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Guardiã | A Detetive do Sobrenatural de Robbert Damen

Casos sobrenaturais acontecem em uma Londres vitoriana, especialmente durante as noites cheias de nevoeiros e na presença de pessoas influentes. A Guardiã, criação do holandês Robbert Damen, é uma investigadora da Scotland Yard responsável por lidar com o paranormal, confrontando criaturas bizarras que desafiam a lei. As histórias desta forte personagem feminina chegaram ao Brasil pela AVEC Editora em um álbum que compila três aventuras fechadas cheias de ação, humor e reviravoltas!

A revista holandesa Eppo, resultado de uma fusão entre as revistas Pep e Sjors, possui uma extensa história que vem desde os anos 70. Em 1975, a Eppo foi criada como uma revista semanal, publicada até 1988, quando tornou-se quinzenal até ser cancelada em 1999 (durante todo este período, com nomes diferentes do atual). Dez anos depois, em 2009, a revista foi ressuscitada. No semanário surgiram grandes séries como Storm, Roel Dijkstra e Franka, sendo que em 2012 Damen deu início à sua série da Guardiã.

Imagine Sherlock Holmes com alguns poderes mágicos investigando somente casos que fogem do normal, indo da magia ao licantropismo. A Guardiã, detetive do sobrenatural, é uma personagem feminina forte que vive suas investigações em uma época muito marcante, especialmente por conta da visão machista exacerbada que a sociedade tinha da mulher. Sendo a protagonista e principal investigadora da organização policial britânica, a heroína quebra paradigmas retratados com fidelidade histórica, e com carisma e charme únicos, desvenda os três mistérios deste primeiro álbum.

As histórias da Guardiã são divididas em figuras centrais que dão nome às aventuras. Sir Godfried, Srta. Banning e Doutor Lowe são, de alguma forma, os principais enigmas que e detetive deve solucionar, usando seu bastão mágico e seu conhecimento adquirido ao longo de uma extensa carreira. O passado da Guardiã e tudo que a cerca é bem misterioso: não sabemos praticamente nada sobre sua vida, sendo que apenas uma figura familiar é apresentada no decorrer do álbum. “De onde ela veio? Como se tornou o que é hoje? Como funciona seu bastão mágico?” são algumas das perguntas que ficam abertas na cabeça do leitor, aumentando o desejo de conhecer mais sobre este mundo.

A arte de Robbert Damen, que iniciou sua carreira nos anos 90 como colaborador de publicações independentes e tornou-se posteriormente argumentista e ilustrador da revista semanal do Pato Donald, é típica do quadrinho europeu de linha clara, muito marcante no mercado franco-belga, onde com traços suaves o autor passa expressão e fidelidade aos cenários da época em que a série está situada, no século XIX. Suas personagens femininas são sensuais enquanto os homens são volumosos ou nobres, e as cores são competentes para criar a atmosfera ideal em cada um dos cenários, indo do raiar do dia ao sombrio e temeroso aspecto da madrugada.

A principal diversão das histórias da Guardiã é acompanhar sua narração de pensamento, como uma espécie de diário, sempre um passo adiante da polícia comum. Apesar de curtos, os relatos se desenvolvem agradavelmente guardando plot twists para o meio e para o final das investigações. Uma leve dose de humor se faz presente em alguns diálogos, e as cenas de ação sempre são muito bem retratadas. Especificamente na terceira história, há uma sequência com uma carruagem na chuva que é lindamente ilustrada, com uma fluidez única.

Apesar de um leve exagero em alguns diálogos, a HQ da Guardiã acrescenta muito ao mercado nacional e ao catálogo da AVEC Editora, que já possui um bom número de quadrinhos europeus protagonizados por personagens femininas (Alena, January Jones, Ember e a própria Guardiã), sem falar das ótimas histórias nacionais como Beladona e Galicia.

No exterior há também um segundo álbum, intitulado “Gillian – Edward“, que compila mais duas histórias da personagem. Espera-se que a AVEC Editora possa trazê-lo ao Brasil, repetindo a lufada de ar fresco para as livrarias nacionais como foi este primeiro compilado de aventuras, um material tão diferente e de qualidade acima da média.

Guardiã: A Detetive do Sobrenatural – Vol. 1 possui 48 páginas encadernadas no formato 28 x 21 cm com preço de capa sugerido R$ 34,90.

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Guia de Leitura #23 | Hellboy

Criado por Mike Mignola em 1993, Hellboy rapidamente tornou-se um fenômeno dos quadrinhos e da cultura pop. Tendo surgido inicialmente em uma história curta feita para a San Diego Comic-Con, o Garoto do Inferno é publicado nos Estados Unidos desde 1994 pela Dark Horse Comics, onde histórias cronológicas, flashbacks e spin-offs são produzidos massivamente. No Brasil, o personagem é publicado desde 1998 pela Mythos Editora, que segue com novidades até os dias de hoje. Este Guia tem como objetivo introduzir o personagem a novos leitores e estabelecer uma ordem correta de leitura para seus encadernados, contendo todas as informações básicas e intermediárias para um iniciante. Confira abaixo o Guia sobre Hellboy mais completo do Brasil!

Introdução ao universo

Hellboy, nascido nas profundezas do Inferno com o nome Anung un Rama, é filho do demônio Azzael com uma feiticeira humana, Sarah Hughes. Após ter sido invocado pelo monge louco Rasputin, em parceria com a Alemanha Nazista visando o projeto que viria a trazer o apocalipse à Terra, Ragnarok, o garoto demoníaco é salvo pelo Professor Trevor Bruttenholm e soldados aliados em 1944. Ensinando boa índole ao garoto, o apelidado Hellboy ganha status honorário de humano pelas Nações Unidas em 1952 e torna-se, na maioridade, um agente especial do B.P.D.P., o Bureau de Pesquisas & Defesa Paranormal, que trabalha na investigação de casos sobrenaturais que vão desde aparições de lobisomens e vampiros até fantasmas, demônios e principalmente nazistas.

