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Crítica | Power Rangers

Um dos blockbusters mais aguardados do ano, o novo filme dos Power Rangers, franquia da Saban Entertainment, chega aos cinemas trazendo uma visão mais profunda e até então pouco explorada em todo o legado da série, tratando os jovens de uma forma que pode não agradar quem gostaria de ver somente faíscas e robôs gigantes.

Ao tomar consciência da destruição iminente da Alameda dos Anjos, os cinco adolescentes escolhidos para serem os novos Rangers iniciam seu treinamento. O que pode soar como uma trama genérica típica de toda a franquia, no longa dirigido por Dean Israelite (Projeto Almanaque) acaba tomando o aspecto de um filme de drama adolescente, onde os personagens e suas características são os principais charmes.

A história soa como um filme de origem típico de super-heróis. O roteiro de John Gatins apresenta aos poucos todos os pontos essenciais e protagonistas das duas horas de duração com o único objetivo de reintroduzir este universo aos espectadores. Mais da metade da fita é dedicada exclusivamente aos cinco Rangers e ao background de cada um. Jason (Dacre Montgomery), Kimberly (Naomi Scott), Billy (RJ Cyler), Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.) formam um grupo bem diversificado e com bastante química, contendo seus próprios problemas pessoais da vida de um adolescente, que vão desde o bullying até suas orientações sexuais e transtornos nervosos. A única coisa que todos têm em comum é a sociedade os julgando como “crianças problemáticas”, além da clara necessidade de se tornarem algo mais.

Funcionando bem dentro da mitologia apresentada, o encontro e a união de pessoas tão diferentes lidando com a descoberta de seus poderes e aprendendo juntos sobre as mazelas que os cercam, superando todos seus traumas e dificuldades, acabam por deixar os personagens sem uma forma inteiramente superficial, tornando possível se identificar com algum (ou mais de um) deles, do líder ao alívio cômico. O Billy de RJ Cyler, especialmente, rouba a cena.

Além dos cinco e de seus desenvolvimentos como heróis e seres humanos, parte da aventura obviamente é feita de fanservice e cenas bregas (a famosa galhofa) típicas da série. Zordon (Bryan Cranston) e a afetadíssima Rita Repulsa (Elizabeth Banks) compartilham um passado sombrio, apresentado no filme. A já citada vilã possui os planos clichês de qualquer inimigo dos Power Rangers: destruir o mundo, pura e simplesmente. Tamanha galhofa é tão clara (como deveria ser, dada a temática do filme) não somente em cenas específicas, mas no desenrolar da trama como um todo. Por mais que a profundidade moral de cada um dos Rangers seja algo diferente, tudo é tratado de forma que irá remeter ao que está na tela: heróis coloridos lutando contra monstros alienígenas.

Alpha 5 (Bill Hader) foi modernizado para este universo. Apesar dos trejeitos típicos do Alpha original, que tornam a comparação inevitável, este Alpha é muito mais ativo e age como um professor, física e psicologicamente. Ainda assim, você reconhece o personagem, um ponto positivo de todas as caracterizações do longa. No saldo geral, todo o elenco entrega boas atuações. Ai ai ai ai ai, Zordon.

Obviamente, existem problemas. A maneira despretensiosa como algumas situações são tratadas algumas vezes incomodam, gerando até um desconforto. Porém, não dá para dizer que algo assim não é proposital. As cenas de ação (contidas no terceiro ato, mais acelerado que os dois anteriores) são bem feitas, com coreografias ninjas que remetem ao estilo de luta dos Rangers no decorrer dos anos, porém duram pouco e demoram demais para acontecer. Os grandes destaques acabam sendo os Zords, que partem para a batalha prestando uma homenagem, e possuem visuais e efeitos bem convincentes, algo não tão positivo e deslumbrante quando falamos do grande inimigo físico criado por Rita, também prestando uma homenagem. O clímax da batalha também é fraco, e o peso da destruição não é sentido.

A trilha sonora é outro ponto com pouco destaque. Apesar das músicas se encaixarem na proposta adolescente e dramática do filme, quando os heróis partem para a ação falta algo que empolgue mais que uma música do Kanye West. E a parte instrumental da trilha também chama pouca atenção.

Ao optar pelo desenvolvimento de seus personagens e não pela ação pirotécnica do começo ao fim, Power Rangers entregou o que propôs desde seus primeiros trailers: uma aventura adolescente, destinada aos adolescentes, que mostra como você pode ser um super-herói mesmo com todas as suas falhas. Tomando este rumo, quem espera algo extremamente despretensioso e com ação desenfreada pode se decepcionar, mesmo com o feeling típico de estar assistindo algo da franquia.

Acima de tudo, o filme é honesto no que se propôs, e a cena pós-créditos é promissora, feita para agradar os fãs, dando o gancho ideal – e inevitável – para uma sequência. E os Power Rangers estarão lá para salvar o mundo novamente.

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Mr. Jabot | Primeira HQ do mundo chega ao Brasil em março

Através de uma descoberta inusitada, o editor André Caramuru Aubert teve contato com Mr. Jabot (Monsieur Jabot), do suíço Rodolphe Töpffer. Numa caixa entregue pelo seu pai contendo “coisas do avô trazidas da Suíça que tem a ver com o inventor dos quadrinhos“, o editor descobriu que os oitos volumes amarelados presentes dentro desta caixa eram nada mais nada menos que a primeira tiragem, de 1833 e distribuída apenas para amigos, desta reconhecida como a primeira HQ do mundo. Esta série histórica chega ao Brasil em março pela SESI-SP Editora.

