Música Vitrola

Raimundos | 25 anos de hardcore, forró, selins e puteiros

Escrito por Ricardo Ramos

“Raimundos não tem para ninguém, é a banda mais chuta c* da história da música brasileira. E a minha maior contribuição foi permitir que eles fossem exatamente como eram. Não quis mudar o som, diminuir guitarras, tirar palavrão. Deixei bem cru e nervoso”Carlos Eduardo Miranda.

O ano era 1994. O Brasil estava tomado por uma onda de axé, pagode e sertanejo que se embolavam nas rádios e programas de TV nacionais. As rádios rocks (vamos lembrar que a internet ainda era um baby) se desdobravam para tocar produtos nacionais. As bandas que fizeram sucesso na década de 80 já não estavam mais com o mesmo gás. O rock nacional se resumia ao Sepultura fazendo Heavy Metal em inglês, inspirando uma penca de bandas a fazerem o mesmo, mas como disse Renato Russo, no Acústico MTV da Legião Urbana, “se querem cantar em inglês, saibam pelo menos falar o idioma corretamente”. Nos guetos aconteciam alguns movimentos que queriam gritar com suas guitarras ensandecidas, mas precisavam de um palco digno. Precisavam aparecer! Enfim, o rock nacional precisava ser redescoberto.

E foi o saudoso Carlos Eduardo Miranda, o grande desbravador.

Salve Miranda!

Alguns nomes começavam a surgir pelos becos undergrounds do Brasil: O Planet Hemp no Rio de Janeiro, Chico Science e Nação Zumbi e o Mundo Livre S/A em Pernambuco, Skank e Pato Fu em Minas Gerais… em todo lugar estavam surgindo bandas com algo diferente do que até então estava sendo feito. Mas e em Brasília? A terra mor do rock nacional não teria ninguém? Foi quando chegou nas mãos de Miranda a Raimundos Demo Tape que tinha nela quatro músicas: “Nêga Jurema”, “Marujo”, “Palhas do Coqueiro”, “Sanidade” e de bônus track “Carro Forte”.

Detalhe para “Sanidade”, que ficou no limbo histórico da banda até ser usado no disco Éramos 4 (2001). Ela é cantada pelo Digão (em ambas versões) e seus riffs iniciais foram utilizados em “Tora Tora”.

Os Titãs estavam com a ideia de lançar um selo que seria um braço da Warner Music, eles foram conversar justamente com Carlos Eduardo Miranda, que na época fazia uma série de reportagens para a revista Bizz sobre esse novo rock nacional. Depois de muitas idas e vindas, e muita insistência do Miranda, o Banguela Records nasceu. E seu disco de debute foi Raimundos (1994). Uma dica: assistam o documentário Sem Dentes: o Banguela Records e a turma de 94.

A banda, juntamente com Carlos Eduardo Miranda, foi para o lendário estúdio Be Bop em São Paulo e com hardcore, punk e forró o disco foi sendo realizado. As letras escrachadas e cheias de palavrão dos Raimundos são os sinais que nada mais no rock nacional seria o mesmo a partir dali. A banda mostrou que não precisava ser um tremendo poeta do rock chatonildo e nem fazer um som puta elaborado. Era só ter garra, uma boa ideia maluca na cabeça e vontade de falar o que desse na telha. Ao longo das suas 14 faixas, Raimundos apresenta um bocado de tudo. Rock pesado, hardcore, punk, forró, baladinhas e até um acústico. E uma enxurrada de hinos para os fãs e clássicos que ficaram na história do rock nacional.

