Quando já temos uma versão estabelecida de certo personagem, não importa em qual mídia e quantos atores o encarnaram, é completamente compreensível sentir uma certa desconfiança quando tentam explorar a sua vida antes de ser o que estamos tão habituados de saber. Essa espécie de prequel ajuda a preencher certas lacunas para explicar características do cerne deste personagem para justificar determinadas ações.
Em Pennyworth, vemos completamente o contrário. O episódio Piloto não tenta construir de antemão certas ligações de Alfred com o seu futuro, sendo aqui um ponto bem positivo. Somos apresentados ao mundo dele como a família, amigos e uma paixão arrebatadora na pele da doce Esmé (Emma Corrin). A única ligação com os gibis foi a apresentação de Thomas Wayne, estabelecendo o primeiro contato entre eles.
Jack Bannon parece ter saído de alguma produção antiga sobre espionagem e isso contribuiu bastante para acrescentar na mitologia de nosso mordomo. Como um ex-militar, Alfred agora quer se encontrar no ramo da segurança e garantir o seu nome neste meio. Bastante habilidoso com armas e em práticas de luta, se assemelha ao Alfred de Gotham (como comentado, tudo indica que as séries se passam no mesmo universo).
O antagonismo fica por conta da Sociedade dos Corvos e logo de cara, já tivemos a maravilhosa presença de Paloma Faith na pele de Bet Sykes como a intermediária de Lord Harwood para assuntos mais radicais. Apesar do sotaque um pouco enjoativo, sua personagem impõe o medo necessário para alcançar os seus objetivos e a todo instante, temos a impressão de perder alguém próximo ao Alfred. (menos o próprio, já que né).
A duração com mais de uma hora pode até intimidar os telespectadores, mas é um mero detalhe que passa completamente despercebido. Pennyworth consegue te manter atento do começo ao fim, assim como alternar situações suaves com mais tensas em questão de um bater de asas. O elenco está bem entrosado e a ambientação é outro ponto legal neste primeiro episódio. Imersão total no clima sessentista. Vale a pena começar a assistir. Só não contem para o Robin de Jovens Titãs em Ação!.
Pennyworth terá 10 episódios em sua temporada inicial.
É realmente difícil ter que falar sobre essa obra sem suspirar, ou não querer empolgadamente falar das cenas favoritas. Acho que esse é algo que poderia ser chamado de “Efeito Tarantino“; é quando você, mesmo depois de dias, ainda não consegue assimilar o que viu e viveu ao ver o filme. Antes de começarmos, uma coisa deve ser explicada sobre ‘Era uma Vez em… Hollywood‘, isso não é uma biografia. É um filme do Tarantino. “É O filme do Tarantino!”, como diria minha cabeça ao terminar esse longa.
O filme se situa no ano de 1969, contando as tramas de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), Sharon Tate (Margot Robbie) e Cliff Booth (Brad Pitt). Os personagens de DiCaprio e Pitt são dois grande amigos que trabalham juntos no ramo de cinema e televisão, e nisso damos início ao filme. Rick ao lado de Cliff, seu dublê, busca a fama de ser uma estrela, o que os acaba levando aos assassinatos realizados por Charles Manson na época. Assim, somos apresentados a Sharon Tate, que acaba de se mudar com seu marido, Roman Polanski, para Los Angeles. Com sua junção de fantasia e realidade, nós temos aqui uma história fantástica.
Provavelmente, esse é o longa mais puxado para o humor dramático que Quentin já dirigiu em sua carreira, e também um dos com menos violência (mas não se assuste, o filme tem partes de violência muito bem dirigidas). Também já vimos algo que o diretor fez em “Bastardos Inglórios“, juntando a realidade e a ficção, e isso merece reconhecimento. O filme consegue transitar entre ‘filme de época’ e a visão do Tarantino. Na medida que temos movimentos de câmeras mais usados da época, gírias e tudo remetente aos anos 60, ainda temos a fotografia, os diálogos e piadas que apenas ele poderia ter criado, e lógico, várias cenas com pés.
O desenrolar do filme funciona muito bem, a motivação de cada personagem, suas personalidades, tudo é muito bem desenvolvido. Por mais que no segundo ato do filme o roteiro acabe ficando um pouco mais arrastado, não quer dizer que faça perder qualidade, é nesse momento onde temos as partes mais importantes para o final, e onde entramos mais na cabeça e na história de cada personagem. Em todos os atos, a diversão é algo que não falta e poder ver a progressão de cada trama é eletrizante e curioso.
Um dos feitos mais impressionantes do filme são as atuações, todos os atores estão dando o seu melhor. Enquanto DiCaprio consegue passar a dor de um ator fracassado, Brad Pitt consegue passar a imagem de um dublê misterioso e durão. Mas, a única crítica aqui vai pelo fato de não terem usado do magnifico talento da Margot Robbie, que apenas ganha suas falas após a uma hora de filme. Sendo que o filme tem como base o caso do assassinato de Sharon Tate, durante a primeira hora de filme nós apenas vemos a atriz sendo admirada, sem ter um impacto; praticamente usada só para mostrar a sensualidade de Sharon, que foi a sex symbol dos anos 60.