Em entrevista ao site Estadão Cultura, André contou toda a história envolvendo a descoberta destas publicações tão relevantes para o mundo dos quadrinhos. Seu avô, Jacques Aubert, tinha um grande interesse por arte e, vindo de Genebra ao Brasil no ano de 1952, trouxe consigo os oito álbuns citados acima, que acabaram não sendo editados no país pois o interesse pelos livros havia sido substituído pela pintura. Quase seis décadas depois, seu neto, André, deu início à pesquisa e ao empreendimento para que a obra fosse editada por aqui.

Créditos: Estadão Cultura
Créditos: Estadão Cultura

A história narra a tentativa de escalada social de um homem, com um humor do século 19. O editor tinha a ideia de fazer o lançamento em edições fac-similares caprichadas, o oposto da Rodolphe Töpffer: The Complete Comic Strips (University Press of Mississippi), uma compilação de 672 páginas que não se adequaria aos padrões do mercado brasileiro de quadrinhos. Através da SESI-SP Editora, que vem publicando diversos quadrinhos europeus ao longo dos últimos meses, a obra finalmente verá a luz do dia em terras tupiniquins.

No Facebook a editora divulgou a data do evento de lançamento, agendado para o dia 30 de março, quinta-feira, entre as 19 e 22h, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, n° 915), em Pinheiros, São Paulo.

“Monsieur Jabot é, reconhecidamente, a primeira HQ do mundo. Foi publicada em 1833, por Rodolphe Töpffer e agora, pela primeira vez no Brasil, será lançada pela SESI-SP Editora e organizada por André Caramuru.”

A SESI-SP Editora foi criada em 2011 com a missão de divulgar a produção cultural do SESI-SP, e contribuir para a informação e formação do seu público. A chegada do material de Töpffer é um registro histórico para o meio dos quadrinhos no Brasil, e merece ser prestigiado.

ATUALIZADO: a editora divulgou as primeiras imagens do lançamento.

O evento terá entrada gratuita. Para maiores informações, fique ligado na Torre de Vigilância e acompanhe a página da SESI-SP Editora no Facebook.

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SESI-SP Editora divulga evento de lançamento de Valerian

Há cerca de um mês, a SESI-SP Editora anunciou que publicará a famosa série franco-belga de ficção-científica Valérian et Laureline. Hoje, dia 16/03, a editora anunciou uma data para a chegada da obra no Brasil, bem como um evento do lançamento do primeiro álbum. Confira abaixo.

O lançamento acontecerá na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo (Avenida Paulista, n° 2073), no dia 13 de Maio, das 10h as 12h00. Em breve a editora divulgará maiores informações sobre a série de HQs, criada por Pierre ChristinJean-Claude Mézières e Évelyne Tranlé.

A série narra as aventuras de Valérian, um agente espaço-temporal, e sua colega Laureline, enquanto viajam pelo universo, espaço e tempo, e é um clássico dos quadrinhos europeus de ficção-científica, contando com mais de 20 álbuns publicados, sempre figurando entre as dez séries mais vendidas da editora Dargaud. Uma mistura de space opera com viagem no tempo, a primeira edição foi publicada no ano de 1967, tendo surgido no número 420 da revista Pilote, casa das primeiras publicações de outras séries grandiosas como, por exemplo, Asterix o Gaulês.

Uma adaptação cinematográfica da série será lançada nos cinemas no dia 20 de julho de 2017. O filme conta com a direção de Luc Besson e elenco composto por Cara Delevingne, Dane DeHaan, Rihanna, Clive Owen, Ethan Hawke, John Goodman e Kris Wu. Um dos autores da obra, Mézières, trabalhou juntamente com Moebius no desenvolvimento do visual do filme O Quinto Elemento, também de Luc Besson.

A SESI-SP Editora conta com outras famosas séries europeias em seu catálogo, como Spirou, Gus, Valentine e Verões Felizes, além de ter anunciado recentemente o retorno de Blacksad ao Brasil.

Para maiores informações, visite o evento criado pela editora no Facebook clicando aqui e fique ligado na Torre de Vigilância para acompanhar todas as novidades.

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AVEC | Conheça Alena, premiada graphic novel sueca de terror

Lançamento do mês de março da AVEC Editora, Alena é uma graphic novel sueca criada por Kim W. Andersson, com uma trama que mistura elementos de romance e terror. A HQ é a segunda empreitada com quadrinhos europeus feita pela editora, casa brasileira da personagem January Jones.

Capa nacional aberta.
Capa nacional aberta.

Kim W. Andersson estreou no mercado de quadrinhos com a série de curtas Love Hurts, no ano de 2009, e a partir desta o autor já estabeleceu seu estilo de contar histórias. Alena é sua primeira empreitada com uma narrativa mais longa, e foi vencedora do Swedish Comics Academy’s Adamson, prêmio de quadrinhos de maior importância da Suécia, além de ter sido publicada nos EUA pela Dark Horse, casa de famosas séries como Hellboy e Conan.

Confira abaixo a sinopse da obra:

“A vida de Alena é um inferno. Desde que começou a estudar em um colégio cheio de colegas esnobes, ela sofre bullying de Filippa e das outras meninas do time de lacrosse. A melhor amiga de Alena acha que já chega de aguentar todo esse abuso. Seja da conselheira, do diretor, de Filippa ou de qualquer outra pessoa nessa escola repulsiva.

