Tela Quente

Chorar de Rir: Só deu para chorar…

Escrito por Thiago Pinto

Partindo de uma opinião muito particular, acredito que a comédia seja um dos gêneros mais difíceis de se fazer atualmente no cinema. Apesar de termos uma quantidade enorme de filmes neste estilo, não é difícil encontrarmos vários que não nos arrancam nenhuma risada. Textos que abrangem o humorismo tendem a ser complexos por trabalharem com diversas possibilidades – a história pode seguir um rumo mais físico, referencial, ou até mesmo escatológico, dependendo da sua proposta. Outro fator é a contínua adaptação em relação ao público, há certas piadas e momentos que não funcionam como antes. Entender o seu público, o tom e ritmo da história, além do timing entre as cenas e os próprios personagens resultam na dificuldade de trabalhar com o gênero.

Sabendo deste desafio, diversas obras caem na generalidade em pouco tempo de tela. A falta de criatividade, a não habituação aos novos tempos, etc, são exemplos do que pode ocorrer em filmes genéricos. E, obviamente, Chorar de Rir cai direto nesta zona. Não só por entregar uma comédia sem a menor graça, como também apostar tanto no passado e ignorar o presente promissor.

Leandro Hassum (Nico Perequê) é um comediante famoso que ganhou diversos prêmios pela carreira. Além de ter um programa bastante conhecido – este, que é o Chorar de Rir – Nico mantém uma estabilidade financeira e social. Porém, ele se depara com o distanciamento existente entre o cômico e o dramático no âmbito profissional. Seu trabalho artístico é menosprezado enquanto atores dramáticos são exaltados, e suas obras, valorizadas. O desenrolar da trama conta com Nico tentando mostrar sua capacidade artística para o drama, mesmo que isso custe toda sua fama e dinheiro.

A premissa parte de um argumento válido e coerente. Talvez a única coisa que se salve é a reflexão feita nos minutos iniciais, mesmo que esta desapareça ao longo da trama. O mundo artístico está recheado de preconceitos de diversos tipos, e há uma clara supervalorização do drama, enquanto a comédia vira sinônimo de passatempo e diversão. Tal olhar para com os filmes cômicos prejudica o cinema de modo geral. Desvalorizar a qualidade e capacidade artística de um determinado gênero é virar as costas para inúmeras possibilidades críticas, analíticas e sentimentais. Não é só fazer rir, mas também pensar, refletir, criticar, se inspirar, sonhar, entre tantas outras.

O parágrafo anterior foi uma tentativa falha de tentar aumentar o significado do fraco Chorar de Rir. Apesar de abordar alguns questionamentos, a discussão depende absolutamente do espectador. O filme, em nenhum momento sequer, levanta o assunto com autoridade e parcialidade, tornando-se covarde ao dizer quase nada e, além disso, criar uma incoerência assustadora no final. Deixando de lado qualquer substância dentro do roteiro, ficamos com pouca coisa para falar sobre.

Leandro Hassum sempre foi um dos grandes humoristas do Brasil. Seu humor está entre o pastelão e o físico, sendo uma mistura muito bem-vinda entre os dois estilos. Porém, nada do filme se aproveita do seu talento, criando um personagem sem identidade e graça. A falta de criatividade fica nítida quando Chorar de Rir usa seu protagonista para gritar falas e piadas a todo momento, porque o ator parece não se afeiçoar com a trama, forçando excessivamente a comédia física – que está bem ultrapassada.

E o principal problema, causador de todos os outros, é justamente a implicância com um mesmo tipo de comédia, deixando tudo nas costas de Hassum. Enquanto temos outros personagens que tinham um potencial maior e, mesmo não sendo engraçados pelo limitado roteiro, conseguem arrancar alguma risada, o diretor Toniko Melo prefere estruturar toda sua narrativa ao redor do humor mais antigo e ultrapassado do momento. Não estou julgando a importância do elemento físico, mas o filme pecou em não explorar coisas mais atuais. “Habituação aos novos tempos”, como disse anteriormente.

Vivemos em um mundo diferente, conectado, repleto de vídeos, gifs, stickers, etc. Memes, stand-ups e montagens tomaram proporções gigantescas. As referências se tornaram mais comuns com tantas marcas, programas e sites existentes nos dias de hoje. O Porta dos Fundos, por exemplo, é um projeto que deu certo no YouTube por trazer o mix entre o humor negro, satírico e físico, rodeado pelas referências mais inusitadas: de nomes na Coca-Cola, até o próprio restaurante Spoleto.

Chorar de Rir conta com o fantástico Rafael Portugal, do próprio Porta. Falas mais ágeis e imprevisíveis são marcas da própria veia cômica provida pela internet, e Portugal deixa bem claro dentro da história, criando a única cena engraçada dentro de 1 hora e 43 minutos. Contudo, seu personagem é completamente esquecido e aparece por pouquíssimo tempo. Outro expoente da internet, Caito Mainier, comanda um programa de fofoca, Fama News, que funciona como uma sátira a todos os programas que abordam o dia a dia de famosos e celebridades. Achou que eles iriam aproveitá-lo? ACHOU ERRADO, OTÁRIO.

O que vemos é uma constante e excessiva necessidade de exaltar o passado, ignorando o potencial do presente, resultando em uma obra fraquíssima e nada engraçada. Ah, lembra-se daquela discussão abordada no começo? Então, ao invés de provar a existência do valor artístico da comédia, o roteiro vai para o lado contrário, deixando uma incoerência enorme entre a problemática proposta e sua conclusão. Finalizando com um discurso bonitinho, mas pouco inspirador, Chorar de Rir deixa um gosto amargo na boca. Deve-se respeitar o passado com toda a certeza, mas precisa saber a hora de colocar o presente em campo.

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Sobre o Autor

Thiago Pinto

‘’E quando acabar de ler a matéria, terá minha permissão para sair’’

-Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

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