Trabalhando para o B.P.D.P. Hellboy aprende mais sobre suas origens, seu passado e seus companheiros, interagindo com figuras como Abe Sapien, Liz Sherman, Roger e Johann Kraus. Entre as mais variadas histórias, que vão desde revisitações de contos mitológicos antigos até encontros retrofuturistas com cientistas loucos, a vida do Vermelhão é cheia de reviravoltas e novas descobertas. O propósito de Hellboy é servir como chave para a libertação do Ogdru Jahad, os Sete Deuses do Caos, por isso as alcunhas de Grande Fera e Destruidor do Mundo o acompanham em qualquer lugar que vá, atormentado pelos propósitos nefastos de sua existência. E o herói deve lidar com este fato, tendo de escolher entre servir ao seu destino estabelecido pelos demônios ou seguir sua criação humana ensinada por seu pai adotivo.

A Mão Direita da Perdição, poderes e companheiros

Hellboy possui alguns equipamentos e poderes que o ajudam em suas aventuras, especialmente quando precisa cair na porrada. Sua marca registrada é a Mão Direita da Perdição, um símbolo criado para ser algo como o Mjolnir é para o Thor, sendo que este fardo para o herói infernal possui o propósito de ser a chave da libertação do Ogdru Jahad. Além de sua mão direita, Hellboy também possui uma resistência sobre-humana, longevidade, força, regeneração celular acelerada, amplo conhecimento do sobrenatural e um tipo leve de invulnerabilidade, sempre carregando também sua pistola, já que foi treinado na arte do tiro pelo herói Tocha da Liberdade, tornando-o o investigador ideal para qualquer caso, dos intelectuais aos mais brutos.

Durante sua infância, Hellboy era fã de personagens fictícios ou históricos como Lagosta Johnson e o já citado Tocha da Liberdade. Entrando para o B.P.D.P., o herói fez amizade com figuras bem peculiares. Destacam-se: Abe Sapien, um ser similar ao tritão que possui habilidades telepáticas; Liz Sherman, espiã e pirocinética; Roger, o homúnculo criado por alquimia e Johann Kraus, um espírito ectoplasmático com habilidades psíquicas que habita uma roupa de contenção.

Mundo real: inspirações e como funciona sua publicação

Mignola criou o Hellboy através de uma mistura entre diversos estilos literários. A principal influência é a literatura pulp, onde destaca-se a forte inspiração em H.P. Lovecraft, utilizada especialmente nas criaturas do submundo. Unindo Lovecraft a alguns clássicos dos quadrinhos com principal inspiração em Jack Kirby, o autor também mistura mitos folclóricos de diversas regiões do mundo, especialmente da Europa, com monstros clássicos típicos do Expressionismo Alemão, e fecha o bem-bolado com uma pitada recorrente de steampunk e arquitetura gótica.

A publicação dos quadrinhos do Hellboy pode ser dividida em três tipos: histórias cronológicas, flashbacks e spin-offs. As histórias cronológicas, como o nome já diz, seguem um rumo definido e contínuo, que começou na história de origem do personagem e segue numa crescente de descobertas e acontecimentos situados no presente. Os famosos flashbacks são histórias situadas no passado de Hellboy, trabalhando no B.P.D.P. (ou não) ao longo de seus muitos anos de carreira, e os spin-offs são as séries dedicadas ao próprio B.P.D.P. e a outros personagens deste universo. Autores variados trabalham nas histórias de flashback e spin-offs, porém as histórias situadas no presente são majoritariamente escritas e desenhadas por Mignola, com apoio do artista Duncan Fegredo em alguns momentos.

Ordem de leitura

Como dito no parágrafo anterior, existem diversas ordens de leitura para os materiais do Hellboy. Abaixo, separamos os encadernados publicados no Brasil em ordem cronológica, em ordem de flashbacks e, por fim, na ordem correta e cronológica dos spin-offs. Através desta separação o leitor poderá conhecer a cronologia contínua do personagem e optar por desbravar outros momentos da história do Hellboy com gibis alternativos. É importante lembrar que, apesar de separadas, algumas das histórias tidas como flashbacks acrescentam algo à mitologia principal do personagem, e alguns dos spin-offs também são essenciais para a história principal deste universo. Sem mais delongas, vamos aos quadrinhos cronológicos situados no presente:

Flashbacks & Outras Histórias

Spin-offs

Livros

Curiosidades

Quando criou Hellboy, Mike Mignola pediu ajuda a John Byrne no que tange aos diálogos. Inseguro, ainda em início de carreira como argumentista, logo Mignola percebeu (com um toque óbvio de Byrne) que não precisava mais de ajuda para escrever, já que sua segunda história, O Despertar do Demônio, era uma pequena obra-prima por si só. Graças a esta parceria com Byrne, a origem do Hellboy está atrelada ao Tocha da Liberdade, que é uma criação do quadrinista e colaborador.

O personagem teve dois filmes live-action dirigidos por Guillermo del Toro e protagonizados por Ron Perlman, sendo eles Hellboy (2004) e Hellboy II: O Exército Dourado (2008). Apesar de serem sucessos leves de bilheteria, devido a diferenças criativas com Mignola, os boatos são de que um terceiro filme foi engavetado. Um reboot para maiores de 18 anos foi anunciado recentemente, dirigido por Neil Marshall e protagonizado por David Harbour. Existem também dois filmes animados, Espada das Tempestades (2006) e Sangue & Ferro (2007).

Por muitos anos Mignola não permitiu que outros profissionais tocassem em seu personagem. Com o passar do tempo, diversos nomes foram rigorosamente selecionados, dentre eles Richard Corben, Duncan Fegredo, Gabriel Bá, Fabio Moon, Alex Maleev, Paolo Rivera, John Arcudi, Scott Hampton, Kevin Nowlan e Chris Roberson. Hoje, após um longo período afastado das pranchetas, Mignola voltou a ilustrar as histórias do Hellboy situadas no presente.

