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História de um Casamento é perfeitamente humano

Saindo do forno, História de um Casamento é uma das grandes apostas da Netflix para a temporada de premiações, principalmente pelo forte elenco do drama. Dirigido por Noah Baumbach (Frances Ha e A Lula e a Baleia), o longa já está faturando prêmios em festivais ao redor do mundo, e como esperado pelo streaming, deve chegar forte ao Oscar 2020.

Na história, Charlie (Adam Driver), é um diretor de teatro que vê seu casamento com a atriz, Nicole (Scarlett Johansson), acabando aos poucos. Durante o processo de divórcio que se divide entre as cidades de Los Angeles e Nova York, o casal luta para que a amizade entre eles permaneça, pelo bem do filho de 8 anos, Henry (Azhy Robertson).

A abertura do filme é propositalmente otimista e mostra como o casal se enxerga de maneira positiva, acentuando detalhes um no outro. Essa ligeira construção cria uma atmosfera crível o bastante para que compremos os personagens e seu passado juntos. Rapidamente há uma quebra desse otimismo estabelecido previamente com a introdução do divórcio entre o casal, o que dá à história outro sentido e tonalidade, esse qual se torna o tom abordado no resto da película.

Apesar do tom gélido, os acontecimentos constantes e a inquietação dos personagens em frente as câmeras em cada sequência criam uma impressão de movimento e ritmo gigantesca, onde o calor humano gera um contraste com essa frieza do que é abordado. Baumbach sabe movimentar o filme durante toda sua duração com uma humanidade absurda e quase obscena, que nos faz apreciar cada momento do decorrer da narrativa.

O texto traz uma grande verossimilhança com a realidade em termos de construção de personagem e a abordagem que é dada para os protagonistas, construindo-os e em seguida desconstruindo. Esse realismo na maneira de abordar cada detalhe deixa o filme mais identificável, permitindo assim que haja uma aproximação de quem o assiste e dando mais impacto para quando há mais carga dramática em cena.

Direcionando toda a carga dramática, Adam Driver e Scarlett Johansson estão fantásticos em seus papéis. Driver consegue ser detalhista e segurar o peso de cada cena com poucas expressões e tem grandes momentos isolados. Quanto a Scarlett, é notável que há menos material que o seu companheiro de tela, e mesmo assim, consegue extrair o máximo de dramaticidade e entrega uma performance sutil e ao mesmo tempo expressiva. Outro destaque é para a Laura Dern, que consegue ter uma grande presença no papel da advogada Nora. O resto do elenco cumpre bem os papéis e ajudam a elevar o filme de acordo com seu propósito.

A cinematografia de Robbie Ryan e a direção de arte trabalham perfeitamente em conjunto, utilizando de tons pastéis e simplicidade para construir um ambiente seco e desconvidativo esteticamente, auxiliando no tom dramático do filme. Outro auxílio para isso é a trilha sonora de Randy Newman, que aposta no simples quando a narrativa necessita de carga dramática, apesar da direção de Noah saber dosar bem o uso do som e silêncio.

Mesmo com a excelente montagem de Jennifer Lame, há um pequeno problema de distribuição de tempo entre os protagonistas durante o segundo ato, onde há um foco maior em Charlie. Apesar do foco narrativo no personagem do Driver ser justificável, cria-se um pequeno incômodo pela falta de direcionamento para o arco de Nicole, deixando um sentimento de vácuo, que não dura muito tempo, mas está ali.

Escrito e dirigido por Noah Baumbach, História de um Casamento é devastador, humano e incrivelmente cheio de energia. Com seu texto pautado no realismo e nas camadas mais subjacentes do ser humano, junto a uma carga dramática condizente, Baumbach entrega um filme excelente, onde os detalhes de seus personagens falam mais alto que qualquer estética ou perfeição técnica.

História de um Casamento já está disponível na Netflix.

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Sobre o Autor

Carlos Eduardo Rici

Leitor de quadrinhos e apreciador de bom filmes, viso estudar cinema futuramente. Amante de uma boa música e também desenhista.