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Ford vs. Ferrari: Adrenalina na base de suor e lágrimas

Escrito por Thiago Pinto

Ford vs. Ferrari foi uma das grandes surpresas na lista de indicados a Melhor Filme no Oscar 2020. Isso devido ao fato de que grande parte da audiência desconhecia a obra dirigida por James Mangold, que passou despercebida durante o período nos cinemas. Sendo um dos espectadores na época do lançamento, pensei no momento que deixei a sala de cinema que esse filme seria mais reconhecido após suas semanas de exibição. E não esperava que aconteceria tão rápido. Empolgante na medida certa para nos tirar o fôlego e vibrarmos com os personagens, o filme não só surpreende por sua indicação, mas também pela apresentação sofisticada e estilosa de James Mangold.

Pouco conhecedor de corridas, principalmente nos Estado Unidos e na França, comecei perdido ao tentar entender qual era a grande questão envolvida na trama. Isto é, o embate comercial entre Ferrari e Ford. Em poucos minutos, porém, a obra estabelece as explicações necessárias – sem ser pedante – para entendermos os momentos das duas empresas, seus objetivos e como funciona as competições automobilísticas. A partir desse ponto, fica fácil nos conectarmos com os personagens principais, estes interpretados por Christian Bale e Matt Damon, os acompanhando na trajetória real que beirava o impossível: construir um carro de corrida que competisse com a invencível Ferrari.

Entender que tudo apresentado na obra foi de fato verdadeiro, torna a experiência ainda mais empolgante. Acompanhar os problemas e desafios de Ken Miles (Bale) e Carroll Shelby (Damon) deixa-nos completamente vidrados na tela para com a construção do carro. Aqui já fica clara a ótima montagem de Ford V Ferrari, pois alterna entre as melhorias empregadas pelos funcionários, e os testes na pista; essa dinâmica estabelece grande parte do ritmo do primeiro terço do filme, além de desenvolver os conflitos entre Shelby e a empresa Ford, comandada por Henry Ford II (Tracy Letts). Embora nos coloque em posição de enaltecimento da Ford, o dono e seu conselho administrativo transmitem uma falta de empatia tremenda, seja por não entenderem as limitações físicas e emocionais de seus trabalhadores, ou pelas inúmeras tentativas de sabotar os próprios projetos. Esta abordagem cria figuras antagônicas eficientes, fortalecendo ainda mais o engajamento da audiência para com o possível sucesso dos protagonistas.

O carisma de Bale e Damon, aliás, é fundamental para simpatizarmos com seus problemas. Bale, além de ter semelhanças significativas com a figura real de Miles, mistura a simplicidade do personagem com a extrema capacidade de observação e inteligência acerca de automóveis, que muitas vezes beira ao insuportável. Já Damon, apresenta alguém que tem o coração no lugar certo, mas se resguarda por ser um homem focado nos negócios. Essa disparidade entre ambos cria conflitos inevitáveis, enquanto, quando se juntam, cria uma união formidável.

Se o processo de idealização e criação do carro já apresenta diversos elementos atrativos, as corridas transmitem um sentimento único de empolgação pelas mãos do diretor James Mangold. É como presenciar uma corrida estando a dois passos da pista, você realmente se comove e interage com os pilotos, porque o filme enaltece o contato com o fator humano nos carros – repare o uso intenso de primeiros e primeiríssimos planos nos atores que estão correndo na pista. Embora o foco esteja mais em Bale, Mangold não esquece de todos os componentes que estruturam a corrida, desde as paradas técnicas até as bandeiras finais. Apesar da emoção estar guardada na apreensão sobre os resultados de Miles, as dificuldades enfrentadas pela equipe liderada por Damon, de preocupação com o estado do carro até os problemas enfrentados com os líderes da Ford, também adicionam certa preocupação.

As 24 Horas de Le Mans era uma corrida longa e requisitava dos profissionais automobilísticos uma postura incansável, proporcionado exaustão e uma alternância constante de seus participantes. Por conta desse motivo, Ford vs. Ferrari poderia ter seu ritmo atrapalhado por tentar impor as condições reais das corridas. Contudo, Mangold acerta em focar nas passagens úteis, além de guardar a maior parte do tempo para a corrida final, tratando a duração de maneira organizada, sem atropelar o desenvolvimento narrativo.

Além das escolhas eficientes de Mangold, a edição e mixagem de som têm uma função definitiva para a criação perfeita do ambiente. A edição ressalta as pisadas nos pedais, as trocas de marchas, os freios etc. A partir dessas sonoridades minuciosas, a mixagem encaixa de maneira fluída todos estes sons, fazendo com que a cada virada, a cada respiro e a cada volta, sinta-se a emoção de estar sentado na arquibancada. Esse conjunto de trabalhos torna cada corrida uma emoção única, resultando em uma jornada frenética e vibrante, empolgando até mesmo aqueles que não se interessam pelos fatos históricos narrados.

Tratando das corridas por quase todo o seu tempo, Ford vs. Ferrari não deixa escapar, mesmo que por alguns instantes, os fôlegos emocionais através de surpreendentes momentos que evocam a história por trás dos personagens. A dificuldade financeira de Miles pesa em sua relação com a esposa e filho, a necessidade de Shelby se provar entre os melhores do automobilismo também tem seu lado emocional, porque ele precisa provar seus pontos mesmo que todas as variáveis estejam contra suas ideias. Nesse sentido, o que mais me marcou profundamente – e devo deixar destacada – foi a cena entre Ford II e Shelby dentro de um carro de corrida. Após um pequeno teste demonstrando a velocidade do carro, o dono – figura extremamente antipática – chora por se lembrar do pai e sua paixão por carros. E precisa notar o quão bem está Letts nesse papel, já que alterna entre simpatia e rigidez. Mesmo a figura mais antagônica transmite uma passagem sincera carregada de lágrimas, evocando a lembrança de uma história paterna.

Ford vs. Ferrari tem sequências de tirar o fôlego, que empolgam e tornam o cinema uma verdadeira arquibancada de vibrações e torcida. Todavia, seu ritmo frenético não atrapalha o desenvolvimento dos arcos dramáticos de seus personagens, retratando os acontecimentos reais de forma reverente, mas evidentemente sensível. Mangold, Bale e Damon tiveram a capacidade de trazer essa história às telas, conseguindo impactar até aqueles que nunca pensaram que poderiam se emocionar com uma corrida.

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Sobre o Autor

Thiago Pinto

‘’E quando acabar de ler a matéria, terá minha permissão para sair’’

-Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

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