Há poucas semanas foi anunciada uma bebida destilada que leva o personagem em seu rótulo. O nome da marvada é Hellboy Hell Water Cinnamon Whiskey.

E aí? Ficou interessado em acompanhar as histórias do Garoto do Inferno? Compre os encadernados através da Amazon, e fique ligado pois os lançamentos não param por aí, e conforme as novidades forem chegando, este Guia irá acompanhá-las. Boa leitura!

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Zenith – Volume Um | A primeira obra-prima de Grant Morrison

Em 1986 Alan Moore estava lançando nos Estados Unidos sua obra seminal Watchmen. Poucos anos antes, o mago inglês criava sua fagulha inicial da ideia que viria a se tornar a já citada série da DC Comics enquanto escrevia Miracleman (na época ainda chamado de Marvelman). Em 1987, motivado pelo sucesso dos super-heróis sérios da época, Grant Morrison criou sua resposta a Watchmen através de Zenith, que viria a utilizar conceitos similares aos das obras de Moore com um estilo muito mais fantasioso e divertido, pegada típica do autor quando trabalha com super-heróis. Sem deixar de lado, é claro, o caráter louco que tornou-se marca registrada do escocês.

Após uma série de histórias curtas dos Choques Futuristas, e tendo trabalhado na série Zoids pouco tempo antes, Morrison estava finalmente criando sua primeira aventura mais longa. Esta série, que teve início na prog 535 da 2000 AD (em agosto de 1987), conta com arte de Steve Yeowell e designs originais de Brendan McCarthy, e já era uma amostra dos roteiros megalomaníacos de Morrison que iriam se estender para suas outras histórias no futuro. Nela, Zenith é o personagem principal, e o único descendente de uma geração de superseres desenvolvidos pelo governo britânico após/durante a 2ª Guerra Mundial.

Ao invés de usar seus poderes (voar, resistência, força) para o bem da sociedade, o protagonista se aproveita do título de único super-herói em atividade para seguir carreira como pop star, até que se encontra envolvido em um confronto contra um ser de outra dimensão, que toma posse do corpo de um meta-humano nazista revivido por cientistas loucos para servir como receptáculo de uma entidade lovecraftiana.

Apesar de toda a bizarrice descrita acima, esta série – pelo menos as duas primeiras fases, compiladas no encadernado Zenith – Volume Um da Mythos Editora – é de fácil compreensão, sem muita complexidade no roteiro. Mesmo sendo descrita como a primeira de super-heróis da 2000 AD, o personagem que dá o nome à história não é nada heroico, e os coadjuvantes são mais interessantes e possuem melhores personalidades do que ele. O grupo Nuvem 9 (que se assemelha aos Minutemen de Watchmen), composto por heróis como Voltagem, Dragão Rubro e Mandala, marcou o retorno de uma Era Heróica após a Segunda Guerra, onde Maximan e Masterman (a contraparte nazista do herói britânico) lutaram e foram eliminados em um teste de bomba nuclear na cidade de Berlim.

Morrison brinca com a história real da existência dos super-heróis ao longo da Fase Um de Zenith. Ao situar o início da Era Heróica como o período da Guerra, o autor cria um paralelo com a realidade, onde os heróis surgiram na década de 30 e tornaram-se um hit durante o conflito, caindo num período de esquecimento em seguida (durante os anos 50) e sendo revividos na década de 60. A trajetória é muito parecida no mundo real e no mundo fictício de Zenith, onde com maestria a dupla criativa responsável pela série costura muitas tramas paralelas e cria uma cronologia única e muito bem estabelecida. Ao invés de Hiroshima, temos Berlim. Maximan é uma espécie de Superman britânico. E sobra ironia até para Fredric Wertham, o psiquiatra autor da Sedução dos Inocentes.

Como diz em seu livro Superdeuses, Morrison utiliza a série para, pela primeira vez, transportar-se para os quadrinhos. Anos mais tarde, o autor faria algo parecido com o King Mob da série Os Invisíveis, e de forma literal no encontro das páginas do Homem-Animal. Na persona de Zenith o autor insere todas as suas características mentais (e algumas físicas) da época, transportando sua personalidade para o protagonista da série. Ao fazer isto, cria também personalidades fantásticas que vieram a se tornar verdadeiras celebridades dos quadrinhos britânicos, como o já citado Peter St. John, o Mandala (um tipo de Doutor Manhattan de Zenith), e rega suas páginas com muitas referências da cultura pop da época, criando um apelo adicional único sem pesar a mão nas alusões literárias.

Enquanto Watchmen é uma espécie de literatura séria e rebuscada, Zenith foi criado como um escapismo jovial puro e simples. A arte de Steve Yeowell é um mangá ocidental de alto contraste, onde os designs de Brendan McCarthy criam vida com fluidez e simplicidade extremamente agradáveis.

Durante toda a introdutória Fase Um, a dupla criativa Morrison & Yeowell trabalha para estabelecer as características primordiais da série, como a existência dos Multiângulos e dos heróis, para descambar na Fase Dois onde são explorados alguns detalhes do passado de Zenith, da existência dos Lloigor e o conceito do Multiverso, aqui apelidado de Alterna. A utilização de Terras Paralelas rendeu para a série a alcunha de “Crise nas Infinitas Terras dos quadrinhos britânicos.”

A edição de luxo nacional da Mythos Editora compila as Fases Um e Dois na íntegra, com seus interlúdios e extras. Apesar de não ser um material inédito no Brasil, por já ter sido publicado em meados dos anos 2000 pela extinta Pandora Books, é a primeira vez que a série chega ao país de forma oficial em seu formato original, sem cortes e com nova tradução pelas mãos do gabaritado Érico Assis. E o tratamento gráfico dado ao encadernado é primoroso.

Talvez o Grant Morrison de Zenith seja mais acessível para os leitores que gostam de séries descompromissadas e com uma dose de nonsense divertido e empolgante, coisa que o autor extrapolou em suas histórias para a DC e Marvel e também nas continuações desta própria publicação. E deixando um gancho para as continuações, encarnadas nas Fases Três e Quatro (esta última inédita no Brasil, totalmente colorida e sendo publicada em breve pela Mythos), a empolgante história do cantor Zenith e todos que o cercam parece estar apenas começando, de uma forma tão excelente que nem parece o início da carreira de um roteirista, provando sua genialidade desde cedo.