Talvez possa ter sido uma forma de falar do cinema da época, ou da forma em que a mulher era retratada, mas mesmo assim, é triste ver a Margot não podendo mostrar todo seu talento. Em suma, um baita espetáculo de atuação, praticamente uma aula de um elenco de peso como esse. Até mesmo os personagens secundários e alívios-cômicos conseguem um destaque com suas atuações.
Não podemos esquecer da parte técnica do filme, que foi feita majestosamente. A fotografia do filme, como já mencionada, usa de cenários, ângulos e movimentos que remetem a outras obras dos anos 60, mas também é possível ter a visão do diretor nelas. Com imagens lindas que possuem de cores vibrantes, contraste e chamativas; literalmente um ”every frame a painting”.
Sobre a trilha-sonora, simplesmente fantástica e selecionada. Com músicas da época, o filme cria uma atmosfera que faz o espectador entrar para o mundo do filme, e todas conseguem tornar as cenas momentos mais memoráveis ainda. Em certos momentos, a trilha sonora é também utilizada para a transição de cenas, que funciona perfeitamente bem, e deixa um toque especial.
A maestria por parte do Tarantino e sua equipe técnica fazem com que o nível do filme se eleve cada vez mais, cena após cena, é impossível não se apaixonar pela fotografia, ou não ficar com vontade de dançar ao escutar músicas tão icônicas.
Em conclusão, Era uma Vez em… Hollywood é um filme que respeita a base da sua história, que consegue cativar o espectador até o final e que ao mesmo tempo consegue entreter. Um filme que tem sua visão própria, mas que ao mesmo tempo consegue remeter aos clássicos da época, o nono filme de Quentin Tarantino é uma grande obra, e eu poderia dizer que uma das suas melhores, que até mesmo com suas falhas, tem seu encanto único.
“Era uma Vez em… Hollywood” chega aos cinemas brasileiros dia 15 de agosto.
Apesar de passar um tempo já desde que foi lançado, Detroit Become Human, jogo de aventura exclusivo para Playstation 4, nos trás diversos questionamentos sobre como procedemos e como a humanidade geralmente procede quando vê ou convive com algo diferente do que está acostumado.
O jogo nos coloca em um futuro distópico, mais precisamente no ano de 2038, quando humanos criaram uma nova raça por meio de uma Inteligência Artificial bastante obediente e programados para realizar tarefas específicas como: carregar peso, fazer faxina, dar prazer, cuidar de crianças e muitos outros trabalhos. Essa sinopse, à primeira vista, pode parecer um clichê de ficção científica, mas Detroit nos faz pensar… pensar não somente no que pode vir a acontecer, mas sim no que já aconteceu e no que acontece no mundo hoje.
Nosso texto hoje vai destoar um pouco do conteúdo produzido aqui. Não trataremos do gameplay de um jogo, não falaremos sobre jogabilidade ou gráficos (Que dão um show visual à parte, inclusive). Nosso objetivo hoje é refletir a mensagem que tudo isso nos traz, é tentar responder a pergunta do título “O que será que realmente conseguimos aprender ao jogar Detroit Become Human?”
[ESSE TEXTO FOI ESCRITO COM BASE NO GAMEPLAY E NA EXPERIÊNCIA ADQUIRIDA PELAS ESCOLHAS QUE O AUTOR FEZ DURANTE O JOGO]
Depois de um início turbulento e complexo, onde uma vida fica em nossas mãos, encontramos de forma bem peculiar (lendo revistas e observando as ruas) uma crise econômica, vemos diversos mendigos culpando os androides pela sua pobreza, por estarem desenvolvendo atividades e os substituindo dentro do mercado de trabalho. Não entrando nesse mérito, porque sempre existirá exceções, mas os “substitutos” estavam realizando trabalhos que “ninguém” (foco nas aspas) gostaria de realizar, trabalho doméstico, braçal e afins.
Loja de Androides
O início do ódio à nova raça se tem por questões econômicas mas se agrava à medida que eles começam a sair do seu programa (se tornando Divergentes), não inicialmente porque a população têm medo das máquinas os fazerem algum mal, mas principalmente porque seus escravos estavam se libertando. A sensação de domínio sobre outra forma de vida estava se esvaindo mais uma vez, dois séculos depois.
O contexto da escravidão se torna mais explícito pelas reivindicações (dependendo do caminho tomando pelo jogador) feitas pelos androides como: direito ao voto, direitos iguais, a própria frase dizendo que não são mais escravos. O assunto é tratado também principalmente em um momento da história onde uma personagem chamada Rose, mulher e negra, diz que ajuda os androides porque os ancestrais dela sofreram algo parecido a um tempo atrás.
Algo bastante triste de se ver, e que realmente retrata mais da realidade do que podemos perceber é que mesmo escolhendo um caminho mais pacífico, sem uso de violência alguma, os humanos ainda matam muitos androides, deixando qualquer um tentado a agir com agressividade.
A imersão do jogo chega a ser assustadora pois quando o jogador é tocado pelo contexto, acaba ficando com medo das decisões que vai tomar, fazendo com que haja realmente uma ligação entre o personagem e quem está atrás do controle.
Havia falado acima sobre as revistas, essas ajudam bastante e são indispensáveis para entender o contexto mundial sobre a inserção dos androides em outros ramos (Como esportes por exemplo) e para saber do avanço da tecnologia dentro do mundo de Detroit.
