Música

A melancólica e oitentista redenção de The Weeknd em After Hours

Escrito por Pedro Alonso

“Você pode encontrar amor, medo, amigos, inimigos, violência, dança, sexo, demônios, anjos, solidão e companheirismo, tudo isso tarde da noite.”

 – The Weeknd descrevendo After Hours.

 

The Weeknd, lançou hoje (20) seu novo álbum de estúdio After Hours. 3 anos e alguns meses desde seu último trabalho, Starboy (2016). O disco que já conta com o hit single número 1 das paradas americanas, Heartless e o provável também hit número #1 das próximas semanas, Blinding Lights é focado no amadurecimento da persona de Abel Tesfaye nos últimos anos.

Se em Starboy, The Weeknd estava contando sobre a fama, expondo os lados positivos e negativos e se gabando por ser uma estrela. Em After Hours, depois de algumas mudanças conturbadas na sua vida pessoal e profissional como o polêmico relacionamento com Selena Gomez, a recepção morna do público do seu EP “My Dear Melancholy,” de 2018 e outras coisas, o canadense está disposto a colocar o pé no chão e sair de um pedestal que ele mesmo ficou após criar o alter ego do seu último álbum.

Antes, ele se sentia no topo do mundo, afinal ele realmente estava, e cantava sobre isso, cantava sobre ser inalcançável e inatingível. Porém, parece que por agora, ele começou a aprender mais sobre como as coisas realmente funcionam. Tanto que na última música do disco, Untill I Bleed Out, Abel confessa que “Eu não quero mais tocar o céu / Eu só quero sentir o chão quando estiver descendo”.

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Durante a jornada de descobrimento de uma humildade, as músicas possuem certo tom melancólico acompanhado com o medo dá uma solidão. Umas mais do que outras é claro. Algumas como Scared to Live conseguiram me passar até a sensação banzeira que um Vaporwave consegue transmitir. Essa questão da melancolia, não está ligada a apenas a sonoridade do projeto, ela é bem presente em todo conteúdo lírico. O que pode ser visto já na primeira faixa, “Alone Again”.


“Eu não sei se posso ficar sozinho de novo
Não sei se consigo dormir sozinho de novo
Verifique meu pulso pela segunda vez
Tomei demais, não quero morrer”

 

Ainda sobre a sonoridade, After Hours têm um grande acerto e um grande erro. O grande acerto é a aposta da sonoridade oitentista completamente inspirada pelo synth-pop da época. Abel e seus produtores conseguiram mergulhar nessa sonoridade de forma tão majestosa que, se o álbum tivesse um pouquinho mais dessa pegada, não restaria dúvidas que seria o melhor de sua carreira. Blinding Lights, que de longe é a melhor música desse trabalho é o melhor exemplo disso. Também há canções maravilhosas como In Your Eyes e Save Your Tears. Que estão em uma sequência muito bem pensada dentro da tracklist, fazendo com que qualquer um que ouça o álbum se teletransporte imediatamente para década de 80.


Já o grande erro, se assim podemos dizer, é a repetição de uma sonoridade já conhecida de The Weeknd. Talvez essa fosse a minha maior preocupação quando ouvi Heartless, o primeiro single, assim que foi lançado. Heartless, assim como Snowchild, Escape From L.A e Faith poderiam facilmente estar no Starboy ou em qualquer outro trabalho antigo de Abel. Embora elas tenham produções mais sofisticadas. As 4 músicas só não podem ser consideradas fillers pelo storytelling presente entre as faixas 6 e 10.

Quem acompanha o trabalho de The Weeknd há um bom tempo, sabe que ele gosta de contar narrativas através de seu trabalho. Seu álbum Beauty Behind the Madness de 2015, tem os clipes de Tell Your Friends, The Hills e Can’t Feel My Face contam só uma história. Em Starboy, no clipe da faixa título e no de I Feel It Coming o mesmo acontece. E agora, em After Hours já temos os vídeos de Heartless e Blinding Lights que também contam uma história só. Entretanto, a visão que eu tive enquanto ouvinte de uma arte é que nesse projeto, The Weeknd está mais ambicioso.

Escape From L.A soa como pontapé de toda história que Tesfaye quer contar. Não é a toa que nos clipes já lançados do álbum ele realmente está tentando fugir de Los Angeles. As letras de Escape, Heartless, Faith, Blinding Lights e In Your Eyes estão interligadas de forma cronológica. O que deixa tudo mais genial e faz perdoar a decepção com as produções nada inéditas na discografia do mesmo.

 

 After Hours que mostra a visão e a reflexão de um popstar, ou melhor, de um starboy, nos seus recém completos 30 anos sobre toda jornada que ele passou nesse curioso e estranho mundo da fama. Mistura muito bem todas as referências acumuladas desses últimos anos e vira um trabalho de identidade singular. É honesto, humilde, forte e inovador. Pode ser um álbum que com o passar do tempo, torne-se ainda maior para muitos, e até mesmo o maior de toda discografia. The Weeknd desconstruiu a armadura que tinha criado anos atrás e abraçou um novo doloroso processo de amadurecimento, seja na forma lírica ou sonora. É realmente um álbum perfeito para servir de companhia durante a madrugada. Sejam elas felizes, tristes, melancólicas, psicodélicas ou pós-festivas.

Nota: 4/5

 

 

 

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Sobre o Autor

Pedro Alonso

Estudante de Jornalismo apaixonador por muita coisa. Mas principalmente, por música, cinema e quadrinhos. Ou seja, a cultura pop no geral.

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