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Trials of Mana é o remake mais fiel de abril

Escrito por Jean Kei

É difícil falar de Trials of Mana sem citar o contexto onde ele foi lançado. O jogo lançou depois de dois remakes de peso e extremamente aguardados pelo público. De um lado, temos o remake de Resident Evil 3, um grande jogo da década de 90, que lançou em sequência de um dos remakes mais elogiados de todos os tempos. Por outro lado, temos Final Fantasy VII Remake, uma reimaginação de um dos jogos mais queridos da franquia mais conhecida da Square Enix. E bem… Aqui temos Trials of Mana, um remake de um clássico cult que originalmente só havia sido lançado no japão, e está vindo em sequência do remake de Secret of Mana, um jogo duramente criticado por tomar decisões erradas e estragar a essência da obra original.

Mas, Trials of Mana não comete o mesmo erro de seu antecessor

Trials of Mana é um remake fiel e carrega a mesma essência do original. Ele atualiza os cenários e refaz o sistema de combate, mas sem perder o sentimento que o jogo original carregava. Os gráficos atualizados acompanham uma direção de arte que mantém o sentimento de beleza do original. Além de ter esse tipo de cuidado, o jogo traz conteúdo extra e adiciona elementos de qualidade de vida, aumentando o fator replay. Foi adicionado um New Game+, carregando benefícios que permitem experimentar o jogo de maneiras diferentes. Este tipo de adição é importante para o tipo de jogo que Trials of Mana é.

Mas que tipo de jogo Trials of Mana é?

Trials of Mana é um RPG de ação com seis protagonistas, isso significa que a história não tem um foco individual em apenas um personagem. Um problema recorrente em JRPGs é centralizar a historia no protagonista e fazer personagens ao seu redor serem rasos como consequência. Não que o desenvolvimento dos personagens de Trials of Mana seja muito profundo, porque não é, mas todos são bem caracterizados e tem sua importância no mundo.

Ao iniciar o jogo, você escolhe um dos seis personagens para ser o membro principal da equipe, e logo depois mais dois para o acompanharem. A historia será contada pelo ponto de vista dos personagens escolhidos e terá algumas ramificações dependendo de suas escolhas, podendo alterar desde pequenos eventos a quem será o vilão principal da campanha. Apesar de cada personagem ter suas peculiaridades mecânicas, o jogo é balanceado para todos os personagens serem perfeitamente jogáveis em qualquer situação. Mesmo se você escolher um grupo focado em magia e suporte, poderá causar um dano físico considerável (mesmo sendo claramente menor do que o de personagens focados nisso).

Trials of Mana é mecanicamente simples

Veja bem, ser simples não é sinônimo de ser ruim e o jogo entende bem suas limitações. São poucas opções de combo e é bem fácil se acostumar com o gameplay de cada um dos seis personagens, pois são parecidos. Isso não significa que não há variedade, o game possui um sistema de classes que lhe permite jogar de diversas formas. Cada personagem tem ramificações diferentes de classes, o que pode muda-lo drasticamente. Angela por exemplo, é uma maga voltada para magias ofensivas, ela pode seguir um caminho nas trocas de classe se focando em magias poderosas e debuffs, ou se focar em magias que atacam em área. Essas escolhas diferentes de classe fazem com que mesmo se numa nova playthrough você escolha o mesmo personagem, veja coisas novas com ele.

Ah, o sistema de classes troca as roupas dos personagens! Algumas roupas são bem legais e outras são de um mal gosto terrível.

O que não impede o jogo de ser repetitivo

Infelizmente o maior pecado Trials of Mana é não se soltar estruturalmente demais do jogo original, que é um RPG de 1995. Você terá quase todas as tropes de um JRPG dos anos 90: seu grupo terá um loop de gameplay que consiste em ir até uma cidade nova, se contextualizar nela conversando com NPCs, ir até uma nova área avançando a história… e repita isso até os três últimos atos do jogo. O jeito que a narrativa é contada não algo que te engaje facilmente, fazendo com que seja fácil desfocar sua atenção com o jogo. O jogo tem algumas coisas que ajudam essa repetição não ser tão massante, como coisas escondidas te incentivando a explorar e alguns chefes com batalhas interessantes.

Chefes, estes que te fazem perceber o quão ruim é a IA do jogo

Os melhores chefes deste jogo irão invocar inimigos, armadilhas e magias em área que fará com que você tenha que ficar se movendo constantemente pelo cenário. Mas você logo perceberá o quanto a inteligencia artificial dos seus aliados é falha. Gastei muitos itens de cura e de ressurreição porque meus aliados se jogavam em direção aos ataques.

Para impedir que meus companheiros se suicidassem, eu os trocava constantemente para tirá-los de armadilhas e otimizar golpes. O problema é, que quando eu trocava pra um, o outro ia lá e fazia a mesma coisa. Não é algo que estragou a experiência, pois o nível de dificuldade do jogo é um tanto fácil e dificilmente você será gravemente punido. De fato, até o sistema de distribuição de pontos te limita, impedindo o jogador de fazer uma besteira grande (e mesmo se ele conseguir, você tem a opção de resetar os pontos).

No fim, a fidelidade é a melhor qualidade e o maior defeito de Trials of Mana

Especialmente para quem tem um apreço pelo jogo original, revisitar tudo aquilo com novos olhos é de um agrado gigantesco. O jogo, apesar de seus vários problemas, ainda transborda carisma e é divertido. Mas nem tudo são flores, algumas coisas envelhecem mal e coisas que não funcionavam no jogo original, pioraram aqui. O prólogo da personagem Riesz no original fazia pouco sentido, aqui o negócio fica ridículo de forma magistral. Algumas cenas claramente funcionavam melhor sendo representadas por sprites em 16bits. O conteúdo adicional é legal, traz um vilão novo e uma dungeon interessante de se explorar, mas ela está ali como um “epílogo extra” ao invés de ter sido organicamente implementada dentro da história principal.

Um caminho mais seguro

Enquanto Final Fantasy VII Remake re-significa, altera e adiciona muito sua estrutura original, Trials of Mana opta por manter o máximo possível a mesma experiência, mesmo as coisas extras não interferem diretamente com o que é contado originalmente. É bem curioso ver dois produtos vindo da mesma empresa tendo uma filosofia diferente.

No fim das contas, Trials of Mana é uma experiência positiva, mesmo com seus problemas e optando por não se distanciar do lugar comum de maneira nenhuma. É um jogo bonito e divertido, e mesmo que seja por vezes repetitivo, te incentiva a voltar para ele rejoga-lo algumas vezes.

Agradecimentos à Square Enix pelo envio do código. O game foi testado em um PlayStation 4. Trials of Mana está disponível também para Nintendo Switch e PC (via Steam).

Selo Prata: Considerável

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Sobre o Autor

Jean Kei