Observando os acontecimentos, comecei a fazer questionamentos: Já perceberam que sempre quando há povos diferentes em filmes ou qualquer conteúdo assistido ou jogado, sempre ficamos “do lado” oposto ao do ser humano? Podemos dizer que pensamos assim porque o filme ou o jogo nos influenciam a escolher tal lado. Mas se formos olhar novamente o que o ser humano faz ali, concordam que não é nada mais que um reflexo da realidade? Que isso realmente acontece no mundo real?
Isso fica mais estranho ainda quando pensamos se algo parecido acontecesse no mundo real, já que eu ou você seriamos um ser humano naquela situação. Quando nos colocamos no lugar dos seres humanos do jogo sabemos que eles não tinham as informações do que realmente acontecia, estavam confusos e com medo, mas é certo atacar sem ao menos dialogar ou buscar um meio de entender o lado dos androides? Entender tudo o que estava acontecendo?
Dependendo do caminho escolhido, podemos ver características do holocausto com os andróides também, que são levados para campos de concentração por medo, obrigados a retirar suas roupas, mostrar o seu esqueleto de máquina (lembrando bastante os judeus com a cabeça raspada) e irem à câmaras de desligamento, sabendo que dali não sairão nunca mais.
Personagem Kara, no campo de concentração.
Sei que muitos não gostam de falar sobre as minorias, mas acredito que apesar de todas as outras críticas esse é o foco do jogo, mostrar quem são os androides do nosso mundo atual, se me permitem fazer tal comparação, é claro. Por um momento os androides foram Judeus, foram escravos e hoje são os negros, os homossexuais, e todos, absolutamente todos que são julgados por apenas escolherem ser quem são.
Detroit Become Human, não é um jogo somente de ficção científica, é um jogo sobre preconceito e nos mostra todos os caminhos que ele pode nos levar.
Na série de quadrinhos Okko, o Pajão é um império situado no ano 1108. Gueixas, samurais, ronins, monges e até mesmo demônios e outras criaturas fantásticas compõem as figuras fabulosas que dão vida ao Pajão, e esta incrível homenagem à cultura japonesa imaginada pelo francês Hub (pseudônimo de Humbert Chabuel) se destaca não somente pela arte, como também pelo carisma único e inventividade de todas as suas criações.
A história é centrada em uma equipe. Okko, que dá nome à série, é um ronin que lidera o pequeno grupo de caçadores de demônios composto pelo próprio, por Noburo – um gigante misterioso que esconde sua face atrás de uma máscara rubra e aparentemente é imortal – e Noshin, um monge beberrão que pode invocar e comandar espíritos da natureza e fazer outros comandos mágicos. O trio viaja pelo Pajão, longe dos campos de batalha, perambulando pelos reinos e realizando as mais diversas missões e investigações.
A estrutura central de Okko se assemelha a uma grande e fértil aventura de RPG. O grupo se divide em um espadachim engenhoso, um berserker imparável e um tipo de mago movido a saquê. Os três ao longo de suas viagens interagem com outras figuras deslumbrantes, que marcam presença em cada um dos Ciclos da saga, tornando-se ou não personagens recorrentes, como é o caso do garoto Tikku, que narra toda a história e conheceu o grupo de Okko ao solicitar que o trio colaborasse com o resgate de sua irmã, Pequena Carpa. Ao todo, Okko possui cinco Ciclos, e os dois primeiros (da Água e da Terra) já foram publicados no Brasil em dois álbuns.
O roteirista e ilustrador Hub dá asas à sua imaginação com pinceladas que vão formando este universo tão rico na mente do leitor. O autor explora o passado de cada um dos personagens de forma gradativa, enquanto traz características únicas do Pajão em cada uma de suas histórias.
O Ciclo da Água firma as bases e apresenta estas características, ligando-se diretamente ao título através do uso de figuras simbólicas do elemento em questão. São mostradas a fauna e flora, as deidades e tecnologias engenhosas, enquanto ao mesmo tempo os inimigos (demônios ou não) também possuem espaço de destaque nas páginas que desenrolam as tramas.
O Ciclo da Terra expande tudo que foi mostrado nas primeiras aventuras, enriquece o backstory do protagonista e aborda muito bem a vertente religiosa deste mundo, também se utilizando de figuras do elemento que dá nome ao Ciclo para dar continuidade às encrencas onde os heróis estão metidos. Hub possui um traço único e extremamente bem detalhado, e a união do mesmo com as belas cores feitas em parceria com Stéphane Pelayo ambientam perfeitamente o dia, a noite, as tardes e as mais variadas estações do ano. Todo o universo de Okko parece real, como uma versão do nosso Japão onde há mortos-vivos, yokais, castelos flutuantes e muito misticismo.
E além de todas as qualidades gráficas (de ilustração, criação e storytelling) citadas anteriormente, Hub também é capaz de brindar seus leitores com diálogos extremamente bem conduzidos que estabelecem cada um dos personagens. Os maneirismos, as tomadas de decisões, as falhas e os momentos de bravura colaboram para a construção dos heróis e vilões, e os dramas e momentos de descontração podem ser sentidos com naturalidade. Após a leitura do primeiro álbum e mergulhando-se nas páginas do segundo, todas as figuras ali presentes já são queridas e ao mesmo tempo enigmáticas sob determinada ótica.
