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Viúva Negra: Como não utilizar uma personagem

No ano em que o Universo Cinematográfico Marvel (MCU), comandado por Kevin Feige, completa 11 anos, nós fomos agraciados com o maior filme de super-heróis já produzido, Vingadores: Ultimato, dirigido por Joe e Anthony Russo. Nesse ponto de fechamento de uma era, o filme trouxe várias reflexões sobre o andamento do MCU e é aqui que eu encontro uma discussão que parece bem pertinente sobre a Viúva Negra… Como não utilizar uma personagem.

Spoilers de Homem de Ferro 2 (2010) até Vingadores: Ultimato (2019) à seguir.

– A introdução

A espiã russa, Natasha Romanoff, foi introduzida no MCU no segundo longa do Homem de Ferro, em 2010, sendo a terceira personagem da equipe original dos Vingadores a aparecer nas telonas. Interpretada pela musa Scarlett Johansson, a personagem foi trazida dos quadrinhos ao cinema por Jon Favreau, e um dos pontos mais destacados pelo filme foi o sex appeal dela.

Apesar do bom tempo em tela da personagem no filme, a trama da Viúva Negra aqui é diretamente ligada aos problemas de Tony Stark, sendo usada quase como uma muleta narrativa, em que o filme busca apoio quando precisa do protagonista com um novo interesse amoroso ou que descubra segredos do mesmo para revelar ao público.

– Um eterno apoio narrativo

Natasha volta aos cinemas em 2012 em “Os Vingadores”, dessa vez pelas mãos de Joss Whedon. Apesar do aumento de visibilidade da personagem, ela continua com características introduzidas no longa anterior: Sex appeal e muleta narrativa para os outros protagonistas do filme. É notável isso quando a primeira aparição dela aqui é utilizando a sexualidade da personagem.

Em 2014, Scarlett Johansson seria co-protagonista de “Capitão América: O Soldado Invernal”, ganhando ainda mais tempo em tela e dividindo diretamente o filme com o protagonista, interpretado por seu amigo Chris Evans. O filme parecia um ponto de virada para a personagem, com a direção de Joe e Anthony Russo, a Viúva Negra ganha um olhar ainda mais entoado à espionagem, perdendo o apelo sexual. Porém, novamente todo o arco dela é direcionado ao protagonista, não há uma discussão própria para ela, tudo está ligado diretamente com o arco de Steve Rogers e da SHIELD.

Nesse vai-e-vem de não saber como acrescentar na personagem, Joss Whedon piora tudo quando em “Vingadores: Era de Ultron”, torna Natasha Romanoff um puro par romântico de Bruce Banner. Além da falta de química entre os atores causar cenas vergonhosas, a maneira como é construída a relação adiciona mais ao personagem de Mark Ruffalo que à ela, e ainda faz a personagem perder o laço forte da espionagem que foi exaltado no segundo filme do Capitão América.

– O protagonismo mais coadjuvante existente

As tentativas falhas de acrescentar na personagem a utilizando como muleta narrativa para protagonistas masculinos começam a refletir nos filmes posteriores. No terceiro longa do Capitão América, em que coloca Steve Rogers e Tony Stark como antagonistas, a Viúva Negra é utilizada para reforçar a “política” de ambos os lados. No filme, é como se a personagem de Scarlett Johansson perdesse ainda mais força para servir a ambos os lados da trama, deixando ela em si invisível.

Apesar de dirigido pelos mesmos nomes por trás de Soldado Invernal, a Viúva Negra não ganha em nada, por outro lado, Scarlett cresce ainda mais dentro da Marvel, caminhando para se tornar um dos grandes nomes em questão salarial no estúdio, apesar de isso não refletir bem nos longas. Essa questão mostra como Kevin Feige se importava mais em manter o nome da atriz em relevância do que a personagem, isso era uma consciência de que ela atraia o público, não importando o que fariam com ela.

– O sacrifício

Chegamos em 2018. O lançamento de “Vingadores: Guerra Infinita” diminuiu o tempo em tela e resumiu arcos de vários personagens para conseguir equilibrar a trama e tempo em tela, aqui, não é só a personagem que sofre com essa escolha, porém outros personagens como o Capitão América, que perdem muito no filme, já haviam ganhado um desenvolvimento ótimo em filmes anteriores, diferente da Viúva Negra. Para o filme, era mais importante a construção entre este longa e o posterior que encerraria uma fase grandiosa da franquia, apesar de não estarem errados nesse ponto, houve um erro gigantesco ligado à Natasha

Em “Vingadores: Ultimato”, filme lançado neste ano, nós temos um foco maior nos protagonistas do longa-metragem original dos Vingadores, incluindo a própria Viúva Negra. O arco de Natasha Romanoff aqui é o melhor da personagem em 11 anos de MCU, esse levanta questões sobre como ela aproveitou sua vida, sobre a perda de oportunidades e como ela é um apoio da família que ela construiu na equipe, e isso reflete diretamente com o que foi feito com ela por trás das câmeras.

Apesar da boa construção do arco e das adições que isso entrega à personagem, há uma sequência aqui joga tudo pros ares. Quando o Gavião Arqueiro e a Viúva Negra vão para Vormir para resgatarem a joia da alma, o público já sabia que um dos dois não sairia de lá com vida, e de acordo com a construção do filme, é interessante notar que ambos teriam que fazer isso por uma “família”. Porém, a construção da cena em si chega a ser vergonhosa, a decisão ocorre através de uma luta, e o final dessa luta entre os dois é…

Quando Natasha se suicida para ter a joia, na metade do filme, é notável que aquilo não gera peso, uma cena dos Vingadores discutindo a importância dela e pronto, um dos maiores sacrifícios é simplesmente ignorado pela outra metade do longa. Uma grandiosa batalha final sem a personagem é um reflexo direto de como o arco dela não teve impacto no filme, a cena da A-Force sem a primeira heroína feminina do MCU reforça isso ainda mais. Novamente a personagem é usada como muleta para outros personagens, dessa vez, sem outra chance para o estúdio tentar fazê-la crescer, um sacrifício ignorado que reflete uma construção de personagem esquizofrênica e mal orquestrada durante anos.

– Não é o fim

Apesar da morte da personagem, um filme solo finalmente está sendo produzido para a Viúva Negra. Bem atrasado, o filme não tem data de lançamento definida e as informações sobre ainda são somente especulações e imagens do set. O filme nesse momento se apresenta mais como uma forma de se redimir de Feige e para usar novamente o apelo comercial do nome da Scarlett Johansson.

A única coisa que espero do filme solo é que acerte de uma vez na personagem, pois agora, pode ser o encerramento definitivo para o público quanto à ela. Torcemos.

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Sobre o Autor

Carlos Eduardo Rici

Leitor de quadrinhos e apreciador de bom filmes, viso estudar cinema futuramente. Amante de uma boa música e também desenhista.

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