics e as variadas versões de seus personagens. Voltando…
A luta contra o Escoteiro é curta e épica. Contando com apenas meia dúzia de páginas, cheia de simbolismos, e com diálogos magistrais e poéticos, nos apresenta uma analogia do Povo contra o Estado. Um Estado este ausente e omisso, que não garante nem protege nenhum dos direitos básicos, e manipula a opinião pública a seu favor. Todos falharam, é a nossa vez de tentar.
”Naquele momento víamos o fogo do Liberalismo acabar com a época calma e conservadora dos anos 80.”
-Mark Waid
A surra no Azulão dói. Mas não é uma dor física. O Superman toma uma surra moral, um choque de realidade.
“Você traiu a todos nós, Clark. Deu a eles o poder que devia ter sido nosso!”
Um ataque cardíaco coloca fim a luta. O Batman está morto, ou quase isso. Depois de forjar a própria morte, e com um exército secreto no subterrâneo, o Morcego é um fantasma, que agirá pelas sombras secretamente onde o Estado falhar, para proteger e guiar a população. Fascista para alguns, herói para outros, o Batman de Frank Miller sempre vai dividir opiniões nos campos ideológicos.
Em 2012 e 2013, Batman: O Cavaleiro das Trevas ganhou uma adaptação animada. Não tem todo o background dos quadrinhos, mas mesmo assim é um ótimo entretenimento.
Em 2015 foi lançado um prequel da história, The Dark Knight Returns: The Last Crusade. Confira nossa crítica aqui.
Resumir Batman: O Cavaleiro das Trevas a uma simples porradaria entre Batman e Superman ou ao “Roteirismo” deveria ser um crime. Ela é muito mais que isso. É uma história atemporal, de relevância histórica, com uma narrativa desafiadora que até hoje influencia os autores e personagens de quadrinhos. É, sem dúvidas, um material indispensável em qualquer coleção e independente de qualquer orientação política.
Casos sobrenaturais acontecem em uma Londres vitoriana, especialmente durante as noites cheias de nevoeiros e na presença de pessoas influentes. A Guardiã, criação do holandês Robbert Damen, é uma investigadora da Scotland Yard responsável por lidar com o paranormal, confrontando criaturas bizarras que desafiam a lei. As histórias desta forte personagem feminina chegaram ao Brasil pela AVEC Editora em um álbum que compila três aventuras fechadas cheias de ação, humor e reviravoltas!
A revista holandesa Eppo, resultado de uma fusão entre as revistas Pep e Sjors, possui uma extensa história que vem desde os anos 70. Em 1975, a Eppo foi criada como uma revista semanal, publicada até 1988, quando tornou-se quinzenal até ser cancelada em 1999 (durante todo este período, com nomes diferentes do atual). Dez anos depois, em 2009, a revista foi ressuscitada. No semanário surgiram grandes séries como Storm, Roel Dijkstra e Franka, sendo que em 2012 Damen deu início à sua série da Guardiã.
Imagine Sherlock Holmes com alguns poderes mágicos investigando somente casos que fogem do normal, indo da magia ao licantropismo. A Guardiã, detetive do sobrenatural, é uma personagem feminina forte que vive suas investigações em uma época muito marcante, especialmente por conta da visão machista exacerbada que a sociedade tinha da mulher. Sendo a protagonista e principal investigadora da organização policial britânica, a heroína quebra paradigmas retratados com fidelidade histórica, e com carisma e charme únicos, desvenda os três mistérios deste primeiro álbum.
As histórias da Guardiã são divididas em figuras centrais que dão nome às aventuras. Sir Godfried, Srta. Banning e Doutor Lowe são, de alguma forma, os principais enigmas que e detetive deve solucionar, usando seu bastão mágico e seu conhecimento adquirido ao longo de uma extensa carreira. O passado da Guardiã e tudo que a cerca é bem misterioso: não sabemos praticamente nada sobre sua vida, sendo que apenas uma figura familiar é apresentada no decorrer do álbum. “De onde ela veio? Como se tornou o que é hoje? Como funciona seu bastão mágico?” são algumas das perguntas que ficam abertas na cabeça do leitor, aumentando o desejo de conhecer mais sobre este mundo.
