Tela Quente

A Favorita usa humor sádico para mostrar dramas humanos

“Eu caí da carruagem. Na verdade, fui empurrada.”

A Favorita, novo longa-metragem do excêntrico diretor grego, Yorgos Lanthimos, é humanamente sádico. O filme do ano passado é um dos principais candidatos ao Oscar deste ano em diversas categorias e arrisco dizer que irá levar pelo menos duas cabecinhas douradas pra casa.

Nicholas Holt e Emma Stone no jogo de luz e sombra da cinematografia

Conhecido por ‘O Lagosta’ de 2015 e ‘O Sacrífico do Cervo Sagrado‘ de 2017, Lanthimos traz em sua nova história um ar mais acessível. Dessa vez a história se passa no século 18, na Inglaterra, e conta história de uma rainha e sua criada, esta segunda, que um dia recebe sua prima no palácio e decide dar um emprego a ela. A partir deste momento é ladeira abaixo.

Mesmo parecendo simples, o que de fato é, A Favorita carrega em seu conjunto grandes traços que marcaram a filmografia de Lanthimos em seus últimos trabalhos, dessa vez de uma maneira mais controlada. Aqui, Lanthimos utiliza técnicas visuais para criar desconforto aos olhos, como por exemplo, a insistência proposital em uma distorção na fotografia do cinematógrafo Robbie Ryan.

Emma Stone ao lado do diretor Yorgos Lanthimos

Fotografia esta que capta bem a belíssima direção de arte do longa, exaltando os cenários do palácio com contrastes de luz e sombra perfeitos para criar a ambientação do local. A disposição dos objetos, e o preenchimento dos personagens com espetaculares figurinos em tela nunca deixam o filme visualmente vazio.

Mas se pensa que o filme só tem um visual belo a oferecer, você se engana redondamente. O roteiro de Tony McNamara e Deborah Davis é ágil e instigante. Os diálogos criam sensação de como se estivéssemos vendo um jogo de tênis, mas no inferno. Há um fervor, que é perfeitamente interpretado pelo elenco e que ganha peso com o instrumental clássico da trilha sonora, verbalmente carregado em alguns momentos e leve em outros, mas cheio de sadismo nas piadas, deixando claro o lado “paródia” do filme.

Emma Stone está no melhor papel de sua carreira aqui, a sua personagem, Abigail Masham, tem a maior transição do filme e a atriz consegue captar perfeitamente tudo que o script pede, desde emoções até entonação vocal. A queridinha de LanthimosRachel Weisz, também não perde a oportunidade de se provar, a atriz faz uma atuação mais reclusa, moldando seu modo de falar e seu olhar com exatidão na pele de Sarah Churchill. Personagens secundários também tem grandes momentos e ajudam o filme a andar de maneira não mecanizada, destaque para Nicholas Holt como Robert Harley.

Rachel Wiesz e Olivia Colman em seus papéis

Mas o verdadeiro destaque aqui está em Olivia Colman como a Rainha Anne, a personagem durante o tempo todo é um fantoche nas mãos das outras duas, mas ao mesmo tempo, Colman não perde a oportunidade de se mostrar a maior personagem do filme, seja pelo olhar calmo, angustiante ou doloroso, ou pelas reações exageradas em algumas cenas e infantis em outras. A presença dela ressoa durante toda a duração do filme e quando ela está em cena há um peso grandioso.

Circulando entre estas três personagens principais, o filme consegue criar atmosfera e a trabalhar bem. Os movimentos de câmera ágeis do diretor acompanham as personagens e suas ações, conjunto aos precisos closes nos rostos das atrizes, como se as ostentasse. Mesmo com um ritmo lento, o filme nunca para, trazendo o pior do ser-humano em tela e mostrando a paixão de forma sagaz.

A Favorita é com absoluta certeza o filme mais forte do ano, seja pela direção excelente de Yorgos Lanthimos, ou pela grandiosidade das atuações de seu elenco, o longa sabe impulsionar o roteiro e usar toda sua carga para criar um espetáculo, que conta com um dos encerramentos mais sensacionais da temporada de premiações.

A Favorita chega aos cinemas brasileiros dia 24 de Janeiro.

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Sobre o Autor

Carlos Eduardo Rici

Leitor de quadrinhos e apreciador de bom filmes, viso estudar cinema futuramente. Amante de uma boa música e também desenhista.

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