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Euphoria sintetiza os problemas da juventude americana

É notável que produções sobre a juventude rebelde são um grande marco dos anos 2000, principalmente na TV, logo, a HBO não poderia ficar de fora dessa, e então nasce Euphoria. Com assuntos polêmicos que normalmente não são tratados devidamente por outras produções, a série arrisca muito indo a fundo nesse aspecto, mas acerta?

Criada por Sam Levinson, a série retrata temas delicados, como vícios, depressão, sexualidade, psicopatia e outros assuntos. Para tratar isso tudo, Levinson cria uma atmosfera totalmente contemporânea, e eleva tudo ao máximo, criando uma história sintética, onde consegue retratar tudo em seus personagens, porém não deixa de ser crível.

Os oito episódios são todos narrados por Rue, interpretada por Zendaya. A personagem é o centro da série, e apesar de tudo não girar ao redor dela, ela está sempre nos passando as informações necessárias para compreender os contextos, sem muita exposição desnecessária, já que muito também é mostrado. Além disso, o arco dramático da personagem é interessantíssimo, e a maneira com que o roteiro retrata seu vício é calculista. Tudo é reforçado com a atuação incrível de Zendaya.

Ao início de cada episódio nos é mostrado a infância de um personagem pela visão de Rue, e isso cria peso para a maioria deles. Boa parte desses personagens tem ótimos arcos, como é o caso de Jules, interpretada pela ótima Hunter Schafer, uma garota transsexual que acaba de se mudar para a cidade e tenta se encontrar. Nesse vai-e-vem, os arcos adicionam peso à série, o que cria uma trama consistente e bem executada, apesar de alguns deslizes pontuais, onde a série cai para o clichê e não consegue lidar com ele de forma tão criativa ou subversiva quanto o resto.

O resto do elenco também faz um ótimo trabalho, destaques para Eric Dane interpretando Cal Jacobs, Jacob Elordi na pele de Nate Jacobs e Barbie Ferreira como Kat Hernandez, que estão ótimos. Outros nomes também se entregam bem, Maude Apatow, Nika King, Storm Reid, Alexa Demie, Sydney Sweeney e Algee Smith. A única exceção é Angus Cloud, que só transmite sono.

A direção contém nomes como Pippa Bianco, Augustine Frizzel e Jennifer Morrinson, que fazem bons trabalhos em seus respectivos episódios, mas o destaque vai para o criador Sam Levinson, que dirige cinco partes do show. Levinson cria um traço extremamente marcado e bem feito em sua direção, tanto em cena quanto nas transições. É tudo minimamente pensado, desde as alucinações e momentos intimistas até nas partes de humor e romance, que ajudam a criar afinidade com os personagens e nos aproximam deles.

A fotografia da série é excepcional. Os tons saturados da iluminação, cores em neon fortes, tons frios contrastando com quentes, tudo bem pensado para funcionar dentro de cada plano, desde o mais aberto, até o close nos atores ou planos detalhe. A trilha sonora musical também é ótima em aplicar ritmo e dar ainda mais peso à vibe contemporânea do show, com artistas que vão de Beyoncé e Drake à Jorja Smith e Mac Miller.

Sobre como os temas delicados são tratados, é um assunto que pode gerar grandes discussões. Do meu ponto de vista, a série cria uma dualidade interessante, ao mesmo tempo em que algumas coisas são romantizadas, o lado ruim e destrutivo delas também aparece, a série não os esconde. Esse interesse em mostrar os dois lados da moeda que dão à série o crédito. O auge e o declínio são bem estruturados na primeira temporada, e deve continuar enquanto o show durar.

Euphoria é uma ótima estreia desse ano para a HBO. Sam Levinson cria uma série bem estruturada, escrita, dirigida e atuada, onde trata temas delicados de maneira certeira. Com uma entrega total já no primeiro ano do show, nos resta esperar pelas próximas temporadas e pelo que ainda pode ser dito e tratado, já que a trama ainda pode extrair ótimas discussões do que se propõe.

Euphoria é transmitida pelo canal HBO.

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Sobre o Autor

Carlos Eduardo Rici

Leitor de quadrinhos e apreciador de bom filmes, viso estudar cinema futuramente. Amante de uma boa música e também desenhista.

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