Zenith – Volume Um possui 212 páginas encadernadas em capa dura no formato 26 x 19 cm, com preço de capa sugerido R$ 74,90.

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Mythos Editora lança Edição de Ouro do Hellboy

Está chegando às livrarias uma edição especial do Hellboy, a criação máxima de Mike Mignola. Hellboy: Edição de Ouro – Contos Bizarros compila dois volumes lançados há alguns anos pela Mythos Editora, agora em formato de luxo e acabamento gráfico especial. Confira os detalhes abaixo!

Em 1994, Mike Mignola lançou um projeto autoral muito inusitado e visualmente cativante. Mais de duas décadas após, o protagonista e seu criador desfrutam toda sorte de sucesso possível na indústria da cultura popular. Dos quadrinhos, Hellboy e seus então aliados do Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal já migraram para a literatura, cinema, desenhos animados, brinquedos e jogos eletrônicos. No período em que Mignola precisou se afastar para acompanhar a produção do primeiro longa-metragem do Hellboy, sua ausência foi “compensada” com a antologia especial que a Mythos Books agora reedita, pela primeira vez, em um único e sensacional volume. Nas 284 páginas desta luxuosa edição, alguns dos maiores roteiristas e artistas da nona arte exploram o Universo Hellboy em um genial leque de “contos bizarros”, levando o mais surreal dos heróis aonde o próprio Mignola ainda não havia ousado.

Os materiais compilados neste encadernado foram publicados pela primeira vez no Brasil em dois volumes com capa cartão nos anos de 2006 e 2007.

Este especial conta com roteiros de Akira Yoshida, Alex Maleev, Andi Watson, Bob Fingerman, Craig Thompson, Doug Petrie, Eric Powell, Evan Dorkin, Fabian Nicieza, Haden Blackman, J. H. Williams III, Jason Pearson, Jill Thompson, Jim Pascoe, Joe Casey, John Arcudi, John Cassaday, Kev Walker, Kia Asamiya, Mark Ricketts, Matt Hollingsworth, Randy Stradley, Ron Marz, Sara Ryan, Scott Morse, Tom Fassbender, Tom Sniegoski, Tommy Lee Edwards e Will Pfeifer! Arte de Alex Maleev, Andi Watson, Bob Fingerman, Craig Thompson, Don Cameron, Eric Powell, Eric Wight, Evan Dorkin, Gene Colan, J.H. Williams III, Jason Pearson, Jill Thompson, Jim Starlin, John Cassaday, Kev Walker, Kia Asamiya, Ovi Nedelcu, P. Craig Russell, Roger Langridge, Seung Kim, Simon Wilkins, Stefano Raffaele, Steve Lieber, Steve Parkhouse e Tommy Lee Edwards! E mais: 18 páginas com texto de Mike Mignola e arte de Guy Davis!

Hellboy: Edição de Ouro – Contos Bizarros contém 284 páginas encadernadas em capa dura no formato 33,6 x 22 cm, similar ao encadernado Conan: O Libertador. O preço de capa sugerido é R$ 169,90.

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Não era você que eu esperava | Uma história sobre amor e Síndrome de Down

Existem histórias em quadrinhos que emocionam, e outras que emocionam ensinando algo para o leitor. Em sua primeira graphic novel, chamada Não era você que eu esperava, o autor Fabien Toulmé desmistifica e lida com a Síndrome de Down de maneira humana, tocante e muito sincera, com uma verdadeira montanha-russa de emoções.

A grandiosa Editora Nemo, parte do Grupo Editorial Autêntica, possui um catálogo recheado de obras extremamente relevantes para o mercado e principalmente para seus leitores. Pílulas Azuis, de Frederik Peeters, desmitifica os tabus sobre a AIDS. Desconstruindo Una, da artista Una, fala sobre a violência contra a mulher. E com o sincero Não era você que eu esperava, um dos lançamentos de destaque de 2017, a editora mais uma vez acerta ao escolher publicar uma obra, francesa com um pé no Brasil, tão humana e expressiva.

Fabien Toulmé, nascido em Orleans, na França, morava com sua esposa Patrícia em João Pessoa. Brasileira, sua esposa também é mãe de sua primeira filha, Louise, nascida na cidade paraibana. Ao decidirem ter uma segunda criança, que aparentava não necessitar de cuidados especiais durante a gestação, com o nascimento veio à tona uma notícia: Julia, a segunda filha do casal, era trissômica. Popularmente conhecida como a deficiência Síndrome de Down. Já vivendo na França os pais devem aprender sobre a condição de Julia tida como “anormal” por outras pessoas, indo da fúria à rejeição, da aceitação ao amor, e descobrindo se aquela criança não era realmente quem eles esperavam.

O principal adjetivo para esta história é sinceridade. Fabien relata, de forma divertida e preocupada, todos seus medos com relação às possíveis implicações de ter um filho que necessite de atenção especial e que seja diferente de outras crianças. De uma maneira humana, as preocupações e receios tornam-se rapidamente raiva, frustração e profunda tristeza, mergulhando a vida do casal num poço de aprendizado infinito. E sem medo em demonstrar suas falhas e características preconceituosas, como um leigo no assunto, a narrativa (que é autobiográfica) ganha uma camada de realismo que põe o leitor em cheque.

Indignado, como se houvesse levado um fortíssimo soco no estômago, Toulmé deixa clara por muito tempo sua rejeição a sua filha. E quando chega ao estágio da aceitação, você passa a admirar sua coragem por relatar seus sentimentos mais obscuros, através de sua arte com traços simples e cores que ajudam a demonstrar o que o artista sentia em cada período da vida de Julia, que além de possuir a deficiência, também nasceu com uma complicação cardíaca que devia ser tratada ao completar de um ano após o seu nascimento.

