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Juiz Dredd: Heavy Metal | O lado porra-louca de Mega-City Um

As histórias do Juiz Dredd transitam entre o sério e o caricato, equilibrando muito bem os dois estilos graças a incrível capacidade dos artistas e roteiristas envolvidos, que são capazes de abordar tantos elementos deste universo com naturalidade. Em Juiz Dredd: Heavy Metal, lançamento da Mythos Editora, encaramos os lados pouco explorados e muito inusitados de Mega-City Um, especialmente para leitores casuais: a zoeira, a porra-louquice, com histórias imprevisíveis, brutais, politicamente incorretas e muito caricatas.

Biba Baitolo, O Homem Que Matou o Juiz Dredd, quer ser chamado de Cabra-Macho. Bimba, um pequeno veadinho dos estúdios Wolt Bisley, perdeu sua mãe, morta por um caçador que tem uma piroca na cabeça. E não podemos deixar de mencionar o Grande Arsoli, que possui a maravilhosamente útil habilidade de esconder objetos no cu.

As histórias que compõem o encadernado Juiz Dredd: Heavy Metal dividem opiniões não somente no Brasil mas também no Reino Unido, terra de origem do personagem. Quando foram criadas, em meados dos anos 90, muitos fãs encararam o estilo satírico escrachado como algo ruim, e até hoje estas histórias são polêmicas e geram discussões por conta disso. Apesar do Juiz Dredd ser o meu personagem favorito dos quadrinhos, eu quero que se foda. aqui pra ver o caos.

Uma das principais particularidades dos quadrinhos do Juiz Dredd é justamente a possibilidade de criar histórias sérias, densas e políticas mas também ir para o lado oposto, lidando com o absurdo engraçado do início ao fim.

Este tipo de abordagem só poderia ser feita por grandes mentes criativas que entendem o personagem e são exímios profissionais capazes de escrever todo tipo de história, fazendo o Juiz Dredd lidar com inimigos Soviéticos e problemas sociais ou, por outro lado, investigar Senhoras do Politicamente Correto que usam corpos de macacos para saírem pelas ruas matando a corja da sociedade, usando somente controle mental. É isso aí.

Dredd foi criado no final dos anos 70 na revista semanal 2000 AD como uma paródia das medidas de Margaret Thatcher, a Dama de Ferro do governo inglês. Desde a sua criação, por John Wagner e Carlos Ezquerra, passando pela dupla Pat Mills e Mike McMahon e voltando posteriormente aos seus criadores (longa história), o personagem equilibrou as sátiras com as tramas mais relevantes.

A Revolta dos Robôs, primeiro arco longo do Juiz, publicado (pelo menos o início) no Brasil pela Ebal, lidava com a ideia do futuro onde as máquinas se revoltam, mas também encara as situações com muito humor. Não é absurdo que, ao decidirem publicar aventuras de seis páginas na revista Rock Power voltadas para os metaleiros da época, decidissem fazer algo diferente, apresentando um show visual e entretenimento barato e divertido.

Curtas, diretas e belissimamente ilustradas por nomes que revolucionaram o mercado como Simon Bisley, Dean Ormston, Brendan McCarthy, John Hicklenton e Colin MacNeil, as aventuras da antologia Heavy Metal foram idealizadas por David Bishop, visando criar algo separado do universo regular. John Wagner (que, ora pois, é O criador), Alan Grant, John Smith e Jim Alexander, todos nomes intimamente ligados ao Juiz, cuidaram dos roteiros e o resultado é absurdamente bom.

O nível de violência é extrapolado: você começa a ler e suas mãos ficam sujas de sangue. Palavrões, cenas ridículas e muitas paródias musicais, que vão de Elvis Presley a Beatles, resumem perfeitamente o teor Heavy Metal que dá nome ao quadrinho. Sobra piada até para o Ozzy Osbourne. Tudo é muito caricato, mas também extremamente detalhado. E o já citado show visual tornou-se um trabalho pioneiro pois daí em diante surgiram, oriundos destes nomes fortíssimos da nona arte, diversos clones que reproduzem seus estilos à exaustão até os dias de hoje.

E a revolução de Heavy Metal Dredd pode ser vista também em outras mídias. A série animada Judge Dredd: Superfiend (2014), por exemplo, bebe da influência de histórias como as mencionadas acima para, misturando com a cronologia comum do personagem, criar cada um dos episódios, cheios de momentos absurdos, com violência e extrapolação de conceitos.