A cultura pop francesa possui grande admiração pela cultura japonesa. Há diversos autores que trabalham para o mercado francês objetivando a criação de mangás produzidos na Europa, e apesar de a temática da obra de Hub soar perfeita para este gênero e estilo próprio dos quadrinhos, o autor entrega álbuns franco-belgas típicos com muitos quadros por página, texto refinado (com sacadas humorísticas bem pontuais) e expressões que nem sequer remetem às dos mangás. O mundo de Okko não tenta se disfarçar de mangá japonês produzido na França. Okko presta uma grande homenagem à mitologia japonesa, sem se aproximar do estilo narrativo dos quadrinhos do Japão. Essa é sua principal qualidade e o maior mérito do autor.
E enquanto durarem as longas viagens do grupo, além do tempo resgatando mulheres sequestradas (como no primeiro álbum) e investigando assassinatos repentinos (como no segundo), há uma infinidade de assuntos que podem ser inseridos e abordados no Império do Pajão, visto que cada Ciclo possui ligação direta com a trama central narrada por Tikku, e os elementos podem (e irão, aparentemente) ditar os rumos curiosos dos companheiros, que também apresentam evoluções de acordo com as técnicas que cada um domina.
A série Okko está sendo publicada no Brasil pela Mythos Editora em seu selo Gold Edition, que nasceu com o objetivo de apresentar o melhor dos quadrinhos europeus modernos aos leitores tupiniquins. Cada álbum possui cerca de 100 páginas encadernadas em capa dura e grand format (32 x 23 cm), e são apresentadas histórias fechadas com começo, meio e fim em cada um de seus volumes.
“Só o amor pode salvar o mundo. Por que eu teria vergonha de amar?”
Sempre que eu via algum texto, foto ou algo referente à graphic novel Azul é a Cor Mais Quente, sempre pensava com meus botões “preciso ler isso.” e isso ocorreu durante anos. Pois bem, o dia da leitura chegou, e agora mudo minha frase para um questionamento: “porque, diabos, eu demorei tanto para ler isso?”.
A francesa Julie Maroh, que é ativista do movimento pelos direitos dos homossexuais, começou a escrever a história com 19 anos e levou cinco para concluir.Azul é a Cor Mais Quente foi publicado em 2010, e conta uma história de amor que todos nós gostaríamos de ter vivido. O romance tem encontro e desencontros, brigas, momentos íntimos, felicidade, tristeza, tem o fator de lutar pelo amor, de sair do porto seguro, tem o medo de dar errado, o medo de estar errado e tem a recompensa de quando as coisas vão bem. Ele fala sobre as crises adolescentes, o medo de encarar a sexualidade, de o que a sociedade pode pensar, de viver o que se quer de verdade. E sobre amadurecimento. Tudo que sonhamos encontrar em uma grande história de amor, inclusive nas que gostaríamos ou queremos viver está lá.
No livro conhecemos a simpática Clémentine, uma jovem que leva uma vida normal, com a correria de provas, seus amigos, pais que se preocupam que horas ela vai chegar em casa e namoro escolares. Mas a cinzenta vida da garota ganha uma cor. A azul. Quando ela vê uma bela menina com os cabelos dessa cor que no meio da multidão sorrir para Clémentine. O que vemos daí para frente é uma bela história de idas e vindas pelo verdadeiro amor. O amor que você sente pulsar dentro de ti.
Esse amor é despido de preconceitos. Sejam eles sexuais, raça, estéticos, financeiros e até mesmo moral. O que Clémentine e Emma passam para os leitores é que o amor pode e deve acontecer, não importando o tsunami de coisas contrárias que possam surgir. Muitas vezes deixamos de amar e se permitir ser amados por motivos banais. De como comentários mesquinhos e maldosos. Ou do fato de queremos somente seguir as cartilhas que impõem como corretas, acabam condenando vidas à romances errados. No caso das nossas protagonistas, tudo é mais complicado. Ainda mais em um mundo em que o preconceito é forte e dolorido.
Azul é a Cor Mais Quente é uma grande ciranda de emoções. Quando eu digo que o preconceito é forte, é uma das latentes da trama. Ele brota dos amigos, dos pais e da própria Clémentine. Essa é a primeira ciranda. Ao mesmo tempo que ela se sente bem quando se propõe a amar de verdade, ela sente vergonha. Se sente cometendo um ato falho. E quando ela decide que quer ficar com Emma, que também tem seus problemas. E tem mais uma ciranda. Emma é mais velha, tem um relacionamento longo com outra mulher, ela sente medo de por Clémentine ser muito jovem, isso ser apenas uma fase. A cada página as emoções vão consumindo as duas e o leitor.
Uma coisa que conversa muito bem com o leitor em Azul é a Cor Mais Quente são os gestos. O silêncio em alguns quadros, mas que são gritantes com os gestos e movimentos dos personagens são tocantes e valorizam demais a narrativa. Esse silêncio, juntamente com a palheta de cores engrandecem a obra. O mundo extremamente cinza se contrasta com o azul do amor. Todo momento azul é uma explosão de emoções para Clémentine, mas quando o azul sai de cena, o mundo desmorona.