O legal de falar que foi muito feito na garra esse disco é que muitos dos instrumentos gravados nele eram dos próprios Titãs. O Canisso conta que o mais marcou nessa gravação foi o contrabaixo que ele usou, pertencia ao Nando Reis na época. Era um baixo de som forte e pesado, e que se você reparar bem ele dita muitas músicas. As guitarras do Digão são pesadas e sujas do início ao fim, as distorções e os riffs contagiam para uma roda punk são marcas registradas no álbum. A bateria do Fred é um feijão com arroz. Isso é ruim? Não! Muito pelo contrário! Elas são perfeitas para a proposta, casam totalmente lindo com cada música, não deixando nenhuma delas perder o folego. O vocal do Rodolfo era o preciso do disco. Com um certo sotaque nordestino, uma melodia interpretativa e a forma de cantar rápido sem se atropelar fazem do disco algo único. Os tons de voz que mudam sejam gritados ou simplesmente ficando abafados funcionam perfeitamente.

O disco ainda conta com participações especiais de João Gordo (“MM’s”), Nando Reis (violão em “Puteiro em João Pessoa” e viola em “Selim”), Paulo Miklos/Branco Mello/Sergio Britto (“Carro Forte”, “Bê a Bá” e “Bicharada”), Ivan David (“Puteiro em João Pessoa” e “Nêga Jurema”), Guilherme Bonolo (grande musico adicional que atuou na banda durante anos, o solo de “Selim” é ele que gravou), o próprio Carlos Eduardo Miranda (vocais em “Minha Cunhada” e pandeiro em “Cintura Fina”) e Zenilton, o cabra Nº1, acordeom em “Rio das Pedras” e “Marujo”, e vocalizações em “Puteiro em João Pessoa” e “Rapante”.

Depois de dois meses gravando (janeiro e fevereiro de 1994), no dia 02 de abril, o álbum Raimundos foi lançado. A primeira música de trabalho foi “Selim”. A balada sacana logo tomou as rádios que se viram, com a pressão dos ouvintes a tocarem músicas dos Candangos. Logo em seguida veio “Nêga Jurema”, “Puteiro em João Pessoa”, “Bê a Bá”, “Palhas do Coqueiro” e “Rapante”. Vale ressaltar que o clipe de “Nêga Jurema” dirigido por José Eduardo Belmonte, com produção do CPCE da UnB (Universidade de Brasília), apesar de simples, participou da escolha da audiência na MTV, a pedidos do público, para representar o Brasil nos EUA concorrendo com o clipe “Territory” do Sepultura, que saiu vencedor.

Com o disco debaixo do braço, os fãs surgindo cada vez mais, músicas começando a tocar nas rádios, turnês com Sepultura, Ramones, shows no M2000 Festival (que foi muito importante para a banda), Philips Monsters of Rock e os shows da Oxente Raimundos tour 94. A banda foi crescendo e também sendo abraçada pela mídia. E pela censura. Na cidade de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, “Selim” e “Puteiro em João Pessoa”, sofreram com o tradicional e famigerado BIP nas palavras mais, digamos, chulas. Mas nada que apagasse o foguete que já estava embicado.

O disco abre com o clássico “Puteiro em João Pessoa”, que conta, como todos sabem, a aventura e desventura do menino Rodolfinho com seus primos Augusto e Berssange no icônico Roda Viva. O refrão poderoso virou hino de uma geração, e a música virou revistinha em quadrinhos nas mãos de Angeli no box Cesta Básica, lançado no natal de 1996. Logo depois vem “Palhas do Coqueiro”, uma música de amor de um cara que foi traído. Começando como uma canção meio que brega no estilo Falcão, ela vira um hardcore na sua reta final com excelentes backing vocals.

As duas faixas seguintes são o mais puro punk safado dos Raimundos: “MM’s” e “Minha Cunhada” são hardcores porradeiros de letras toscas que parecem ter saídos de moleques da década de 90 na hora do recreio. A primeira se destaca o poderoso baixo do Canisso. A quarta faixa é “Rapante”, onde se destaca os riffs de Digão em uma música mais cadenciada. Ela tem mais variações do que as anteriores e a letra fala sobre uso de drogas.