Josefin promete resolver o assunto por conta própria a menos que Alena dê o troco. Só existe um problema: Josefin está morta há um ano.

O autor brinca com a dicotomia entre vilania e heroísmo através da protagonista da obra, e a trama é baseada em suas próprias questões e sentimentos crescentes, tornando-a também uma história sobre amadurecimento. Em 2015 a obra foi adaptada para o cinema, com um longa dirigido e roteirizado por Daniel di Grado, com textos de Kerstin Gezelius e Alexander Onofri.

Pôster do filme "Alena" (2015).
Pôster do filme “Alena” (2015).

Andersson também é fã da banda brasileira ‘Sepultura‘. Em um recado deixado por ele, afirmou que deseja visitar o Brasil logo, e que gostaria que os membros da banda de heavy metal possam ler seu quadrinho.

Alena possui 120 páginas em papel couché 115g fosco encadernadas em capa cartão no formato 19 x 28 cm e valor de capa sugerido de R$ 59,90.

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Gus – 2. Belo Bandido | Distância e novos ares

Criação do famoso quadrinista francês Christophe Blain, autor de “Isaac, o Pirata“, Gus é uma série composta até o momento por quatro volumes que narram as aventuras de três bandidos numa temática de faroeste, lidando com dinheiro (provido de assaltos), bebidas e principalmente com as mulheres.

Após apresentar todos os personagens desta fantástica série de western no primeiro volume, chamado Gus – 1. Nathalie, Blain utiliza a segunda edição para mudar um pouco o foco, trazendo novos ares para os leitores. Enquanto no primeiro álbum os três “heróis”, Gus, Clem e Gratt tinham seus momentos de protagonismo, esta edição é focada quase inteiramente em Clem, nas suas aventuras de ação e amor, com breves participações de seus parceiros bandidos.

Arte de Christophe Blain.
Arte de Christophe Blain.

Apesar de Belo Bandido iniciar com uma história quase inteiramente protagonizada por Gus em mais uma desventura amorosa, dela em diante a relação entre os três parceiros se distancia. A distância entre eles só é retomada nas aventuras finais, e durante todo o álbum Clem lida com outra distância, a dele com relação a sua esposa e filha, e também de sua amante. Os foras-da-lei se separam graças a formas diferentes de pensar, especialmente com relação a Clem, que utiliza seus roubos para retornar à família com tudo do bom e do melhor.

As saidinhas de Clem e Isabella, sua amante fotógrafa, movem boa parte dos contos. O ator utiliza os dois personagens para contar histórias do passado e também imaginar possíveis futuros, aprofundando ambos e situando o leitor com relação a vida pessoal e íntima de cada um deles. Em dado momento, a vida de ambos parece inclusive se alternar, com o bandido e a fotógrafa trocando de posição. E tudo com relação aos dois é sempre retratado de forma picante e aventuresca, como o romance entre eles é mostrado desde o início. O extremo oposto das desilusões de Gus, o azarão.

Clem, em: Um Dia de Fúria.

Blain faz brincadeiras com a arte de maneira ainda mais primorosa, retratando cenas ágeis e bem humoradas em cada uma das páginas. O autor invade o pensamento e as viagens mentais dos personagens em diversos quadros de uma forma criativa e as cores de Alexandre Chenet e Walter dão o ar da graça de diversos cenários e situações, criado um aspecto único para cada ambiente.

Em certa altura, o bom humor é substituído por uma dose de drama familiar e nostalgia, algo que ressalta bastante o pensamento mais maduro de Clem em comparação com seus amigos. A convivência dele com todos ao seu redor e a forma como o autor imagina a profissão de Ava, esposa de Clem, adicionam outra camada de dramaticidade para as narrações. No fim das contas, todo o núcleo que circunda este protagonista é explorado bastante de uma forma convincente.

Capa nacional do segundo volume da série.
Capa nacional do segundo volume da série.

O segundo volume desta coleção não só mantém o ótimo nível do início da série, como também explora ainda mais este mundo e cria laços mais fortes com o leitor. Apesar da mudança de foco, Blain prova-se capaz de continuar contando suas “histórias de homens” mesmo enveredando para outro lado, sem perder sua forma cativante de criar gibis, que prende a atenção de todos. Trazida ao Brasil pela SESI-SP Editora, a coleção continua na França com mais dois álbuns, e fica a torcida para que tudo relacionado a este universo tão bem desenvolvido seja publicado por aqui.

Gus – 2. Belo Bandido é um álbum de 88 páginas em formato 29,1 cm x 21,2 cm, contendo lombada quadrada, capa cartão e preço de capa sugerido de R$ 35,00.

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Trolls de Troy: Histórias Trolladas

Spin-off do grande sucesso dos quadrinhos franco-belgas Lanfeust de Troy, Trolls de Troy chegou ao Brasil em 2016 pela Jupati Books, selo de quadrinhos da Marsupial Editora, dando continuidade às publicações deste universo tão rico e fantástico. Situado num período anterior ao da série principal e utilizando novos personagens, as boas características típicas desta franquia são mantidas e muito humor é adicionado, criando uma história verdadeiramente divertida e, no mínimo, inusitada.


