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11 anos depois, Angel Beats ainda é perfeito no meu coração

Escrito por Vini Leonardi

Algum tempo atrás, fiz uma postagem sobre o valor de revisitar conteúdos, em oposição a consumir coisas novas. Acredito ser uma das minhas melhores obras, e ela foi justamente a inspiração para esse texto de hoje. Se não viu ainda, recomendo dar uma olhada: O valor de revisitar conteúdos já conhecidos.

Em suma, o que nos trouxe aqui hoje foi um experimento simples: O Vinicius de hoje tem os mesmos gostos que o Vinicius de 11 anos atrás? Pegamos um animê que, até então, eu considerava como um dos meus favoritos, e que sempre tive certo “receio” de rever: Angel Beats. Queria descobrir se eu continuaria gostando tanto quanto eu gostei no passado, e se eu teria uma visão diferente daquela que tive na primeira vez.

Inclusive, decidi fazer isso justo agora por um motivo especial: 3 de abril de 2021 marca o décimo primeiro aniversário do lançamento do show. O primeiro episódio foi exibido na televisão japonesa justamente nesse mesmo 3 de abril, no longinquo ano de 2010. Posso estar exagerando um pouco, mas ouso dizer que foi um animê que marcou não só o gênero, como toda uma geração de fãs. Pelo menos, me marcou.

O clássico episódio de beisebol, sempre sendo usado para desenvolvimento de personagens e, claro, como mote para várias piadas.

Sendo a mais nova – na época – artimanha de Jun Maeda e da Key, todos os olhos estavam voltados para Angel Beats: Com antecessores como Clannad e Little Busters, o público estava preparado para mais uma obra repleta de comédia e recheada de drama, com apenas um pequeno toque de magia e muito, mas muito beisebol.
Afinal, se existe um escritor que é consistente em suas obras, é justamente Jun Maeda. Um dos fundadores do estúdio “Key” (parte do grupo “Visual Arts“), ele é formado em psicologia pela Universidade de Chukyo, e olha… ele usa bastante o diploma. Os roteiros que escreve são conhecidos por serem fortes, alegres, tristes, engraçados, intensos e até cruéis, tudo ao mesmo tempo. Com os já anteriormente citados “Clannad” (Visual novel de 2004, com animação em 2007) e “Little Busters!” (Visual novel de 2007, até então sem animação) sendo considerados “clássicos”, e tendo mais ou menos a mesma temática, nós já tínhamos uma ideia de o que esperar de Angel Beats.

Mas é claro que em 2010, o pobre Vinicius de 14 anos não tinha a menor noção de nada disso. Ele tinha acabado de começar a assistir animês, tendo apenas visto alguns episódios de Naruto e os clássicos Dragon Ball e Sakura Card Captors na televisão.
Hoje, me recordo de ter adorado o show, e que ter assistido sem ter muita noção do que esperar foi parte do motivo. Eu simplesmente recebi uma indicação de um amigo meu (se estiver lendo isso, Nishida, grande abraço!), e fui atrás dos dois ou três episódios já lançados no momento. A cada semana, foi uma surpresa nova, uma risada nova, um sentimento novo.

O problema é que onze anos é muito tempo, bicho. Minha nossa, que tristeza pensar nisso… E com o tempo, memórias vão se deteriorando. O próprio conceito de “memória” é uma coisa horrível, pois ela deveria servir para nos recordar do passado, mas elas acabam apagando todos os detalhes e nos deixando apenas com o “sentimento geral” daquela situação.
Até reassistir o animê nesses últimos dias, eu me lembrava vagamente do show. Eu tinha certeza de que era algo divertido e emocionante, que me marcou muito e que eu considerei, na época, como uma das melhores coisas que eu conhecia. Mas… Se me perguntassem “por quê?“… Eu não saberia responder. Eu mal poderia dar uma sinopse de todos os arcos que ocorrem nos exorbitantes treze episódios. Nem é tanta coisa assim, sabe? E mesmo assim, minha memória era apenas uma bolota flutuante que dizia “Angel Beats bacanudo” e nada mais.

Só que agora, eu revi o show. Sentei por treze episódios e assisti tudo novamente. Uma coisa que eu não tinha nem como apreciar no passado (pela falta de experiência), e que vi agora com outros olhos, foi a qualidade técnica de Angel Beats. Não preciso nem entrar no mérito de história ou trama pra isso. Falo mesmo da questão de estúdio, de direção, de animação, de dublagem. Até para os padrões de hoje, o animê é absurdamente bem feito. É bonito e bem animado (como já era de se esperar do Estúdio P.A. Works e nomes como Tadashi Hiramatsu e Katsuzou Hirata na equipe); tem OST de fazer inveja; umas três ou quatro (até perco a conta!) insert songs; um elenco de dubladores que reuniu os maiores nomes da época (com muitos deles estando no ápice de suas carreiras até hoje, como Kana Hanazawa e Kamiya Hiroshi)…
Não dá pra negar que uma quantidade enorme de dedicação, recursos e talento foi colocado nessa produção, que, com certeza, venceu o teste do tempo nesses quesitos.

