Música Vitrola

Se o funk é tão perecível, o que o faz ser tão atemporal?

Escrito por Pedro Alonso

Nestes dias desta eterna quarentena, o quê mais tenho feito é ouvir música. Venho descobrindo (e redescobrindo) vários artistas, álbuns, décadas e etc. Mas também, venho revisitando coisas que marcaram meu passado. Certa vez, com saudades das baladas e festas que costumava a frequentar no mundo pré-pandemia, estava ouvindo We Found Love smash hit da Rihanna e do Calvin Harris lançada lá em 2011.

Certamente, você já ouviu essa canção. E certamente, se você é uma pessoa de frequentar festas e baladas, obviamente já ouviu essa música tocar pelo menos em algum desses lugares, independente do estilo de casa noturna que você costuma frequentar. We Found Love é um clássico da música pop. Um dos maiores hits da década passada e é cirúrgico em marcar uma época qual a EDM  (Eletronic Dance Music) estava em alta. Principalmente a sua vertente eletropop.

As festas que costumo ir com meus amigos em um mundo sem quarentena e isolamento social, são regadas por 2 gêneros em específicos: o pop e o funk. Então como estava nostálgico com esses eventos, nada mais natural de ir atrás dos funks que me acompanhava por bons momentos durante uma madrugada toda. Só que a partir daí uma questão foi levantada na minha cabeça: “Se até em 2020, We Found Love é tocada com frequência em festas, porque os funks de 2011 também não são?”.
E essa dúvida me fez perceber o que está no meu inconsciente desde sempre: A música do funk é perecível, ela uma data de validade. Porém, o gênero funk em si, é, extremamente popular, e está prestes a dominar o mundo. Por quê?

Não acredito que exista uma resposta definitiva para essa questão, ou algum fator que funcione como ponto 0 do entendimento da minha dúvida. Entretanto, boa parte de mim pensa que isso acontece pelo funk ser um gênero vivo. Porque ele está em constante mudança e transformação. Ouso até me dizer que o funk é, de certa forma, um gênero experimental.

Desde o seu surgimento por meados dos anos 70, o funk misturou e se apropriou de diversos gêneros e tendências internacionais que estavam sendo importadas para o Brasil. 

Do originário funk americano encabeçado por James Brown, ao swingado do R&B que deu origem ao conhecido Charme e a popularização da música eletrônica no mainstream internacional, principalmente com o house dos anos 90, o funk usou e abusou do uso de samples de músicas internacionais criando nova canções com pedaços de outras ou até paródias das mesmas. E assim, levando esses ritmos para dentro das comunidades cariocas.

ANOS 70

Baile Funk Carioca, Anos 70

Em uma época qual o acesso à cultura e diversão era ainda mais limitado que os dias atuais para as camadas mais populares do país, o funk surgiu no Rio de Janeiro para levar o entretenimento musical e identitário para a juventude das comunidades da cidade assim como o Samba havia feito décadas antes. Muito disso se deve a Furacão 2000, que foi a grande responsável em levar os bailes para os bairros do subúrbio carioca, ajudando na popularização do ritmo na cidade e posteriormente, no país. 

DVD: Furacão 2000 - Funk de Verdade (COMPLETO) - YouTube

O Famoso “Paredão da Furacão”

Como um carioca nascido e criado no subúrbio do Rio de Janeiro, o funk sempre esteve presente na minha vida social. E por isso, tenho uma certa relação afetiva com o gênero. Lembro com clareza das histórias que meu pai contava da sua juventude embalados pelos hits da época, como as icônicas “Só Love”, “Me Leva” e os inúmeros Raps (Do Festival, Da Paz, Do Silva). Enquanto a minha infância tem como parte da trilha sonora faixas tão memoráveis quanto. “Tremendo Vacilão”, “Se Ela Dança Eu Danço”, “To Tranquilão” e as “não tão family friend” Dança do Créu e “Agora Eu Sou Solteira”. 

De forma caricata, no início da minha adolescência, eu passei por um fenômeno comum entre quase todos da mesma idade. A fase de odiar o funk apenas para poder pagar de diferentão e evoluído. Mas felizmente, eu amadureci. E pouco tempo depois passei a curtir os gênero que era presença marcada nas festinhas de 15 anos e resenhas do final de semana de colegas de classe. 