Troy é um mundo fascinante, onde a magia faz parte do cotidiano de todos. Neste universo, todas as pessoas possuem um tipo de poder, de grande ou baixa utilidade. Os poderes variam muito, desde transformar água em gelo até o poder de gerar coceiras, e todos são mantidos localmente através das vilas graças ao poder dos magos anciãos, Sábios de Eckmul, que possibilitam que as pessoas utilizem seus dons mágicos através da canalização das energias.

Contudo, esta não é a história de Lanfeust, o herói da série Lanfeust de Troy. E na realidade, todo o parágrafo acima nem faz tanta diferença quando o assunto é Trolls de Troy, a aventura focada em Tetram, um troll da vila de Phalompa, e sua filha humana adotiva, Waha. Vivendo “pacificamente” na floresta, esta vila de trolls criava muitos problemas para a cidade de Klostope, habitada por humanos. Graças às reclamaçaões, são mandados Caçadores de Trolls ao vilarejo de Tetram, em nome do grande sábio humano Rysta Fucatu, responsável pela Grande Guerra de Extermínio dos Trolls. Lá, diversos trolls são assassinados e metade deles são levados como prisioneiros, enfeitiçados, para serem vendidos como escravos. Tetram e sua filha sobrevivem, e motivados a quebrarem o encantamento que prende seus semelhantes, vão atrás de ingredientes que serão usados para desenfeitiçá-los: uma mecha do cabelo de Rysta Fucatu, e o fogo de um vulcão. Coisa simples.

Trolls de Troy adiciona muito ao já rico universo “de Troy“. Enquanto a aventura da série principal se assemelha a uma partida de RPG de fantasia medieval, esta série envereda para o lado do humor, focando nestas criaturas tão estranhas (e temidas) da franquia, porém sem perder o charme da já citada Lanfeust de Troy. O destaque desta nova aventura são os protagonistas. Enquanto em “Lanfeust” o único troll a aparecer é o companheiro enfeitiçado do grupo, aqui a variedade de trolls é muito maior, e todos possuem características diferentes, físicas ou intelectuais. Ao situar a história no ponto de vista destes “monstros”, a percepção dos leitores com relação a eles acaba mudando. Especialmente quando a impressão é de que os humanos são os vilões.

O roteiro também fica a cargo de Christophe Arleston, criador da série, então todos os elementos centrais da mitologia são respeitados, explorados e expandidos da primeira à última página. Enquanto na história principal existe um sentido de coesão, aqui o escritor se dá ao luxo de surtar muito mais, brincando das mais variadas formas com todo tipo de situação nonsense imaginável, criando resoluções mais loucas possíveis para todo tipo de problema. Ao lidar com o choque cultural de uma humana ter sido criada no meio dos trolls, surgem as diversas piadas estilo peixe fora d’água, e somado a isso, outros personagens como o meio-troll Prophi e outra garota humana surgem no decorrer das páginas, encorpando a aventura.

A arte de Jean-Louis Mourier é bela, bem detalhada, porém simples e não muito expressiva, algo que se opõe ao estilo de Didier Tarquin, o co-criador da primeira série desta franquia, artista de Lanfeust. As cores de Claude Guth deixam os quadros com um aspecto de pintura, combinando com o tipo de história contada e também com o estilo de desenho de Mourier, e há todo um cuidado em demonstrar que esta aventura realmente se passa dois séculos antes do que os leitores presenciaram na outra série. As cidades possuem detalhes diferentes, parecendo menores e com aspecto de expansão, e até mesmo a fauna e flora parecem um pouco diferentes. Mas é claro que os grandes puntauros ainda existem.

Além do convívio em sociedade e dos maneirismos dos trolls, este trio de autores responsável por estas aventuras também explora (mesmo que de uma forma galhofa) o pensamento dos trolls, como sonhos (ou pesadelos), ideais de vida e tratamentos de respeito, afeição ou ódio. Tetram ter adotado uma humana (que age como uma troll o tempo todo) demonstra um lado completamente inesperado deste terríveis monstros. Mesmo que a motivação para a adoção seja bem peculiar

A forma como a editora Marsupial vem tratando a franquia mantém-se neste álbum, compilando duas aventuras originais de cerca de 45 páginas cada em um único volume, tornando a leitura muito mais proveitosa. Esta série é bem mais extensa que todas as outras, já que atualmente são 22 volumes publicados no exterior. Seguindo o formato brasileiro, em 11 volumes alcançaremos os franceses. Não é tão difícil…

Para todos que gostaram de Lanfeust, ou para quem busca uma aventura verdadeiramente divertida situada num universo rico e bem explorado por seus criadores, Trolls de Troy é uma ótima pedida. Um dos quadrinhos-destaque de 2016, toda a franquia merece o ótimo tratamento que vem recebendo no Brasil através do selo Jupati Books, sem cometer deslizes editorais, e com um ótimo acabamento gráfico. E segue viva a expectativa de que a editora publique outros materiais relacionados.

Trolls de Troy – Volume 1: Histórias Trolladas possui 96 páginas encadernadas em capa cartão e valor de capa sugerido de R$ 42,00Compre ou um troll malvado irá devorar você e toda sua família.

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Lanfeust de Troy: O Marfim de Magohamoth

Um dos grandes sucessos dos quadrinhos franco-belgas, Lanfeust de Troy chegou ao Brasil em definitivo no ano de 2015 graças a Jupati Books, selo de quadrinhos da Marsupial Editora. Unindo elementos de grandes obras de fantasia medieval, com muita magia e criaturas estranhas, a obra entrega altas doses de diversão, com uma história criativa de excelentíssima qualidade narrada através de uma arte belíssima.


