Música

A importância das músicas de Beyoncé, Kendrick Lamar e Childish Gambino nas atuais manifestações raciais estadunidenses

Escrito por Pedro Alonso

O mundo está acompanhando uma série de manifestações nos Estados Unidos à respeito do assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis. George (40) foi asfixiado até sua morte por um policial branco, e teve o vídeo do crime divulgado nas redes sociais por testemunhas, o que fez com que a indignação popular criasse força. Mesmo sendo o país com o maior número de casos de covid-19, esse fator não impediu para que cidades estadunidenses fossem cenários de protestos históricos que atravessaram o país inteiro, chegando até mesmo na sede da CNN em Atlanta e na Casa Branca.

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O racismo dos Estados Unidos é um tema historicamente conhecido pela maioria das pessoas, não à toa que ele é tema de várias produções culturais ao longo dos anos, desde filmes, séries, livros, peças e músicas. Na última década, no ano de 2013 devido aos diversos casos de brutalidade policial por parte do estado que se arrastavam por toda história americana e também a popularização e fortalecimento de grupos supremacistas brancos do país, surgiu o movimento Black Lives Matter, em tradução, Vidas Negras Importam que ganhou importância não só dentro dos EUA, como também no mundo todo. Tal movimento, de extrema importância não poderia passar despercebido dentro da cultura popular americana, principalmente na música.

Os anos 2010 foram marcados por diversas músicas que exploravam temáticas sociais e levavam pra frente os debates que a sociedade americana estava lidando no atual momento, principalmente no que se diz respeito à comunidade afro-americana. Por isso, aqui estão 3 músicas que, devido às suas respectivas importâncias, se tornaram símbolos do movimento Black Lives Matter.

Alright – Kendrick Lamar

Lançada em 2015, o quarto single de To Pimp A Butterfly não foi considerado por muitos veículos internacionais como uma das melhores e mais importantes músicas da década passada á toa. Alright de Kendrick Lamar foi uma das pioneiras a se tornar símbolo do novo movimento social que marcaria a história da luta antirracista americana e mundial. O trecho We gon’ be alright (nós ficaremos bem) é até hoje um dos gritos de guerra utilizado nas manifestações do movimento nos Estados Unidos.

Kendrick Lamar, contou em entrevista com o crítico de cultura pop Milles Marshall Lewis que a inspiração para Alright, veio em sua viagem à África do Sul, especificamente quando visitou a cela de Nelson Mandela na Ilha de Robben. Da mesma forma que na sua entrevista à National Public Radio, ele contou que:

“Quatrocentos anos atrás, como escravos, orávamos e cantávamos canções alegres para manter a cabeça equilibrada com o que estava acontecendo. Quatrocentos anos depois, ainda precisamos dessa música para curar. E eu acho que ‘Alright‘ é definitivamente uma daquelas músicas que fazem você se sentir bem, não importa a que horas sejam.”

É difícil de dizer quando e onde foi a primeira vez que Alright se tornou trilha sonora das manifestações, mas há casos que ficaram marcados na linha do tempo da canção. Como em 2015, ano de lançamento da faixa, na estudantes e ativistas da Universidade Estadual de Cleveland, no estado de Ohio viram policiais agirem com violência em cima de manifestantes do movimento e cantaram a canção enquanto se afastavam dos mesmos.

No ano seguinte, um comício republicano em Chicago, marcado na agenda de Donald Trump em sua campanha eleitoral, foi cancelado graças às manifestações contra a brutalidade policial e o racismo no local onde ocorreria o evento, os ativistas também usavam o trecho de Lamar como ato de resistência política, confira os dois casos a seguir: 

Kendrick Lamar x Donald Trump Rally

Thousands of protestors disrupted Donald Trump's rally in Chicago this evening, breaking into a chant of Kendrick Lamar's "We Gonna Be Alright".

Publicado por Consequence of Sound em Sexta-feira, 11 de março de 2016

 

Formation – Beyoncé

O quê acontece quando a maior cantora dos últimos anos estreia uma música sobre empoderamento feminino negro, com referências direta aos Panteras Negras e Malcolm X no maior evento televisionado do mundo, com uma audiência de mais de 110 milhões de pessoas? Bem, Beyoncé tem a resposta. Lançada em fevereiro de 2016 e também sendo considerada uma das melhores e mais importantes músicas dos anos de 2010 por diversos veículos, Formation causou um impacto tão grande na sociedade estadunidense que não só transformou a carreira da texana, como também toda a cultura popular do país.