Falei mais acima que Azul é a Cor Mais Quente é uma lição de amor que todos devemos aprender. E realmente é isso e além. Ele também fala da vida a dois em momentos difíceis e até de fidelidade. De amadurecer rápido, de crescer e assumir responsabilidades que não eram planejadas quando se é apenas uma criança. Lutar contra tudo e contra todos. Até se preocupar com o momento sócio-político que a França passava na época em que Nicolas Sarkozy ganhou as eleições. Mas sempre para viver o amor. Essa é a maior lição de Azul é a Cor Mais Quente, sempre pelo amor.
Azul é a Cor Mais Quente tem formato 25 x 17 cm, 160 páginas e o preço de R$ 44,90. A graphic novel chegou ao Brasil em 2013 pela editora Martins Fontes.
Lançado em Junho para Android e iOS, Harry Potter: Wizards Unite é o novo título desenvolvido pela Niantic Games. O jogo segue a mesma linha de realidade aumentada e a mesma jogabilidade que Pokémon GO, misturando o nosso mundo com o mundo mágico através da câmera do celular e nos mostrando diversos elementos dele. Entretanto, mesmo apresentando características semelhantes a Pokémon GO, Wizards Unite possui uma proposta totalmente diferente e diversas ideias novas.
Em Wizards Unite, você assume o papel de um recruta da força-tarefa do estatuto de sigilo em magia e seu objetivo é corrigir diversos eventos que estão acontecendo no mundo trouxa, evitando que haja exposição do mundo mágico e que os trouxas saibam de sua existência. Para isso, você utiliza a câmera do seu celular como se fosse sua varinha. Assim que o jogo é iniciado, você pode criar sua identificação do ministério, escolher sua casa de Hogwarts e as características da sua varinha.
Como dito acima, o jogabilidade do jogo é bem semelhante ao de Pokémon GO: no lugar das pokéstops existem as tavernas, onde você se alimenta e ganha energia para gastar durante a jogatina e os ginásios foram substituídos por fortalezas, onde você cumpre desafios, luta contra comensais da morte ou criaturas das trevas e encontra diversos itens – em grupo de até cinco pessoas. Além desses lugares tem também a estufa, onde pegamos itens para a criação de poções. As poções são fundamentais para o jogador, algumas servindo para curar vida e outras para dar maior precisão ao feitiço.
Durante a gameplay, o jogador irá encontrar anomalias do mundo mágico ao andar pelo mapa. Para lidar com a anomalia basta mirar a câmera do celular para o alvo indicado e lançar o feitiço. Feito isso, a anomalia aparece em um álbum junto com todos os outros que você já coletou. As batalhas das fortalezas são feitas da mesma forma, porém em turnos – você lança a magia, a criatura te ataca e assim continua até alguém ser derrotado.
Uma novidade bastante interessante é que o jogador pode escolher entre três profissões após o nível 6. Dentre as opções estão auror, professor ou magizoologista e cada classe apresenta suas respectivas características junto com uma árvore de habilidades. Há também as chaves de portal – semelhantes aos ovos em Pokémon GO, as chaves funcionam da mesma forma: você coloca uma chave, anda por alguns quilômetros e o baú se abre. Após isso, um portal é aberto e você deve caminhar até ele para entrar em um novo local. Esse acréscimo da chave do portal garante ao jogador total imersão no mundo da magia.
Harry Potter: Wizards Unite é um excelente jogo para todos os fãs da saga, sendo uma evolução da realidade aumentada apresentada em Pokémon GO que garante mais imersão e mais diversão ao jogador. Entretanto, infelizmente o jogo é repetitivo em suas atividades e acaba se tornando enjoativo com o passar do tempo. Mas quanto a isso, futuramente devem vir diversos eventos para trazer mais novidades ao jogo e melhorar esse pequeno problema.
Harry Potter: Wizards Unite já está disponível para download gratuito no Android e no iOS.
No nosso segundo episódio dessa série de postagens sobre as dublagens nacionais de animês da Crunchyroll, podemos pular a introdução cheia de ladainhas e ir direto ao assunto, que dessa vez, é um outro tipo de comédia: Recovery of a MMO Junkie.
Caso não tenha visto, a primeira postagem foi sobre a versão brasileira de KonoSuba, que você pode ler clicando aqui.
MMO Junkie é, convenhamos, muito mais family-friendly que KonoSuba. Por ser uma comédia-romântica, ter maior parte do elenco com adultos, e explicar muito bem a sua própria ambientação, o animê se torna muito mais fácil de ser engolido.
Com isso, vejo MMO Junkie como uma boa escolha para a dublagem: é brando o bastante para agradar gregos, e específico o suficiente para agradar troianos. E como comentei na primeira postagem, acredito que a receptividade de um show seja um ponto essencial para o sucesso de sua versão nacional.
Fazendo a ponte aérea, saímos do Rio e vamos para São Paulo, onde o animê foi dublado: no estúdio Unidub, que trabalhou em Dragon Ball Super, Grand Chase e Bob Esponja (entre outros diversos títulos). A direção foi feita por Úrsula Bezerra, ninguém mais, ninguém menos que Naruto Uzumaki e Son Goku (criança) em pessoa.