Troy é um mundo fascinante, onde a magia faz parte do cotidiano de todos. Neste universo, todas as pessoas possuem um tipo de poder, de grande ou baixa utilidade. Os poderes variam muito, desde transformar água em gelo até o poder de gerar coceiras, e todos são mantidos localmente através das vilas graças ao poder dos magos anciãos, Sábios de Eckmul, que possibilitam que as pessoas utilizem seus dons mágicos através da canalização das energias.

O protagonista da série, Lanfeust, possui o dom mágico de fundir metais com sua visão, e graças a este dom ele trabalha como ferreiro. Um dia, um guerreiro chamado Cavaleiro Ourazul chega à Aldeia Glinin, onde Lanfeust habita, para reparar sua espada danificada na batalha contra um troll. Ao entrar em contato com a empunhadura da espada, feita de marfim, Lanfeust misteriosamente consegue utilizar todas as magias existentes. A partir deste ponto começa a jornada dos heróis desta aventura para desvendarem o mistério do chamado “Marfim de Magohamoth“, criatura misteriosa e desaparecida cuja força psíquica criou o campo de magia sob Troy, da qual os Sábios funcionam como condutores.

A premissa desta aventura soa como uma junção de aspectos conhecidos por fãs de fantasia medieval e RPG. Toda a aventura é desenrolada através de um núcleo de personagens composto por Lanfeust, pelo mago de Glinin, Nicoledes, e suas duas filhas: Cixi e C’ian. Juntos eles partem para a cidade de Eckmul, onde os três grandes sábios residem, com o objetivo de esclarecer as dúvidas acerca deste poder misterioso. No caminho, outros personagens retornam, e até mesmo um troll (criatura horrenda e devoradora de seres vivos) chamado Hebus, une-se ao grupo. Através de um encanto psíquico, obviamente. Não fosse o caso, ele devoraria a todos.

O roteirista Christophe Arleston trabalha muito bem a relação entre os personagens e explora as características e maneirismos de cada um deles, fazendo com que o leitor crie uma empatia com todos por motivos diversos. Cixi, que possui o poder de transformar água em gelo ou vapor, é uma jovem atirada que “só pensa naquilo“, enquanto C’ian, que pode curar pessoas a noite, é uma típica garota recatada e prometida de Lanfeust. Hebus, com seu jeito animalesco porém educado (quando controlado) é o alívio cômico violento, e Nicoledes funciona como o mentor desta equipe. Com muitos encontros com animais estranhos, ação, ótimas sacadas de texto e reviravoltas constantes, esta viagem torna-se algo extremamento prazeroso de se acompanhar.

A arte fica a cargo de Didier Tarquin, dono de um traço detalhista e muito expressivo, que ao mesmo tempo é bastante caricato. Tarquin capricha em todos os quadros, preenchendo cada milímetro do cenário com pequenos itens que acrescentam bastante principalmente à flora e fauna deste universo, algo que desperta a curiosidade do leitor devido aos designs completamente estranhos aos nossos olhos. As cores de Matteo Livi são vibrantes e alguns efeitos, aplicados por outros dois coloristas, tornam a belíssima arte do artista principal ainda mais bonita.

Ao longo da jornada também são apresentados elementos-chave da história, como o antagonista e pirata Thanos, que possui um poder similar ao do herói, e outras formas de magia, algumas delas tidas como superstições. Um exemplo é a capacidade de ler o futuro através das entranhas de animais recém eviscerados. Não bastassem as novidades, os autores também fazem questão de mostrar as diferentes maneiras de se utilizar as magias, de forma criativa e inusitada para cada uma delas. Nas mãos de uma pessoa com melhor visão das circunstâncias, até mesmo o poder mais banal pode ser utilizado de forma útil.

A editora Marsupial teve a boa iniciativa de compilar dois álbuns originais (de cerca de 45 páginas cada) em uma única edição, tornando a leitura mais proveitosa. A série possui oito álbuns publicados no exterior, porém o sucesso foi tão estrondoso que surgiram diversos spin-offs situados neste universo, alguns deles com outros personagens ou situados em outros momentos cronológicos. Um destes spin-offs, Trolls de Troy, foi trazido ao Brasil em 2016 pela editora.

Uma ótima pedida para fãs do gênero, com momentos memoráveis, muitas criaturas bizarras (dragões inclusos) e piadas sexuais e escatológicas, Lanfeust de Troy faz jus a sua fama. Em 2017 os leitores brasileiros devem poder conferir outros dois álbuns que serão publicados na edição seguinte, chamada Castelo Ourazul. E fica a esperança de que o selo Jupati Books (que aliás, merece os parabéns por não cometer nenhum deslize editorial nesta publicação) continue a publicar a série até o fim, saciando a vontade dos fãs que anseiam por boas histórias em quadrinhos fantásticas. E quem sabe no futuro outras obras relacionadas a série sejam lançadas por aqui. Ouvi dizer que existe até mesmo uma Enciclopédia do Mundo de Troy

Lanfeust de Troy – Volume 1: O Marfim de Magohamoth possui 96 páginas encadernadas em capa cartão e valor de capa sugerido de R$ 42,00. Meu poder mágico é o de convencer as pessoas a comprarem.

