Quadrinhos

Resenha | Imaginário Coletivo

Escrito por Marcus Santana

Tentem esvaziar a mente. Pensar em nada. Conseguiram? Provavelmente, não. No princípio, tudo aponta que havia nada. E como era esse vazio? Até isso ousamos imaginar.

De qualquer forma, é de dar voltas na cabeça tentar deduzir o que pensava Wesley Rodrigues ao criar Imaginário Coletivo, sua primeira história em quadrinhos lançada pela Darkside Books. Temos incialmente uma tradicional fábula com a introdução de um mundo de faz de conta que tantas outras vezes ouvimos falar até mesmo pouco antes de dormir para, em nossos sonhos, exercitarmos o nosso próprio imaginário. Nessas circunstâncias, cada um é dono de seu próprio universo. Mas, Wesley vai além. Aqui, um teimoso ser vivo quer se tornar um pássaro mesmo designado a ser vaca e sua persistência o faz vir a esse mundo como um bovino nascido de um ovo.

A estranha novidade é encontrada por Agripino, um humilde minerador que, como muitos de seu vilarejo, trabalha para satisfazer a incansável autoritarismo e desejo de um tirano rei por ouro. Encantado pelo leite diferenciado que sua vaca produz, Agripino o começa a vender aos habitantes da região, o que muda suas trajetórias inesperadamente: Os ocupantes do reino, inclusive seu rei, se tornam animais das mais variadas espécies. Agripino se torna meio pássaro, meio humano e, apesar da nova forma, continua representando o que sempre foi: Alguém entre a liberdade e a submissão.

Sua vaca cresce assim como seu desejo de ser pássaro, e sua ânsia e habilidades vão alcançando patamares inimagináveis para a compreensão humana, logicamente se esta compreensão esteja visando apenas o plano da realidade. O animal que costuma nos alimentar agora se alimenta de nossas fantasias.

A liberdade toma conta até das páginas da HQ. Seus quadros são distribuídos livremente a cada página e não seguem padrão algum. É extremamente comum ao leitor sair de uma página dupla para vários quadros de diversos tamanhos já na página seguinte. Até técnicas de Storyboard são usadas, estas não de se espantar, já que Wesley é mais conhecido por suas premiadas animações em video. Que graça teria à liberdade se não fosse experimental também nessa categoria?

A arte fica mais deliciosa a cada avanço. Seu traço lembra outro grande contador de fábulas: Cyril Pedrosa, que no Brasil teve publicado o também excelente Três Sombras. A Psicodelia de Wesley nos faz várias vezes observarmos seus quadros repetidamente para ter certeza que é aquilo mesmo que lá foi marcado. É inclusive difícil em determinadas partes descrever o que se passa, inclusive em onomatopeias cujo significado não se consegue decifrar. É evidente também o estúdio Ghibli como influência nessa empreitada.

A edição é caprichada. Suas imponentes 472 páginas são protegidas por uma belíssima capa dura com verniz de reserva e encadernação costurada. Apesar de volumosa, a publicação pode ser lida rapidamente. Muitas de suas páginas têm pouco ou nenhum texto. O deleite dos olhos fica “apenas” nas ilustrações em muitos momentos. A história poderia muito bem ter menos páginas, mas isso não apequena seu brilhantismo.

O curioso é perceber que, apesar de seu conteúdo belíssimo, Imaginário Coletivo pouco tem a ver com o conteúdo principal da Darkside Books, editora que, como o nome já deixa implícito, é especializada em publicações de terror e suspense. O motivo então da publicação permanece um mistério que se torna bem-vindo no fim das contas.

Imaginário Coletivo nos ensina que podemos criar o que quisermos, mesmo que seja algo cujo significado sustente-se apenas em cada um de nós. Portanto: Imaginem. Pensem. Inventem. Sejam criativos.

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Sobre o Autor

Marcus Santana

O que seria de nós sem quadrinhos?

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