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Resenha | Baco Exú do Blues – Bluesman

Jesus é Blues! No último dia 23, o rapper de Salvador, Baco Exú do Blues, lançou seu segundo trabalho de estúdio, o disco “Bluesman”. O álbum veio marcado por ser um disco com conceito visual, logo, acompanhado de um curta-metragem.

Após o sucesso estrondoso de seu primeiro disco, “Esú”, do ano passado e de levar dois troféus no Prêmio Multishow, Baco ganhou relevância no cenário musical brasileiro, pegando onda na ascensão que o rap volta a ter no país. “Bluesman” é marcado por uma produção afiadíssima e uma grande equipe por trás de todo o projeto.

Capa de “Bluesman” por João Wainer

“Bluesman”, primeira faixa, trás um monólogo do próprio Baco sobre o que ele considera ser Blues, acompanhado por uma letra que começa mais calma e termina cheia de raiva. Nesta faixa, Baco trás uma discussão sobre racismo, sendo até mesmo velado, há gritos aqui que parecem que estavam engasgados. O começo também marca dois pontos que durante todo o álbum se mantêm de ótima maneira, a mixagem e masterização de Cesar Pierri e a produção dos instrumentais de DKVPZ e Portugal (última faixa produzida por JLZ).

A segunda faixa é “Queima Minha Pele“, com participação de Tim Bernardes, aqui temos uma quebra de expectativa bem feita, em vez de continuar agressivo, a primeira voz que escutamos é a de Tim, com um refrão melódico, Baco entra depois, mas continua trazendo a melodia da faixa, que de acordo com o próprio, é sobre depressão. “Me Desculpa Jay-Z” entra logo depois, com mais versos e participação da cantora 1LUM3, a melodia continua sendo um centro aqui, tanto no refrão quanto nas pontes, nessa música que trata sobre bipolaridade.

Fotos de Helen Salomão para representar as faixas.

Quase na metade do álbum, “Minotauro de Borges” chega pra Baco trazer um pouco da agressividade que vemos na primeira faixa, essa faixa parece ser muito pessoal, e também um grito de auto-estima, mesmo que um grito sobre depressão seja o que fecha a música. Em “Kanye West da Bahia“, Baco continua o trabalho da última faixa, agora mostrando que não tem barreiras ou rótulos, aqui a melodia volta, com menos potência, mas as vozes de Bibi Caetano e DKVPZ ajudam a amortecer a faixa para as próximas.

“Seu rótulo não toca na minha poesia…”

Quando volta a usar o romance como base para falar de saúde mental em “Flamingos“, Baco trás a participação da banda Tuyo para dar melodia, a faixa puxa muito do pagode e é quase um descanso após as que a antecedem. “Girassóis de Van Gogh” talvez seja a mais problemática, apesar de bem produzida e com uma boa ideia, a faixa ganha em melodia e perde em conteúdo, parecendo de alguma forma, vazia, mesmo Baco querendo a usar para falar sobre depressão.

Preto e Prata” é a penúltima faixa do disco, aqui, a carga pesada volta a aparece, agora com mais força, a faixa parece um grito de empoderamento, em alguns momentos, a voz do Baco parece se unir ao instrumental de maneira que ambos de tornam um só, é incrível, e a transição da faixa para a última é orgânica e precisa. “B.B. King” fecha o álbum com a mesma ideia da penúltima, agora de forma mais conclusiva, após o final desta faixa, que finaliza com um monólogo escrito por Baco e interpretado por Lucas Andrade, eu não senti falta de mais nada, uma grandiosa obra! Mas…

Foto de Helen Salomão para a faixa Queima Minha Pele

Como eu disse no começo deste texto, o disco vem acompanhado de um curta-metragem, e que curta! A maneira como o filme, que também carrega o nome Bluesman, adiciona ao projeto é indispensável, tudo se torna mais orgânico, a mensagem fica mais clara, as faixas ganham mais peso, tudo trabalha em conjunto.

Sem contar que o filme por si só é algo incrível, com uma produção cinematográfica, o roteiro de Baco Exú do Blues, Douglas Ratzlaff Bernardt, Christiano Vellutini, Lucas Andrade, Hugo Veiga, Diego Machado, Renato Zandoná, Paula Santana, Beatriz Durlo ganha vida na tela de maneira incrível pelas mãos do diretor Douglas Ratzlaff Bernardt e pela fotografia sincera e precisa de Lucas Oliveira.

Com um álbum cheio de conteúdo e um filme que adiciona mais ainda, Baco Exú do Blues faz uma grande obra, que em poucos momentos deixa a desejar ao ouvinte, explorando melodia, tons e temas que funcionam bem juntos, talvez este seja um dos maiores lançamentos de 2018 e que definitivamente merece ser ouvido e assistido!

Bluesman já está disponível em todas as plataformas digitais.

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Sobre o Autor

Carlos Eduardo Rici

Leitor de quadrinhos e apreciador de bom filmes, viso estudar cinema futuramente. Amante de uma boa música e também desenhista.

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