A arte de Robbert Damen, que iniciou sua carreira nos anos 90 como colaborador de publicações independentes e tornou-se posteriormente argumentista e ilustrador da revista semanal do Pato Donald, é típica do quadrinho europeu de linha clara, muito marcante no mercado franco-belga, onde com traços suaves o autor passa expressão e fidelidade aos cenários da época em que a série está situada, no séculoXIX. Suas personagens femininas são sensuais enquanto os homens são volumosos ou nobres, e as cores são competentes para criar a atmosfera ideal em cada um dos cenários, indo do raiar do dia ao sombrioetemerosoaspecto da madrugada.
A principal diversão das histórias da Guardiã é acompanhar sua narração de pensamento, como uma espécie de diário, sempre um passo adiante da polícia comum. Apesar de curtos, os relatos se desenvolvem agradavelmente guardando plot twists para o meio e para o final das investigações. Uma leve dose de humor se faz presente em alguns diálogos, e as cenas de ação sempre são muito bem retratadas. Especificamente na terceira história, há uma sequência com uma carruagem na chuva que é lindamente ilustrada, com uma fluidez única.
Apesar de um leve exagero em alguns diálogos, a HQ da Guardiã acrescenta muito ao mercado nacional e ao catálogo da AVEC Editora, que já possui um bom número de quadrinhos europeus protagonizados por personagens femininas (Alena, January Jones, Ember e a própria Guardiã), sem falar das ótimas histórias nacionais como Beladona e Galicia.
No exterior há também um segundo álbum, intitulado “Gillian – Edward“, que compila mais duas histórias da personagem. Espera-se que a AVEC Editora possa trazê-lo ao Brasil, repetindo a lufada de ar fresco para as livrarias nacionais como foi este primeiro compilado de aventuras, um material tão diferente e de qualidade acima da média.
Guardiã: A Detetive do Sobrenatural – Vol. 1 possui 48 páginas encadernadas no formato 28 x 21 cm com preço de capa sugerido R$ 34,90.
Em 1986 Alan Moore estava lançando nos Estados Unidos sua obra seminal Watchmen. Poucos anos antes, o mago inglês criava sua fagulha inicial da ideia que viria a se tornar a já citada série da DC Comics enquanto escrevia Miracleman (na época ainda chamado de Marvelman). Em 1987, motivado pelo sucesso dos super-heróis sérios da época, Grant Morrison criou sua resposta a Watchmen através de Zenith, que viria a utilizar conceitos similares aos das obras de Moore com um estilo muito mais fantasioso e divertido, pegada típica do autor quando trabalha com super-heróis. Sem deixar de lado, é claro, o caráter louco que tornou-se marca registrada do escocês.
Após uma série de histórias curtas dos Choques Futuristas, e tendo trabalhado na série Zoids pouco tempo antes, Morrison estava finalmente criando sua primeira aventura mais longa. Esta série, que teve início na prog535 da 2000 AD (em agosto de 1987), conta com arte de Steve Yeowell e designs originais de Brendan McCarthy, e já era uma amostra dos roteiros megalomaníacos de Morrison que iriam se estender para suas outras histórias no futuro. Nela, Zenith é o personagem principal, e o único descendente de uma geração de superseres desenvolvidos pelo governo britânico após/durante a 2ª Guerra Mundial.
Ao invés de usar seus poderes (voar, resistência, força) para o bem da sociedade, o protagonista se aproveita do título de único super-herói em atividade para seguir carreira como pop star, até que se encontra envolvido em um confronto contra um ser de outra dimensão, que toma posse do corpo de um meta-humano nazista revivido por cientistas loucos para servir como receptáculo de uma entidade lovecraftiana.
Apesar de toda a bizarrice descrita acima, esta série – pelo menos as duas primeiras fases, compiladas no encadernado Zenith – Volume Um da Mythos Editora – é de fácil compreensão, sem muita complexidade no roteiro. Mesmo sendo descrita como a primeira de super-heróis da 2000 AD, o personagem que dá o nome à história não é nada heroico, e os coadjuvantes são mais interessantes e possuem melhores personalidades do que ele. O grupo Nuvem 9 (que se assemelha aos Minutemen de Watchmen), composto por heróis como Voltagem, Dragão Rubro e Mandala, marcou o retorno de uma Era Heróica após a Segunda Guerra, onde Maximan e Masterman (a contraparte nazista do herói britânico) lutaram e foram eliminados em um teste de bomba nuclear na cidade de Berlim.
