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Adoráveis Mulheres tropeça, mas não perde a delicadeza e força

Aposta da Sony para a temporada de premiações, Adoráveis Mulheres se saiu muito bem ao conseguir 6 nomeações ao Oscar 2020, incluindo a indicação à Melhor Filme. Dirigido por Greta Gerwig (Lady Bird), o longa é uma nova adaptação do aclamado livro de 1868, Mulherzinhas, escrito por Louisa May Alcott.

Na história de Adoráveis Mulheres, acompanhamos Jo March (Saiorse Ronan) e suas outras três irmãs, passando por dificuldades durante a Guerra de Secessão, intercalando momentos de um passado com alegria e esperança, com um presente onde Beth, uma das irmãs, adoece e corre risco de vida.

É notável o esforço do roteiro e da direção de Gerwig de tornar a história mais atual. Aqui, em diversos momentos há diálogos que conversam diretamente com um público mais contemporâneo, mesmo agindo sobre o período de 1861 à 1865. Esse direcionamento é uma das maiores qualidades do filme, que permite que haja uma identificação maior da história com o público que vai ao cinema em 2020.  Uma escolha inteligente da diretora para justificar mais uma adaptação do livro.

Outro recurso muito bem colocado na direção é a delicadeza. A movimentação da câmera se torna quase imperceptível enquanto acompanhamos a vida dessas mulheres, onde até quando é notável, se torna um recurso narrativo que busca focar nos sentimentos e força das diversas personagens em tela, expondo mais as atuações. Junto à um roteiro tão bem escrito, Greta consegue unir dois elementos para gerar aproximação, e faz isso bem.

Mesmo conseguindo cativar, o filme demora para realizar o feito de gerar laços. Essa demora acontece em sua meia hora inicial, onde, mesmo com qualidades, a montagem ainda não nos direciona para um foco narrativo sólido o bastante. Esse vai-e-vem entre os mais diversos núcleos e linhas de tempo acaba tornando difícil que haja uma real aproximação com aqueles personagens e serve mais para apresentá-los superficialmente, já que a história já é extensa e se desenvolve desde seus minutos inicias.

Esse tropeço passa longe de destruir o filme, que se perde novamente em certas sequências desinteressantes, mas constrói em volta uma história linda, graças a força de diversos momentos isolados e um fio condutor poderoso: a protagonista. Depois de deixar seu maior problema, se torna divertido acompanhar como Greta lida com personagens tão poderosas e com uma voz tão forte dentro de seu roteiro, do arco mais simples ao mais ousado.

A fotografia auxilia bem a montagem, utilizando bem as cores frias e quentes para diferenciar a linha temporal que permeia pelas 2 horas e 20 minutos do filme. A direção de arte é rica e preenche bem as cenas, tornando tudo muito vivido e com peso. Figurino, cabelo e maquiagem são grandes reforços para os atores, que mesmo entregando performances que soam tão atuais e reais, tem seu ar de existência verídica naquela época. Tudo isso é completado pela fortíssima trilha sonora de Alexandre Desplat, que agrega muito valor à praticamente todas as cenas em que marca presença.

Saiorse Ronan protagoniza o filme com uma força gigantesca, seu desenvolvimento para Jo March se dá por pequenos olhares e reações, e apesar de eu considerar uma atuação próxima de seu trabalho em LadyBird (2017), ainda assim é uma atuação fortíssima e espirituosa. Florence Pugh rouba a cena como Amy, desenvolvendo trejeitos para sua personagem de acordo com a linha temporal do filme. Timothée Chalamet, Laura Dern e Eliza Scanlen estão bem, mas são apagados diversas vezes por atuações maiores. Emma Watson é artificial em certas ocasiões, mas é operante para o filme, assim como o resto do elenco.

Adoráveis Mulheres demora um pouco para realmente funcionar em seu potencial total, porém conta com uma direção e roteiro inteligentes de Greta Gerwig, que desenvolve o filme direcionando-o para um público contemporâneo, sem perder a delicadeza que compõe a história. Cheio de momentos gloriosos orquestrados por atuações e uma parte técnica incrível, o filme se consagra lindamente com sua força e delicadeza.

Adoráveis Mulheres já está nos cinemas.

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Sobre o Autor

Carlos Eduardo Rici

Leitor de quadrinhos e apreciador de bom filmes, viso estudar cinema futuramente. Amante de uma boa música e também desenhista.