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Torre Recomenda | Komi-san wa komyushou desu

Enquanto procurava por algo novo para ler entre os diversos mangás em hiato que acompanho, através da recomendação de vários acabei encontrando com Komi-san wa komyushou desu e após ler a one-shot que a introduz, acabei me apaixonando. Após perceber que havia passado o dia inteiro lendo, tive certeza que iria falar sobre Komi-san, uma leitura divertida que se destaca pela simplicidade com que transmite um drama social comum e as emoções de uma das personagem, que apesar de não falar muito, é facilmente uma das mais cativantes que conheci recentemente.

Komi-san tem problemas de comunicação. Quando uma pessoa não é capaz de falar por ela mesma o que pensa outras pessoas irão falar por mais que não saibam quem aquela pessoa silenciosa é.

Escrito e ilustrado por Tomohito Oda, Komi-san wa komyushou desu é uma série semanal da Shounen Sunday da editora Shogakukan publicada nas quartas-feiras onde outros títulos como Zatch Bell, Inuyasha e Dagashi Kashi já foram serializados. A história gira em torno de Komi-san, uma linda e admirável garota que ninguém consegue tirar os olhos. Quase toda a escola a vê como a beleza fria que está fora de seu alcance, mas Tadano Hitohito sabe a verdade: ela somente não sabe como se comunicar com os outros. Komi-san, que deseja consertar esse mau hábito, tenta melhorar com a ajuda de Tadano-kun.

O que me interessou em Komi-san é como, apesar da história ter como base para a comédia o seu problema de comunicação, ela opta por seguir um estilo de comédia mais slice of life em comparação a outra obra do gênero que também lida com uma protagonista com problemas de ansiedade social, Watashi ga Motenai no wa Dō Kangaetemo Omaera ga Warui! (ou somente Watamote). A comédia é desenvolvida em cima da relação de Komi com estes personagens excêntricos da sua sala. Esse tipo de comédia se estabelece em uma personagem com algum tipo de trauma social ou condição estereotípica de um grupo, novamente o exemplo de Watamote onde a protagonista neet tem dificuldades para se comunicar com as pessoas que não façam parte do seu grupo familiar. Em Watamote, a comédia é desenvolvida em cima da personalidade excêntrica da protagonista e as situações ridículas em que ela se coloca; ela é a piada.

Komi-san é uma garota normal.

Tadano-kun, o primeiro amigo de Komi, desempenha muito mais um papel de protagonista-narrador do que ela, e acredito que isto beneficia bastante a história ao não colocar uma protagonista silenciosa, que se comunica com o leitor através de monólogos na sua cabeça, como em Watamote; ele serve como um tradutor para Komi-san, mas ainda sim sem tirar o peso das palavras originais de Komi que pouco a pouco aprende a falar por si só.

Ao ganhar um celular do seus pais (mesmo que seja um modelo flip antigo), ela fica feliz por finalmente ter um motivo para ter um celular: ligar para os seus novos amigos. Me lembrou um pouco minha experiência com meu primeiro celular na época do fundamental quando eles apenas serviam para fazer ligações e jogar Snake. É fácil se identificar com Komi-san, apesar da sua aparência – a garota mais bela da escola, a deusa da classe 1-1 – ela é apenas uma garota comum com medos e ansiedades. Por vezes nos encontramos com pessoas dispostas a socializar conosco, a dizer o primeiro oi, mas o medo da rejeição, das risadas, comentários indesejáveis que irão fazer sobre você assim que você virar as costas e então todos na escola vão fazer piada com você até o final do ano, nos levam a permanecer em silêncio.

Em Komi-san, a história gira muito mais em torno da relação dos diversos personagens excêntricos da sala 1-1 com Komi, do que sobre a condição isolada dela; a piada está na forma como ela reage e se comunica (ou tenta) com estas pessoas estranhas que querem ser seus amigos. É indispensável comentar sobre o fofo design cartunesco de Komi (que me lembra um pouco o design de tirinhas como Peanuts), que exala a essência da personagem e a eleva a um novo nível nas Waifu Wars. No fim das contas, por mais que eu tente soar técnico ao elogiar a forma como Komi-san nos é apresentada, acredito que o mangá deve ser encarado apenas como uma incrível comédia a ser apreciada na mesma nota que Nichijou!

Assim como Komi-san, sabemos o quanto é difícil nos comunicarmos com outras pessoas seja na escola, trabalho, no mercado, por isso não me surpreendi ao me ver torcendo com um sorriso orgulhoso por Komi em momentos incrivelmente dramáticos da relação em sociedade, como pedir um lanche em um fastfood. Komi-san nos lembra o quão importante é saber nos comunicarmos, estabelecer uma relação com alguém que nos entenda e que nos ajude, por mais difícil que seja dizer o primeiro oi.

É uma comédia simples que se estabelece em momentos que nos fazem lembrar da nossa própria vida escolar, tenha sido ela dourada ou amarga. Os momentos doces de desenvolvimento de Komi-san, ao se comunicar com seus novos amigos e família, certamente valem a pena não apenas para quem quer uma leitura meiga no estilo shoujo, mas para qualquer um que em algum momento já sentiu vergonha ao conversar com alguém.

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Sobre o Autor

Luiz Alex Butkeivicz

Estudante de letras e literatura japonesa e escritor.

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