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A Forma da Água é uma carta de amor ao cinema

Escrito por Cláudio Gabriel

Guillemo Del Toro é um dos diretores mais autorais da atual geração de cineastas em Hollywood, disso não pode se negar. Ele, sempre utilizando sua estética sobre monstros, retrata sob vários ângulos quem somos nós e para o que estamos no mundo. Claro que em alguns de seus trabalhos, ele prevalece pelo lado da ação e da diversão (como em Círculo de Fogo e a duologia Hellboy), mas, quando adentra em temas profundos, o mexicano cria filmes absurdos, como é o caso de A Forma da Água.

O longa conta a história de Elisa, uma zeladora muda de um laboratório de experimentos secreto do governo dos Estados Unidos durante o período da Guerra Fria. Lá ela descobre uma criatura que está presa e sofrendo imensos maus tratos, principalmente do chefe do lugar, Richard. Dessa forma, ela começa a desenvolver uma relação de imensa afeição com o monstro.

É preciso salientar de maneira absurda o controle de toda a projeção que Del Toro tem. É incrível como tudo se encaixa e nada está a mais do que parece. Apaixonado pelo cinema, ele entorna elementos sobre como ama essa arte e principalmente: como ama contos de fantasia e filmes de monstros, criando uma mistura perfeita. É possível ver toda essa paixão já nos diversos gêneros que a obra aborda: ficção-científica, suspense, romance, drama, fantasia, alguns momentos de comédia. E nenhum de cada um desses tons se sobressai ao outro, gerando uma imensa harmonia rítmica, que é acompanhada da trilha sonora magnífica de Alexander Desplat, que merece ser vitoriosa no Oscar. O tema principal – que leva o nome do longa – lembra como se uma música da Disney tivesse sido composta embaixo da água. Além disso, as passagens na tv de musicais clássicos, que expressam momentos e fases da protagonista, parecem falar tudo que ela não consegue dizer e ela viver em cima de uma sala de cinema mostram ainda mais claramente sobre o que o longa está vangloriando.

Em relação as atuações, Sally Hawkins, Michael Shannon, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg e Doug Jones compõem perfeitamente bem seus personagens. Os dois primeiros se destacam ainda mais, devido ao papel bem claro que o roteiro dá de lado bom contra o lado ruim. Essa dualidade – bem clássica de obras antigas no cinema – só denota ainda mais claramente a parte fantasiosa dessa trama. O último citado do elenco cria um monstro incrivelmente real, destacado ainda mais com a impressionante maquiagem e efeito visual.

O que para muitos pode ser considerado um ponto fraco é a trama simples e praticamente nada inesperada, mas isso sim faz parte da narrativa criada aqui. Nesse mundo “mágico” as soluções parecem complicadas, mas sempre resolvidas, assim como em animações clássicas de contos de fadas. O bem sempre vence e a realização do casal protagonista se fecha naquele momento, para ter um reinício. A conclusão dessa obra se torna, assim, linda e extremamente poética, parecendo um quase conto em conjunto da narração do personagem Giles (feito por Richard Jenkins). Ele que, por sinal, acaba se tornando o elo mais fraco da obra, aonde um comentário social sobre preconceito, que também está presente na história, mas que parece um pouco jogado, sem dar espaço suficiente para um maior desenvolvimento. Mesmo assim, ele serve muito mais como uma muleta da trama ao colocar Elisa em busca daquilo que acredita.

Por fim, a direção de Del Toro é magnífica, aonde ele realiza diversos planos longos, movimentos de câmera horizontais e laterais e não apela para momentos entrecortados na edição. Sua movimentação traz uma gigantesca leveza para o telespectador, ao mesmo tempo que nos coloca dentro daquele universo.

A Forma da Água é um dos filmes mais belos e bem realizados de 2017, mas que chega nos cinemas brasileiros em 2018. Traz consigo uma carta de amor ao cinema e também como o amor está presente em todos os lugares, independente de como ele seja. Se ganhará a maior honraria do Oscar, só o futuro pode dizer, mas esse longa não vai sair da sua cabeça tão cedo.

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Sobre o Autor

Cláudio Gabriel

No dia mais claro, na noite mais densa...

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