No elenco, nomes já conhecidos (ou melhor, vozes familiares) da Imprensa Especializada(TM):
Priscila Franco como Morioka Moriko (Eternizada como Saber em Fate/Stay Night [2006], mas que provavelmente é mais lembrada como Sharon Carter do MCU);
Michel Di Fiori como Sakurai Yuta (O Neji de Naruto, e o Genos de One Punch Man);
Fábio Lucindo como Hayashi (Que deu a voz ao Jin de Grand Chase, Shaoran de Sakura Card Captors e… Troy Bolton de Highschool Musical);
Michelle Giudice como Lily (Já experiente em animês, dublou Mitsuha de Your Name e Serena de Pokémon XY);
Caio Guarnieri como Homare Kowai (O dono dos vocais do Kouga de Pégaso em CdZ Omega, e do Kevin de Steven Universo).
Vou começar pelas reclamações, para não acharem que sou parcial. Meu único problema com a dublagem foi uma simples escolha de direção, que atrapalhou o meu divertimento por todos os episódios: o uso de honoríficos.
Eu sei que eu vivo reclamando disso, mas há momentos onde dá para aturar. Em legendas, por exemplo, eu até entendo quem goste delas. Afinal, você está ouvindo a personagem falar aquilo; já em mangás e novels, eu acredito que seu uso exija, no mínimo, uma nota de tradução; agora, numa dublagem? Onde as personagens estão falando português?
Vamos lá, de novo: para quem não sabe, honoríficos são partículas comuns no idioma japonês, que são adicionadas após nomes de pessoas, para indicar, de certa forma, a relação entre os indivíduos envolvidos no diálogo. Existem honoríficos que demonstram respeito, que demonstram amizade, que demonstram hierarquia… Até não utilizar um honorífico tem um significado. Acontece que isso é algo exclusivo do idioma nipônico. Isso não existe em português. E se você precisar traduzir esses significados descritos no último parágrafo, existem diversas formas de se fazer isso, com expressões que são nativas e naturais para a nossa língua.
O uso dos honoríficos torna a dublagem extremamente alienígena, por causa desses termos japoneses completamente diferentes de todo o resto que é falado. Acima de tudo, dublar uma obra tem como função trazer aquilo para a ambientação nacional. Mesmo que o show se passe no Japão, nós estamos nos dando ao trabalho de regravar todas as vozes de todos os episódios, para deixá-los em português, não estamos? Então qual o sentido de deixar expressões puramente japonesas no produto final?
E o que me deixou mais desconfortável nisso tudo, foi como o uso de honoríficos pareceu aumentar, do nada, já na metade do show. Personagens que se chamavam apenas pelo nome passaram a adicionar os honoríficos, sem razão alguma. Enquanto houve um ou dois casos nos primeiros episódios, ouvi pelo menos quinze nos últimos.
Eu quando acesso alguma rede social.
Porém, acho justo darmos o crédito quando assim é necessário, e todos os outros aspectos da dublagem merecem recomendações positivas. O elenco foi escolhido muito bem, tendo vozes que combinam com as personagens, e que conseguem bater de frente com os gigantes que fizeram a versão japonesa. Em especial, a atuação da Priscila Franco no papel principal foi monumental: a interpretação das cenas mais “exageradas” (típicas de animê, e que podem ser difíceis de fazer parecer naturais) ficou tão boa, que eu senti, pela primeira vez, que esse tipo de reação pode dar certo no nosso idioma.
A adaptação e direção também estão de parabéns, que exceto pelo que já foi discutido, fizeram um show ambientado no Japão passar uma impressão costumeira para os brasileiros, sem parecer careta (o que é muito importante!). Além disso, não vi muitos problemas de sincronia, volume ou desinformação, carimbando assim, uma excelente dublagem.
“Recovery of a MMO Junkie” está disponível dublado e legendado na Crunchyroll, e o primeiro episódio da versão nacional pode ser visto gratuitamente no canal do YouTube da Crunchyroll Brasil (que eu já linkei ali em cima, aliás!).
Já consagrado como um dos maiores autores modernos do mercado de quadrinhos da Europa, Christophe Chabouté entrega em Solitário o que se assemelha a uma junção de suas duas obras publicadas no Brasil anteriormente pela editora Pipoca e Nanquim, com a ambientação marítima e desoladora de Moby Dick e a sensibilidade humana de Um Pedaço de Madeira e Aço.
Tal qual a deusa mitológica do destino Dalia, a embarcação Dahlia possui em suas mãos o destino do solitário morador de um farol. E assim como a deusa, esta embarcação – com sua tripulação composta por apenas dois homens – é a responsável por fornecer bens materiais, essenciais para a sobrevivência de Solitário. E as semelhanças não se limitam a estes aspectos, visto que Dalia (filha de Dievas), é muito mais uma executora das vontades de Dievas do que tomadora de decisões. A Dahlia desta história executa as vontades de um pai falecido. Além do destino, o pai de Solitário garantiu que Dahlia seria a incumbida pela riqueza material que forneceria a vida ao isolado faroleiro que não tem seu nome revelado, nesta narrativa que também não possui recordatórios, desenvolvendo todo o álbum com sua arte magistral e nada além de poucos balões de fala ou páginas de impressos.
