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Philip K. Dick e o seu Castelo Alto

Escrito por Thiago Pinto

O Homem do Castelo Alto é uma história muito singular dentro da literatura que aborda ficção cientifica e – por que não? – política. Dentro de várias obras de Philip K. Dick, O Homem do Castelo Alto se destaca por apresentar uma diversidade em seu discurso e foco temático. Enquanto o autor tenta discutir e criar parâmetros de comparações entre a nossa realidade e a do próprio livro, ele consegue levantar discursos relacionados à arte e política.

A genialidade de Phillip toma notoriedade quando a trama correlaciona todos os questionamentos levantados e os traduz de uma forma simples e eficaz. A história da sua vida é fascinante em alguns pontos. O autor se envolveu com vários tipos de experiências ao longo da carreira, e sempre esteve engajado em analisar a própria realidade e, principalmente, questioná-la. Embora o faça neste livro, suas críticas estão bem difundidas na história, e requer o esforço do leitor de interpretá-las de forma livre e pessoal.

O livro nos mostra um mundo completamente diferente do que nós vivemos hoje. Os EUA, a Rússia e a França perderam a Segunda Guerra Mundial. A Alemanha é a grande potência mundial, liderada e comanda pela organização nazista de Adolf Hitler e seus apoiadores. Se hoje temos um EUA consolidado em estados federativos, no livro temos um país com uma grande fragmentação política e cultural, com divisões territoriais envolvendo os domínios de Japão e Alemanha.

Com essa organização, o autor parece brincar com as inúmeras possibilidades de sua criatividade. Não só por colocar os japoneses como seres de grande ascensão econômica no território americano, sendo eles empresários, gerentes ou até mesmo políticos, mas também por encaixar uma tensão entre os povos vitoriosos. Ao contrário do que se imagina, já que os japoneses e alemães venceram a guerra, a relação entre os povos não é harmoniosa, e sim conflitante, por envolver visões puramente nacionalistas e orgulhosas – te lembra de algo?

 

Abordando diferenças territoriais e sociais, a análise passa por campos artísticos e culturais. Robert Childan, um dos primeiros personagens a nos ser introduzido, é dono de uma loja de artigos da história americana antes da guerra. Os maiores frequentadores e compradores são japoneses da elite, que são fascinados pela arte americana. Assim sendo, mesmo tendo derrotado os ideais do american way of life, os japoneses se sentem bem ao adquirirem artes americanas. No mundo imaginativo, a posse de antiguidades denota inteligência e prestígio social. Desse modo, mesmo desprezando o viés ideológico, a cultura americana serve como artifício intelectual para a sociedade japonesa e alemã.

Além desse aspecto de valor associado à arte, existe um julgamento moral aos japoneses da história. Mesmo adquirindo e consumindo antiguidades, estes não parecem entender o valor dos itens. Há um distanciamento entre a reflexão e a valorização social. Só para deixar como exemplo, há uma passagem em que o personagem Nobusuke Tagomi, representante do comércio japonês, recebe uma peça que não parece transmitir nenhum valor estético, e começa a tentar senti-la de várias formas sensoriais, já que os valores atrelados ao objeto são desconhecidos pelo personagem.

A utilização de judeus virou inerente a qualquer história que envolva nazismo e Segunda Guerra, já que o povo judeu foi o mais perseguido e massacrado durante o período nazista. Imagine no cenário em que a raça ariana estabelece sua expansão ao redor do globo. Obviamente, aqui os personagens judeus – Frank Frink e Juliana Frink, prioritariamente – tentam sobreviver criando novas identidades, se escondendo por meio de perfis falsos e mudanças físicas. Talvez os melhores momentos do livro sejam aqueles que abordam justamente os ideais inflamados dos judeus, que se sentem presos e enjaulados em um sistema totalitário nazista.

O I Chiang, o oráculo chinês, é parte importantíssima para o desenvolvimento da trama. É por causa dele que os personagens tomarão diversas decisões, ele será um dos condutores principais da trama. Toda esta realidade depende exclusivamente do que o oráculo mostra, sendo seguido firmemente por toda a sociedade. Esta crença é que, de certa forma, conecta os personagens uns aos outros.

Além do I Chiang, há um outro objeto que interliga as histórias dos personagens, mesmo que apenas no campo das ideias. O Gafanhoto Torna-se Pesado é um dos livros de ficção abordados no próprio “O Homem do Castelo Alto”, que relata uma outra realidade em que a Tríplice Entente tenha ganhado a guerra, ou seja, a NOSSA realidade. Ao aprofundar a perplexidade dos personagens com o livro, Philip impões duas versões de mundo em uma mesma linha de raciocínio, colocando o próprio leitor em dúvida sobre a veracidade de tudo aquilo.

O homem do Castelo Alto é o autor do O Gafanhoto e se demonstra ser uma pessoa misteriosa, mas com a capacidade incrível de análise e observação. Claro que este personagem se assemelha propositalmente ao próprio Philip K. Dick. O autor gosta de flertar com a sua genialidade em problematizar as bases políticas que hoje nos estabelecem; discute-se, portanto, o quão estamos iludidos em um sistema tão amplo e complexo. Esta ficção se torna uma brincadeira entre o real e o ficcional, e no final, não obtemos nenhuma resposta, resultando em uma conclusão frustrante, porém perspicaz.

Mas qual seria a melhor resposta, senão a dúvida?

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Sobre o Autor

Thiago Pinto

‘’E quando acabar de ler a matéria, terá minha permissão para sair’’

-Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

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