Morrison brinca com a história real da existência dos super-heróis ao longo da Fase Um de Zenith. Ao situar o início da Era Heróica como o período da Guerra, o autor cria um paralelo com a realidade, onde os heróis surgiram na década de 30 e tornaram-se um hit durante o conflito, caindo num período de esquecimento em seguida (durante os anos 50) e sendo revividos na década de 60. A trajetória é muito parecida no mundo real e no mundo fictício de Zenith, onde com maestria a dupla criativa responsável pela série costura muitas tramas paralelas e cria uma cronologia única e muito bem estabelecida. Ao invés de Hiroshima, temos Berlim. Maximan é uma espécie de Superman britânico. E sobra ironia até para Fredric Wertham, o psiquiatra autor da Sedução dos Inocentes.
Como diz em seu livro Superdeuses, Morrison utiliza a série para, pela primeira vez, transportar-se para os quadrinhos. Anos mais tarde, o autor faria algo parecido com o King Mob da série Os Invisíveis, e de forma literal no encontro das páginas do Homem-Animal. Na persona de Zenith o autor insere todas as suas características mentais (e algumas físicas) da época, transportando sua personalidade para o protagonista da série. Ao fazer isto, cria também personalidades fantásticas que vieram a se tornar verdadeiras celebridades dos quadrinhos britânicos, como o já citado Peter St. John, o Mandala (um tipo de Doutor Manhattan de Zenith), e rega suas páginas com muitas referências da cultura pop da época, criando um apelo adicional único sem pesar a mão nas alusões literárias.
Enquanto Watchmen é uma espécie de literatura séria e rebuscada, Zenith foi criado como um escapismo jovial puro e simples. A arte de Steve Yeowell é um mangá ocidental de alto contraste, onde os designs de Brendan McCarthy criam vida com fluidez e simplicidade extremamente agradáveis.
Durante toda a introdutória Fase Um, a dupla criativa Morrison & Yeowell trabalha para estabelecer as características primordiais da série, como a existência dos Multiângulos e dos heróis, para descambar na Fase Dois onde são explorados alguns detalhes do passado de Zenith, da existência dos Lloigor e o conceito do Multiverso, aqui apelidado de Alterna. A utilização de Terras Paralelas rendeu para a série a alcunha de “Crise nas Infinitas Terrasdos quadrinhos britânicos.”
A edição de luxo nacional da Mythos Editora compila as Fases Um e Dois na íntegra, com seus interlúdios e extras. Apesar de não ser um material inédito no Brasil, por já ter sido publicado em meados dos anos 2000 pela extinta Pandora Books, é a primeira vez que a série chega ao país de forma oficial em seu formato original, sem cortes e com nova tradução pelas mãos do gabaritado Érico Assis. E o tratamento gráfico dado ao encadernado é primoroso.
Talvez o Grant Morrison de Zenith seja mais acessível para os leitores que gostam de séries descompromissadas e com uma dose de nonsense divertido e empolgante, coisa que o autor extrapolou em suas histórias para a DC e Marvel e também nas continuações desta própria publicação. E deixando um gancho para as continuações, encarnadas nas Fases Três e Quatro (esta última inédita no Brasil, totalmente colorida e sendo publicada em breve pela Mythos), a empolgante história do cantor Zenith e todos que o cercam parece estar apenas começando, de uma forma tão excelente que nem parece o início da carreira de um roteirista, provando sua genialidade desde cedo.
Zenith – Volume Um possui 212 páginas encadernadas em capa dura no formato 26 x 19 cm, com preço de capa sugerido R$ 74,90.
Revisitando a origem clássica da Mulher-Maravilha – com direito ao saiote de estrelinhas brancas dos EUA – a escritora e desenhista Renae DeLiz trouxe um olhar feminino para a origem da Era de Ouro da Princesa Amazona da DC Comics em The Legend of Wonder Woman (A Lenda da Mulher-Maravilha), lançado em 2016.
A Lenda Mulher-Maravilha é divido em nove partes, que vão desde a infância de Diana em Themyscira, desvendando mistérios sombrios de seu lar, até seu amadurecimento como Mulher, em que conquistou o título de campeã das Amazonas e descobriu o Mundo dos Homens. A história é ambientada no período da Segunda Guerra Mundial, e isso é constantemente mencionado na trama, inclusive com diversas menções das batalha do Eixo contra a Aliança.
