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A necessidade de falar sobre racismo em Infiltrado na Klan

Na era digital, é normal que as pessoas usem a internet para proferir discursos extremistas, afinal, não é mais tão chocante se deparar com um texto racista no Facebook, ou uma piada de mau gosto preconceituosa escondida sob um discurso político, feito para disfarçar uma falsa superioridade. É nessa linha de pensamento que o diretor Spike Lee traz uma obra que fala, não sobre racistas, mas sim, sobre discursos racistas, você vê diferença? Bem…

Infiltrado na Klan abre logo de cara com um chute no estômago, o personagem de Alec Baldwin faz um rápido discurso sobre superioridade racial, que é em resumo, a principal base do longa, é ali que acontece o surgimento da Ku Klux Klan em teoria, e o filme usa uma cena do clássico “…E o Vento Levou” de Victor Fleming, para mostrar como o racismo está enraizado na sociedade americana. Logo em seguida, Lee nos entrega um plano aberto da cidade do Colorado nos anos 70, onde a história irá se passar.

John David Washington e Laura Harrier na pele de seus personagens.

O visual que compõe o filme é ótimo, o design de produção, figurinos, cabelo e maquiagem nos leva a década de 70 de maneira genuína. A primeira visão que temos do nosso protagonista é muito bem capturada pelas lentes do diretor de fotografia Chayse Irvin, a cena em questão coloca John David Washington na pele de Ron Stallworth, parado em frente de uma delegacia policial, onde tenta conseguir um emprego.

Após Ron adentrar a polícia é que nossa história começa a andar, novos personagens são agregados à trama e os objetivos que movem a história são postos na mesa. Um destaque para Adam Driver que está ótimo no papel de Flip Zimmerman, um policial judeu que aceita se passar por Ron durante a infiltração na KKK. Junto com John, Driver é um dos poucos que ganha mais substância durante o filme, os dois personagens são muito bem trabalhados, principalmente em conjunto, somos apresentados à medos, inseguranças, memórias e segredos que dão valor e crescem o filme.

Adam Driver como Flip Zimmerman

Outra trama que agrega muito ao filme é a do interesse amoroso de Ron, Patrice, interpretada por Laura Harrier.  Personagem essa que sai do estereótipo de mocinha indefesa, quando a conhecemos, Patrice está organizando um evento de empoderamento negro, onde ocorre um discurso de um dos líderes do movimento dos Pantera Negra – um dos maiores momentos do filme está nesse monólogo e o que acontece após ele – que é onde Ron tem sua primeira missão. Conforme o relacionamento dos personagens cresce, o filme cresce junto, são pequenos e sutis diálogos que vão dando poder ao filme e o tirando de uma possível monotonia e repetitividade, quando, por exemplo, os personagens estão caminhando e somente comparando seus filmes favoritos de Blaxploitation.

Conforme o filme explora o racismo, ele ganha estrutura. As tramas vão se interligando de maneira orgânica, Spike Lee não apressa nada, mas também não deixa a peteca cair em momento algum. O filme te prende nos detalhes daquilo, o roteiro explora o discurso do racismo de maneira firme. Os personagens da Klan são panos de fundo para mostrar como o discurso racista funciona, e essa exploração vai te dando informações que seguram seus olhos vidrados e seus ouvidos atentos.

Membros do grupo supremacista racista “Ku Klux Klan” representados no filme.

Então, do lado dos vilões, Spike Lee não tem medo algum de criar personagens caricatos. Todos os membros da KKK são ruins somente por serem, e racistas porque são idiotas. Mas toda essa caricatura não deixa de ter peso e ser real a partir do momento em que os atores entregam atuações realistas, com destaque para Jasper Pääkkönen, que te faz ter vontade de socar a cara do personagem Felix, interpretado por ele. Talvez um exagero falho do diretor esteja na tentativa de criar momentos cômicos com o personagem do Paul Water Hauser, que é estúpido, porém sem credibilidade o bastante para não te tirar da trama em um ou dois momentos. Uma grata surpresa deste lado para mim foi ver Topher Grace em um papel que pela primeira vez, não é mais do mesmo, apesar do ator manter alguns trejeitos dele, eu consegui ver um personagem novo, e não o mesmo Eric Forman de sempre, que o ator interpretou na série That 70’s Show.

Quando o filme se encaminha para o final, o longa não cresce tanto em si, pois o final que realmente choca está nas cenas de ataques reais que Spike Lee insere após o fim do filme. Nelas há cenas como as de protestos racistas que ocorreram nos Estados Unidos nos últimos anos, chega a ser triste ver cenas tão reais sendo mostradas após o filme, que cria uma carga para aquilo muito poderosa.

Laura Harrier e John David Washington como Patrice e Ron.

Infiltrado na Klan tem uma narrativa sem muitos deslizes. Muito bem dirigido e roteirizado, o filme de Spike Lee molda bem as tramas com ótimas atuações, personagens bem construídos, uma produção atenta aos detalhes e um texto bem escrito. Acima de tudo, um final inteligente para um filme necessário, que deveria ser apreciado por todos.

Infiltrado na Klan estreia dia 22 de Novembro nos cinemas do Brasil.

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Sobre o Autor

Carlos Eduardo Rici

Leitor de quadrinhos e apreciador de bom filmes, viso estudar cinema futuramente. Amante de uma boa música e também desenhista.