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RESENHA | Black Dog – Os Sonhos de Paul Nash

Escrito por Marcus Santana

Sonhamos e não recordamos. Esquecemos o que se passa no único momento que somos livres e ainda assim não temos nosso controle. Sonhos são materiais de estudos, nos intrigam e fazem buscar significado para algo que talvez não tenha mais nada a ser dito.

Dave Mckean já é conhecido por outros momentos que emergiu no R.E.M em suas conhecidas e consagradas colaborações com Neil Gaiman em Sandman, Mr Punch e Sinal e Ruído ou com Grant Morrison em Batman: Asilo Arkham. Aqui Dave está solo mas não necessariamente sozinho: Paul Nash é seu guia nessa nova caminhada dentro de sonhos. Nash foi pintor, fotógrafo e designer. Mckean não tem (e nunca teve) uma arte dominante e em Black Dog – Os Sonhos de Paul Nash alterna entre pinturas, fotografias, esculturas, narrativas gráficas… ambos têm muito em comum. O segundo acaba sendo o co-autor do primeiro.

Os capítulos dessa obra lançada no Brasil pela editora Darkside são de sonhos e análises destes à passagens da vida de Paul Nash, não seguindo necessariamente uma ordem cronológica. São 15 capítulos que mesclam de várias formas o resultado de sua experiência de vida desde seus primeiros anos até durante e depois da Primeira Guerra Mundial, onde se alistou como cabo e produziu suas obras mais icônicas, assim se tornando um artista oficial da Primeira Guerra Mundial pelo Reino Unido. Nash, mesmo sabendo dos riscos, agarrava as chances que tinha de visitar e até retornar a trincheiras e lugares devastados pela estupidez humana.

Mckean marca o papel como um psicólogo de Nash, um interlocutor que tenta interpretar suas visões, assim como o cão negro que o acompanha a cada vez que se aprofunda na desgraça e destruição. A arte de Mckean não deixa de se inspirar nas pinturas do correspondente artístico, várias vezes vemos cenários muito próximos aos que Nash produziu.

The Menin Road, de Paul Nash [1919]

Quando sonhamos é comum sentirmos algo que só está dentro de nossa mente. Podemos sentir dor, euforia, tristeza e outras reações que na verdade são “fictícias”. Essa mistura de artes em Black Dog expressa mesmo que de forma nebulosa o que acontece quando sonhamos. As páginas são repletas de paisagens intermináveis, imagens que não mostram até onde podemos chegar com sua contemplação. O passado do combatente aparece em remiscências de sua infância com seus pais (que mostra a origem do cão negro de seus sonhos), professores (que o calejaram para o que viria à seguir) e artistas que o influenciaram a ser o que se tornou. O capítulo 12, o mais interessante da publicação, narra a transformação do artista ao se deparar com a guerra, mostrando seu gradual fascínio pelo grotesco ao se aprofundar na trincheiras e convertendo o seu horror em filosofia.

A edição brasileira é primorosa. Seu formato que abriga 120 páginas em capa dura com 30 x 23 cm tem uma capa mais limpa que dá destaque ao título em alto relevo mais abaixo da ilustração da própria, diferente das edições francesa e norte-americana. Seu acabamento é superior inclusive à versão lançada pela Dark Horse Comics, que teve capa dura somente em uma edição limitada a 400 cópias e a edição regular em versão cartonada.

Cada um interpreta sonhos como melhor se extrai daquele momento. Há astrólogos especializados em interpretar estes, mas aqui o leitor tem a chance de dar sua própria cartada, de cada um dizer o que absorveu de cada capítulo e sonho (ou delírio?) expresso nessa obra. Assim, o resultado pode variar para cada observador e não necessariamente há uma conclusão certa ou errada. Então não tenha medo: Seja também um intérprete de Nash e Mckean.

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Sobre o Autor

Marcus Santana

O que seria de nós sem quadrinhos?

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