O autor narra todo este período delicado dos primeiros anos de Julia de forma muito bem-humorada. Caprichando nas referências, mostrando os acontecimentos mais absurdos e principalmente lidando com a enorme mudança social e psicológica na vida do casal, a história é cheia de passagens engraçadas que proporcionam à leitura uma leveza especial mesmo tratando de algo que, para muitos, é um tabu da sociedade. E ao aprender mais sobre a condição de sua filha, o pai babão também passa muito conhecimento aos leitores ao demonstrar que a famosa trissomia do 21 é algo que, por mais baixas as chances de existir, deve ser tratada sempre com normalidade e respeito.

É impensável o que um pai deve sentir quando posto numa situação tão delicada e inesperada, e esta história lida com isso com maestria. Ao mostrar a perspectiva de outras pessoas, como médicos, parentes e amigos, Fabien torna este diário em quadrinhos do nascimento de sua filha um verdadeiro presente especial.

E através da convivência com Julia, é nítida a sensação de que este pai tornou-se outro tipo de pessoa. Pois Julia podia não ser o que esperava, mas com certeza trouxe a maior felicidade do mundo por ter vindo.

Não era você que eu esperava possui 256 páginas encadernadas em formato 17 x 24 cm, e é um dos fortes candidatos ao topo das listas de melhores lançamentos de 2017. O preço de capa sugerido é R$ 59,80.

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Você não precisa exigir demais dos filmes de super-heróis

O princípio de ir ao cinema é querer a diversão, e os filmes de super-heróis na maioria dos casos proporcionam muita diversão, ou propõem algum tipo de reflexão ou inspiração. Entretanto, alguns consumidores exigem um padrão de qualidade absurdo desse tipo de filme. E será que deveria ser assim? Todos os filmes de super-heróis precisam ser obras-primas, ou algumas pessoas só estão ficando mais chatas conforme o tempo passa?

Existe uma frase máxima que diz: “Quando você vai consumir um produto com má vontade, você não irá gostar daquilo, mesmo que diga estar se esforçando.” Esta frase se encaixa em diversos contextos, desde o leitor de gibis até o consumidor de cinema, passando pelo fã de séries ou de música. É claro que todos devemos exigir um padrão de qualidade satisfatório para aquilo que gostamos, mas para algumas pessoas este padrão alcançou níveis inalcançáveis.

É comum, ao serem apresentadas para obras de uma qualidade acima da média, algumas pessoas passarem a desgostar de tudo que seja minimamente inferior (em quesitos técnicos ou não) àquela outra obra. E nisso, surgem pérolas como “este filme não é um Cavaleiro das Trevas, então não é tão bom“, girando uma roda de amargura infinita que aos poucos contamina a todos. Filmes de super-heróis não precisam ser obras-primas em 100% dos casos.

Digo isso baseando-me primeiramente no material de referência para tais filmes. Os quadrinhos, apesar de exceções que são verdadeiras perfeições, normalmente apresentam histórias consumidas como passatempo, feitas para entreter jovens e adultos que desejam sair um pouco da realidade e acompanhar aqueles personagens fictícios. E quase todos os filmes de super-heróis também são assim: você consome como um passatempo. Vai ao cinema, se diverte e fica tudo bem. Suspensão de descrença, como todos devem saber, refere-se à vontade de um leitor ou espectador de aceitar como verdadeiras as premissas de um trabalho de ficção, mesmo que elas sejam fantásticas, impossíveis ou contraditórias. E o mundo fictício dos super-heróis é todo baseado nisso.

Se você começa a exigir demais de certos entretenimentos, a qualidade não irá melhorar milagrosamente. Primeiramente, porque você é um ninguém, já que está dando seu dinheiro para um produto que já sabe que não irá gostar. O que vai acontecer é você se tornar um verdadeiro chato, onde nada lhe entretém. E você passará sua vida remoendo as “insuperáveis obras clássicas da humanidade”, reclamando de efeitos especiais (em filmes onde personagens precisam voar e soltar raios), dos vilões (vindos de uma mídia onde eles fazem diálogos expositivos com seus planos) ou de seríssimas incongruências como a existência de um índio americano num filme de Primeira Guerra Mundial… onde existem amazonas e deuses do Olimpo. Que absurdo! Quero meu dinheiro de volta!

Se você chegou ao triste ponto de procurar pelo em ovo para manter sua postura de reclamão, acredite quando digo que você é um dos piores tipos de consumidor. Entra em incríveis debates com outras pessoas que, ilogicamente, gostaram daquilo que você odeia. Tenta criar argumentos e questões para convencer os outros de que aquilo que eles gostam é um lixo tóxico. E nada muda, é só você lamentavelmente tentando criar mais ódio baseado na sua “experiência” e não aceitando a opinião do fã que se entreteve. E isso também vale para o sentido oposto, apesar de ser uma atitude menos comum.

É claro que gosto é algo que não se discute. Você pode não gostar, eu posso gostar, e a vida segue. O problema é quando o gosto torna-se um problema, já que ninguém sabe conviver com pessoas que discordam da sua opinião super embasada. Mas não estamos falando de gosto pessoal aqui, e sim de uma postura que visa sempre não gostar das coisas.

Aparentemente todas as pessoas também estão virando críticos profissionais de cinema. Mas a verdade é que quase ninguém é. É difícil simplesmente gostar ou não de algo sem tentar justificar expondo falhas técnicas ou estruturais das quais você nem sabe do que está falando. Principalmente se a pessoa, supostamente, tiver alguma influência nas mídias sociais, como um site ou canal de YouTube. E argumentos como “o filme te trata como burro” são risíveis por um lado, e extremamente tristes por outro, deixando pré-definido que o inteligentão é muito superior ao pobre burrinho que adorou ir ao cinema. E as vezes, a pessoa que não entendeu é o tal inteligente, que deixou passar um simples diálogo que explica uma situação.

