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Primeiras Impressões | Koi to Uso

Escrito por Vini Leonardi

Vamos falar sobre Koi to Uso. Histórias que começam com “Num futuro não tão distante…” normalmente têm várias coisas que com certeza não existiram num futuro não tão distante. Isso é quase que uma regra da ficção (científica). Mas quando tratamos do Japão, as coisas numa história dessas são bem mais plausíveis do que imaginamos. Japonês é um povo estranho mesmo.

De vez em quando nós paramos para refletir sobre nossas vidas, sobre todos os anos que temos nas costas… Pensamos sobre como nossos tempos de colégio já estão lá pra trás (ou não! Mas estarão um dia!), numa época distante… Daí vem um anime desse tipo e faz você perceber que, de verdade, tua cabeça ainda está na quinta série.

Incrível como, não importa a maturidade que você tenha, a sua idade ou seu estado civil, quando certos assuntos são tocados, nossa mente instantaneamente regressa para o auge dos nossos doze anos. E o mais legal é que eu não preciso citar nenhum exemplo, todo mundo sabe do que eu estou falando.

Koi to Uso trata justamente de um desses temas: romance cinematográfico. Você acaba torcendo tanto para tal casal dar certo, que sua mente desaparece e tudo que você consegue fazer é dar gritinhos e espernear.

Eu totalmente não fiz isso…
Aham

De qualquer maneira… O mais impressionante de tudo, e que vale como um enorme ponto positivo, é a famigerada “desconstrução” (palavra que eu detesto, mas que por motivos diversos pode ser encaixada aqui) do principal paradigma do gênero: a enrolação.

Se você já assistiu qualquer anime que possuísse qualquer forma de “romance” em sua narrativa (não importa se foi um Harém Genérico, um Shoujo… Independente do gênero), você deve ter notado como as coisas são DEVAGAR PARA CARAMBA. Tudo demora demais. Nenhum desenvolvimento acontece por trinta e sete episódios, e quando algo finalmente vai acontecer… Alguma coisa interrompe ou impede ela de se efetivar. Ficamos andando em círculos, para que só aconteça algo (isso QUANDO acontece algo) no final da obra.

O que temos nesse show é justamente o contrário: o autor (Musawo Tsumugi) não poupa esforços para que, logo no começo da história, você já sinta afeto e interesse o suficiente nos personagens dele, para que quando eles finalmente consumarem seu amor, você se importe. Enquanto outros mangakás e escritores preferem levar anos de publicação para fazer isso (e no final você acaba se apegando aos personagens pelo tempo gasto com eles, e não por se importar com quem eles são), Musawo mete o pé no acelerador e consegue, de forma convincente, te deixar emocionalmente ligado aos protagonistas em menos de vinte minutos.

Ele faz de zero a cem [lágrimas] em vinte [minutos]!

E já que estamos falando dos protagonistas, deixe-me comentar sobre os personagens. Acharei extremamente difícil você desgostar de alguém. Todos são muito gostáveis, e de certo modo você fica até triste com o fato de, não importando como o negócio se desenrole no final, alguém legal vai acabar perdendo. Sério. E olha que eu costumo ser bem chato com isso, e desgosto de mais da metade do elenco de muitas coisas.

E isso não se resume ao núcleo central da trama, apenas. Até mesmo os secundários tem algo de especial que os fazem interessantes. Pode não ser muita coisa, mas se compararmos a impressão que eles deixam com o (pouco) tempo de tela que eles possuem, vemos como eles têm certa presença, certo carisma que muitos shows falham em dar aos seus figurantes (e às vezes, até aos seus mocinhos!).

Acontece que quem vive só de flores é defunto, e claro que o anime não veio sem suas falhas. Meu principal problema com o show é, dentre outros que citarei mais adiante, o seu Design de Personagens. O traço faz parecer que os personagens tenham, no máximo, uns 13 ou 14 anos. Eles possuem feições infantis, um corpo de criança. A impressão que me passa é que o desenho se força muito a tentar diferenciar os seus “jovens” (de 15 e 16 anos) de seus “adultos” (com mais de 30), e como os adultos parecem normais, os jovens acabam ‘rejuvenescendo‘.

Isso não seria um problema por si só. Existem diversos shows com um design mais “infantil” que funciona bem. A questão é como esse design se encaixa na atmosfera da obra em que ele está. Animes como Lucky Star ou K-ON!, por exemplo, possuem um ritmo mais leve (entendeu? Leve? Música Leve? K-ON? …Não? Ok), onde o design infantil acrescenta ao humor e à narrativa da obra. Em Koi to Uso, onde os temas principais são o amor, a paixão e a sexualidade de adolescentes, ter um design infantil é… Horrível. Não preciso poupar palavras, é quase que nojento.

Ah sim, e aqueles olhos gigantes (até para padrões japoneses) me perturbaram um pouco.

Mesma idade? Mesma idade. É o poder do design de personagens.

O outro problema que enxerguei nesses episódios iniciais, parece ser a hipocrisia da trama. Explico:

Enquanto toda a história roda em volta da “banalização” do casamento, da ideia de que a união do matrimônio não é mais uma decisão importante na sua vida, e de como os personagens não concordam com essa ideia… O autor parece também “banalizar” o próprio adversário do sistema, que é o “amor”.

Talvez por consequência da aceleração do desenvolvimento, ou simplesmente por falta de costume de ver isso acontecendo nessa mídia, eu encaro o tanto de afeto trocado entre o casal principal como sendo “banal”. No começo, você sente toda aquela emoção nos personagens… Mas quando aquilo começa a se repetir várias e várias vezes (até como consequência do desenvolvimento da trama! Que diabos!), a mágica simplesmente se esgota, e aquilo que deveria ser o ápice da história, vira um quadro do centro da página 37.

Na parte técnica, não temos nada de extraordinário. A animação dirigida por Eriko Ito (Another, Kuromukuro) no estúdio LIDENFILMS (Terra formars, Arslan Senki) é passável, apesar de ter vários derps aqui e ali. E a música de Masaru Yokoyama e Nobuaki Nobusawa (Freezing! e Dagashi Kashi, respectivamente), dirigida por Yota Tsuruoka (Clannad, Puella Magi Madoka Magica) ajuda a criar o clima, mas não chama muita atenção. A dublagem conta com nomes de peso e atuações acima da média, com Kana HanazawaYui Makino e Shinnosuke Tachibana.

Mesmo com falhas muito graves, elas são poucas e podem ser, se não superadas, pelo menos “aceitas”. E as qualidades do show acabam por abafar seus defeitos. Passou uma boa primeira impressão, e possui potencial tão grande para ir pra qualquer lugar, que ainda prevejo muita gente (eu incluso) deixando cair o cu da bunda com o que pode vir. 8/10 é uma nota justíssima.

Você encontra Koi to Uso para ser assistido legalmente pelos sites de streaming da Amazon (Anime Strike) e da HIDIVE.

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Sobre o Autor

Vini Leonardi

Cavaquinho na roda de pagode da Torre. Jogo World of Warcraft e assisto desenhos chineses, e nas horas vagas faço faculdade de Química.
Pra mim, Marvel e DC parecem nomes de marcas de roupa chique.
Finjo saber escrever sobre animes quando na verdade tudo que faço são menes irados.

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