Música

Com Black Is King, Beyoncé prova mais uma vez que é uma lenda. Mas, como ela chegou lá?

Escrito por Pedro Alonso

Na última sexta-feira (31), Beyoncé Knowles Carter lançou o aguardado filme Black Is King, projeto derivado do longa Rei Leão, filme de 2019 no qual a cantora não só deu voz à personagem Nala como também foi responsável pela curadoria da trilha sonora do longa.

Descrito por Beyoncé em um post no Instagram, Black Is King “vai além de uma peça companheira da trilha sonora “The Lion King: The Gift”. É também um projeto que tem como objetivo “Celebrar a amplitude e a beleza da ancestralidade negra”. E com todos os acontecimentos nos últimos meses relacionados às pautas raciais, o projeto ganhou um significado ainda maior. Apesar de no começo, na época de lançamento, o álbum ter passado quase que despercebido. 

Mesmo sendo bem recebido pela crítica especializada, ter sido lançado no nome da maior artista viva e derivado de uma das maiores bilheterias do ano, The Gift não foi abraçado pelo grande público. Ou pelo menos, passou longe dos padrões altos que um álbum de Beyoncé geralmente alcança.

KUOW - Beyonce's Visual Ode, 'Black Is King,' Arrives

Álbuns pop, às vezes, não contemplam grande êxito comercial por diversos fatores. Podem não ter uma sonoridade que converse com o que seja popular no momento, podem ter estratégias de marketing e divulgação que não sejam muito assertivas ou simplesmente, o público não consegue se conectar com a mensagem do artista. Essas coisas são normais. Nenhum grande artista está livre de sentir uma queda comercial em algum projeto, na verdade, é bem provável que todos sofram com isso em determinado ponto da carreira. 

Como isso é comum, os artistas e gravadoras só seguem em frente. Mudam alguns passos, determinam novas estratégias para um futuro lançamento e assim o jogo continua. Mas como citado anteriormente, Beyoncé é a maior artista viva. Então, com ela, logicamente a história é diferente. 

Que tipo de artista investiria em um trabalho visual de um álbum não tão bem aceito pelo mercado? O que isso agregaria para suas vendas? Se tratando de música pop, essas questões são bem pertinentes e coerentes. 

Mas não para Beyoncé. Embora ela ainda seja uma artista popular e se encontre no jogo da indústria, ela não precisa mais se preocupar com vendas, hits e coisas do tipo. Está nessa posição de privilégio máximo e sequer chegou aos 40 anos. Como?

Para entender como Beyoncé chegou no topo da pirâmide musical, é preciso voltar para a madrugada do 13 de Dezembro de 2013, quando Beyoncé lançou seu quinto álbum de estúdio, autointitulado, de forma surpresa.

Com 14 músicas e 17 clipes, “BEYONCÉ” chegou às lojas pouco mais de 2 anos após o álbum “4” que, assim como Black Is King, não teve grande êxito comercial ou impacto como seus antecessores.

Indo na contramão de todo o ciclo habitual da indústria de um lançamento de álbum, Beyoncé simplesmente entregou o disco inteiro com um clipe para cada faixa de uma vez só. Mudando não somente as projeções de sua carreira como também toda a indústria musical. 

A partir do lançamento de “BEYONCÉ”, todo o jogo da cadeia musical mudou. O impacto é sentido até hoje em dia. No mercado, vimos que os lançamentos de singles e álbuns são feitos com pouco tempo de espera desde seus anúncios. E também sabemos que atualmente, o dia oficial de lançamento de singles e álbuns são na sexta-feira, mesmo dia da semana qual o quinto álbum de Beyoncé foi lançado. 

Houve também a  popularização de  anúncios e lançamentos de álbuns surpresas. Rihanna, Drake, Taylor Swift, J Balvin e Bad Bunny são artistas que já utilizaram dessa estratégia para seus próprios projetos. 

No lado artístico, é perceptível a crescente quantidade de trabalhos visuais feitos por grandes nomes da música internacional.  Florence And The Machine, Justin Bieber, Tove Lo, ROSALÍA e Jay Z, são alguns dos artistas que já trabalharam seus álbuns como projetos visuais. 

O impacto de “BEYONCÉ” não ficou somente no hemisfério norte. Foi global.

No Brasil, temos exemplos como o duo Anavitória que lançaram o disco “O Tempo É Agora” em 2018 sem avisos prévios. E Anitta, com Kisses, no ano passado, fez questão de entregar um clipe para cada faixa de seu álbum “Kisses”. Tiago Iorc, é o nome que mais se aproximou do lançamento de “BEYONCÉ”. Depois de ter conquistado o mainstream nacional com o álbum “Troco Likes” e um longo tempo de hiato, o brasiliense também lançou seu álbum visual “Desconstrução” de forma surpresa. 