Heavy Metal é um trabalho diferente. Se encarado da forma errada pode sim soar somente como algo ridículo, mas a ideia é outra, merecendo atenção e elogios. O capricho da edição nacional (a despeito de alguns imperceptíveis errinhos de letreiramento), traduzida por Érico Assis, também merece todo o louvor possível, adaptando perfeitamente as piadas e até mesmo as músicas, como na história A Cartilha de Mega-City.

Feito para ser lido de mente aberta e visando única e exclusivamente a diversão, Juiz Dredd: Heavy Metal possui 132 páginas em papel couché encadernadas em capa dura no formato 26,4 x 18,8 cm, com preço sugerido de R$ 64,90. Ficou interessado? Aproveite os 40% de desconto na Amazon! Quer conhecer mais sobre o personagem? Confira nosso Guia de Leitura completo clicando aqui!

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A história do Tarântula em Sandman: Teatro do Mistério

Antes de começarmos é bom explicitar, se você acha que Sandman: Teatro do Mistério nos traz o Sandman do Neil Gaiman, o Perpétuo dos Sonhos, irmão da Morte, está bastante enganado (apesar de nós também o amarmos). O buraco na verdade é bem mais fundo no Universo DC. A obra nos traz o primeiro Sandman, aquele da Era de Ouro, criado em um período pós-Guerra, caracterizado por sua famosa máscara de gás e por sempre botar seus inimigos para dormir. Falamos de Wesley Dodds.

Wesley Dodds como Sandman.

Inicialmente já temos que fazer uma viagem pela história. Vamos para 1938, período pós-Lei Seca nos EUA, quando os americanos queriam aproveitar e recuperar todo o tempo perdido bebendo tudo que não conseguiam.

Casado de forma perfeita com todo o contexto histórico surge o primeiro mistério da trama, um sequestro, que consequentemente é seguido por outros e assassinatos, e a principal pergunta: Quem é o assassino que envolve as suas vítimas como uma tarântula? Parece um pouco clichê para tramas de investigação, mas ao mesmo tempo da forma que é escrita, sempre é trazido um algo a mais na história, quebrando a forma clichê de se ler o quadrinho.

Capa da edição da Panini Comics

Reviravoltas e plot twists são bem comuns, a ponto de você conseguir duvidar sobre quem é quem, herói ou vilão, até certo ponto. Com um conteúdo mais adulto, envolvendo de incesto a tortura, o material não é indicado para crianças, como a maioria do selo da Vertigo Comics.

A arte também casa com a história, e com a época em que é retratada, um excelente encadernado que com certeza faz você ficar imerso em seu contexto e preso em sua trama.

Escrito por Matt Wagner e desenhado por Guy Davis, Teatro do Mistério consegue te prender em cada detalhe. Se você procura por mistérios e drama imersos em um clima noir, com certeza não irá se arrepender. Vale cada centavo.

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Quer começar a ler Zagor? Conheça Zagor Especial em Cores!

Zagor, personagem criado em 1961 por Guido Nolitta (pseudônimo de Sergio Bonelli) e Gallieno Ferri, é publicado no Brasil de forma ininterrupta desde o final dos anos 70. Passando por várias editoras ao longo dos anos e contando bimestralmente com duas revistas publicadas em banca, um leitor novato pode se sentir perdido, sem saber exatamente por onde começar. Sanando este problema acaba de ser lançada a primeira edição da série Zagor Especial em Cores, da Mythos Editora, disponível nas bancas e livrarias de todo o país!

Za-gor-te-nay, O Espírito da Machadinha, surgiu seguindo o sucesso de Tex, o herói de western criado por Gian Luigi Bonelli e Aurelio Gallepini. Atuando na fictícia Floresta de Darkwood, na Pensilvânia, o personagem que veste camiseta vermelha e amarela age como um pacificador, mediando problemas entre brancos e índios e também protegendo as pessoas de ataques sobrenaturais.

A principal diferença e atrativo das histórias deste herói é o lado fantasioso que Nolitta, filho de Gian Luigi Bonelli, decidiu acrescentar à mitologia. Por se tratar de um personagem de western, é comum que haja o pensamento de que suas histórias estão limitadas a contos envolvendo bandidos, índios, militares e problemas “pé-no-chão”, mas acompanhado de seu fiel amigo mexicano Chico, que dá o tom de humor às histórias, são enfrentadas assombrações, alienígenas, monstros e outras bizarrices, usando sempre o excelente porte físico, inteligência e capacidade de luta com os famosos tomahawks, qualidades oriundas do protagonista.

