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O Dilema das Redes (2020): A utopia e distopia das redes sociais

Escrito por Tassio Luan

Desative suas notificações!

Não clique em vídeos recomendados para você no YouTube!

Saia do sistema!

Tenha domínio das redes sociais e não o contrário!

São com esses pedidos que o recente documentário da Netflix encerra o seu debate sobre um assunto atual e amplamente debatido entre diversos níveis da sociedade: a influência das redes sociais nas pessoas. O Dilema das Redes trouxe como convidados os principais representantes ou ex-representantes em inúmeros setores dentro das principais mídias como Google, Facebook, Twitter, Pinterest e Instagram, entre outros. O objetivo da produção era mostrar os dois lados da mesma moeda: apresentar os pós e contra da criação dos principais entretenimentos digitais da humanidade. Posso adiantar que o debate conseguiu ser provocativo o suficiente para reflexão e mostrar a realidade: somos apenas produtos dessa indústria tecnológica.

Se o seu celular está ao seu lado, posso supor que esteja lendo esse texto ao mesmo tempo que se atualiza nas notificações que estão bombardeando seu celular neste exato momento. Aquelas conversas no WhatsApp, os tweets no Twitter, as curtidas no Instagram e os comentários no Facebook de algum meme que você postou ou alguma posição que tomou sobre algum assunto. Mesma coisa quem está usando o PC/Notebook. Ninguém está imune daquela ansiedade quando aparece notificação nova, certo? Aquela tentação de parar o que está fazendo para ver uma dessas mídias. Não precisa ser vidente para adivinhar algo tão óbvio que se enraizou na nossa sociedade nos últimos anos.

“Se você não estiver pagando pelo produto – você é o produto”

Os especialistas não fazem rodeios nos tópicos apresentados e expõem diretamente todo o planejamento feito para mantermos conectados de uma forma cada vez mais intensa e frenética. Aquela sensação de termos tudo, mas ainda assim queremos mais. Muito mais. O documentário ganha muito com essa abordagem e consegue tirar-nos dessa bolha mágica de que as redes sociais só servem para a nossa diversão e criar essa conexão com nossos amigos.

As notificações são as principais causas para a criação deste grande ciclo vicioso e ansioso ao olharmos as novas mensagens ao longo dia. Só paramos quando não tem mais nada, porém em poucos minutos estaremos repetindo esse processo. Nós estamos seguindo exatamente o propósito desses especialistas convidados e por conta disso, o poder deles se amplifica. A manipulação entra aqui. Somos manipulados todos os dias e vamos continuar sendo. Até porque time que está ganhando não se mexe, não é mesmo?

É nesse viés que a produção da Netflix também explora a saúde mental dos jovens nas redes sociais e a relação com o desenvolvimento de depressão, ansiedade e suicídio. Os comentários depreciativos ou os chamados gatilhos são apresentados de maneira descontrolada nas mídias, ou seja, mostra como não estão prontas para lidar com essa faixa etária. Isso foi muito bem apresentado com a caçula de uma família fictícia que se viu numa situação delicada quando recebeu um comentário ofensivo em seu filtro. Assim como ela, seus entes queridos também apresentam uma grande dependência do celular e de suas redes. E é através do irmão que desenvolvem o outro lado emblemático da tecnologia: o mundo político.

Nos últimos anos, o Facebook presenciou o seu nome ser mencionado diversas vezes na mídia mundial pela forma que lida com as informações de seus usuários e também pelas acusações de influenciar as eleições norte-americanas que elegeram Donald Trump em 2016. É notável como as carreiras políticas estão encontrando essa rede com o objetivo de alavancar suas intenções de voto. Como pontualmente mencionado, a campanha de Jair Bolsonaro foi nela. Temos vistos muitos levantes partidários ganhando seguidores. Discussões intensas são presenciadas diariamente e toda essa bola de neve culminou na cultura das fakes news.

“A verdade é chata.”

Um entrevistado pontua que criaram um sistema que privilegia informações falsas, pois é mais lucrativo às empresas do que dizer a verdade. É isto! É mais gostoso uma mentira bombástica do que uma verdade mediana. Esse mecanismo gera mais engajamento em seus usuários, uma vez que acontece o famoso telefone sem fio. Eu repasso para você e você repassa para seus amigos no WhatsApp em letras garrafais ”URGENTE! FULANO FEZ ISSO” e seus amigos repassam para mais amigos. Vai crescendo como um vírus faminto por mais hospedeiros que repassem a palavra.

 

Mesmo que a família fictícia não tivesse o mesmo impacto dos relatos, a proposta de mostrar o vício nas redes sociais foi explorada de forma pontual. O final do documentário consegue ser ainda mais provocativo com os dizeres sobre os filhos dos especialistas ficarem longe das próprias mídias que criaram e eles dão conselhos para evitar esse crescente poder sobre nós. Os próprios sabem como essa moeda é dividida entre utopia e distopia. Vivemos os dois ao mesmo tempo. Porém, você aí que leu tudo quer esquivar-se dessa manipulação digital? Volte para as frases que abrem este texto. É sério! Você conseguiria?
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Sobre o Autor

Tassio Luan

Biólogo explorador do horror cósmico e de universos desconhecidos.

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