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Nós | Soberania e grandeza sob uma produção de horror estupenda

Escrito por Daniel Estorari

”Portanto assim diz o Senhor:’ Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei’.” Jeremias 11:11.

Em 2008, Jordan Peele ingressou no mundo da sétima arte como comediante, sendo um dos humoristas mais respeitados e amados dos Estados Unidos. Dentre seus trabalhos nesse vasto universo cômico, estão Key and Peele, Keanu e Chocolate News; obras satíricas que elevaram de forma absurda a sua fama durante seus primeiros anos como humorista. No entanto, foi apenas em 2016 que Peele decidiu migrar de ”área”, anunciando o seu primeiro projeto 100% autoral que seria desvinculado de qualquer tipo de narrativa pitoresca. Falo de Corra!, um filme de terror psicológico que revolucionou indiretamente as produções de horror hollywoodianas. 

Estrelado por Daniel Kaluuya, Corra! foi um sucesso de crítica e público, gerando dezenas de novos fãs do cineasta ao redor do mundo. Em menos de um ano, Jordan anunciou o seu segundo trabalho como diretor, produtor e roteirista; que até Dezembro de 2018, estava sendo mantido em sigilo absoluto. Pois bem, no Natal do ano passado, somos presenteados com o primeiro trailer de Nós, longa protagonizado por Lupita Nyong’o e Winston Duke, que despertou a curiosidade de inúmeras pessoas. Não é pra menos, visto que até o dia do seu lançamento, ninguém sabia exatamente do que o longa-metragem se tratava.

A mente de Jordan Peele é uma verdadeira caixa de surpresas. Nós não é um simples filme de terror; ele mexe com o psicológico do telespectador desde os primeiros segundos até os seus últimos minutos de exibição, causando inúmeras paranoias em quem estiver assistindo, dando a impressão que tudo aquilo que vemos no filme, pode estar acontecendo na vida real.

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Adelaide (Lupita Nyong’o) e Gabe (Winston Duke) decidem levar a família para passar um fim de semana na praia e descansar em uma casa de veraneio. Eles viajam com os filhos e começam a aproveitar o ensolarado local, mas a chegada de um grupo misterioso muda tudo e a família se torna refém de seus próprios duplos.

Nós mexe com o subconsciente. Diferente de outras obras ”fantasmagóricas”, a trama mistura fantasia com inúmeros temas do cotidiano, que apesar de selvagens, estão presentes cada vez mais na vida do ser humano. Aqui, quatro assuntos são abordados de formas simples, mas bem confeccionadas; como racismo, fanatismo religioso, desigualdade social e mudança de vida.

Os quatro temas citados acima, acabam se misturando e formando uma única asserção, que apesar de perceptíveis, são conduzidos através de palavras e ações extremamente acuradas. Literalmente tudo (ou quase tudo) é muito bem conduzido. Há um cuidado nímio de Peele em contar uma história amedrontadora  e pavorosa usando ”instrumentos” do cotidiano, sem que precise fazer um grande alarde para que o espectador se envolva com a obra.

Atualmente, a maioria das produções de terror não causam medo, elas apenas assustam. Felizmente, Nós é totalmente o oposto. Aqui, o medo é moldado como um elemento social animalesco, ou seja, a selvageria do elemento se estagna na mente do espectador por horas e possivelmente, por dias. 

Um ponto que merece ser destacado, é a sua amedrontadora trilha sonora. De um lado, há a presença de uma canção possivelmente em latim, que utiliza de um pequeno coral de crianças para acompanhar a transição dos personagens entre um cenário e outro. Já, do outro lado, utiliza-se em momentos chave uma versão distorcida do clássico I Got 5 On It, do grupo Luniz. A canção, foi recomposta por Michael Marshall, utilizando acordes distorcidos e proeminentes.

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O elenco convence em todos os sentidos, tanto na atuação quanto na situação de pânico que vivem durante duas horas e um minuto. A família composta por Lupita Nyong’o, Winston Duke, Shahadi Wright Joseph e Evan Alex está fenomenal. Durante toda a trama, os membros do cast dão a impressão de que realmente são parentes.

Infelizmente, Nós possui algumas falhas. Uma delas, são suas piadas mal posicionas, que na maioria das vezes, são feitas em momentos de tensão e euforia. Entretanto, as anedotas são engraçadas e conseguem tirar uma risada de quem está assistindo.

Já, o outro lapso, é o excesso de explicações para ações que poderiam muito bem, ficar por trás das cortinas e deixar com que o público trace suas próprias conclusões. Muito da história é deixado em branco, mas numerosos atos são pontuados um a um, jogando no lixo uma potencial surpresa.

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Afinal, quem somos nós? Você realmente se conhece? Qual é o limite da sua alma e da sua mente? Por incrível que pareça, o filme deixa esses questionamentos como parte de seu ”legado”. Diferente dos animais irracionais, o ser humano caça por prazer, mata por matar e sempre deseja o mal para o próximo. Estamos cada vez mais, a beira do abismo. Nossas versões distorcidas estão dentro de nós, esperando para serem libertadas.

Espero que tenham gostado, até a próxima e lembrem-se, coelhos são alimentos.

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Sobre o Autor

Daniel Estorari

With great powers...

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