O personagem na Itália faz parte dos sucessos intermediários da Sergio Bonelli Editore, que publica outros personagens como o já citado Tex, Dylan Dog (que retornou às bancas brasileiras, saiba mais AQUI) e Martin Mystère. No Brasil, sua história começou em 1978 com a editora Vecchi, e desde então o herói passou pelas editoras Rge (1985-1986), Globo (1987-1988), Record (1989-1995) e atualmente, Mythos (1999 – presente). Suas séries são variadas, como Zagor, Z. Extra, Zagor Especial, Zagor Gigante e Z. Anual, além de revistas comemorativas lançadas em períodos específicos. Atualmente, somente Zagor e Zagor Especial seguem sendo publicadas, mas a Mythos Editora decidiu dar início a uma nova coleção chamada Zagor Especial em Cores, republicando um clássico do personagem, ponto de partida ideal para novos leitores.

A Origem de Zagor é o nome dado ao famoso arco O Rei de Darkwood, publicado na Itália nas edições 55 e 56 da série Zagor. Como todo bom personagem das histórias em quadrinhos, quando surgiu Zagor era somente um herói bondoso que não tinha receio em agir da forma mais correta possível. Com o passar das décadas e fixada a bem-sucedida publicação deste título, seus criadores decidiram esmiuçar o passado sombrio do herói, voltando à sua infância e, com narração em primeira pessoa por parte do próprio Espírito da Machadinha, chegando no momento presente da cronologia.

Neste especial colorido, Zagor conta a Chico a triste história de seu passado, desde quando ele era menino e morava com o pai e a mãe numa cabana às margens do rio Clear Water quando, num dia terrível, os Wilding (seus pais) foram atacados e mortos pelos índios abenakis, liderados por um branco, Salomon Kinsky. Jurando vingança, o futuro Rei de Darwood não conseguia aplacar a sua sede de vingança até que, um dia, viu-se frente a frente com Kinsky, e esse encontro mudaria para sempre a sua vida.

A premissa simples da origem de Zagor é brilhantemente narrada por Nolitta e Ferri. Com ótimo desenvolvimento os autores permitem que um leitor, novato ou não, emocione-se com as tragédias e bons momentos da vida do personagem. Sua relação com seu mentor, Wandering Fitzy, e a forma como torna-se o Rei de Darkwood é contada em detalhes ao longo das quase 170 páginas deste primeiro volume, entretendo do início ao fim. As cores, estranhas para leitores acostumados com o preto e branco dos quadrinhos Bonelli, não atrapalham a narrativa e dão um charme adicional, visto que esta é a primeira vez que o arco da Origem de Zagor é publicado no Brasil desta forma.

Mas qual seria a diferença de Zagor Especial em Cores em comparação com Zagor e Zagor Especial? A principal é o fato deste volume compilar uma aventura completa e praticamente isolada do senso de cronologia, visto que ela basicamente apresenta este universo. Com a possibilidade de acompanhar uma revista desde o primeiro número, a história é 100% compreensível para o leitor que desconhece qualquer fato sobre o personagem, e abre margem para o início de uma série similar a Zagor Collezione Storica a Colori (Zagor Coleção Histórica em Cores, em tradução literal) da Itália.

Por se tratar do possível início da uma nova coleção, e acertadamente começando com um arco tão introdutório, a série Zagor Especial em Cores é promissora. A seleção de histórias ficará a cargo dos editores da Mythos, que possuem um longo catálogo de aventuras coloridas que podem ser inseridas nesta série, possibilitando que republiquem grandes clássicos do personagem pela primeira vez em cores no Brasil, ou partindo para séries inéditas, como a cultuada Color Zagor.

A esperança é de que, com a novidade, mais leitores brasileiros se interessem em desbravar os mistérios da Floresta de Darkwood, e com a mesma empolgação do herói, possam repetir o grito de guerra do Espírito da Machadinha: AAHHYAAAAKK! 

Zagor Edição Especial em Cores está disponível na Amazon e nas bancas de todo o país, e possui 166 páginas encadernadas no típico formatinho Bonelli da Mythos Editora.