Enquanto estava pensando em escrever este texto, tive que escolher músicas para exemplificar os anos 90 e 2000 como fiz acima, e logo de cara vieram essas e mais algumas na minha cabeça. Talvez por serem as mais icônicas de suas respectivas décadas e terem sobrevivido ao teste do tempo, como é natural de acontecer com qualquer gênero. E é a partir daí que retomamos ao fator principal de eu estar escrevendo aqui.
Mas, mesmo que essas canções sejam conhecidas até o dia de hoje, pelo menos dentro da bolha carioca, elas não são tocadas nas festas como We Found Love da Rihanna, ou até hits mais antigos da mesma época como a saturadas millenials “Evidências” ou “Ana Júlia”. Por quê? 

Acredito que pelo seu viés experimental e até mesmo político o funk é um gênero que se tornou maior que suas próprias músicas. Seria algo como a dance music, que nos anos 90, de tão popular que era, pouco importava quem estava cantando ou o quê estava cantando, mas importa sim, que o som estivesse ali.

Acontece que por motivos mercadológicos, a dance music acabou sendo aglutinada pela música pop e eletrônica, virando um subgênero dentro desses dois estilos. Já o funk carioca não.

Surgido de uma mistura entre vários gêneros, o funk carioca se tornou único e inovador. Marcou gerações e construiu suas próprias vertentes como proibidão, melody, consciente, 150bpm, 180bpm e até mesmo gospel. E após disso, outros estados passaram a ter seu próprio estilo de funk, fazendo que o gênero ficasse ainda mais popular em determinadas regiões. 

Talvez o que faça com que o funk soe perecível com o passar dos anos, seja o fato de que quando um hit nasce, ele nasce de forma orgânica. Não possui uma fórmula exata de criação ou de divulgação. Pois a grande maioria dos MCs são jovens que atuam de maneira independente, sem apoio de empresários, gravadoras ou coisas do tipo. A música é feita pensada para aquele momento, para o presente, para a diversão dos bailes e festas nas comunidades e subúrbios.

Não há uma preocupação prioritária em fazer uma música que será tocada sempre, que conectará pessoas através de gerações como pensam a grande maioria dos artistas. Mas nem por isso, o funk deixa de ser uma legítima manifestação artística. Mesmo que nas baladas já não toquem mais as faixas populares de 1 ou 2 anos atrás. Se você viveu bons momentos com aquela batida, quando ouvi-las novamente irá sentir uma boa nostalgia. E é aí que o sentido da arte se faz presente.

O sertanejo pode ser atualmente o maior gênero dentro da indústria fonográfica brasileira. É ele que têm os maiores números nas plataformas de streaming,  movimenta a agenda de shows pelo país, os grandes festivais, e agora, as lives. Literalmente, estamos testemunhando o auge do modão brasileiro.

No entanto, quem está conseguindo levar a arte para periferia e exportar para o mundo contemporâneo, é o funk. Mesmo com todos os empecilhos colocados por uma elite artística no país movido à preconceito, o gênero está cada dia mais popular no mundo todo.

Há 3 anos atrás, MC Fioti lançou “Bum Bum Tam Tam”, o primeiro clipe brasileiro a chegar na marca de 1 bilhão de visualizações. Anitta, nossa principal aposta internacional, conseguiu colocar seu hit “Vai Malandra” no top 20 das músicas mais tocadas no Spotify mundial na época de lançamento do single. “Malokera”, single de  Ludmilla e MC Lan foi presença na playlist do desfile internacional da marca de Rihanna. E por aí vai…

O funk já está sendo popular entre nosso vizinhos da América Latina e já chegou também países Europeus. Artistas consagrados como Madonna, Diplo, M.I.A, Jennifer Lopez, J Balvin e Drake já experimentaram do gênero em seus trabalhos e também ajudaram em sua popularização. São mais de 40 anos de um movimento periférico que, além de levar diversão para as pessoas, muda a vida e realidade de muitos moradores das comunidades brasileiras, afastando diversos jovens da criminalidade e da morte. E isso só nos prova que o funk está apenas no começo de sua jornada. Há muito o que percorrer, há muito o que fazer e também, há muito o que mudar. Mas acima de tudo, o funk brasileiro nos mostra que pode até soar  perecível para alguns, mas está longe de ser temporário. 

 

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Sobre o Autor

Pedro Alonso

Estudante de Jornalismo apaixonado por muita coisa. Mas principalmente, por música, cinema e quadrinhos. Ou seja, a cultura pop no geral.

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