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Gus – 1. Nathalie | Bandidos, uísque e o amor

Criação do famoso quadrinista francês Christophe Blain, autor de “Isaac, o Pirata“, Gus é uma série composta por quatro volumes que narram as aventuras de três bandidos numa temática de faroeste, lidando com dinheiro (provido de assaltos), bebidas e principalmente com as mulheres.

Nathalie é uma moça bonita. E moças bonitas geralmente já possuem um companheiro. Mas isso não deve ser um empecilho para Gus, parceiro de assaltos de Clem e Gratt, os três protagonistas deste primeiro álbum publicado no Brasil pela SESI-SP Editora. Através destes três personagens e uma série de coadjuvantes, Blain narra as desventuras no amor, as inseguranças, espinhos e problemas da vida amorosa e de quebra entrega bons momentos de amizade e confiança, com muita diversão… Por mais difícil que seja acreditar que isto é possível entre três bandidos safados. E na verdade alguns deles se interessam por todas as mulheres existentes, mesmo. Sem distinção.

Arte de Christophe Blain.
Arte de Christophe Blain.

Lidar com o relacionamento de amizade entre homens é algo constante nas obras de Christophe Blain. Os leitores de “Isaac, o Pirata“, publicado no Brasil pela editora Conrad, já haviam presenciado isso, e com a série Gus o autor envereda para os quadrinhos western, tão famosos na Europa, para estabelecer aos poucos cada uma de suas novas criações. “Gus – 1. Nathalie” é um compilado de histórias curtas que giram em torno dos três protagonistas, desvendando um pouco mais sobre cada um deles no decorrer das páginas, ao mesmo tempo em que os laços de parceria são atados. O foco desta história é divagar sobre a forma como os homens se relacionam, ou não, com as mulheres.

Apesar de bem sucedidos em suas pilhagens, e em determinado momento até mesmo trabalhando como xerifes (!), Gus, Clem e Gratt estão constantemente insatisfeitos com suas vidas amorosas e sempre em busca de suas almas gêmeas. O autor faz uso de seu traço típico, com proporções anatômicas exageradas e caricatas, com cenários estilizados porém profundos e com sua representação formosa de belas mulheres, somando todo este estilo de desenho às belas cores de Walter, entregando o melhor uso da arte em cada quadro, com uma agilidade narrativa muito gostosa de se acompanhar.

Gus, Clem e Gratt.
Gus, Clem e Gratt.

Cada personagem possui suas próprias características. Clem representa o homem compromissado vivendo uma relação insatisfeita enquanto mantém contato com sua jovem filhinha, Jamie. Gratt é o homem atrapalhado e azarado, porém de boa aparência, enquanto Gus é o típico mulherengo. Os três escondem seus verdadeiros sentimentos (por exemplo, Clem pela fotógrafa que conhece em uma das aventuras, e Gus por Nathalie, sua paixão platônica desde o início), porém compreendem uns aos outros, mantendo sempre o aspecto de parceria e respeito entre grandes amigos. Parceria esta constantemente celebrada com bons assaltos a bancos e trens, e com muita bebida.

Enquanto o autor usa suas páginas para narrar estas aventuras de amizade, companheirismo e amor entre tudo que circunda os três bandidos, existem também sacadas bem humoradas sobre estes relacionamentos, já que algumas das situações em que estes “heróis” se metem não são nada típicas ou não saem nos conformes planejados.

Capa nacional do primeiro volume da série Gus.
Capa nacional do primeiro volume da série.

Gus é um ótimo compilado do melhor (e altíssimo nível) dos quadrinhos de Christophe Blain. Com personagens interessantes, aventuras ágeis e momentos marcantes, a série começa de forma cativante e tem muito a oferecer no desenrolar dos próximos álbuns, podendo continuar a tratar destes relacionamentos ou entregar aventuras dos bandidos fazendo suas bandidagens. Quem sabe?

Gus – 1. Nathalie é um álbum de 80 páginas em formato 29,1 cm x 21,2 cm, contendo lombada quadrada, capa cartão e preço de capa sugerido de R$ 35,00.

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Face Oculta: O Rosto da Aventura

Com uma história situada no final dos anos 1800, Face Oculta (Volto Nascosto no original) é uma minissérie em 14 edições publicada pela Sergio Bonelli Editore. Narrando o período da expansão colonialista da Itália sobre a Etiópia, o quadrinho, que teve um primeiro volume encadernado lançado recentemente pela Panini, é uma história envolvente situada num período não explorado por outras narrativas da nona arte.

Publicada em terras italianas entre os anos de 2007 e 2008, a série situa-se no final do século XIX, quando a Itália possuía ambições expansionistas e voltava sua atenção para a África, especificamente para a Etiópia. Nesta época, tanto os italianos quanto os britânicos rivalizavam por influência na região. Porém, graças especificamente à Itália, uma guerra acabou eclodindo. É em meio a este cenário que o jovem Ugo Pastore e seu pai se veem envolvidos em alguns dos momentos mais decisivos do período, ao mesmo tempo que há o surgimento de um homem sagrado que usa uma máscara prateada, arrebanhado por uma legião de soldados e seguidores por toda a Etiópia. Seu nome é Face Oculta.

Capa do primeiro volume encadernado de Face Oculta, lançado pela Panini em 2016.
Capa do primeiro volume encadernado de Face Oculta, lançado pela Panini em 2016, em parceria com a loja Comix.