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Seis séculos de história retratados em A Infância do Brasil

A Infância do Brasil, obra de José Aguiar publicada pela AVEC Editora, é uma narrativa única. Ao apresentar um quadrinho histórico narrando seis séculos do nosso Brasil, o autor decide com maestria situar a perspectiva em um lado pouco explorado: o das crianças brasileiras.

Da colonização a modernidade, passando pelo período escravagista e industrial, A Infância do Brasil é um verdadeiro documento do passado, com imagens fidedignas que se assemelham a retratos e pinturas de livros, e texto apurado, com nuances de cada momento da nossa língua portuguesa em que a narrativa está situada.

A premissa desta série, publicada inicialmente como uma webcomic entre 2015 e 2016 e agora compilada em uma belíssima edição impressa, é lidar com o lado mais delicado e chocante da nossa história, criando paralelos com o Século XXI e levantando questionamentos sobre as diferenças entre passado e presente. Será que a situação mudou para melhor? Evoluímos como sociedade, ou as coisas não sofreram tantas alterações no decorrer das eras?

José Aguiar, dono de uma arte única complementada pelas lindas e vivas cores de Joel de Sousa, parte de uma característica em comum que é a presença de nomes iguais conforme o tempo passa, fechando um arco ao longo dos seis capítulos. A forma como o autor retrata a infância é crua e reflexiva desde as primeiras páginas. A escolha aqui é por mostrar o lado do povo brasileiro (pessoas NASCIDAS no Brasil, não colonizadores) mais sofrido, encarando problemas que construíram a sociedade como a temos hoje e que estão presentes nas fundações desta construção.

Fome, miséria, violência física e moral, trabalho e saúde são alguns dos temas explorados, dentre muitos outros como o abandono e questões familiares, modernas ou não e sempre remetendo a perda da infância.

Entre os momentos mais chocantes e memoráveis destacam-se o capítulo sobre a Lei do Ventre Livre, baseado em um relato histórico real, o caso da mãe que cria seu filho na cadeia, e a abordagem do presente, comparando a vida boa de um casal com a misérias nas ruas.

A leitura deste quadrinho desperta o desejo de saber mais. Aprender mais sobre o passado, encarar outras realidades e descobrir quais características estão marcadas com ferro quente no âmago do nosso país. A sofrida perspectiva das crianças é um sopro de criatividade na forma de abordar a história, tornando-se um relato que poderia ser aplicado nas escolas como material didático.

Nos extras são apresentados textos contextualizando cada um dos períodos da HQ, destacando ainda mais o caráter fidedigno da retratação histórica. Um dos grandes destaques dos quadrinhos nacionais mais recentes, com temática relevante e desenvolvimento único, a obra de José Aguiar merece ser lida por todos. Recentemente A Infância do Brasil foi indicado ao Troféu HQMIX 2016 na categoria Web Quadrinhos.

A Infância do Brasil possui 96 páginas encadernadas em capa brochura no formato 28 x 21 cm, com preço sugerido de R$ 49,90.

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Joe, o Bárbaro: a jornada fantástica de um garoto diabético

Misturando elementos de fantasia medieval com ficção científica e um universo mágico, Joe, o Bárbaro é uma minissérie em oito edições escrita por Grant Morrison com arte de Sean Murphy. Lançada nos EUA pela Vertigo, e agora republicada no Brasil pela editora Panini em uma belíssima edição de luxo, a aventura de Joe Manson para enfrentar seus medos e problemas de saúde é mais que uma simples história, tornando-se um belo conto de fadas.

As histórias criadas por Grant Morrison dividem opiniões. Enquanto alguns leitores o veem como um pseudo-intelectual que escreve sobre nada com palavras bonitas, ou que revisita velhos conceitos para disfarçar sua falta de criatividade, outros estudam o que o roteirista superstar quis dizer e referenciar com cada um de seus parágrafos, descrições de quadros e narrativas como um todo.

De um lado temos Os Invisíveis, Patrulha do Destino e Crise Final, enquanto do outro temos Homem-Animal, We3 e… Joe, o Bárbaro. E mesmo com todos seus trabalhos sendo absurdamente fantásticos, o destaque da história de Joe é a capacidade de criar mundos e paralelos com a vida real que Morrison aplica, com a estonteante co-criação de Sean Murphy.