É importante lembrar: você pode ir ao cinema de forma descompromissada. Assim como você pode ler um quadrinho, assistir uma série ou ouvir uma música só pelo entretenimento da coisa. Ninguém precisa ser um crítico expert em todos os assuntos, nem precisa justificar nada de forma super embasada. Divirta-se, acima de tudo. E se você vai consumir algo com má vontade ou exigindo um padrão de qualidade elevado, faça um favor para si mesmo e nem perca seu tempo. É uma dica muito útil que estou dando, já que você poderá economizar dinheiro e também utilizar as horas perdidas fazendo algo mais inteligente e proveitoso. Quem sabe?

Garanto que uma pessoa que gostou de algo não quer saber sua opinião que tenta fazê-la desgostar daquilo. E nem está interessada em ouvir supostas falhas. Ela está satisfeita. Dificilmente você mudará isso, Sr. Entendido.

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Zarabatana lança O Guia do Pai Sem Noção, novo livro de Guy Delisle

O lançamento da Zarabatana Books para o fim de maio e início de junho é o livro O Guia do Pai Sem Noção, do autor franco-canadense Guy Delisle. Confira os detalhes abaixo.

Já em seu terceiro volume na França, O Guia do Pai Sem Noção traz as divertidas situações vividas pelo autor e seus dois filhos: Louis e Alice. Obra do premiado autor franco-canadense Guy Delisle, de quem a Zarabatana Books já publicou quatro títulos, sucessos de crítica e vendas: Shenzhen – Uma Viagem à China, Pyongyang – Uma Viagem à Coreia do Norte, Crônicas Birmanesas e Crônicas de Jerusalém.

Delisle estudou animação no Sheridan College em Oakville, próximo a Toronto, e trabalhou, então, para o estúdio de animação CinéGroupe, em Montreal. Trabalhou, posteriormente, para diferentes estúdios no Canadá, Alemanha, França, China e Coréia do Norte.

Suas experiências como supervisor em estúdios de animação na Ásia são contadas em dois livros em quadrinhos: Shenzhen, publicado em 2000, no Brasil em 2009, contando sua experiência na China e Pyongyang, publicado em 2003, no Brasil em 2007, narrando suas impressões sobre o regime ditatorial norte-coreano. Publicou em 2009, um terceiro livro: Crônicas Birmanesas, em que narra sua viagem a Myanmar, denunciando o regime ditatorial deste país. Este álbum foi lançado no Brasil pela Zarabatana Books em 2013. Seus trabalhos já foram traduzidos para várias línguas e após a publicação destas obras, não é mais bem-vindo nos três países.

O Guia do Pai Sem Noção possui 192 páginas encadernadas no formato 21 x 14 cm, em capa brochura e preço sugerido R$ 44,00. A tradução é de Claudio Roberto Martini. Encontra-se em pré-venda na Amazon.

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SESI-SP Editora lança novo álbum de Spirou e Fantasio

A série de álbuns clássicos de Spirou e Fantasio da SESI-SP Editora será continuada a partir deste mês. Após um período de hiato, a editora está lançando o 15° volume da série original de Franquin no Spirou, chamado Z de Zorglub. Confira os detalhes e sinopse abaixo.

Zorglub, um cientista maluco e também perigoso, deseja que Champignac se torne seu colaborador. O conde, no entanto, tem outros planos. Spirou e Fantasio embarcam em mais uma aventura para enfrentar Zorglub e acabar com seus projetos mirabolantes.

O álbum, 15° na ordem original, faz parte da fase clássica do Spirou de Franquin, com Greg e Jidéhem. A editora já publicou os seis primeiros álbuns da série, sendo eles: Quatro aventuras de Spirou e Fantasio, Um Feiticeiro em Champignac, Os Chapéus Pretos, Spirou e os herdeiros, O roubo do Marsupilami e O chifre do rinoceronte. A fase de destaque de Franquin no personagem tem início no álbum Spirou e os herdeiros.

Além dos álbuns clássicos de Franquin, a SESI-SP Editora também publica a série Spirou de, onde grandes nomes criam graphic novels com histórias fechadas (ou continuadas) porém modernas, visando públicos diferentes. Entre os álbuns já publicados, estão O Spirou de Émile Bravo: O Diário de Um Ingênuo, e O Spirou de Schwartz & Yann, com os álbuns O Mensageiro Verde-Cinza e A Mulher Leopardo.

Spirou é um personagem que apareceu pela primeira vez em uma revista belga de 21 de abril de 1938. Um jovem aventureiro que trabalhava em um hotel e que, com o passar das edições, ganhou a companhia inseparável do repórter fotográfico Fantasio, desvendando tramas mirabolantes. Os roteiros coesos e os traços do chamado Estilo Atômico – grande rival de “Tintim” de Hergé e da Linha Clara – trouxeram popularidade aos trabalhos, conquistando fãs ao redor do mundo. Os álbuns podem ser lidos fora de ordem, apesar de haver um senso mínimo de cronologia.

Em seu catálogo a SESI-SP Editora possui outras séries europeias, como Gus, Valerian, Valentine, Verões Felizes e a mais recente anunciada Blacksad. Por enquanto é possível adquirir o novo álbum de Spirou somente através da Amazon.

Z de Zorglub possui 64 páginas encadernadas em brochura, com lombada quadrada no formato 29 x 21 cm e preço de capa sugerido R$ 36,00.

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Inuyashiki | A chocante sociedade japonesa retratada na ficção científica

Hiroya Oku é um autor controverso. Após 13 anos escrevendo e desenhando sua série mais longeva, Gantz, com a criação de Inuyashiki em 2014 o mangaká parece ter encontrado novos ares para sua habilidade primária: criar histórias de ficção-científica com algum valor moral, abordando aspectos da sociedade japonesa moderna através da violência típica de suas obras, com um visual extremamente realístico e cenas chocantes.