Desde criança, Diana sente que é diferente das outras Amazonas, pois é nascida do barro e da magia, mas não é só isso, ela é capaz de sentir que Themyscira corre perigo, a ilha clama por sua ajuda. Então, contrariando o desejo de sua mãe de não treinar a arte da batalha, a jovem Diana pede ajuda de Alcippe, a maior lutadora Amazona, para que ela possa proteger seu lar. Em certo momento da trama, a ambientação muda para o Mundo dos Homens, em que Diana descobre o conceito da Guerra e seus horrores e isso a motiva a tornar-se a campeã da verdade e da justiça, a Mulher-Maravilha.
Jovem Diana
A Lenda Mulher-Maravilha, basicamente, é a origem clássica da Mulher-Maravilha que todos os fãs da personagem já conhecem. Nascida do barro. Campeã da Amazonas. Steve Trevor é o pivô da grande transição de Diana. O grande diferencial dessa história está na abordagem feita por Renae DeLiz, que se preocupa em mostrar uma óptica feminina no Universo das Amazonas e no papel das mulheres na época da Segunda Guerra Mundial.
De Liz é escritora e desenhista do quadrinho e, junto a seu marido Ray Dillon, responsável pela colorização, entregam uma arte dinâmica e bonita. Todos os personagens e lugares desenhados e coloridos pelo casal são agradáveis de ver. Dillon não economiza nas cores, tudo é muito vibrante, principalmente quando envolve armaduras brilhantes.
Uma preocupação de Renae De Liz ao desenhar o quadrinho foi em não sexualizar as amazonas e, principalmente, a Mulher-Maravilha. Nos 75 anos de existência da Mulher-Maravilha houve muitos retratados sensuais da personagem e também das Amazonas de Themyscira. Em A Lenda Mulher-Maravilha, não há qualquer sensualidade nas Amazonas. Elas são retratadas com um físico imponente e musculoso, mas não exagerado, e sem perder as curvas femininas.
Amazonas
Antes de concluir, não poderia deixar de falar de Etta Candy, a primeira amiga de Diana no Mundo dos Homens. Essa versão da Etta é, provavelmente, a mais carismática e divertida de todas as versões da personagem nos quadrinhos. Além de transmitir um sentimento que faz o leitor querer ter uma amiga igual a ela, Etta também é responsável pelos momentos mais divertidos da história.
Diana e Etta
A Lenda Mulher-Maravilha de Renae De Liz não é só mais uma das muitas origens da Mulher-Maravilha, é uma jornada heroica de descobertas com um novo olhar para o universo da heroína mais poderosa da DC.
A passagem de George Pérez pela Mulher-Maravilha, é provavelmente a mais aclamada da personagem. Ele, Len Wein e Greg Potter não apenas reformularam a origem da heroína como também criaram um evento envolvendo os Deuses. Eles expandiram a mitologia da Princesa Amazona e criaram novos conceitos. Um deles, a guerreira que inspirou o nome da nossa heroína: Diana Rockwell Trevor.
Sua primeira aparição ocorreu em Mulher-Maravilha #11. Rockwell era uma piloto que se casou com Ulysses Stephen Trevor, os dois tiveram um filho chamado Steve. Sua chegada em Temiscira, é semelhante a de seu filho. Um acidente de avião causado por uma tempestade. Ao chegar na Ilha, ela vê as Amazonas lutando contra a criatura chamada Coto. Sem hesitar, ela atira mas é morta. Elas transformam os símbolos de suas vestes em armas e em um traje que só pode ser usado pela maior das guerreiras. A arma é guardada como o último desafio do torneio das Amazonas: O desafio do Trovão, onde só sairá vitoriosa aquela que defletir mais balas.
Diana Trevor não é apenas uma grande conexão para explicar a bandeira norte-americana e a águia do traje da Mulher-Maravilha, e sim, uma forma da heroína descobrir a si mesma e suas origens, sendo a ponte entre dois mundos: Deuses e Mortais. O acidente de Steve Trevor também não é mera coincidência e sim, uma obra do destino para aproximar a princesa do soldado. Pérez e Wein criaram uma personagem que consegue esclarecer todas as pontas soltas sobre a Mulher-Maravilha.