Nunca uma jornada até a cozinha num dia chuvoso e sem luz seria tão absurda quanto a de Joe Manson. Diabético, Joe precisa manter seus níveis de glicose adequados, e enquanto seu pai faleceu em uma guerra e sua mãe trabalha e luta diariamente para manter suas vidas minimamente dignas, com a constante ameaça de perder a casa, o garoto vive com raiva e age com antipatia. Sofrendo bullying, Joe perde seu chocolate para um grupo de garotos, e ao retornar para sua casa, uma tempestade tem início. A vida do jovem muda a partir de então.

O garoto se vê transportado para um mundo onde seu rato de estimação, Jack, é um tipo de guerreiro samurai, seus brinquedos criaram vida e há um grande vilão, o Rei Morte, vivendo num local obscuro. Entre duas realidades, a física e a imaginativa da Hipogeia, chamada Reino de Ferro, Joe descobre que está tendo um ataque de hipoglicemia (baixos níveis de glicose no sangue), e precisa desbravar sua casa na escuridão em busca de algum tipo de açúcar, como um simples refrigerante. A jornada até sua cozinha, e consequentemente até o porão, é dividida entre as duas realidades, onde a casa de Joe afeta diretamente a forma e existência do mundo paralelo.

Se não bastasse a situação absurda descrita acima, Joe também é parte de uma profecia dos moradores do Reino, sendo chamado de O Menino que Morre, recebedor da difícil tarefa de salvar o mundo das garras do Rei Morte.

Apesar da sinopse louca, Joe é uma das histórias mais lineares de Morrison. O destaque, como citado, é a construção do mundo de Hipogeia, com seres fantásticos e uma atenção especial aos detalhes. Senhor dos Anéis, Alice no País das Maravilhas e Esqueceram de Mim são fortes influências no desenvolvimento de Joe, o Bárbaro, que introduz um garoto antipático e criativo, um típico nerd do colégio, e o desenvolve para que se torne uma pessoa melhor. De início, é difícil se relacionar com o herói (pouco heroico) desta série, mas até o final você já comprou suas dores.

A forma como Morrison e especialmente Sean Murphy retratam os cômodos da casa de Joe em paralelo com áreas específicas do outro mundo é um show por si só. Torneiras viram cachoeiras, vazamentos tornam-se rios, estantes viram castelos e escadas, grandes trilhas. O elenco de apoio, responsável por colaborar com a jornada de Joe, é muito carismático e cada um possui características que se destacam, enquanto a história se desenrola até uma batalha épica contra as forças do mal.

O paralelo traçado é claramente uma luta contra as complicações da saúde do protagonista e também uma forma de encarar seus problemas pessoais. Cada dificuldade e inimigo enfrentado pelo herói surge a partir de um enrosco presente na vida real, desde o ataque hipoglicêmico até as insatisfações e medos familiares. As cores estonteantes do premiado Dave Stewart complementam os belos traços de Murphy, tornando o mundo fantasioso algo verdadeiramente crível, com tecnologia e cultura próprias. As cenas escuras durante o apagão gerado pela tempestade e as paisagens exuberantes do Reino de Ferro possuem o mesmo brilho.

A minissérie pode ser descrita com palavras como sinceridade, aventura, desbravamento despretensioso e sentimentos, e ao longo das oito edições (que funcionam muito bem lidas em sequência, de uma só vez, com o encadernado) os autores exploram cada detalhe da casa do protagonista, e conseguem fechar todas as pontas soltas e ideias lançadas no decorrer da viagem, utilizando metáforas e análogos até as páginas finais.

Joe, o Bárbaro é prova concreta da capacidade de Grant Morrison em criar histórias relacionáveis com o leitor, sem pesar a mão nas alegorias literárias e referências quadrinísticas, soando como diversão pura e simples e entregando o que há de melhor nas ótimas histórias em quadrinhos. Vencedora do Prêmio Eisner de Melhor Minissérie, a jornada de Joe possui uma construção de mundo encantadora, que remete a imaginação das crianças e jovens, e de forma apaixonante deixa o leitor sedento por mais aventuras no Reino de Ferro, por mais bizarro que isso possa soar dadas as circunstâncias que levaram o garoto a conhecer o outro mundo.

A edição de luxo Joe, o Bárbaro da editora Panini possui 224 páginas encadernadas em capa dura, no formato 27,5 x 18 cm, com preço sugerido de R$ 72,00. O encadernado conta também com uma galeria de extras, onde Morrison e Murphy apresentam roteiros e artes conceituais que tornam a experiência do leitor ainda mais prazerosa e aprofundada.

