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Doutor Sono: Uma continuação decente e respeitosa

Escrito por Thiago Pinto

Dirigir a continuação de uma das obras mais consagradas do cinema não parece ser tarefa fácil. Ainda mais quando o seu antecessor é simplesmente o trabalho de um dos maiores diretores da história. Afinal, como construir e elaborar uma narrativa que consiga ter pernas próprias, sem depender de comparações com o passado? Doutor Sono é a resposta surpreendente e consciente de Mike Flanagan; reverenciar e respeitar o passado, contudo, ter coragem de desenvolver temáticas contemporâneas e ideias inovadoras. Embora seja adaptação do livro de Stephen King, a obra se apega à concepção estética de Stanley Kubrick,  além de construir novas abordagens.

Ouvir os famosos acordes da trilha de O Iluminado (1980) é algo que arrepia até mesmo aqueles que desconhecem o filme. Essa memória icônica está presente logo nos segundos inicias de Doutor Sono, já deixando claro o quão integrado sua história está com a do antecessor. Adaptando o livro de mesmo nome, a narrativa acompanha Danny Torrance (Ewan McGregor) após mais de 30 anos do incidente no Hotel Overlook, um homem que está tentando tratar seu alcoolismo, ao mesmo tempo em que guarda o segredo de sua “iluminação”. A conexão entre os dois filmes é parte integrante da obra, mesmo com novos personagens e situações, os conflitos internos do protagonista estão centrados nos acontecimentos passados e, constantemente, a narrativa retoma esses momentos por meio de alucinações e flashbacks, que recriam cenas exatas de O Iluminado – com atores diferentes.

A necessidade que Flanagan tem de usar o estilo único de Kubrick não demonstra só competência – também expõe coragem. Seja na construção idêntica dos cenários, ou seja na recriação de cenas memoráveis, o diretor tem muito respeito com a concepção estética de Kubrick. Há um certo entendimento sobre o quão importantes são as composições cinematográficas para a criação da atmosfera e do ambiente em torno dos personagens. Nota-se como ocorre as rimas entre este e O Iluminado – só um exemplo para não dar muitos spoilers, o escritório em que Danny tenta arrumar emprego é muito semelhante, nas cores e na arquitetura, da sala em que o pai, Jack (Jack Nicholson), aceita o trabalho no hotel. Além disso, precisa ser mencionado o uso excepcional das técnicas de montagem e de movimentação de câmeras, que são idênticas às utilizadas por Kubrick; as transições de cenas através do crossfade e o uso de panorâmicas e travellings, quase sempre explorando as passagens dos personagens entre os cenários.

Enquanto o filme trata de abordar de forma respeitosa seu antecessor, há a introdução de novas temáticas e personagens. Principalmente as duas protagonistas, Abra (Kyliegh Curran) e Rose (Rebecca Ferguson), que agregam à história por serem a verdadeira distinção entre bem e mal. O embate entre as duas, já que Abra possui uma poderosa iluminação, e Rose se alimenta a partir da morte dos iluminados, apresenta um tratamento visual impressionante. A luta centra-se em um plano mais espiritual e ritualístico, favorecendo a utilização de sequências que abordem elementos reais de forma metafórica. Como, por exemplo, arquivos extensos representando as memórias.

Apresentando um elenco feminino fortíssimo, outra adição, que só aparenta ser de menos importância, é a atriz Emily Alan Lynd. Sua personagem, Snakebit Andi, não é uma simples iluminada que tenta esconder seus poderes e “capacidades psíquicas”, mas sim uma combatente diante dos abusos e da pedofilia praticada por homens adultos. O próprio discurso da personagem está muito ligado com a questão feminista, deixando claro a necessidade que ela tem de marcar suas “vítimas” como uma forma de os envergonharem publicamente. O Iluminado apresentava questionamentos semelhantes, contudo, seus debates eram muito mais implícitos devido a alta capacidade que Kubrick tinha de abordar o tema. Dessa maneira, Doutor Sono expande as barreiras do que é ser iluminado, não se limitando apenas em um poder inexplicável, porém, em uma possível ferramenta social.

E, obviamente, o título Doutor Sono não é por acaso, porque Danny entende sua iluminação além dos simples poderes. Mesmo assim, há certa relutância por parte dele em usar suas habilidades devido ao passado envolvendo seu pai e o Hotel Overlook. Além disso, seus problemas abordam questões reais e práticas como o alcoolismo, algo que o personagem está constantemente tentando escapar. Fica claro o como a obra articula a história de Danny com solidão e melancolia; tendo seu quarto semelhante à uma prisão psicológica. A atuação de Ewan McGregor reforças esses sentimentos e angústias, criando uma complexa dimensão do indivíduo.

Ao passo em que nos aproximamos da reta final, as referências ao Iluminado são quase inevitáveis. Com isso, Doutor Sono cria um terceiro ato que guarda ação, violência e sustos, mas sem deixar escapar o foco narrativo, que é a densa camada psicológica de todos os personagens. Todos ali enfrentam dores próprias e questionamentos, mas Danny é aquele que deve enfrentar seu passado. Quando tudo parecia levar a um final genérico, há um importante encerramento de um ciclo, que transmite a ótima química entre Abra e Danny, e a sensibilidade do diretor ao resolver as profundas e dramáticas dificuldades de seus personagens.

Doutor Sono consiste em uma sequência decente e respeitosa do material original. Tendo consciência da importância de seu antecessor, o filme tenta recriar de forma contemplativa a linguagem de Kubrick. Contudo, Mike Flanagan não se intimida em abordar e expandir temas que conversam com a época em que vivemos. Enquanto O Iluminado apresentava a insanidade e a prisão psicológica de Jack, Wendy e Danny, a nova história mostra como combatermos nossos demônios, sejam eles no plano real ou espiritual, emaranhados na densa teia psicológica do ser humano.

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Sobre o Autor

Thiago Pinto

‘’E quando acabar de ler a matéria, terá minha permissão para sair’’

-Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

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