Serial-Nerd

Quinto ano de Better Call Saul atinge o nível de Breaking Bad

Escrito por Thiago Pinto

Better Call Saul é incansável. Embora a história de Saul Goodman (Bob Odenkirk) pareça estar chegando ao seu final, isto é, seu início em Breaking Bad, os criadores Vince Gilligan e Peter Gould continuam a construir personagens e subtramas complexas. Em contrapartida das outras temporadas, a quinta demonstrou um nível de tensão e preciosismo técnico nunca visto antes, e, por conta disso, estabeleceu uma aproximação aos personagens da mesma forma que fomos nos aproximando de Walter White (Bryan Cranston) e Jesse Pinkman (AaronPaul). Se, na temporada anterior, Mike (Jonathan Banks) e Saul tinham se tornado aquilo que seriam por anos, nessa, Kim Wexler (Rhea Seehorn) toma para si sua transformação, e Lalo Salamanca (Tony Dalton) se impõe como um dos maiores “antagonistas” do universo Breaking Bad.

Foi a primeira vez que vimos Saul Goodman dar as caras na série. Depois de Jimmy McGill viver sempre à sombra de seu irmão Chuck (Michael McKean), contando fracassos na sua vida jurídica, sua transformação em Saul revela um homem renovado e corajoso para tomar qualquer atitude que fortaleça a sua imagem como advogado dos mais necessitados. A dinâmica dos julgamentos, das negociações de casos e da abordagem para com a clientela criam um ótimo início de temporada. Bob Odenkirk entrega sua performance ressoando quase que por completo sua atuação em Breaking Bad; audacioso, manipulador e sensacionalista. O caso do banco Mesa Verde, especificamente, tratou de trabalhar a figura de Saul Goodman como um manipulador de narrativas e casos, fortalecendo a figura inescrupulosa do personagem. Entretanto, a série desenvolve dilemas morais que colidem com os seus interesses, flertando com um lado mais humano e sentimental que permanece em seu consciente.

Enquanto isso, Mike vive um conflito interno depois do assassinato que cometera no final da quarta temporada. Sua indignação e incômodo com os negócios envolvendo Gustavo Fring (Giancarlo Esposito) criam a tensão perfeita, acrescentado emoção ao terço inicial da temporada. A relação com sua neta e a viúva de seu filho mantém o lado dócil do personagem, mas a abordagem é menor comparada às outras temporadas. O principal arco dele está ligado ao personagem de Nacho Varga (Michael Mando), que está infiltrado na família Salamanca a mando de Fring.

Já Kim Wexler surpreende por transmitir características e ambições semelhantes aos de Goodman. Se nas temporadas passadas a personagem mantinha uma ética profissional intacta, preocupada com as estratégias um tanto quanto criminosas de Saul e comprometida fielmente com os seus casos jurídicos, agora ela foi desenvolvida como se tivesse se transformado no oposto disso. Kim se torna cúmplice das ações do namorado, e acaba se envolvendo parcialmente em suas decisões duvidáveis.

O núcleo da família Salamanca é o que tem de mais interessante na quinta temporada. Composto principalmente por Nacho Varga e Lalo Salamanca, a família do cartel mexicano já é velha conhecida dos fãs deste universo, mas guarda uma potencialidade nunca antes exibida. Os dois administram os negócios dos Salamanca na região, enfrentando a concorrência e os diversos planos arquitetados por Gustavo Fring. A espionagem promovida por Varga carrega as cenas entre ele e os mexicanos de tensão absoluta. A opção da direção de fotografia  por planos fechados, que retratam as expressões de insegurança e nervosismo, como também marcam os olhares dos personagens, sempre sombrios e misteriosos, montam cenas a partir do perigo iminente existente nos trabalhos dos cartéis. Embora Breaking Bad aborde de maneira excepcional os mecanismos da máfia, Gilligan parece ter refinado ainda mais sua abordagem para com os detalhes do tráfico de drogas.

A partir dessas pequenas explicações, entende-se que a série tem pernas próprias há um bom tempo. Antes havia uma sombra de Breaking Bad que incomodava, e que poderia ser determinante para comprometer a qualidade da série, mas Gilligan e Gould entenderam que a submissão ao material fonte seria um tiro no pé – na verdade, na cabeça. O que se vê é uma história com uma identidade temática e visual própria e autêntica. Os núcleos se desenvolvem individualmente e coletivamente, culminando em um terço final que esbanja qualidade técnica, da direção a atuação. Com os personagens plenamente desenvolvidos, ainda que guardem surpreendentes reviravoltas, quando todos contracenam juntos estabelecem uma química tão perfeita e inacreditável, que o resultado é simplesmente a superação em relação a Breaking Bad.

Quando assistia os episódios, sempre estava à procura de alguma referência a Breaking Bad. A cada início havia o despertar de uma nova esperança que algum personagem da série principal fosse aparecer – e isso acontece, já que Hank Schrader (Dean Norris) aparece para matar as saudades -, afinal, Walter White e Jesse Pinkman marcaram uma geração na televisão. Contudo, as subtramas e os conflitos de interesse de Better Call Saul juntando com as atuações de alto nível e as mentes criativas de Gilligan e Gould me fazem esquecer de possíveis conexões com a trama original. Óbvio que se espera essa ligação entre as séries, mas a narrativa do spin-off é, inegavelmente, única e independente.

O terço final da série realmente se destaca dos demais episódios, não só pelo ritmo intenso, mas também pela preocupação em deixar alguns ganchos para a sexta e – já confirmada – última temporada. O antepenúltimo episódio, gravado quase inteiro no deserto, coloca os protagonistas em momentos de opressão psicológica e de reflexão moral. Depois, o penúltimo traduz as consequências dos atos dos personagens e encerra com uma das cenas mais tensas do ano na televisão, culminando na melhor performance de Kim – que ganha a série para si. Chegando ao último episódio, temos a exploração visceral da violência, que era mais implícita nas passagens de tensão do que uma verdadeira exposição de sangue e mortes. Em relação  aos ganchos construídos, fica evidente o desafio que será para encerrar os arcos de Better Call Saul, que, ao mesmo tempo, deverá entregar a ponte entre sua história e Breaking Bad.

Better Call Saul, assim sendo, é indiscutivelmente uma das melhores produções anuais da televisão. Saber quem era Saul Goodman antes da fama parecia ser o trunfo da história, mas, ao nos aproximarmos cada vez mais do final, percebemos que a conjuntura que envolve todo o universo de Breaking Bad antes de Heisenberg é mais rica do que pensávamos, e merecia uma narrativa densa e bem construída como essa. Que bom que Gilligan e Gould perceberam isso.

Comentários
Compartilhar

Sobre o Autor

Thiago Pinto

‘’E quando acabar de ler a matéria, terá minha permissão para sair’’

-Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

Deixar um comentário

Or