 

Beyoncé foi duramente criticadas por representantes conservadores, desde apresentadores do canal Fox News até o ex-prefeito da cidade de Nova York. Ela também foi alvo de manifestações e boicotes por parte do público do espectro reacionário e da própria polícia dos Estados Unidos, onde em algumas cidades, os corpos policiais se recusaram a fazer a segurança dos locais onde ocorreriam os shows, como por exemplo, em Miami. Mas obviamente, Beyoncé contou com um grande apoio popular, principalmente da comunidade afro-americana, muitos foram às ruas, para defendê-las e se posicionarem ainda mais contra a violência policial e o racismo americano. 

Lemonade, álbum que teve Formation como seu carro chefe, não se tornou só um dos álbuns mais aclamados do seu ano, como de toda a década, além de ser provavelmente o mais importante da carreira da cantora até aqui. Beyoncé desde então continua se provando um grande ícone e uma grande voz no movimento afro-americano.

Em 2017, a cantora apareceu de surpresa no evento Sports Illustrated Sportsperson of the Year Awards para homenagear Colin Kaepernick, jogador de futebol americano que ficou conhecido mundialmente por, a partir de 2016 se recusar a prestar homenagem a bandeira e ao hino nacional estadunidense ante das partidas dos jogos, como protesto à brutalidade policial e assassinato de negros no país. Kaepernick, assim como Beyoncé, sofreu diversas críticas e boicotes, tanto que não conseguiu nenhum time para a temporada de 2017.

Em seu discurso, Beyoncé disse: “ É triste que o racismo seja tão americano ao ponto de que, quando protestamos contra o racismo, algumas pessoas assumem que estamos protestando contra a América.”

Confira a apresentação no Super Bowl em questão:

 

This Is America – Childish Gambino

Um dos clipes mais icônicos da última década pode não ter repercutido “fisicamente” como as outras gravações já citadas, mas é impossível ignorar o impacto e a popularidade de This Is America, sobretudo na internet. Lançado em 2018, Childish Gambino afirma o poder que as mídias sociais têm sobre as questões sociais. O trabalho como um todo, música e clipe, recebeu uma repercussão midiática pouco vista antes. Do Washignton Post, à revista Time e virando pauta de programas de TV, This Is America alcançou o primeiro lugar nas paradas americanas e coleciona hoje mais de 650 milhões de views, 4 prêmios Grammys (sendo 2 deles por Música e Gravação do ano) mas acima de tudo isso, um impacto cultural inigualável.

Recheado de simbolismos que podem servir como pauta de outra matéria, o clipe de This Is America fala de não somente críticas à brutalidade policial, do estado, ao assassinato de pessoas negras, como também critica o estúpido movimento supremacista branco, a posse de arma, a mídia americana, o conservadorismo, e outras mazelas como a apropriação cultural. Além de também fazer referências a tragédias ocorridas com pessoas negras nos Estados Unidos, como o Massacre da Igreja de Charleson, na Carolina do Sul, quando um homem branco entrou na igreja armado e matou 9 pessoas ali presente com um discurso extremamente racista. A igreja em questão era referência na luta por direitos civis da sua região, o que deixa tudo ainda mais simbólico.

A música é tão importante dentro do contexto digital que atualmente, com as diversas manifestações que estão acontecendo nos Estados Unidos por causa do assassinato de George Floyd, a música virou uma hashtag nas redes sociais onde usuários postam fotos e vídeos dos eventos em que participam, como forma de denunciar a opressão por parte do estado que eles estão sofrendo. This Is America também está servindo como trilha sonora no aplicativo Tik Tok para vídeos quais os usuários, além de mostrarem como andam os protestos, denunciam problemas do país em que vivem. A corrente da música vem tornando-se novamente um viral, sendo aderido por pessoas de vários outros países.

George Floyd: Protestos pela morte de cidadão negro se espalham ...

Existem diversas músicas ao longo do ano que conversam com minorias e viram trilhas sonoras e gritos de guerra de suas lutas, principalmente na história do movimento negro. E não só dos Estados Unidos, no mundo todo, incluindo o Brasil. Esses pequenos exemplos provam que a extrema importância da cultura popular dentro dos movimentos civis e políticos, não podendo ser subestimada ou deixada de lado. Além de nos mostrar o quanto é importante que artistas e criadores de conteúdos não brancos conquistem cada vez mais um espaço maior dentro da sociedade. A arte e a cultura popular são dois dos aliados mais fortes na luta para um mundo mais igual e justo.

Justiça para Goerge Floyd, João Pedro e todos as outras pessoas negras assassinadas pelo estado e pelo racismo. 

 

 

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Sobre o Autor

Pedro Alonso

Estudante de Jornalismo apaixonado por muita coisa. Mas principalmente, por música, cinema e quadrinhos. Ou seja, a cultura pop no geral.

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