A minissérie é uma criação do famoso roteirista italiano Gianfranco Manfredi, criador das bem quistas séries Mágico Vento e Adam Wild, também publicadas pela Bonelli. O texto de Manfredi faz jus a sua fama, seja qual for a história escrita por ele, e Face Oculta não foge deste altíssimo padrão de qualidade, especialmente pelo fato do autor se distanciar dos arquétipos de “lado bom e lado mau” típico de visões históricas como esta. Apesar da história parecer algo muito italiano, feito para italianos lerem, a aventura te prende do começo ao fim através de personagens cativantes, reviravoltas e muitas outras características típicas dos ótimos quadrinhos Bonelli. É importante lembrar que a iniciativa da Bonelli em lançar minisséries fechadas existia há algum tempo, com séries como Brad Barron, Demian e posteriormente Cassidy, mas também era uma empreitada relativamente nova e bem sucedida.

A história apresentada nas quatro primeiras edições encadernadas pela Panini é narrada através dos três personagens italianos principais: Ugo Pastore, um jovem leal que trabalha como contador; Vittorio De Cesari, melhor amigo de Ugo e Tenente do exército italiano, e Matilde Sereni, vítima de uma doença de estresse traumática envolvida numa espécie de triângulo amoroso com os outros dois personagens, algo típico das heroínas de romances e das óperas líricas do período em que a obra se situa. Além destes, temos Face Oculta, o líder de uma espécie de culto da Etiópia, e o Rei Menelik II acompanhado de sua esposa Taytu, estes últimos, um casal de figuras históricas etíopes reais.

A misteriosa figura chamada Face Oculta move parte da narrativa neste início de série.
A misteriosa figura chamada Face Oculta move parte da narrativa neste início da série.

Manfredi conta sua história de forma magistral, passando aos poucos por alguns anos deste período, sem pressa e atento aos mínimos detalhes da trama construída. Seu texto é cativante, envolvente e desperta a curiosidade do leitor, que é ainda mais convencido ao presenciar tamanha beleza em prosa somada à belíssima arte de alguns mestres dos quadrinhos, sendo os responsáveis por estas primeiras edições Goran Parlov, Massimo Rotundo, Alessandro Nespolino e Ersin Burak. Os quatro nomes citados possuem estilos artísticos bem distintos, porém cada um traz uma característica nova e positiva para dentro do quadrinho, fazendo com que o leitor sinta uma boa mudança de ares a cada novo capítulo.

O autor também tem o cuidado de situar o leitor através de textos editoriais no término de cada edição e início da próxima, com comentários adicionais e informações que mostram o que é fato real e o que foi inventado para esta aventura. Manfredi brinca com os fatos e figuras históricas e toma a liberdade que qualquer autor necessita para criar sua própria e, muitas vezes melhor que qualquer outra totalmente fiel à realidade, narrativa.

Os três italianos que protagonizam Face Oculta.
Os três protagonistas italianos de Face Oculta.

O capricho editorial da editora Panini também merece destaque, já que esta é a segunda vez que a obra é publicada no Brasil. Em meados de 2012, a editora multinacional deu início a série lançando-a em capítulos, como no formato original italiano. Com as baixas vendas, o segundo capítulo foi o último a aparecer nas bancas, e a minissérie foi descontinuada. Com esta nova edição os leitores têm a chance de conferir material inédito, visto que o encadernado de 384 páginas compila os quatro primeiros capítulos. A forma que a editora encontrou para lançar este material foi em parceria com a Comix Book Shop, como parte da comemoração de 30 anos da empresa, com baixa tiragem e sendo vendido exclusivamente nesta loja parceira.

Arte de Goran Parlov.
Arte de Goran Parlov.

Apesar do empecilho e da possível dificuldade para encontrar este material, a história apresentada é altamente recomendada para qualquer apreciador de bons quadrinhos, e essencial para qualquer fã dos quadrinhos Bonelli. Na Napoli Comicon de 2008 a série recebeu o Prêmio Attilio Micheluzzi de Melhor Série de Desenho Realista. Nos próximos capítulos (ainda faltam dez para a conclusão da história) os leitores presenciarão a arte de outros ótimos artistas como Leomacs, Roberto Diso, Giovanni Freghieri, Giuseppe Matteoni e Gigi Simeoni, além do retorno de alguns ilustradores presentes nesta primeira edição. A editora Panini prometeu novidades com relação a série para 2017, então permanece viva a esperança de que finalmente poderemos ler a ótima história de Face Oculta até o seu final.

Face Oculta – Volume Um possui 384 páginas no formato 16 x 21 cm, e reúne as quatro primeiras histórias da série italiana com preço de capa de R$ 39,90. O encadernado pode ser encontrado exclusivamente nas lojas física e virtual da Comix.

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Tex Graphic Novel: conheça a linha autoral de Tex

Tex Willer é o personagem mais famoso dos quadrinhos italianos, e um dos personagens mais famosos e longevos do mundo. Publicado ininterruptamente pela Sergio Bonelli Editore desde 1948, o ranger sempre foi sucesso de vendas por onde passa, tendo sido superado por algum tempo na Itália apenas pela série Dylan Dog. Nos seus mais de 60 anos de história, o herói western já teve muitas revistas e séries diferentes, porém nenhuma tão inventiva e desatada de amarras cronológicas como a série Tex Graphic Novel.

