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O existencialismo de Jesse Pinkman e Blade Runner 2049

AVISO DE SPOILER DE BREAKING BAD, EL CAMINO E BLADE RUNNER 2049

Breaking Bad, a aclamada série de 5 temporadas, teve seu final em 2013, e um de seus personagens ganhou um epílogo este ano para o deleite dos fãs. Era óbvio que havia uma curiosidade sobre o fim que o criador da série, Vince Gilligan, havia dado em sua mente para Jesse Pinkman (Aaron Paul), e finalmente vê-lo em tela tendo sua história concluída é no mínimo… satisfatório. Porém, o que desperta esta satisfação na conclusão não é devido somente à curiosidade, e sim, à quão complexo foi o ciclo da personagem durante o seriado.

Qual é nosso lugar no mundo?

Pinkman era adorado pelos fãs do show e o comportamento da personagem era o contraponto perfeito para Walter White (Bryan Cranston), o protagonista e grande figura da série. Jesse inicialmente se mostrou um jovem-adulto irresponsável e desligado para o mundo real, enquanto Walter desde o primeiro episódio se mostra calculista e frio em sua transição para Heinsenberg.  A oposição em cerne foi o motivo que fez os roteiristas desistirem de matar Jesse ao fim da primeira temporada, e graças a essa decisão, tivemos uma exploração e estudo perfeito da mente da personagem.

Durante sua história, a principal característica que dá peso à Jesse é definitivamente sua busca por um lugar no mundo. Quando o texto começa a explorar o passado, decisões e as pessoas que rodeiam-no, é mostrado ao público uma sensação de falta de pertencimento existencialista envolta de Pinkman. Mas existencialismo é uma palavra extramente forte, e a busca pelo saber e por um lugar no universo é um dos temas mais explorados no cinema  há décadas. Quando vemos isso na série, logo é possível encontrar alma na personagem de Aaron Paul, e isso que o conecta tanto ao público.

O tema de busca por um significado também é um poderoso fio condutor em Blade Runner 2049, longa-metragem de 2017 dirigido por Denis Villleneuve. A sequência do clássico Blade Runner (1982) de Ridley Scott decide se aprofundar mais ainda no questionamento sobre o que define um ser humano. A busca pela alma de K é intensa e durante o filme nós vemos o protagonista em várias situações demonstrar humanidade, mesmo através da interpretação – propositalmente – seca e gélida de Ryan Gosling. Na procura pelo que os define humanos e o seus propósitos em vida, Pinkman e K traçam um paralelo interessante. É nos momentos de reflexão de ambos que notamos o quão complexos as personagens são.

Amor é um propósito de vida?

Isso é discutido em ambos os casos. Jesse se apaixona por Jane (Krysten Ritter) logo após um momento difícil e que o deixa frágil e ainda mais deslocado. Já K tem Joi (Ana de Armas), uma inteligência artificial desenvolvida para suprir os desejos de pessoas solitárias. Ambos buscam nessa paixão sintética algo dentro deles mesmos, a reafirmação da própria existência. Enquanto Jesse sofre ainda mais após levar Jane à uma morte miserável, K descobre novos sentimentos graças à Joi, do amor à tragédia eminente.

Mas para Pinkman, Jane foi só um passo dentro do amor. Andrea e seu filho, Brock, levam a personagem à outro nível de responsabilidade afetiva. Responsabilidade essa que leva Jesse à seu clímax na quarta temporada da série e também é diretamente responsável ao seu aprisionamento pela mão dos neo-nazistas. O romance na série e nos filmes não é definido somente por um sentimento puritano. O amor aqui abre camadas que são exploradas para dar aos personagens facetas e os encaminhar para mais questionamentos e muitas vezes, para a dor. E a dor que vem do amor não é menos válida que qualquer outra.

Realmente existe um propósito?

Enquanto Jesse se mostra quebrado e facilmente manipulado por Walter durante toda a série, K é mais calculista e direto quando se dispõe a buscar seu objetivo de vida. Ambos os personagens em certo ponto são postos a frente de uma figura que os redireciona nessa busca. Deckard (Harrison Ford) entra quase como mais um código para ser decifrado por K, porém quando inserido diretamente em sua frente, seu comportamento e palavras são um dos motivos da mudança de pensamentos idealizados anteriormente pela personagem de Gosling. É o que o torna mais um estranho.

Mike (Jonathan Banks) entra na série desde o início como uma mão estendida para ajudar Pinkman, por mais indiretamente que seja. A personagem de Banks é inserido varrendo um romance morto de Jesse e o repondo em seu lugar para o bem do mesmo. Conforme Gus tenta afastar Pinkman de Walter para quebrar a dupla, mais Mike se aproxima instintivamente do garoto e percebe a complexidade do mesmo. Ao final, ambos tem uma relação tão próxima, que há uma aura de paternidade entre eles, consequentemente, é mais um dos motivos que quebram Jesse ao fim, porém, também é uma das causas de seu amadurecimento.

Página em branco.

 

Ao fim de Blade Runner 2049 e El Camino, é possível notar a predominância da cor branca envolto de ambos os personagens. No fim, a vida de ambos sempre foi uma página em branco, feita para que eles pudessem escrever suas histórias. K seguiu ordens por toda sua vida, e quando as quebrou, descobriu sua humanidade e morreu por um bem maior. Seu ciclo se fecha em uma página em branco, preenchida somente com sua alma e o sentimento de que estava vivo esse tempo todo.

Jesse por sua vez ganha uma segunda chance. Após sofrer tanto na mão de tantas pessoas, ele termina seu ciclo ali, indo em direção ao que ele decidir, pois agora tem o poder de reescrever sua vida, com uma última lembrança de um bom momento que passou, assim como todos os outros.

 

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Sobre o Autor

Carlos Eduardo Rici

Leitor de quadrinhos e apreciador de bom filmes, viso estudar cinema futuramente. Amante de uma boa música e também desenhista.

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