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Deslocamento: Um diário de viagem, vida e medo da morte

Ao decidir acompanhar seus avós em um cruzeiro para o Caribe, Lucy Knisley se depara com as dificuldades, físicas e mentais, da convivência com idosos a quem ela tem tanto apego emocional, e através de seu quadrinho autobiográfico Deslocamento: Um diário de viagem, publicado pela Editora Nemo, a autora narrou os sete dias desta longa, complicada e reveladora viagem.

Nascida em Nova York, vivendo em Chicago e superando o término de um relacionamento, Lucy Knisley decide acompanhar seus avós, Phyllis e Allen, no cruzeiro de sete dias para o Caribe. Artista formada na School of the Art Institute of Chicago e no Center for Cartoon Studies, Deslocamento não é sua primeira obra publicada, porém marca sua ótima estreia no Brasil.

Com uma narrativa que quase sempre se resume em páginas completas com imagens pintadas, narrando sentimentos ou acontecimentos, Deslocamento é uma história cheia de sinceridade. Ao contar seus problemas pessoais e familiares com franqueza e bom humor, Knisley estreita uma proximidade com o leitor, especialmente com aqueles que convivem com pessoas idosas e sabem pelo que a autora está passando.

Sua arte é simples, com linhas claras e belas cores, e sua narrativa é fluida em todas as páginas, onde os olhos do leitor deslizam pelas imagens e balões de fala com naturalidade. O choque entre as duas gerações também gera desconforto, especialmente quando analisado em comparação com a visão de outras pessoas, que fazem julgamentos sobre as dificuldades pelas quais os idosos passam ao longo da viagem, e Lucy aprende mais sobre o passado de seus avós e sobre o valor da vida como um todo.

Apesar de curta, Deslocamento é uma história sobre aprendizagem. Ao submeter-se a esta difícil tarefa, a autora – que passa seu tempo livre lendo as histórias de soldado do seu avô, enfrentando casos de vida ou morte constantemente – consegue entender mais sobre si mesma, sobre o futuro e sobre o amor ao próximo, especialmente dando valor às pessoas amadas, sempre com bom humor e muita paciência.

E apesar das principais palavras-chave para descrever Deslocamento serem autoconhecimento, amor e cuidado, os sentimentos são muito reais, frutos do sincero relato autobiográfico aqui presente. Os dias passam com páginas de transição poéticas, que representam o nível do mar subindo, fazendo um paralelo com o tempo em alto mar e também com as experiências vividas, que assim como as águas, são conduzidas em ondas e vão numa crescente de conhecimento até o fim.

As formas de falar e agir de Phyllis e Allen são constantes dos mais velhos, que necessitam de atenção especial para tudo que fazem, e isso torna a experiência de leitura ainda mais autêntica. Lucy é submetida constantemente ao pensamento do “medo da morte“, e motivada por este medo, passa a dar mais valor à vida.

Uma história necessária, verdadeira e bem contada, este Diário de Viagem de Lucy Knisley é um deleite gráfico, com belas páginas e uma temática que faz refletir sobre o que o futuro reserva para você, e como será sua forma de encarar os impedimentos, estorvos e dificuldades da idade avançada. Ao mesmo tempo, a principal mensagem que a obra passa é não deixar a negatividade vencer, e cada nova vivência pode ser um grande aprendizado, por mais banal ou impossível que possa parecer.

Deslocamento: Um diário de viagem possui 144 páginas encadernadas em formato 23,8 x 16,6 cm, com preço sugerido de R$ 44,90, e é um dos lançamentos de 2017 da Editora Nemo.

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Eu Sou Gotham | “Todos têm medo. É normal ter medo.”