Ao longo das mais de 370 páginas que compõem o livro seu criador de forma inventiva estabelece a rotina de um personagem curioso, uma figura rejeitada pela sociedade de maneira já conhecida pelo inconsciente popular por histórias como a do Homem Elefante, que consagrou-se através do filme de 1980 dirigido por David Lynch. E o autor não sente a menor pressa para ambientar o leitor, já que através de seus traços característicos e exímio uso de chiaroscuro se utiliza de muitas páginas de pura contemplação através de transições de momento a momento e ação a ação quando em ambientes abertos ou centrado em figuras específicas, e também de aspecto a aspecto quando inserido em ambientes mais fechados, tornando tangível este local.
Notem que o céu de Chabouté quase sempre é aberto e extrapola os limites dos quadros, como é o céu sobre nossas cabeças. As gaivotas são livres para voarem para onde bem entenderem, criando um contraste doloroso quando em comparação com a figura central que vive em sua ilhota, perdido em sua rotina de descobrimentos e imaginando determinadas cenas ou frustrando-se por não conhecer (ou não entender) certos assuntos da vida. O mar em toda sua imensidão traz no balanço de suas ondas um universo de itens perdidos à porta de Solitário, que geram uma miscelânea de descobertas e ligações. E as novidades que descobre não significam nada para a magnitude do oceano, apenas para o sonhador enigmático.
Os enquadramentos tomados pelo autor são extremamente exitosos em garantir uma sensação de liberdadeou claustrofobia, enquanto o céu e o mar rompem as linhas dos quadros e a solidão do farol é retratada quase sempre com suas paredes limitando o ambiente. O autor também brinca com a maneira como Solitário mergulha em seus pensamentos, em cenas como as das páginas 66 e 123, onde a imaginação do protagonista começa a fluir das margens do quadro para o interior, entrando diretamente na vivência limitada em aprendizado e tomando forma somente após um quadro de transição.
A solidão nesta obra não soa forçada. Não é piegas, demasiada melosa ou impalpável. O farol em que vive o protagonista é um verdadeiro labirinto, pois dele aparentemente não há saída. Em seus quadrinhos conhecidos pelo público brasileiro até então, Chabouté abordou aspectos extremamente humanos, como a possessão e sede de vingança, os pequenos momentos que devem ser valorizados, amizades, amores e perdas. Esta parece ser a máxima de suas criações, a capacidade de transmitir sensações reais ao seu leitor. A rotina narrada em Solitário não é cansativa, monótona ou chata para quem a acompanha. A curiosidade até faz com que, nos momentos finais, haja certa apreensão em saber o que acontecerá a seguir.
E somente um verdadeiro mestre e estudioso da nona arte é capaz de unir tamanha imersão narrativa à uma poderosa lição. Não é o destino que o fará repetir os mesmos erros por toda sua vida, e a solidão pode ser apenas autoimposta. A realidade em que você está vivendo pode parecer confortável ou sua única opção, mas ela definitivamente pode não ser a melhor para sua vida. E as pessoas ao seu redor são capazes de desempenhar um papel importantíssimo para melhorar seus sentimentos.
A edição nacional está caprichadíssima, com encadernação em capa dura com soft touch e verniz aplicado apenas no título, no logotipo da editora e na janela do farol, dando um aspecto brilhante para a única fonte de luz natural que ilumina o ambiente escuro. A tradução do meu querido amigo Pedro Bouça é sempre um primor, e não encontrei erros de revisão.
E chegou ao fim The Walking Dead, depois de quinze anos convivendo com o apocalipse zumbi e a forma em que a humanidade se portou diante das ruínas da sociedade, Robert Kirkman resolveu dar um ponto final a sua história surpreendendo todos os leitores. Durante todo esse tempo a franquia ficou gigante. Ganhou livros, séries para a TV, games, action figures e tudo que o consumismo da cultura pop lhe dá direito.
Mas principalmente, durante todos esses anos, a HQ trouxe personagens memoráveis (com grande destaque nos vilões). Rick Grimes merece configurar no panteão de grandes personagens de quadrinhos, assim como os seus antagonistas Governador e Negan. Robert Kirkman sempre deixou bem claro que The Walking Dead nunca foi uma história sobre zumbis, sobre a busca de uma cura. Os zumbis seriam algo como um “cenário” de sua trama principal. Sempre foi uma história que tratava de sobrevivência. De até onde uma pessoa pode chegar para viver. Quais os limites e pudores as pessoas podem romper para sobreviver. Mas como a humanidade se portaria diante do fim de tudo quanto é regra social. O autor apresentou o pior do íntimo do ser humano mesclando violência, machismo, violência doméstica, abuso sexual, pedofilia, canibalismo, total falta de caráter e traições. Mas também soube pontuar coisas importantes como amor, trabalho em conjunto, amizade, perdão e romances LGBTQ+.
Buscamos listar as mortes que mais marcaram impacto durante toda a trama. E olhe que não foram poucas. Kirkman nunca teve muito pudor em matar o personagem que fosse. Fique com a gente nessas memórias dos mortos!