Com um trabalho tão arriscado mas que deu tão certo, (afinal, mesmo lançado no final de 2013, o álbum auto intitulado de Beyoncé conseguiu ser o mais vendido por uma mulher naquele ano) era quase impossível para que ela conseguisse se superar e fazer algo mais grande. Até que 2016 aconteceu, e ele nos trouxe Lemonade

Big Yons (@BIegacy) | Twitter

Um dia antes da 50ª edição do Super Bowl, Beyoncé, que era uma das convidadas da banda Coldplay, headliners do evento, lançava, novamente de forma surpresa, o single e o vídeo de Formation

Desde o início de sua carreira, Beyoncé sempre foi vista como um grande símbolo de empoderamento feminino. As pautas feministas sempre estiveram presente em suas obras. Sucessos como “Independent Woman”, “Irreplaceable”, “Run The World”, “Partition” e “***Flawless” mostram como a artista foi se politizando ao passar dos anos e inserido seu engajamento na sua arte de forma cada vez mais consciente. Mas além do feminismo, Beyoncé também sempre foi um grande símbolo representativo no movimento negro, sobretudo à mulheres negras. E então, foi com Formation que Beyoncé, após chegar em um patamar na qual dificilmente seria atingida, mergulhou de cabeça no ativismo negro. Usando sua voz, arte, poder e popularidade para levantar pautas, discussões e representatividade na sociedade americana e ocidental.

Beyoncé cantou no maior evento televisivo do mundo sobre empoderamento negro e feminismo com referências diretas à Michael Jackson, Malcolm X e aos Panteras Negras. O suficiente para gerar uma série de reações na sociedade americana, tendo um impacto além da indústria fonográfica. 

Mesmo sob protestos, ameaças, boicotes por parte do público conservador e supremacista americano, Formation se tornou a música e o clipe mais premiado da história; e claro, uma das músicas mais icônicas da última década.

Lemonade foi lançado 2 meses depois em abril de 2016. O disco também chegou ao mercado de forma visual, onde cada faixa possui um videoclipe. Entretanto, Beyoncé mais uma vez superou o próprio trabalho. Os clipes de Lemonade juntos contavam uma história só. Uma história cheia de nuances e detalhes, onde não só colocava holofotes sobre pautas raciais, como também ousava em mostrar a vulnerabilidade e questões pessoais da própria Beyoncé.

Por fim, o disco não só figurou as listas especializadas de melhores álbuns dos anos 2010s, como em quase todas as tabelas, aparecia sempre no top 3. A sua turnê, foi a mais lucrativa por um artista solo no ano de 2016, arrecadando quase 5 milhões de dólares por show.

Lemonade teve um impacto cultural e social tão grande que, mesmo não tendo hits “convencionais”, aqueles que figuram as tabelas da Billboard, é um dos projetos mais bem sucedidos de todos os tempos. O projeto consolidou a ideia que Beyoncé havia apostado em 2013, de que não era mais necessário para ela ter um single #1 nas paradas quando o seu nome, e sua arte em geral, eram maiores do que qualquer coisa. 

De 2016 até aqui, Beyoncé não lançou mais nenhum álbum solo. Entretanto, isto não signifique que a mesma não tenha trabalhado em outros projetos musicais. Em 2018, Beyoncé fez um show histórico durante o Coachella, sendo a primeira mulher negra à subir no palco de um dos maiores festivais de música do mundo. E  posteriormente, o evento ganhou um documentário pela Netflix, intitulado de Homecoming que foi lançado no ano passado.
No mesmo ano do “Beychella”, Beyoncé lançou, também de forma surpresa, o álbum colaborativo com seu marido Jay-Z “EVERYTHING IS LOVE”. O projeto chegou às plataformas junto com o histórico clipe de “APES**T” gravado no Museu do Louvre.

 As palavras “surpresa” e “histórico” acompanhados de Beyoncé, a esta altura da matéria e de jogo chegam a ser redundante. Eu sei.

E enfim, no ano de 2019, Beyoncé lança The Lion King: The Gift, um álbum de sua curadoria, inspirado na trama de Rei Leão. Como comentado no início da matéria, a recepção morna que o disco recebeu por parte do público não impediu para que Beyoncé seguissem em frente ao querer transformá-lo também em uma obra visual. E após entender os últimos e mais importantes anos da carreira de Beyoncé, podemos entender o porquê disto. 

Black Is King, é Beyoncé indo novamente além da música e da indústria musical. É um projeto que é pretensioso e tem sede de entrar para história. Derivado de um álbum de afrobeat, no qual Beyoncé convocou diversos artistas africanos, o filme é complexo, rico e especial. Está evidente que Beyoncé pode se dar o luxo de contar e cantar sobre o que acredita e o que faz sentido, sem se importar com números.

A música e a arte são mais importante do que playlists no Spotify e posições na Billboard, todos nós sabemos. Madonna, Elton John, Paul McCartney, Chico Buarque, Maria Bethânia, Gilberto Gil são alguns nomes que podem apenas se importar com os seus trabalhos e excelências artísticas, independente de cenários mercadológicos, porque eles são lendas. E lendas podem ser dar esse luxo, pois geralmente se consolidam após construírem um legado e com uns bons anos de carreira. Mas Beyoncé consegue ser a exceção. Com apenas 6 álbuns em sua trajetória e 17 anos em carreira solo,  ela já é uma dessas lendas. E ela sabe disso. Sorte a nossa. 

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Sobre o Autor

Pedro Alonso

Sou estudante do 2º período de Jornalismo e apaixonado por cultura pop. E assim como Justin Timberlake fez em seu 3º álbum de estúdio, estou vivendo minha 20/20 Experience.

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