Com o Renascimento, dias esperançosos chegaram para muitos personagens, exceto para Bruce Wayne. Gotham está cada vez mais perigosa e na medida que a criminalidade é derrotada, ela aumenta. Batman sabe que não viverá tempo o suficiente para salvar sua cidade, logo ele precisa de alguém que assuma seu legado. Alguém mais poderoso do que ele. Com o surgimento da dupla Gotham e Gotham Girl, o morcego irá ajudá-los a combater o crime, mas como controlar o medo deles? Afinal, todos têm medo. É normal ter medo. Esta é a premissa de Eu Sou Gotham, o primeiro arco do Batman no Renascimento DC

Depois da longa fase de Scott Snyder nos Novos 52, Tom King, assume o roteiro do Cruzado de Capa. Sua narrativa frenética totalmente cinematográfica pautada com frases de efeito já é ditada desde o primeiro capítulo e é eficiente para a história. Seu roteiro ganha ainda mais força com os paralelos traçados entre os dois novos personagens e o Cavaleiro das Trevas. Seu Batman é colocado nas situações mais absurdas possíveis como por exemplo: Parar um avião! O estilo do roteirista se assemelha um pouco ao empregado por Grant Morrison na sua aclamada fase pelo Morcego.   

A arte de David Finch não se destaca tanto mas é adequada ao tom violento, explosivo e sombrio. O artista consegue imprimir a seriedade do Cruzado de Capa e se destaca nas cenas de ação. Os quadros são bem distribuídos e contribuem para o ritmo frenético do roteiro. As cores claras de Jordie Bellaire oferecem um bom contraste aos desenhos de Finch através de tons mais claros.

Eu sempre quis ver o Batman parando um avião.

King estabelece pistas para A Noite dos Homens Monstro neste volume. Hugo Strange retorna ao lado do Pirata Psíquico, o papel do vilão na história é sensacional e tem a ver com a questão do medo, frequentemente abordada na história. Gotham e Gotham Girl são excelentes adições a mitologia do herói.

Eu Sou Gotham é um ótimo início para a revista do Batman. Traz uma nova visão sobre o personagem e introduz ótimos personagens. É  uma história frenética, tensa e emocional.

O arco foi publicado aqui no Brasil pela editora Panini nas edições 1 à 3 da revista mensal do Batman entre abril e junho de 2017.

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Cavaleiro da Lua: Lunático | Uma viagem na mente de um personagem complexo

Cavaleiro da Lua: Lunático é o primeiro arco de Moon Knight Vol.8 , lançado entre as edições #1-5  do título, e dá início à fase de Jeff Lemire, Greg Smallwood e Jordie Bellaire com o Cavaleiro da Lua.

Marc Spector, mercenário que morreu no Egito e foi ressuscitado por Konshu, o Deus Egípcio da Vingança que deu dons a Marc para proteger os viajantes noturnos. Depois de enfrentar diversos vilões, é chegada a hora do Cavaleiro da Lua enfrentar sua maior ameaça, a sua mente.

Quando Jeff Lemire, um dos maiores nomes em ascensão na indústria de quadrinhos atualmente, assumiu o título do Cavaleiro da Lua, uma das propostas do escritor era entrar na cabeça perturbada do herói lunático da Marvel e desenvolver as nuances das várias personalidades do personagem.  Já adianto que, sim, Lemire conseguiu cumprir com o que prometeu.

A trama do quadrinho começa com Marc Spector, a personalidade principal do Cavaleiro da Lua, em um sanatório, onde ele é torturado, dopado e levado a crer que o Cavaleiro da Lua é fruto de sua imaginação.

Quando Spector começa questionar a existência do Cavaleiro da Lua, o leitor também entra na paranoia do personagem, até que, de repente, Konshu e outras figuras misteriosas começam a aparecer na história para deixar a mente de Marc, e do leitor também, mais confusa.

Junto a uma trama bastante inquietante e misteriosa, Greg Smallwood e Jordie Bellaire enriquecem a história com uma arte bonita e rica de detalhes. É muito notável a forte presença intencional da cor branca em toda a história, desde o uso do branco nas roupas que os personagens usam no sanatório até o uso nos painéis dás páginas.

Arte de Greg Smallwood e Jordie Bellaire

O que é real e o que não é sobre o Cavaleiro da Lua? Essa é maior questão dessa história, que passa a envolver diversos elementos da mitologia egípcia e personagens misteriosos. Não espere respostas definitivas para os mistérios do Cavaleiro da Lua, pois o primeiro arco dessa nova fase do personagem é só o começo de uma viagem lunática na mente de um herói complexo.

Cavaleiro da Lua: Lunático foi lançado no Brasil em Cavaleiro da Lua 4 pela Panini. Apesar da numeração 4, o quadrinho pode ser lido de forma independente dos quadrinhos lançados anteriormente, pois é o começo de uma nova fase.