The Walking Dead #5 – Andrea mata a sua irmã Amy
The Walking Dead #6 – Jim pede para ser abandonado para morrer
The Walking Dead #6 – Carl Mata Shane
The Walking Dead #14 – O pacto suicida entre Chris e Julie (filha de tyreese)
The Walking Dead #15 – O assassinato de Susie e Rachel, as gêmeas de Hershel Greene
The Walking Dead #41 – O suicídio da Carol
The Walking Dead #46 – A morte de Tyreese
The Walking Dead #48 – A morte de Lori e Judith
The Walking Dead # 48 – O Governador mata Hershel
The Walking Dead #48 – A morte do Governador
The Walking Dead #61 – Ben assassina Billy
The Walking Dead #61 – Carl mata Ben
The Walking Dead #66 – Caçadores massacrados
The Walking Dead #66 – A morte de Dale
The Walking Dead #83 – As mortes de Jessie e seu filho Ron
The Walking Dead #83 – A Morte de Morgan
The Walking Dead #98 – Abraham assassinado
The Walking Dead #100 – A morte de Glenn
The Walking Dead #118 – A morte de Eric
The Walking Dead #118 – A morte de Shiva
The Walking Dead #144 – A fronteira das cabeças
The Walking Dead #156 – Negan assassina Alpha
The Walking Dead #158 – A morte de Gabriel
The Walking Dead #159 – A “morte” de Lucille
The Walking Dead #167 – A morte de Andrea
The Walking Dead #186 – Rick mata Dwight
The Walking Dead #192 – A morte de Rick Grimes
The Walking Dead: Alien – A morte de Jeffrey Grimes
Apesar de ter encerrado a trama principal de The Walking Dead, Robert Kirkman deixou um universo gigantesco que ainda pode ser explorado e com diversas histórias para serem contadas. Portanto, não será nenhuma surpresa que ainda voltaremos a visitar o apocalipse zumbi.
”O desmatamento na Amazônia Legal brasileira atingiu 920,4 km² em junho, um aumento de 88% em comparação com o mesmo mês no ano passado. Os dados consolidados do mês foram inseridos nesta quarta-feira (3) no sistema Terra Brasilis, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).”
O fragmento acima envolve a mais recente notícia envolvendo esta prática enraizada há décadas e que acomete completamente toda a fauna, flora e comunidades indígenas que habitam as principais regiões. A todo instante, estamos sendo bombardeados com a degradação do meio ambiente e suas principais consequências. A humanidade avança, mas recua. Acelera, mas desacelera. Evolui, mas regride. O Homo sapiens categoriza como a espécie mais teimosa que se tem história. Existem vários documentários e filmes que abordam este tema, mas estou aqui para falar da nova série exclusiva para o Globoplay.
Aruanas conta a história de uma ONG Aruana (sentinela da natureza em tupi) criada por três amigas para proteger o Meio Ambiente. A partir de uma denúncia anônima, as protagonistas – a jornalista Natalie (Débora Falabella), a advogada Verônica (Tais Araújo), a ativista Luiza (Leandra Leal) e a estagiária Clara (Thainá Duarte) – investigam a ligação entre uma poderosa mineradora e garimpos ilegais na cidade fictícia de Cari, na Amazônia. Ali, elas entram em conflito com Olga (Camila Pitanga), uma lobista que ajuda a mineradora a explorar uma reserva ambiental, a fim de expandir o negócio.
Se não fosse pelo elenco feminino já visto em novelas e produções da Rede Globo, poderia ser muito bem uma notícia real. Ativistas, garimpeiros e grileiros (o termo grilagem vem da descrição de uma prática antiga de envelhecer documentos forjados para conseguir a posse de determinada área de terra) vivem num pé de guerra frenético que deixa um rastro sanguinolento num caminho marcado pela falta de fiscalização no sistema de terras.
O trio principal já mostrou nesse episódio Piloto que possuem muito a oferecer em seus respectivos papéis e já deixo o destaque para Leandra Leal como a ativista Luiza Laes. A atriz conseguiu se sobressair justamente por ter sido a agente de campo para receber o dossiê de Otávio e com isso, iniciando todo o plot principal. Se o nível continuar deste jeito, veremos atuações maravilhosas de Leal. Assim como de Taís Araújo e Débora Falabella. Não podemos esquecer de Thainá Duarte como Clara começando de forma tímida, porém pode surpreender.
Para um contador de histórias conseguir atrair o seu público, ele precisa dar peso à sua história. A exemplo disso, a série recebe a atenção merecida ao expor protestos reais em prol ao meio ambiente e captura de forma muito positiva essa atmosfera mais crível. Greenpeace é mundialmente conhecido por sua missão de proteção ao planeta, onde denunciam os crimes ambientais e confrontam os governos.
Luiz Carlos Vasconcelos encarna o antagonista Miguel Kiriakos, sendo o responsável pelos garimpeiros trabalhando no meio da mata. O personagem não atua sob uma máscara de bom samaritano. Sabemos de sua índole e suas intenções ao ignorar os sábios da natureza para a construção do garimpo ilegal. O desenvolvimento e progresso não podem parar, não é mesmo?
Em seu primeiro episódio, Aruanas apresentou o mundo das atividades ilegais que põem em grave risco toda a nossa biodiversidade e a tendência é continuar tocando forte nessa ferida. E isso é bom demais. Precisamos parar e prestar atenção no alerta que esta produção pretende passar não só para os brasileiros, assim como para o mundo todo. Até porque, a mensagem é poderosa e real.
A galeria abaixo apresenta imagens reais de regiões desmatadas.
A primeira temporada de Aruanas terá 10 episódios e pode ser vista pelo Globoplay.