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Pantera Negra mostra que a Marvel pode fazer bem mais que o simples

Escrito por Cláudio Gabriel

A Marvel em 2018 completa 10 anos desde o início da criação do seu universo cinematográfico. Mesmo com uma sempre grande lucratividade – o que fez essa franquia ser a que mais arrecadou da história do cinema – seus longas acabaram por ser cada vez mais criticados ao longo dos últimos anos devido ao fator de repetição. A trama sempre sendo quase a mesma, as soluções indo para mesmos caminhos, o pouco trabalho criativo de seus diretores, tudo isso pela necessidade de integração do universo criado em Homem de Ferro. Mas esse ano pode ser a mudança para o estúdio, já que Pantera Negra coloca todos os filmes em novos patamares. E a empresa não vai poder se contentar mais com tão pouco.

O filme conta a história da coroação do príncipe T’Challa, que após retornar a Wakanda precisa provar ser uma boa pessoa para o trono. Nesse meio tempo, a civilização do lugar está à procura de Ulysses Klaue, que roubou da civilização um punhado de vibranium, alguns anos atrás e conta com a ajuda de um menino chamado Erik, que busca conter feridas de seu passado.

A direção de Ryan Coogler na primeira cena já mostra a maior liberdade criativa que o comandante ganhou nesse longa. Logo em um início ele coloca um panorama que irá rondar toda a trama e também faz dois planos longos e busca ângulos de câmera diferenciados. A grande questão é que isso não se mostra apenas ai, mas sim em todas as mais de duas horas de exibição. É impossível não relatar a cena que se passa dentro de uma espécie de cassino, aonde Coogler faz um plano sequência absurdo, gerando uma noção geográfica, espacial e de ação para o público incrível, algo que não foi visto nem em nenhum dos Vingadores.

O roteiro, também de Coogler junto com Joe Robert Cole, acaba passando por alguns momentos expositivos desnecessários, mas se sobressai ao aprofundar cada uma das personagens presentes na trama, aonde geram um temor por parte do público em perder qualquer um ali. O aprofundamento é tão grande que esse filme possui simplesmente o melhor vilão de todo o universo Marvel. Michael B. Jordan rouba a cena sempre que aparece – junto de Letitia Wright, que faz a irmã do protagonista – e cria diversas camadas para um antagonista que tem motivações mais interessantes e palpáveis até que o próprio herói, mas de uma maneira extremada.

Juntando a isso dito acima, a política nessa obra é gigantesca. Desde debates sobre imigrantes até relações diplomáticas, tudo é tratado aqui de uma maneira altamente complicada. Os medos por realizar determinadas atitudes, faz com que T’Challa (interpretado perfeitamente por Chadwick Boseman) se questione a todo segundo, criando camadas até negativas para o grande herói da trama. Isso só adentra no lado sério que essa obra tem, aonde o número de piadas é extremamente reduzido (mesmo que todas funcionem) para dar espaço a uma seriedade necessária. Esqueça cenas dramáticas sendo cortadas por momentos de piada – finalmente. A questão racial também é um foco gigantesco, com um destaque para o último diálogo de Killmonger, que sintetiza, com extrema sutileza, toda uma dor dentro do que ele passou.

É impossível não destacar a trilha sonora elaborada pelo rapper Kendrick Lamar. Ele se utiliza de algumas canções compostas especialmente para o filme com uma batida de tambores extremamente tribal. O grande ponto é: essa batida gera todo o clima do longa, que poderia simplesmente apelar para momentos épicos com uma música totalmente vibrante. Mas não, o clímax aqui é composto apenas por batidas, o que faz o telespectador sentir ainda mais apreensão e desespero, além de, como dito acima, temer pela perda.

Talvez o destaque mais negativo aqui seja o péssimo CGI, que atrapalha principalmente nos momentos de rituais e na batalha final. Fica bem claro que tudo é extremamente falso e feio, mas o envolvimento emocional é tão maior, que faz com que pouco atrapalhe.

Pantera Negra chega aos cinemas já entrando no patamar das melhores obras de cinema adaptadas de quadrinhos de heróis já feitas e, quem sabe, a melhor de toda a Marvel. É um filme complexo, muito mais do que aparenta, e chega para estabelecer novos limites e novos incríveis personagens dentro desse mundo, criando a ânsia do público para ver muito mais de Wakanda.

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Cláudio Gabriel

No dia mais claro, na noite mais densa...

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