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O Filho do Superman | Heroísmo e simplicidade na medida certa

Com a morte do Superman dos Novos 52, o universo DC precisava de um novo símbolo de esperança. O Superman do universo pós-crise, que retornou em Convergência, saiu do anonimato e assumiu as cores azul e vermelho novamente. Clark agora é pai e precisa ensinar a seu filho Jon como usar seus poderes. Esta é a trama de O Filho do Superman, o primeiro arco da revista do Superman no Renascimento DC

Depois do excelente trabalho feito em Batman e Robin, Peter J.Tomasi escreve mais uma relação entre pai e filho. E, realmente, não existe ninguém mais qualificado para tal tarefa. Tomasi, além de escrever bons diálogos entre e pai e filho, também compreende a essência do Superman. A evolução de Jon como personagem é notável e o jeito como ele é trabalhado cativa o leitor.

É claro que ele não faz isso sozinho. Seu colaborador de longa data, Patrick Gleason, traz traços cartunescos que combinam perfeitamente com o tom da narrativa. As expressões faciais e seu jogo de sombras são o grande destaque aqui. As cores vibrantes de John Kalisz complementam perfeitamente o trabalho de Gleason. O melhor uso delas é na segunda edição. Outros artistas como Jorge Jimenez e Doug Mahnke também fazem um bom trabalho aqui.

Página de Superman #2 e o perfeito uso das cores de Kalisz e do jogo de sombras de Gleason

O Erradicador, vilão surgido em Action Comics Anual 2 de 1989, retorna aqui para extrair o lado humano de Jon. Ainda que seja um bom antagonista com boas motivações, ele é a parte menos atrativa da obra, mas é deveras empolgante ver o Superman levando a batalha para a Lua a fim de usar a extensão de toda a sua força. Uma das maiores surpresas do arco envolve uma medida tomada por Lois Lane para proteger seu filho.

O Filho do Superman é um ótimo início para a revista do Homem de Aço. É simples, divertida, heroica e inspiradora. Coloca o herói em um novo status sem alterar a sua essência e introduz um personagem muito carismático: O seu filho. É tudo o que um quadrinho do Superman tem que ser.

O arco foi publicado no Brasil pela editora Panini nas edições 1 à 3 da revista mensal do Superman entre abril e junho de 2017.

 

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CONRAD | A conturbada história de Amy Whinehouse e o Clube dos 27

Inaugurado com morte do famoso cantor Robert Johnson, em 1930, o clube dos 27 (Grupo de artistas que faleceram aos 27 anos em circunstâncias perturbadoras, quase inexplicáveis) carrega diversos mistérios  e afim de deixar uma pulga maior atrás da sua orelha, a Conrad editora decidiu lançar no Brasil, no ano de 2013, o primeiro volume de uma série de quadrinhos feitas em homenagem aos membros do clube, lançada originalmente pela editora Jungle.

Para inaugurar a coleção, o primeiro gibi que a editora nos trouxe conta a história da, até então, última cantora a fazer parte do Clube, a rainha do Soul, Amy Whinehouse.

Capa do encadernado da Conrad Editora

Escrito por Cristoph Goffette e Patrick Eudeline, o gibi mostra de forma bastante resumida, a vida pessoal e profissional da cantora, desde a separação dos seus pais, até o momento da sua morte. Há também uma enfase no relacionamento abusivo com seu marido Blake Fielder, que, como os fãs sabem foi uma das maiores causas para o declínio da cantora.

Além de uma espécie de biografia, o gibi também foca no Clube, e em seus mistérios. Dentro dele é possível observar citações sobre alguns membros como Janis Joplin e Kurt Cobain e a fim de incrementar mais sobre o tema na vida de Amy, os autores também inseriram diálogos e acontecimentos fictícios, como conversas sobre o clube e a criação de um personagem novo, um homem cinza com sobretudo, possível responsável pela morte dos membros.

Amy e Pete Doherty falando sobre o clube dos 27, e no quadro ao lado Amy fala sobre o homem misterioso.

Um drama confuso e trágico, assim como foi a vida da cantora, o gibi consegue em alguns momentos te colocar na pele de Amy, mas em outros momentos ele te tira de lá e te leva a perguntar o porque de algumas decisões tomadas por ela.

Para quem é fã, indico como uma ótima complementação, para quem não é, mas procura saber mais sobre a vida da cantora, é um ótimo meio de pesquisa e também de divertimento.