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Contágio (2011): Ética e empatia em tempos de calamidade

Escrito por Thiago Pinto

Assistir ao filme Contágio (2011), principalmente na época em que estamos, não foi uma tarefa das mais fáceis. Por partir de uma situação similar às nossas condições atuais, os acontecimentos fictícios ganham uma perspectiva muito mais densa, pautada pela realidade observada. Ao abordar a proliferação de um vírus desconhecido, o roteiro se divide em quatro importantes tramas, que apresentam setores diversos da sociedade relacionados a doença: uma família comum, um jornalista, os cientistas e pesquisadores, e os servidores públicos e militares. A partir desse ponto, Contágio discute as particularidades de todos os envolvidos na epidemia, entrelaçando as causas e consequências, e permitindo uma ótima discussão sobre os reais interesses governamentais, a falta de ética que permeia o confronto com a doença e a perda gradativa da empatia da sociedade mundial.

Se pegarmos qualquer um dos assuntos listados acima, poderíamos facilmente abri-los e discuti-los no cenário atual. Essa forte ligação com o real mostra a evidente veracidade científica que permeia o roteiro do filme, e, consequentemente, o atribui uma credibilidade maior. Dessa forma, Contágio exemplifica conceitualmente as capacidades da contaminação do vírus, enquanto ainda demonstra as medidas governamentais necessárias para a diminuição da contaminação – soa familiar? – (Fechar escolas, universidades, locais públicos etc para evitar aglomerações; construir locais temporários para as pessoas contaminadas se estabelecerem e serem observadas; entre outras medidas).

Do ponto de vista político, Laurence Fishburne e Bryan Cranston representam homens públicos que estão dispostos a erradicarem o vírus, mesmo que isso leve tempo e o ocultamento de dados importantes para a população. Nesse sentido, entra o confronto direto com a parte científica dessa produção. Os pesquisadores e cientistas, liderados por Fishburne, têm um objetivo claro de acelerar os conhecimentos acerca dos detalhes da doença, enquanto, o governo, pretende ocultar certos dados para não causar pânico instantâneo nas pessoas. Resulta-se, portanto, em um embate passageiro de interesses, já que um lado está disposto a conceder certos níveis de informação, enquanto o outro preocupa-se na preservação social para não atingir setores da economia e da saúde, passando por questões burocráticas e governamentais. Embora haja o alinhamento desses grupos ao longo do filme, fica óbvio que o diretor Steven Soderbergh pretende debater os limites éticos das gestões governamentais em tempos de crise e colapso.

Tais limites éticos introduzem o personagem Alan (Jude Law) – o elenco é excepcional – que será um fator determinante para a discussão sobre a democratização da informação. Alan é um jornalista independente, que tem um blog pessoal onde escreve artigos sobre casos políticos, principalmente sobre o vírus que está assolando o planeta. Sua investigação acusa que o governo estaria acobertando uma possível cura para o vírus, por conta de interesses da indústria farmacêutica. O filme todo tenta convencer a bondade ética e moral do jornalista, mesmo que seus métodos sejam duvidáveis e o final guarde momentos reveladores. Em momentos como esse, diversos veículos de informação tentam achar algum furo de reportagem, montam discursos e matérias sensacionalistas na tentativa desprezível de alcançar o maior número de pessoas, valorizando seus canais de propaganda.

Contudo, a desinformação estrutural nem sempre está conectada com interesses econômicos. Há aqueles que necessitam dos holofotes para se autopromoverem publicamente. Isto é, independente dos riscos que as fake news podem causar, alguns cidadãos preferem inventar curas impossíveis, ou criar conspirações políticas que, de certa forma, os apresentam como os reais portadores da verdade. Os que “visualizam” as quebras do sistema e não se deixam enganar pelas amarras manipuladoras dos políticos, sendo mais inteligentes do que as organizações mundiais responsáveis.

Essa irresponsabilidade informacional e a inescrupulosa necessidade de ficar por cima refletem na fragilidade das relações sociais que, em momentos de uma epidemia nessa escala, sofrem com um estresse intenso, seja pelo medo da contaminação, ou pelo receio da falta de abastecimento nos mercados e farmácias. Podemos dizer que esse momento do filme – sim, ainda estamos nele – transmite o fator humano, que é corrompido de forma melancólica. Mitch (Matt Damon) é o marido da primeira paciente (Gwyneth Paltrow) que apresentou os sintomas, e se vê em uma situação delicada quando ela e seu filho estão fortemente contaminados. O que resta para o personagem é uma profunda angústia e tensão, enquanto presencia o caos social instaurado e a desestruturação parcial da típica sociedade sob catástrofe.

O desencadeamento de uma insatisfação popular parece distante em certo momento de Contágio, mas conforme o agravamento das letalidades causadas pela infecção do vírus, ela se torna mais nítida e presente. E o filme tenta encontrar causas pertinentes que desencadearam a depredação de locais públicos e os constantes furtos em mercados e lojas de qualquer departamento: a negligência do governo e dos meios de comunicação. A falta de compromisso do governo para com a população soa como clichê, mas o que Soderbergh faz é também mostrar as dificuldades de manter a ordem pública, seja por comandos superiores ou pela falta de recursos para tal. Em relação a comunicação, uma das revelações de Alan é determinante para causar ainda mais tumulto e caos, que se mostra uma falsa esperança para os que acreditam fielmente.

Contudo, há um fator pouco claro que, se seguirmos os conceitos concretos apresentados pelo filme, não conseguimos encontrar de maneira explícita: a perda da empatia. Evidente que o número de mortes apresentado pelo filme, e a alta infecção, deixaria todos em pânico e, de certa forma, justificaria os extremos praticados pela população. Mas o ato de puro pânico demonstra-se pautado na arrogância e no egoísmo, já que, ao invés das pessoas terem uma consciência coletiva, elas se tratam como inimigas e competidoras; saltam de seu estado comportado para o seu estado puro e natural. E a violência de Contágio está concentrada em uma cena particular e precisa, que mostra que o medo é só uma justificativa para o desnecessário uso da violência.

Sim, o texto tem confusões temáticas claras. Estaria eu falando sobre o filme, ou sobre a atualidade? E, sim, a confusão é proposital por motivos óbvios. Não há necessidade para pânico, e tampouco para o esvaziamento de mercados e farmácias. Há a necessidade de nos conscientizarmos sobre a atual situação, seguir as medidas profiláticas, e compartilhar informações confiáveis de fontes seguras com credibilidade. Porém, não sou nenhum especialista para dizer o que você deve ou não fazer, contudo, como essa é uma coluna sobre cinema, me vejo na responsabilidade de te dar uma dica para a sua quarentena: assista a filmes e séries, leia livros e contos, e, além disso, reflita sobre o que acabara de ver/ler. Faça o seu tempo valer a pena, aproveite os momentos livres em casa para fortalecer e desenvolver a sua sensibilidade.

É através da sensibilidade que adquirimos empatia. Embora Contágio apresente diversas problemáticas e desperte certa melancolia, não deixa de introduzir um vislumbre de um futuro promissor que, certamente, com ética e empatia, aparecerá para nós também.

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Sobre o Autor

Thiago Pinto

‘’E quando acabar de ler a matéria, terá minha permissão para sair’’

-Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

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