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Katy Perry mostra seu amadurecimento mental e musical em Smile

Escrito por Pedro Alonso
“Tive que tomar remédios para depressão pela primeira vez na minha vida e eu estava com muita vergonha. Eu pensava: ‘Eu sou a Katy Perry. Eu escrevi Firework. Eu tomo remédios. Isso é fodido.” – Katy Perry em live para fãs.

 

Katy Perry lançou hoje (28) seu quinto álbum de estúdio, Smile. Como explicado pela própria cantora, Smile é focado em contar sua jornada em busca de seu sorriso de volta após uma das fases mais obscuras de sua vida.

Para entender o álbum enquanto obra, é necessário saber o quê houve com a vida e carreira de Perry desde o fim da produção de Witness (2017), seu quarto álbum de estúdio. No âmbito profissional, é inegável que sua carreira regrediu no que se diz respeito a desempenho comercial. Claro que vendo apenas números, a era Witness poderia ser a maior era de qualquer outro artista. Mas, para os padrões que a Californiana havia entregado até aquela época, o disco foi bem aquém do esperado. Não agradando muito a crítica, e principalmente, público.

No âmbito pessoal, a intérprete de Roar e o intérprete do Legolas decidiram terminar o então namoro no mesmo período em que Katy estava sendo obrigada a dar uns passos para trás em sua carreira. O mix do caos pessoal com o caos profissional foi suficiente para que a depressão, doença qual Katy já lidava há algum tempo, voltasse de maneira mais forte do que nunca.

Esse era o cenário que inspirou a criação do que hoje conhecemos por Smile.

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“Por que eles estão aqui para me ver? Eles não gostam de mim, só pensam que gostam. Nem eu gosto de mim”. – Katy Perry sobre seus pensamentos durante a turnê de Witness

 

Os anos foram passando e Katy começou a melhorar. Fez terapia, retomou seu relacionamento com Orlando, ficou noiva, engravidou (e agora, já teve a filha) e voltou a fazer música. Só que desta vez, sem colocar muita expectativa comercial sobre seus novos passos. 

A primeira prévia que tivemos de Smile foi o single Never Really Over, lançado no meio do ano passado. Que apesar de não ter sido um hit #1 nas paradas, acumulou e ainda acumula bons números ao redor do mundo. Até então, é o maior sucesso do disco. E merecidamente, pois não é só uma das melhores faixas do álbum, como também de toda carreira de Perry. Um acerto. Literalmente uma perfeição pop. 

Never Really Over é também a faixa de abertura do disco, e antecede os outros dois grandes destaques do álbum: Cry About It Later e Teary Eyes. A primeira, é o momento qual Katy decide se divertir um pouco, e deixar o choro para mais tarde. É um synth pop delicioso que consegue ficar melhor ainda no final, quando um solo de guitarra surpreendentemente abençoa nossos ouvidos. A segunda, Teary Eyes, Katy está surfando novamente na dance music noventista. Sub-gênero na qual ela sempre conseguiu trabalhar com maestria, vide Walking On Air, Swish Swish e Roulette. Porém, desta vez, diferente de suas irmãs mais velhas, aqui ela continua se divertindo, mas triste. Dançando enquanto seus olhos estão lacrimejando. 

Além da sonoridade das 3 primeiras canções, o destaque vale pelo posicionamento delas dentro da tracklist. Smile é, de longe, o álbum mais coeso da carreira de Katy. Em Prism (2013) tivemos um álbum quase representativo ao yin yang. De um lado, um caos e desordem, do outro, paz e tranquilidade. Em Witness, tivemos um álbum sonoramente coeso, mas liricamente um pouco confuso. E em Smile, esses erros não se repetem. Katy, não só aprendeu a recuperar seu sorriso de volta, como também a montar tracklists.

Podemos dividir Smile em 4 atos, onde cada um possui 3 faixas. – A propósito, aqui entra um erro do álbum. Interludes seriam bem vindas, era a oportunidade perfeita de Katy usá-las pela 1ª vez. – Parte de sua fanbase vem intitulando elas de: Teraphy, Recovery, Hapiness e True Love. (em tradução: Terapia, Recuperação, Felicidade e Amor Verdadeiro) Literalmente uma jornada, com começo meio e fim. Com Katheryn perdendo o controle mental no início, até o encontro com ela mesma em sua essência em What Makes A Woman.

A segunda etapa do CD, começa com o single Daisies. Katy canta sobre acreditar em quem ela é, e não mudar até estiver morta. O despertar começa a partir daqui. No entanto, por mais positiva a mensagem seja, falta algo a mais. Principalmente se tratando de um single. Se Daisies seguisse uma estrutura similar com What About Us de P!nk, talvez soasse um pouco melhor. 