Com apenas treze episódios, não dá para falar de todo mundo. Mas, talvez, seja melhor assim.

E quando entramos, de fato, no mérito da trama… Angel Beats é um show agridoce, como tudo que a Key custuma fazer. E, depois de ponderar um pouco sobre o assunto, acho que cheguei na conclusão de que isso é feito com o uso de elipses.
Vou explicar: A gente tem um elenco absurdo, personagens interessantíssimas e que sabemos, com certeza, que possuem uma história e um motivo para estar ali. Muitas delas nos deixam curiosos para entender o que aconteceu, ou o porquê de ter acontecido. Afinal, quem diabos é TK, e por qual motivo ele só fala em citações musicais? Por que Shiina age como uma ninja? O quão sofrida pode ter sido a vida de um jovem faixa preta 5º dan em judô?
Quando decide NÃO te dar essas respostas, Jun Maeda está reforçando ainda mais o impacto das histórias que ele decidiu te mostrar. Esse “ar de mistério” que cerca não só as personagens, como toda a trama, é que faz com que os pedaços que foram, de fato, elucidados, se tornem tão marcantes.
Isso é feito com grande maestria com o próprio protagonista. Privar o público do passado de Otonashi não é apenas uma ferramenta de roteiro para que a obra comece. É, também, uma elipse ao nos mostrar apenas metade da história, fazendo com que o final dela seja tão mais memorável.

Voltando ao ponto principal, que seria a minha interpretação atual: Assistindo a cada episódio, eu senti mais e mais que Angel Beats foi algo feito para mim. Ele tem as principais características que eu amo nessa mídia, e que comento sempre que posso. Animês são a mídia perfeita para comédia esdrúxula e, ao colocá-la no meio de um drama comovente que te faz chorar igual um bebê, você atinge um balanço ideal.
E, se entendermos o contexto em que esse show existiu na minha vida, é muito provável que ele seja um dos responsáveis por moldar o meu gosto. Possivelmente é o motivo de eu ter um fraco por comédias absurdas e um fraco ainda maior por qualquer historinha triste mequetrefe (por mais que eu tente esconder o fato de ser movido à lágrimas facilmente).

Impossível negar, porém, que chegar para assistir um show (ou ler um livro, ver um filme, ouvir uma música… A ideia é aplicável para qualquer mídia) já com “sentimentos” – a grande bolota que citei mais cedo – faz com que essa experiência não seja tão nova assim: Você já tem alguns pré-conceitos (talvez pós-conceitos?) que afetam a sua visão.
Por outro lado, justamente a existência desses “sentimentos” já é um fator que diferencia a sua nova jornada da primeira.

A história se aplica ao próprio show, onde personagens passam por coisas que os mudam, e mudam as percepções de mundo deles.

De novo trago a velha história do rio: A pessoa que assistiu Angel Beats hoje é completamente diferente da pessoa que assistiu Angel Beats 11 anos atrás. O modo de assistir, o clima e a visão do mundo, a personalidade, a visão de si próprio… Tudo isso mudou, apenas para citar alguns pontos. O show pode ser exatamente o mesmo, sem tirar nem por, mas eu não sou. Isso permitiu que essa experiência “velha” pudesse ser uma “nova” experiência, e que abriu novas interpretações e sentimentos, agregando novidades à bolota de memórias.

Um exemplo muito claro disso é minha relação com uma das personagens: Na experiência “velha“, lembro de não ter ido muito com a cara da Yui, por ser uma garota extremamente enérgica e que me dava uma impressão ruim. O impacto do passado dela não foi, nem de perto, tão grande quanto na experiência “nova“, onde eu tinha uma mente mais aberta e consegui me solidarizar com a garota.

A conclusão que podemos tirar disso tudo é que eu posso ficar tranquilo, pois os meus shows favoritos (muito provavelmente) continuam sendo meus shows favoritos, mesmo depois de tantos anos. Assim, graças a Deus, não precisarei mais rever uma cacetada de animês. Eu confio no meu eu do passado e nas minhas queridas bolotas.
É uma desculpa a menos para não assistir coisas novas, mas é um preço que estou disposto a pagar.

“Angel Beats” está disponível na Crunchyroll, todos os 13 episódios com legendas em português, e é um animê que eu não poderia recomendar mais. Mas acho que esse ponto já ficou claro, né?

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Sobre o Autor

Vini Leonardi

Cavaquinho na roda de pagode da Torre. Jogo World of Warcraft e assisto desenhos chineses, e nas horas vagas faço faculdade de Química.
Pra mim, Marvel e DC parecem nomes de marcas de roupa chique.
Finjo saber escrever sobre animes quando na verdade tudo que faço são menes irados.

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