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Crítica | Nas Montanhas da Loucura por H.P Lovecraft

Recentemente me afundei novamente em incontáveis páginas de literatura de terror, desta vez hipnotizado pelo horror americano gótico de Poe e o moderno de Lovecraft. Dispensando muitas apresentações, Nas Montanhas da Loucura por H.P Lovecraft, originalmente publicado em 1936 como uma compilação póstuma, foi como iniciei minha empreitada entre os clássicos do renomado autor através da edição traduzida da L&PM Pocket. Além de uma breve biografia do autor, os seguintes contos nesta mesma ordem: “Nas Montanhas da Loucura” (1931), “A Casa Maldita” (1924), “Os Sonhos na Casa da Bruxa” (1932) e “O Depoimento de Randolph Carter” (1919).

A Casa Maldita foi o conto que escolhi para começar a leitura, por ser um dos poucos contos ‘curtos‘ do livro, mas igualmente intrigante e sutil quanto ao horror cósmico. Nele é narrada a empreitada do protagonista e seu tio, Dr. Elihu Whipple (inspirado em seu avô), na investigação de uma curiosa e nefasta residência abandonada da Benefit Street conhecida por um passado de misteriosas mortes e rumores insanos de sombras que habitam o porão, afim de identificar que fenômeno científico assola esta casa. Eu gostei muito (mais do que achei que gostaria a princípio) deste conto pela forma como os personagens – assim como em outros contos do autor – embarcam nessa investigação, céticos, movidos apenas por uma insaciável curiosidade, encontram catarse em um final agridoce e triunfante que – diferente da concepção geral do que uma obra lovecraftiana deveria representar – põe humanidade acima do horror ancestral que infligiu tanta tragédia.

Apesar das várias páginas cansativas de exposição exagerada de dados genealógicos, documentos e relatos que pouco ajudam a fortalecer a lore da casa – um problema que voltarei a endereçar –, A Casa Maldita é sem dúvida um dos melhores contos do livro, e sem dúvidas um novo favorito pessoal.

Nas Montanhas da Loucura narra os eventos de uma desastrosa expedição ao continente Antártico em setembro de 1930, e o que é encontrado por um grupo de exploradores guiados pelo narrador, Dr William Dyer, um geólogo da Universidade Miskatonic [wikipedia]. Logo nos primeiros versos, Lovecraft explícita os horrores que estão por vir, fermentando no leitor uma inquietude curiosa sobre estas singularidades hediondas e indescritíveis que assolam os personagens. Frequentemente assenta uma extensa e detalhada base científica para apenas sobrepuja-la por horrores inimagináveis e singularidades que orbitam além dos limites da realidade construída no decorrer das histórias. É Nas Montanhas da Loucura que temos um bom vislumbre das Elder Things, criaturas com características gastrópodes e possivelmente os primeiros habitantes da Terra em uma passado longínquo, e os Shoggoths que voltariam a aparecer em A Coisa na Soleira da Porta.

Nas Montanhas da Loucura a princípio, para mim, foi uma leitura penosa, mas que me conquistou assim que o grupo pôs os pés no desolado continente Antártico. A história aos poucos me conquistou, criando uma atmosfera inquieta e perturbadora através da natureza cósmica superior dos seres que habitaram o planeta Terra muito antes de qualquer outro ser que temos conhecimento. Lovecraft continua flertando – e pecando – excessivamente com ângulos impossíveis e estruturas que desafiam os limites da geometria.

Apesar de extensa, a leitura de Nas Montanhas da Loucura se prova fantasticamente imersiva, fazendo o leitor se perder naquele continente gélido esquecido há eons junto com os horrores primordiais que apenas aguardam serem despertados. Não é exatamente algo para o meu gosto mas definitivamente um exemplo da qualidade literária mais tardia de Lovecraft.

‘A casa maldita’ que inspirou o conto de Lovecraft de 1924

Os sonhos na Casa da Bruxa segue o declínio de William Gilman, um estudante de matemática não-euclidiana e física da universidade Miskatonic que em seus estudos se aproxima de uma equação que o aproxima cada vez mais aos limites da existência física com dimensões superiores inimagináveis. A história, razoavelmente mais fraca que as outras, ainda se destaca pelo vislumbre inédito através de outras dimensões e criaturas hediondas, como o rato antropomórfico Brown Jenkins e a velha. Na presença das Elder Things, seus artefatos e mesmo Nyarlathotep, Os sonhos na Casa da Bruxa flerta com o horror cósmico mas não vai muito além disso, acabando por ser mais um típica história de halloween, acima de tudo. Apesar das diversas críticas, acredito que tem desfecho satisfatório e uma atmosfera interessantíssima que permeia aquele quarto de paredes inclinadas para dentro, que por si só faz a leitura valer a pena.

O depoimento de Randolph Carter me lembrou bastante o “Dentro do Bosque” de Akutagawa; ambos se tratam de algum tipo de depoimento e de uma narrativa onde a verdade é borrada pelos exageros e incertezas dos narradores. O conto narra o depoimento de Carter após ser detido pela polícia sob suspeita do desaparecimento de seu amigo, Warren, próximo a um pântano na noite anterior, seguindo o relato de Carter dos acontecimentos vagos e assombrosos em que ele e seu amigo se encontraram.

De longe o mais curto, tendo sido na época, creio eu, uma publicação única, diferente das demais periódicas que expandiram através de várias edições, O depoimento de Randolph Carter é mais um exercício de imaginação e suspense do que terror propriamente dito, entretanto passa longe de ser uma decepção.

Os contos de Lovecraft foram escritos originalmente como periódicos e a sua leitura se dava conforme novas edições das revistas e jornais em que foram publicados eram lançados; logo fica evidente um aspecto que prejudicou a forma como as suas obras eram consumidas, de forma que são muito mais efetivas neste formato compilação que lhe trouxe tanto sucesso.

A profundeza e minúcia com que as cenas são narradas, afim de imergir o leitor no tempo e no espaço, acaba por vezes prejudicando a fluidez com que absorvem-se os fatos – muitas vezes desviando da história e, mais frequentemente que o aceitável, cansando o leitor em uma maratona de extensas páginas importantes para a ambientação, porém tediosas até que de fato a história comece e volte a fazer referência a esse ‘glossário’. Isso vale para diversas outras obras do autor, sendo parte do seu estilo de escrita e acredito que um dos seus pontos fracos quando em uma leitura mais extensa.

Da mesma forma, é através deste estilo que o leitor mergulha nos fatos incrivelmente detalhados e sai com a sensação vívida de que os eventos descritos de fato ocorreram; e um terror onipresente permeia a sua mente a ideia do desconhecido que está além da janela, ou que espreita na sombra dos ângulos obscuros do seu quarto.

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Sobre o Autor

Luiz Alex Butkeivicz

Estudante de publicidade, entusiasta de letras e literatura e escritor.

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