Música Vitrola

Resenha | Raimundos Acústico

Escrito por Ricardo Ramos

Confesso que quando soube que os Raimundos estavam preparando um projeto acústico, como fã da banda desde 1994, meio que torci o nariz. Não por achar que ficaria ruim, mas depois de um disco ao vivo, Roda Viva (2011), um de inéditas Cantigas de Roda (2014) e o Cantigas de Garagem (um ensaio gravado ao vivo também em 2014) eu tinha a opinião de que duas releituras da carreira com somente um projeto inédito e agora um acústico, achei que não seria o ideal, gostaria de ver material novo. Então foi quando eu escutei o “Verdinho”.

Ainda bem que eu estava errado.

Tocar em formato unplugged não é totalmente uma novidade na história da banda, houve um momento no começo da carreira, em Brasília, em que eles tocavam Zenilton e Ramones em versão forró, com violão, triangulo e um banquinho como percussão. E claro as incontáveis vezes dos Luaus na MTV e o programa Balada MTV. Mas nada tão bem cuidado e produzido como o novo projeto. O Raimundos Acústico é com certeza uma das melhores produções da fonografia em 2017 no Brasil. O jeito em que os caras idealizaram tudo de música até o telão no palco e as novas roupagens para antigas canções surpreenderam e fazem o Acústico dos candangos ser um dos melhores feito por músicos brasileiros.

Eu sinceramente esperava algo mais “baião” ou até mesmo “arrasta-pé”, mas fui positivamente surpreendido com um álbum consistente e bem intimista até. O projeto é uma vitória para os membros da banda que se encontra, verdade seja dita, desde o Catingas de Roda, em seu melhor momento nos últimos anos. “Gordelícia”, a incansável “Reggae do Manêro” (com um arranjo de sanfona lindo) e “Cera Quente” são as mais simples, mas ainda assim, não tão ruins, alguns momentos sendo melhor do que as versões originais.

Com um quê de Ska, reggae ou simplesmente violões a todo vapor, músicas como “Me Lambe”, “Puteiro em João Pessoa” e o hino “Eu Quero ver o Oco” são uma viagem ao passado de moleque doido doidão que comprava revistas de cifras nas bancas. Os hits radiofônicos “Mulher de Fases” com participação de Dinho Ouro Preto (Capital Inicial) e “A Mais Pedida” com Ivete Sangalo marcam presença com uma participação massiva do público. A baiana ainda tem mais uma participação em “Baculejo”, e antes que “os caras chatos do rock” fiquem de mimimi, ela manda muito bem nas duas participações. Em “Deixa eu Falar” tem a presença de Alexandre Carlo vocalista do Natiruts, revivendo a versão original do álbum Só no Forevis (1999). E a banda Oriente (que confesso que não conhecia) traz o hip-hop para “Dubmundos”.

Digão e Ivete Sangalo

Das canções que receberam novas versões se destacam “O Pão da Minha Prima” que se transformou em um Ska zinho delicioso de ouvir, os arranjos de metais em “Palhas do Coqueiro”, “Bonita” e “Papeau Nuky Doe” encaixam de tal forma que nunca pensaríamos ouvir nas gravações originais. “Bê-a-Bá” ganhou uma sinistra e boa versão, os hardcores, que foram genialmente desacelerados ficaram perfeitos. Nessa pode destacar “Rapante”“Sereira da Pedreira”, e a ancestral “Nega Jurema” que ganhou uma introdução que lembra Ultraje a Rigor e a parte final meio repente. Na onda meio forró consagrada pela banda, “Esporrei na Manivela” deixa a impressão de que a qualquer momento Zé Ramalho vai entrar na música. Confesso que gostaria de ouvir uma versão de “Pitando no Kombão”… mas isso já é gosto pessoal.

As surpresas são as músicas “Mas Vó” e “El Mariach” ambas do disco Kavookavala (2002), nem o mais fanático fã da banda pensaria que elas entrariam no set list. E a emoção surge em três momentos distintos, quando rola o cover de Charlie Brown Jr. “Lugar ao Sol”, com o guitarrista Marcão da extinta banda santista cantando e dedicando para seus finados companheiros, Chorão e Champignon, o outro momento é na participação de Rick Campos, filho do Digão, tocando piano na nova versão de Y Saw You Saying (That You Say That You Saw) que virou uma baladinha linda, leva o vocalista às lagrimas. Mas, com certeza, a parte mais emocionante é quando Fred Castro, baterista da formação original da banda, toca nas músicas “Cintura Fina” e aquela que foi o BOOM da banda em 1994, a balada sacana “Selim”. No DVD do show vemos Fred chorar durante a sua participação e alguns marmanjos na plateia com olhos marejados também.

Digão, Fred e Canisso.

O Raimundos Acústico é o álbum que a banda mostra “estamos aqui ainda, estamos bem e fazendo o que gostamos com carinho para vocês”. Antes de qualquer coisa é uma grande festa na carreira dos Candangos, onde passa por todos os discos dos quase 30 anos de banda. Ficando de fora apenas o EP Pt Qq cOizAh (Ponto qualquer coisa) de 2005. Mas na verdade nem faz tanta falta assim.

Pode-se dizer que o Acústico é um projeto bem intimista dos Raimundos comemorando sua trajetória com uma saraivada de sucessos de sua carreira no rock nacional. Podem ter passado momentos difíceis, com até negação de alguns antigos “fãs”, mas os Raimundos estão aí andando na pedra bem firmes.

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Sobre o Autor

Ricardo Ramos

Gibizeiro, escritor, jogador de games, cervejeiro, rockêro e pai da Melissa.

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