“Carro Forte” é uma música de domínio público que foi adaptada pela banda ao seu estilo. Uma letra maliciosa, safada e bem pesada, mas musicalmente apresenta o punk hardcore que mitificou a banda. Logo em seguida outro clássico. “Nêga Jurema”. Falando de maconha de forma cômica e debochada, o riff dessa música é um dos mais famosos da história da banda. Hardcore com um triangulo genial na parte final da música, ela é essencial em todos os shows.

Nesse momento no álbum, nas próximas duas faixas, começam os covers do Zenilton. Um breve resumo, o pai do Rodolfo tinha uns discos de forró que ele levava para os ensaios da banda quando ainda estavam no começo. Eles escutavam os discos, ficavam rindo, e tiravam versões punks das músicas. “Deixei de Fumar/Cana Caiana” se tornou um hardcore violento que não dá tempo de respirar, quando se ouve a primeira vez, só dá para entender os refrãos. E olhe lá! Rodolfo canta de forma tão rápida que fica incompreensível entender. Ela é com certeza um dos melhores hardcore do disco. Em seguida vem a cômica e cheia de duplo sentidos “Cajueiro/Rio das Pedras”, também do forrozeiro que faz uma participação tocando acordeom a tornando um verdadeiro baião. Na verdade, somente “Rio das Pedras” é de Zenilton, “Cajueiro” é tirado de uma canção de domínio público. Houve um tempo em que a banda parou de tocar por motivos de direitos autorais, mas já estão com ela no set list novamente.

Logo depois tem a poderosa “Bê a Bá”, um dos clássicos da banda, juntamente com seu belo clipe. Soturna e cadenciada, a interpretação do Rodolfo anda bem com o ritmo da música que tem em seu destaque maior o baixo do Canisso. A próxima faixa é “Bicharada”, que tem uma base simples e uma letra igual. É um hardcore porrado que serviu mais para dar característica para o disco.

Então chega “Marujo”. Uma pancada no ouvido que se torna um arrasta-pé nos refrãos, graças ao acordeom de Zenilton. Letra típica dos Raimundos. Cômica até o fim. “Cintura Fina” é uma das melhores do disco, mas que foi pouco executada e enaltecida por boa parte dos fãs. Vale destacar a letra descompromissada, os belos backing vocals e (novamente) Canisso destruindo tudo no baixo. Totalmente incrível nessa faixa.

“Selim”. A grande catapulta do disco. Tocada incansavelmente nas rádios. Repetidas nas rodas de violões. A balada sacana pornô-erótica deixava claro, sem hardcore e distorções que a banda chegou para falar de sacanagem para a molecada. Por muito tempo a música foi “renegada” pela banda, sendo tocada até de forma mais curta no setlist (algumas vezes só com as guitarras e vocais), mas sempre uníssono nos shows.

O álbum ainda conta com uma versão alternativa de “Puteiro em João Pessoa” e uma versão acústica de “Selim” fechando os trabalhos.

O álbum Raimundos completou 25 anos com a bagagem e no currículo como um dos discos de mais extrema importância para o cenário musical brasileiro. Pode ser pelo forró-core, ou por ter debochado de letras e riffs loucos. Mas o fato, ele foi a abertura de portas para o rock da década de 90, influenciando uma série de bandas. O disco que foi lançado de forma independe, vale lembrar que apesar de ser um braço da Warner Music, o principal responsável pelo lançamento foi o Banguela Records, hoje tem mais de 200 mil cópias vendidas. Algo gigante para a época e para o tipo de lançamento.

Os Raimundos estão com uma turnê de comemoração dos 25 anos do disco. Esses shows contam com o baterista original da banda, Fred, tocando neles. O setlist toca o disco todo. Confira as datas dos próximos shows clicando AQUI.

E se você for assistir o show no Circo Voador, aqui Rio de Janeiro, venha trocar uma ideia e beber uma comigo 😉.

 

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Sobre o Autor

Ricardo Ramos

Nerd, escritor, jogador de games, cervejeiro, rockêro e pai da Melissa.

Contatos, sugestões, dicas, idéias e xingamentos: ricardo@torredevigilancia.com

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