Em 1999 Oku lançou sua primeira obra com um pé no sci-fi. Zero One era uma história sobre um torneio de videogame, e o sucesso não foi alcançado como em sua série prévia de comédia romântica, Hen. Apesar do fracasso o autor iniciou em seguida sua mais duradoura e bem-sucedida publicação, Gantz, que rende frutos até hoje e através de uma narrativa louca, violenta e chocante, tornou-se um dos seinen mais marcantes dos quadrinhos japoneses.

Um dos aspectos de Gantz era, no meio da violência, sexo e alienígenas bizarros, tecer críticas à forma de viver dos seres humanos. Abordando a superficialidade do coletivo, preconceito e até mesmo falando sobre o papel da mulher no mundo (da forma mais rasa possível, mas está lá), as camadas mais “profundas” do mangá perdiam-se no meio de robôs gigantes e roupas coladas, com muitos peitos e bundas.

Com o fim da série em 2013, Oku levou um ano para bolar o que, aparentemente, é sua obra mais intelectual, sem deixar perder sua assinatura e estilo que ficaram marcados no universo de Gantz. Inuyashiki veio ao mundo nas páginas da revista Evening japonesa e agora alcança as bancas do Brasil em volumes bimestrais publicados pela editora Panini.

Inuyashiki possui uma premissa semelhante a de Parasyte (Kiseijuu), mangá de Hitoshi Iwaaki publicado no Brasil pela Editora JBC. A história é centrada em Ichiro Inuyashiki, um senhor de 58 anos que aparenta ser muito mais velho. Sua família não dá muita bola pra ele e constantemente o desrespeita, e no meio de sua vida infeliz, Ichiro descobre estar com um câncer terminal. Rodeado em desgraça, o senhor acaba por se envolver em um acontecimento que altera sua perspectiva da realidade: ele é transformado num ciborgue. E daí pra frente, a vida de Inuyashiki muda de forma radical.

Oku parece possuir uma missão com este mangá. Todo o primeiro volume é centrado quase que exclusivamente em criticar os aspectos mais deploráveis da sociedade japonesa moderna, que vão desde a marginalização dos jovens até o desrespeito e falta de empatia pelos mais velhos. Os idosos do Japão são desprezados, ignorados e solitários, enquanto as pessoas mais novas agem de forma egoísta, instável e passional. As críticas sociais, típicas de qualquer boa ficção científica, misturam-se com a vontade de Ichiro ao passar por esta experiência com “seres alienígenas” que mudaram seu corpo: tornar-se uma espécie de justiceiro, um super-herói que faz o bem para a humanidade, agindo onde ninguém mais parece enxergar os problemas.

Obviamente, surge também um possível antagonista que passou por essa “experiência” ao lado de Ichiro e tornou-se um psicopata assassino.

O autor pesa a mão na dramaticidade, algo extremamente necessário para uma história que toca em assuntos tão delicados. O objetivo aqui é chocar o leitor, propor uma reflexão que se aplica também ao nosso dia-a-dia, e tentar expandir a visão de mundo dos leitores, criando paralelos entre a personalidade do leitor com algum dos personagens secundários, cheios de falhas de caráter e vivendo suas vidas das formas mais comuns e desprezíveis.

A semelhança com Parasyte é traçada no modo em que a trama é abordada. De forma similar, os protagonistas passam por um de contato alienígena que os torna super poderosos, e tentam agir para o bem da sociedade. Da mesma forma, outra pessoa (no caso da obra de Iwaaki, outras) passa pela mesma mudança, e vai para o lado oposto. E no meio disso, as questões sociais, políticas e reflexivas são abordadas, com choques culturais e um texto sofisticado em ambos os casos.

Deixando de lado o principal atrativo, que é sua temática, Inuyashiki também é um mangá lindamente ilustrado. Oku-sensei refinou seu traço ao longo dos treze anos de Gantz, tornando-o ainda mais realístico, bem detalhado e fluido, com uma movimentação única que poucos profissionais conseguem retratar com clareza. A beleza da arte também contribui para a imersão, visto que este mundo é extremamente similar ao nosso, facilitando o reconhecimento e potencializando a mensagem que deve ser passada.

O mangaká também brinca com a metalinguagem, inserindo outros mangás na narrativa, tornando este mundo teoricamente fictício algo verdadeiramente inserido na realidade, um perfeito retrato do nosso mundo quando somado ao seu já citado belíssimo traço.

E apesar da narrativa mais calma, com capítulos cadenciados de forma bem amena, rapidamente o passar das páginas torna-se algo frenético, com ação e cenas marcantes, misturando emoção e repulsa pelos acontecimentos. Este desenrolar é típico dos mangás de Oku-sensei, que deixam o leitor empolgado e curioso para saber o que acontecerá em seguida. E ao contrário de Gantz, aqui ele não deve se perder na aventura, já que o final da obra está programado para setembro, quando o décimo e último volume da série será lançado no Japão.

Inuyashiki é tudo de bom que o gênero da ficção científica tem a oferecer. Apesar do currículo estranho de seu autor (ele mesmo brinca com isso), a obra parece vir para acrescentar algo ao mercado, unindo-se aos outros ótimos mangás com premissas mais reflexivas, como Assassination Classroom – que é uma crítica ao sistema de ensino – e Arakawa Under The Bridge, que fala sobre a aceitação do diferente na comunidade.

E sendo outro ótimo candidato ao posto de melhor mangá do ano, a obra de Hiroya Oku também acrescenta qualidade ao mercado, que passa atualmente por um belíssimo momento onde verdadeiros clássicos e novos-clássicos enchem as prateleiras de bancas e livrarias de todo o Brasil. A edição também conta com um belo glossário em suas páginas finais, que explica as referências e termos utilizados ao longo das 204 páginas do primeiro volume, que assim como a edição japonesa, possui um efeito holográfico especial em sua capa. Um capricho editorial respeitável, que faz valer cada centavo dos R$ 13,90 cobrados.

Recentemente o estúdio MAPPA anunciou que adaptará a obra para um anime, além de haver um filme live-action programado para 2018.

