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The Midnight Gospel é uma animação original, onírica e complexa

No dia 20 de Abril, chegou à Netflix uma nova animação, The Midnight Gospel, criada por Duncan Trussell em parceria com Pendleton Ward, que também assina a aclamada Hora de Aventura. Trazendo uma proposta um tanto quanto interessante, a animação é composta por oito episódios, todos com ideias originais e que logo conseguiu conquistar o público que procura tanto por animações “adultas”.

Mas The Midnight Gospel é muito mais que uma animação adulta, niilista ou nonsense, como são várias outras nos dias atuais. A proposta de misturar podcast com narrativa torna os episódios complexos e com uma carga emocional e filosófica carregada de questionamentos além do entretenimento que pode ser proporcionado. Mais que tudo, ela exige concentração absoluta do público.

Na trama, acompanhamos Clancy (Duncan Trussell), o criador do SpaceCast, um podcast transmitido para todo o espaço sideral. Para conseguir suas entrevistas, Clancy usa um simulador de mundos, um aparato que cria universos e planetas com vida inteligente. Nesses mundos é onde o protagonista grava seus programas e aprender mais sobre si mesmo. Nisso, conversas sobre existencialismo, magia, morte, meditação e uso de drogas acabam acontecendo.

Tudo acontece de forma bem orgânica. O uso do podcast é a principal ferramente na animação, e é o que gera o fluxo da narrativa e a faz fluir tão bem, mas não se engane, não é fácil absorver todas as ideias discutidas aqui, já que em paralelo com a entrevista, a animação faz questão de criar mini-narrativas sem muita conexão direta com o tema tratado. Essas histórias em paralelo usam e abusam de simbolismos e acrescentam muito no contexto geral dos episódios.

O que faz as conversas fluírem tão bem durante os episódios é o uso de um podcast real neles. The Midnight Gospel nada mais é que a construção de um mundo fictício sobre um programa real pré-existente. O chamado Duncan Trussell Family Hour, é um podcast de 2013 do protagonista e co-criador da animação. Parte dos diálogos da animação são diretamente extraídos de lá, e para a narrativa funcionar, é acrescentado falas que contextualizem o papo real no universo nonsense do desenho animado.

Não é à toa que na plataforma, a animação recebeu a classificação indicativa para maiores de 18 anos. Gore, sangue e sexo são recorrentes nos episódios, acontecendo diretamente em paralelo com conversas profundas e naturais sobre assuntos realmente importantes, mas que geralmente não são tratados com naturalidade no mundo real. Muitas pessoas que assistiram ou assistirão a animação, normalmente não procurariam o podcast real à parte, mas com a mistura de palavrão para car@*#! e o psicodélico mundo animado, a atenção desse público é conquistada.

Os convidados do podcast que foram transformados em personagens divertidos e profundos na animação são especialistas e profissionais nas áreas discutidas. São eles: Dr. Drew Pinsky, um especialista em vícios; Anne Lemott, autora de não-ficção e professora de escrita; Raghu Markus, produtor musical; Damien Echols, que foi condenado à morte e após se livrar da prisão se aprofundou em estudos de magia; Trudy Goodman, psicoterapeuta e professora em meditação; Jason Louv, que também é especialista em meditação; David Nichtern, compositor e professor de budismo; Caitlin Doughty, agente funerária e fala sobre o assunto na internet; E por último, mas não menos importante, Deneen Fendig, pós-graduada em psicologia, terapeuta e mãe de Duncan.

Todos esses entrevistados tem sempre algo interessante para discutir, o que pode ser divertido, terapêutico e emocional ao extremo com o decorrer dos episódios. Tudo isso torna a experiência de assistir The Midnight Gospel algo sem dúvidas, transformador, de alguma forma. Também trazendo seu valor de entretenimento conforme a narrativa progride.

Tudo é feito para uma experiência incrível. O design criado pelo diretor de arte Jesse Moynihan (Hora de Aventura) é onírico, colorido e está constantemente chamando a atenção para que o público se concentre mais ainda no conjunto de visual e diálogos. É surrealista e imagético, gerando tanto peso quanto os temas tratados pelas personagens. O uso musical também é presente, e de forma inteligente. Tudo isso forma uma grande massa de informações disseminada em oito episódios de pura experiência, que demonstra o quão maduro uma animação pode ser.

The Midnight Gospel não é só mais uma animação niilista e nonsense. Com um real valor de entretenimento e profundidade, Duncan Trussell e Pendleton Ward criam algo original, inteligente e que utiliza tudo que um produto animado pode oferecer para disseminar valores importantes e que precisam ser discutidos. É uma animação feita para você mergulhar de cabeça… e meditar em seguida.

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Sobre o Autor

Carlos Eduardo Rici

Leitor de quadrinhos e apreciador de bom filmes, viso estudar cinema futuramente. Amante de uma boa música e também desenhista.

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