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Bacurau não esconde o teor crítico sobre o futuro do Brasil

O cinema brasileiro é capaz de nos entregar grandes obras e a maior prova é o indicado à quatro categorias no Oscar e reconhecido internacionalmente, Cidade de Deus. Na luta para manter a possibilidade de produções desse nível serem realizadas, os cineastas Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles lançam seu filme sobre um futuro distópico no interior nordestino, Bacurau.

O longa conta a história de um povoado na cidade de Bacurau, no município de Serra Verde. Em um dia, os moradores da cidade começam a ser atacados e mortos por algo desconhecido, essa talvez seja a melhor sinopse sem spoiler que eu possa fazer. O filme conta com grandes reviravoltas, que ajudam na narrativa da história, logo, quanto menos souber sobre a trama, melhor será a experiência.

A direção aqui tem um papel fundamental na qualidade narrativa. O longa não conta a história de somente um personagem, logo, é importante dar ao ambiente da cidade uma realidade que injete credibilidade e faça o público se importar com o que ocorre à todos que lá habitam.

Alguns traços da direção são reconhecíveis de outros trabalhos de Kleber, que realizou outros dois incríveis filmes, O Som ao Redor (2012) e Aquarius (2016). A utilização de zoom para focar em reações específicas, os grandes planos para dar contexto geral à cena e até mesmo a maneira que o filme cria tensão, são traços marcados em outras produções do diretor.

O filme não se enquadra em um gênero cinematográfico específico, já que transita entre as mais diversas maneiras de se contar uma história. Há terror, suspense, comédia, drama e outros elementos concentrados aqui que ajudam a narrativa a andar e a construção de cada cena é feita de maneira detalhada e bem calculada. Isso tudo ajuda o filme a não ficar tão cansativo, já que existe uma certa lentidão na construção de sua história, que não tem uma estrutura tão firme para se sustentar por si na ligação de todas as tramas.

O filme é bem explícito quanto as críticas que quer fazer. Logo no início da obra, nos é dito que o filme se passa em “não tanto tempo no futuro”, o que é mostrado, é uma demonização orquestrada da sociedade armamentista e da cultura de xenofobia no mundo, que pode ser vista até do ponto de vista de brasileiros no filme. Qualquer erro nesses assuntos poderia resultar em um filme fútil, mas a produção consegue inserir isso nos detalhes, ao mesmo tempo em que mostra a mensagem aos olhos do público.

Todo o sangue jorrado durante a produção tem sentido e faz você pensar sobre o quão longe isso está da realidade. O peso que o filme carrega não está diretamente só nele, e sim no retrato que ele faz do que nós vivemos diariamente. Tudo é ressaltado pelo design de som, que durante a distribuição, foi feito um pedido dos próprios envolvidos no longa para que ele fosse exibido em seu volume máximo. Esse pedido faz total sentido ao assistir o filme, o som é um personagem aqui e ele preenche lacunas visuais, cria tensão e momentos de clímax durante a obra.

A fotografia de Pedro Sotero aproveita os grandes cenários naturais para realizar lindas composições em planos gerais, mas também consegue ser detalhista na hora de compor o visual em espaços pequenos. A utilização da luz aqui é muito bem realizada e dá peso aos momentos.  Neste ponto, a direção de arte ajuda muito, já que cria cenários e figurinos que dão realidade ao ambiente e com traços bem brasileiros e culturais reconhecíveis. O filme a todo momento exalta como esses traços mostrados são próprios de nossa cultura, o que reforça a mensagem final que ele quer passar.

O elenco é excelente. Composto por Bárbara Colen (Teresa), Udo Kier (Michael), Karine Teles(Forasteira), Thomás Aquino (Pacote), Silvero Pereira (Lunga), Thardelly Lima (Tony Jr.), a excelente Sônia Braga (Domingas) e outros ótimos nomes, é difícil encontrar uma atuação fraca aqui. Esse ótimo elenco é um grande apoio para a construção do filme e também é responsável em parte por acertos no resultado final.

O filme sofre alguns problemas no roteiro, há uma certa redundância em alguns diálogos ou frases de efeito, o que pode afetar no ritmo de algumas poucas cenas, mas isso é contornado com a ótima direção. Outro ponto alto para destacar aqui é a utilização do gore, que apesar de ser explícito e caminhando até para o terror trash, consegue causar um desconforto necessário, além da utilização de planos subjetivos em alguns momentos de “sangue voando para todo lado”.

Por fim, Bacurau é uma grande obra. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles criam um ambiente real e cheio de elementos culturais brasileiros, o que ajuda o filme em sua clara crítica. Com ótimas interpretações e detalhista em sua construção, Bacurau é aquele diamante lapidado do cinema nacional e que deve ser visto e apreciado nos cinemas.

Bacurau já está em cartaz.

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Sobre o Autor

Carlos Eduardo Rici

Leitor de quadrinhos e apreciador de bom filmes, viso estudar cinema futuramente. Amante de uma boa música e também desenhista.

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