Embora esse ato seja um dos mais poderosos e interessantes liricamente, o trio formado por Daisies, Resilient e Not The End Of World é o mais chato do projeto. Resilient, produzida pela dupla Stargate, a mesma por trás do smash hit Firework, é irritante e monótona. Chegar até o final da canção pode ser um pouco exaustivo. Not The End Of World, tem uma atmosfera apocalíptica bem legal, poderia facilmente estar numa trilha sonora de Game Of Thrones, ou qualquer produção épica, mas não foi explorada como deveria. A faixa grita por um momento de break. Existia aqui um bom potencial para a sucessora do hit global Dark Horse

Katy Perry lança 'Smile', canção que dá nome ao seu novo álbum; ouça

A parte da felicidade, obviamente deveria abrir com a faixa-título do álbum. Smile é uma canção inteiramente Katy Perry. Lembra a vibe de suas músicas leves e coloridas como Birthday e Last Friday Night, mesmo tendo uma letra interessante. Não é nada inovador para o currículo, mas funciona no cd e sintetiza bem o tema do álbum.

Em Champagne Problems, Katy comemora a superação dos problemas com Orlando Bloom. É uma música pop deliciosa, refrão chiclete com uma leve influência latina e sem ser clichê. Seria um bom single, assim como Tucked. Faixa na qual Katy volta para dance music no melhor estilo Kylie Minogue (Os Na Na Na parecem sample de Can’t You Get Out Of My Head). 

Todos os dias, sempre iguais
Passando por emoções que pareciam tão falsas
Não era eu mesma, não era o meu melhor
Parecia que eu tinha falhado no teste
Mas cada lágrima foi uma lição
A rejeição pode ser uma proteção de Deus
Uma longa estrada para conseguir essa redenção
Mas não há atalhos para uma benção”
 –  Katy Perry em Smile

 

Por fim, temos o Amor Verdadeiro. Abrindo com a já conhecida e superestimada, Harleys In Hawaii. Aqui, Katy continua bem mais despretensiosa e apaixonada. Harleys é sensual e fresh; uma pena ter passado despercebida pelo grande público. Only Love é a melhor composição do disco, e chega a lembrar canções do Lover de Taylor Swift. Finalmente ela está aprendendo novamente a fazer bons refrões. Perry age como se estivesse em seu último dia de vida aqui na terra e soubesse disso. Provavelmente, a inspiração veio quando a sua depressão fazia pensar no pior. 

E a última faixa, What Makes A Woman, apesar de ser bem curta, cumpre seu propósito. Katy venceu seus demônios, aprendeu a sorrir e amar de novo. Não só a si mesma, como seu parceiro, família, amigos e até mesmo carreira. É a faixa que sonoramente mais destoa do álbum, apostando em um pop-folk-county, uma área que Katy tem bastante potencial para explorar. – É válido torcer para um remix dessa faixa com Kacey Musgraves, inclusive. -.

“Oh, eu ligaria para minha mãe e diria que sinto muito
Eu nunca retorno suas ligações
Eu colocaria meu coração e minha alma em uma carta
E mandaria pro meu pai
Tipo, ai meu Deus, o tempo que eu perdi
Perdida nos meus pensamentos
Deixe-me esquecer esse mundo de ódio para trás
E levar o amor no lugar dele”
– Katy Perry em Only Love

Review: Katy Perry's 'Smile' - Rolling Stone

Smile é o álbum mais pessoal e maduro de Katy Perry. Definitivamente não é algo monumental e icônico, mas é um bom disco pop.  Não devemos ter aqui uma síndrome de Cronos e querer apontar se o álbum crescerá a longo prazo ou “envelhecerá bem”. Pode ser que sim, pode ser que não. – Honestamente, acredito que Perry ainda pode entregar muito mais do que vimos em Smile. –

Embora muitos não acreditem, Katy Perry encontrou o seu sorriso de volta, mas também se encontrou no seu próprio som e composição. E isso não vem de hoje.
A jornada que ela tem feito até aqui é de evolução e amadurecimento, e isso está se refletindo inteiramente em sua arte. E que bom que é de uma maneira feliz. 

Nota: 7.5/10

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Sobre o Autor

Pedro Alonso

Sou estudante do 2º período de Jornalismo e apaixonado por cultura pop. E assim como Justin Timberlake fez em seu 3º álbum de estúdio, estou vivendo minha 20/20 Experience.

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