Criado por Gian Luigi Bonelli e Aurelio Gallepini, Tex é um marco dos quadrinhos europeus. Por muito tempo o personagem ficou atado às amarras cronológicas e dos mesmos moldes de publicação, até que em 2015 foi lançada na Itália a história “O Herói e A Lenda” (L’eroe e La Leggenda), dando início a uma série de graphic novels apelidadas de “Tex D’autore“, onde os autores estão livres para reinventar o personagem da forma que bem entenderem, e sem precisarem necessariamente se ater à cronologia, podendo voltar ou avançar no tempo conforme sua vontade.

Capa nacional da primeira Tex Graphic Novel.
Capa nacional da primeira Tex Graphic Novel.

Esta primeira edição especial era um projeto há muito tempo idealizado por Sergio Bonelli e Paolo Eleuteri Serpieri, criador da personagem Druuna, porém nunca colocado em prática até poucos anos atrás. Serpieri é um grande ilustrador italiano dotado de uma arte extremamente realística, bem detalhada e sombreada, feita através de seus traços suaves. Sua graphic novel de Tex (que, é importante dizer, deu início a uma série de álbuns em formato maior que as típicas revistas em quadrinhos italianas, além de serem histórias feitas em cores) é tomada como uma “edição zero“, onde o formato foi apresentado e a premissa foi lançada.

A história feita pelo italiano “pai da Druuna” é uma narrativa-prequel que se adequa ao famoso conceito dos quadrinhos Elseworld (mundo diferente), visto que o autor nos apresenta um Águia da Noite (nome navajo de Tex) mais jovem, violento e implacável, algo típico dos quadrinhos de faroeste criados pelo artista, ao mesmo tempo que um Kit Carson envelhecido narra toda a história sentado na poltrona de um asilo. Serpieri quebra o conservadorismo típico dos quadrinhos Tex, e sua reinvenção do personagem pode chocar os fãs do personagem tradicional. De quebra, o ilustrador e roteirista também reserva uma reviravolta surpreendente para o final da narrativa, prestando uma bela homenagem imprevisível.

Página de "O Herói e a Lenda". Tex entra em ação pela primeira vez dentro da história.
Página de “O Herói e a Lenda”. Tex entra em ação pela primeira vez dentro da história.

Movidos pelo sucesso da história de Serpieri, a Sergio Bonelli Editore continuou a lançar histórias no mesmo formato, sendo a sucessora, “Frontera!“, escrita por Mauro Boselli e com arte de Mario Alberti.

Boselli já é figurinha carimbada nos quadrinhos Tex, escrevendo diversas histórias para a editora italiana e também supervisionando tudo que é feito com o ranger. A arte de Mario Alberti, que já passou por outras séries da Bonelli como Nathan Never e Legs Weaver, além de ser capista de quadrinhos da Marvel e DC Comics, nos entrega um Tex com um visual que remete ao tradicional, porém mais jovem, visto que esta história é a primeira desta coleção a se livrar das amarras cronológicas do personagem. Enquanto “O Herói e A Lenda” era uma reinvenção, “Frontera!” é um retorno ao passado.

Capa nacional de "Frontera!".
Capa nacional de “Frontera!”.

Boselli situa o leitor novamente no período em que Tex era um fora-da-lei, e cria uma narrativa envolvendo a vingança da personagem Blanche Denoel e a decisão do fugitivo de sanar a podridão dos rangers que são apresentados ao longo da aventura. Enquanto o volume anterior criado por Serpieri se afastava do tradicional das aventuras de Tex, esta edição insere o leitor novamente na sua zona de conforto, e por isso é tida como o “volume um” desta coleção, apresentando uma história que se assemelha mais aos padrões da série recorrente do ranger, se livrando apenas do tempo atual em que o personagem se encontra.

Os autores então trazem de volta o Tex autêntico, através de um texto bem refinado e uma belíssima arte, com uma boa narrativa e bela colorização. Os fãs mais antigos podem voltar a ver um Kit Carson mais jovem, ainda com seus cabelos (quase totalmente) negros, porém tão bem humorado e rabugento como sempre.

Primeira página de "Frontera!".
Primeira página de “Frontera!”

Existem outros dois volumes publicados na Itália até o momento, sendo eles “Painted Desert” de Mauro Boselli e Angelo Stano, artista de Dylan Dog, e a história “Sfida Nel Montana“, com roteiro de Gianfranco Manfredi, famoso roteirista de quadrinhos Bonelli, como Face Oculta, e arte de Giulio De Vita, artista de Lazarus Ledd, Wisher, Kylion e outros.

Capas dos próximos volumes, ambos publicados na Itália.

A série “Tex Graphic Novel” é uma bela adição às diversas coleções do Águia da Noite, o ranger mais querido dos quadrinhos. Livre de quaisquer amarras editoriais e oferecendo total liberdade para os mais variados e talentosos artistas e roteiristas criarem as histórias que bem quiserem, os volumes publicados até o momento entregam um show de narrativa gráfica, além de servirem como uma boa porta de entrada para novos leitores, ao mesmo tempo que prestam diversas homenagens aos leitores mais antigos. A série é mais uma prova da longevidade infinita e da boa qualidade de histórias destes personagens tão queridos dos quadrinhos italianos.

No Brasil, as duas primeiras Tex Graphic Novel foram publicadas em 2016 pela Mythos Editora, casa do personagem desde 1999. A editora manteve o formato magazine (20,5 x 27,5 cm), com 52 páginas e capa cartão ao valor de R$ 29,90.