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Você não precisa ser babaca para ser fã de quadrinhos

Quadrinhos, gibis, HQs, comics, revistinhas, banda desenhada. Todos termos que representam uma única coisa, que une as pessoas que compartilham uma mesma paixão ao redor do mundo. O amor pelas histórias em quadrinhos nasce de diversas fontes: adaptações cinematográficas, uma revista aleatória na banca, um encadernado na livraria, uma paixão de infância, curiosidade… E no meio nerd moderno, conforme o tempo passa, algumas pessoas tendem a desmerecer os costumes ou preferências de seus semelhantes, sempre ressaltando seu ponto de vista como o ideal, fazendo chacota do colega ao lado.

Apesar de não parecer, a geração de leitores de gibis está se renovando. O cinema tem sido o responsável por trazer novos ares a este mundo até então dominado por pessoas mais velhas, as mesmas que liam gibis trinta anos atrás, especialmente de super-heróis. Através da modernização não somente do público, o formato das histórias em quadrinhos tem se alterado bastante, passando do formatinho para o original, da revista para o encadernado, do capa cartão para o capa dura, da banca para a livraria, e mais recentemente para a mídia digital. E inevitavelmente surgem novos consumidores a cada mudança, que facilitam a introdução a este universo.

Pra começo de conversa, é importante ressaltar uma coisa: preferência é preferência. Você pode escolher degustar um gibi dos anos 70, em seu primeiro formato publicado, ao invés de comprar um encadernado de luxo que compila exatamente o mesmo material. Se você se sente melhor assim, vai fundo. Mas isso não lhe dá o direito de menosprezar quem opta por outras opções e formatos.

É comum, em grupos e sites espalhados pela internet, presenciarmos os famosos esteriótipos do mundo nerd. “Colecionadores de lombadas“, “bazingueiros” ou “civis” são termos que se difundiram na nossa cultura, e todos possuem o mesmo intuito: tratar o consumidor diferente de você como algo a ser ridicularizado, um “nerd inferior” da espécie nerdis inferioris, comparado ao outro que possui anos de experiência. E estas barreiras, que visam inicialmente o humor, fecham o mercado numa bolha. Uma bolha dentro de um nicho, quão ridículo isso possa soar.

Não há problema algum em colecionar e consumir somente encadernados, sejam eles com capa dura ou capa cartão. Nem há qualquer problema em fazer somente as coleções que formam um desenho na lombada, ornamentando a prateleira. O dinheiro é seu, e você faz o que bem entender com ele, sem que ninguém tenha o direito de julgar ou lhe menosprezar por isso. E a limitação mental de certas pessoas não parece demonstrar que, comprando para ler ou não, a pessoa está ajudando o mercado a continuar vivo, investindo seu rico dinheirinho naqueles gibis. Só isso já é algo a ser comemorado.

Termos como “bazingueiro” caem no antigo problema da aceitação no mundo nerd, que engloba também as garotas que tentam fazer parte deste nicho que possui pessoas tão lamentáveis. Se você é um iniciante, que está aprendendo ou só conhece filmes e determinadas histórias, automaticamente é tratado como um lixo por boa parte dos “nerds iniciados” (seja lá o que isso signifique, numa escala de nada a nada), que aparentemente são tão intelectuais que não conseguem conviver com outros perfis de leitores. Nem com as famosas mudanças de status quo, como já foi discutido aqui.

Todo mundo começou, em qualquer coisa, sem saber absolutamente nada sobre aquilo. Porém, anos atrás, não existia a internet para facilitar a vida dos iniciantes nem possibilitar que os iniciados destilassem seu ódio gratuito e elitista em direção aos mais novos. Não existe paciência em explicar qualquer coisa, há somente a raiva descrita em “começou agora e já tá falando merda“, ou o famoso “vai aprender sozinho, na minha época não tinha nada disso“. Uma mídia, uma forma de expressão que sempre pregou a união e aceitação entre as pessoas, hoje é dominada por um público que faz o exato oposto do que os valores pregados por seus heróis os ensinavam e continuam a ensinar. Ou tentam ensinar.

O fã do Homem-Aranha, que se identificava com Peter Parker sofrendo bullying na escola por ser nerd, hoje despreza e ofende o leitor iniciante que compra os encadernados por qualquer que seja a razão, desde a praticidade até o embelezamento da coleção. Peter Parker tornou-se Flash Thompson. E aparentemente, só ele não vê isso. E se vê, acha que está certo nas suas atitudes. “Onde já se viu ler somente gibis com capa dura, quando há tanto material bom sendo publicado em outros formatos?” Mas a coisa mais simples não passa pela cabeça de ninguém: cada um faz o que bem entender com a sua vida, e se eu quiser posso escolher comprar somente encadernados capa dura da Angélica ou da Revista do Gugu. Se é o que me interessa, posso não estar nem aí (pelo menos no momento) para o gibi cultuado que acabou de ser republicado. É meu direito comprar o que eu quiser. E não sou inferior a ninguém por isso. Somos todos leitores da mesma arte. E você deve ter muito tempo livre para se importar com o que eu leio ou não.

Os limites do bom senso são extrapolados há algum tempo. A famosa frase “sua liberdade termina quando começa a do próximo” não parece se aplicar no meio nerd, onde cada uma das pessoas faz questão de tecer seus comentários, positivos ou – especialmente – negativos, sobre o que bem entender, sem a vergonha de estar tentando parecer mais foda que o outro. Parabéns, você sabe tudo sobre o Batman. Grande conquista.

Estamos estagnados num perfil deplorável de leitores e consumidores de quadrinhos, agravado também por boa parte da “mídia especializada“, composta por sites, vlogs e podcasts. Convivendo diariamente na toxicidade da intolerância, inalamos gases que não nos dão super poderes, mas nos tornam retratos claros de vilões, ao encarar com naturalidade os comentários depreciativos do nerd superior, que deve achar incrível parecer o intelectual sobre um personagem fictício a ponto de menosprezar e ofender quem escolheu o diferente. Ou até agir como um juiz da leitura alheia. Mas tudo bem, afinal, ele faz parte do público que leu gibis durante toda a vida, não é mesmo?