O arco Desafio dos Deuses foi recentemente publicado pela Panini no encadernado Lendas do Universo DC: Mulher-Maravilha George Pérez Volume 2.
Existem histórias em quadrinhos que emocionam, e outras que emocionam ensinando algo para o leitor. Em sua primeira graphic novel, chamada Não era você que eu esperava, o autor Fabien Toulmé desmistifica e lida com a Síndrome de Down de maneira humana, tocante e muito sincera,com uma verdadeira montanha-russa de emoções.
A grandiosa Editora Nemo, parte do Grupo Editorial Autêntica, possui um catálogo recheado de obras extremamente relevantes para o mercado e principalmente para seus leitores. Pílulas Azuis, de Frederik Peeters, desmitifica os tabus sobre a AIDS. Desconstruindo Una, da artista Una, fala sobre a violência contra a mulher. E com o sincero Não era você que eu esperava, um dos lançamentos de destaque de 2017, a editora mais uma vez acerta ao escolher publicar uma obra, francesa com um pé no Brasil, tão humana e expressiva.
Fabien Toulmé, nascido em Orleans, na França, morava com sua esposa Patrícia em João Pessoa. Brasileira, sua esposa também é mãe de sua primeira filha, Louise, nascida na cidade paraibana. Ao decidirem ter uma segunda criança, que aparentava não necessitar de cuidados especiais durante a gestação, com o nascimento veio à tona uma notícia: Julia, a segunda filha do casal, era trissômica. Popularmente conhecida como a deficiência Síndrome de Down. Já vivendo na França os pais devem aprender sobre a condição de Julia tida como “anormal” por outras pessoas, indo da fúria àrejeição, da aceitação ao amor, e descobrindo se aquela criança não era realmente quem eles esperavam.
O principal adjetivo para esta história é sinceridade. Fabien relata, de forma divertida e preocupada, todos seus medos com relação às possíveis implicações de ter um filho que necessite de atenção especial e que seja diferente de outras crianças. De uma maneira humana, as preocupações e receios tornam-se rapidamente raiva, frustração e profunda tristeza, mergulhando a vida do casal num poço de aprendizado infinito. E sem medo em demonstrar suas falhas e características preconceituosas, como um leigo no assunto, a narrativa (que é autobiográfica) ganha uma camada de realismo que põe o leitor em cheque.
Indignado, como se houvesse levado um fortíssimo soco no estômago, Toulmé deixa clara por muito tempo sua rejeição a sua filha. E quando chega ao estágio da aceitação, você passa a admirar sua coragem por relatar seus sentimentos mais obscuros, através de sua arte com traços simples e cores que ajudam a demonstrar o que o artista sentia em cada período da vida de Julia, que além de possuir a deficiência, também nasceu com uma complicação cardíaca que devia ser tratada ao completar de um ano após o seu nascimento.
O autor narra todo este período delicado dos primeiros anos de Julia de forma muito bem-humorada. Caprichando nas referências, mostrando os acontecimentos mais absurdos e principalmente lidando com a enorme mudança social e psicológica na vida do casal, a história é cheia de passagens engraçadas que proporcionam à leitura uma leveza especial mesmo tratando de algo que, para muitos, é um tabu da sociedade. E ao aprender mais sobre a condição de sua filha, o paibabão também passa muito conhecimento aos leitores ao demonstrar que a famosa trissomia do 21 é algo que, por mais baixas as chances de existir, deve ser tratada sempre com normalidade e respeito.
É impensável o que um pai deve sentir quando posto numa situação tão delicada e inesperada, e esta história lida com isso com maestria. Ao mostrar a perspectiva de outras pessoas, como médicos, parentes e amigos, Fabien torna este diário em quadrinhos do nascimento de sua filha um verdadeiro presente especial.
E através da convivência com Julia, é nítida a sensação de que este pai tornou-se outro tipo de pessoa. Pois Julia podia não ser o que esperava, mas com certeza trouxe a maior felicidade do mundo por ter vindo.
Não era você que eu esperava possui 256 páginas encadernadas em formato 17 x 24 cm, e é um dos fortes candidatos ao topo das listas de melhores lançamentos de 2017. O preço de capa sugerido é R$ 59,80.